DEPUTADO NEIDER MOREIRA (PPS)
Discurso
Comenta o financiamento da saúde pública no Brasil e a defasagem da
tabela de remuneração do Sistema Único de Saúde - SUS. Comenta as
propostas do Governo do Estado, intituladas "choque de gestão", que
tratam do "enxugamento" da máquina administrativa.
Reunião
37ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 28/05/2003
Página 21, Coluna 3
Assunto SAÚDE PÚBLICA. ADMINISTRAÇÃO ESTADUAL. REFORMA ADMINISTRATIVA.
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 28/05/2003
Página 21, Coluna 3
Assunto SAÚDE PÚBLICA. ADMINISTRAÇÃO ESTADUAL. REFORMA ADMINISTRATIVA.
37ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 21/5/2003
Palavras do Deputado Neider Moreira
O Deputado Neider Moreira - Sr. Presidente, Srs. e Sras.
Deputadas, público, telespectadores da TV Assembléia, o assunto
que me conduz à tribuna traz preocupações a todos os brasileiros,
e, se não procurarmos novo caminho para a saúde no nosso País, ela
poderá piorar, porque vivemos situação de calamidade na saúde
pública. Faremos pequena resenha para compreenderem como isso se
desenrola. Naturalmente, não se trata de acontecimento recente,
mas que vem se desenrolando há muitos anos: o problema de
financiamento da saúde pública neste País é crônico.
Grandes problemas apareceram, acumulando-se com a criação da
Unidade Real de Valor - URV -, depois convertida na nova moeda, o
real. Toda a economia do dia 1º de junho de 1994 foi convertida
por um fator de 2.750. Naquele momento, foi criada uma das maiores
aberrações do País: a URV Saúde. Houve um fator diferenciado para
a área da saúde, correspondendo a 3.572. As tabelas do SUS foram
convertidas pelo novo valor concebido, e, de imediato, todos os
prestadores de serviços médicos tiveram uma defasagem próxima a
30%. De lá para cá, outros absurdos vêm sendo cometidos à revelia
de questionamentos feitos, inclusive na Justiça. O valor
convertido da URV por 3.572 foi motivo de ação ganha pela
Federação Brasileira dos Hospitais, em última instância, e, até
hoje, não houve negociação junto ao Ministério da Saúde para o
pagamento da diferença criada na conversão, o que trouxe terrível
transtorno aos prestadores de serviços da saúde. Essa questão não
é partidária; está muito além disso. Trata diretamente da
cidadania, do direito à saúde pública.
Em 1999, a Câmara dos Deputados lançou o “Manifesto pela Saúde”.
Naquele momento, levantou-se a defasagem dos custos hospitalares
de 109%, acumulados entre 1994, época do Real, até 1999. Nesse
período, o SUS teve reajuste de apenas 25%. Pior do que isso: de
1999 para cá, tivemos desvalorização acentuada do Real em relação
ao dólar, motivada, primeiramente, pelo início do câmbio flutuante
e, posteriormente, pela pressão das exportações, já que a cotação
do dólar deveria subir.
Quase todos os insumos utilizados pelos hospitais e serviços
médicos em geral são importados, e seu preço varia conforme a
variação do dólar. De 1999 para cá, essa situação piorou e,
atualmente, é insustentável. Literalmente, estamos no fundo do
poço em relação à saúde pública. De 1995 até hoje, há uma
defasagem de 150% nas tabelas do SUS.
Semana passada, entramos em contato com o Presidente da Federação
dos Hospitais e obtivemos mais informações sobre as greves em
hospitais importantes para o atendimento, que começam a pipocar
não só em Minas, mas em todo o País. Em Belo Horizonte, sabe-se
das greves que atingem o Hospital Felício Rocho e a Santa Casa de
Misericórdia. A situação desses hospitais de referência, de porte,
amedronta a população. A comunidade carente, que depende
diretamente do serviço do SUS, está em situação aviltante. A nossa
esperança, fundada principalmente nas propostas de campanha do
Ministro Humberto Costa, pouco a pouco se dissipa.
Esta semana, recebemos o novo informativo da Federação dos
Hospitais. Lerei trecho de texto do editorial, na 2ª página, para
que compreendam a situação. (- Lê:) “Hoje temos a convicção de que
as orientações do Ministério da Saúde são de fortalecimento do SUS
e de que não se está preocupando com a rede privada de hospitais.
Apesar de esse segmento realizar 70% do atendimento às
internações, o Governo o está tratando com completa indiferença.
Não estamos sentindo nenhuma disposição do Governo em nos conceder
reajuste na tabela de procedimentos, linhas de créditos, etc.”
Isso é extremamente preocupante.
Há alguns dias, vimos reportagens na mídia tratando da falta de
leitos. Isso foi motivo de amplas reportagens no horário nobre da
TV. Houve uma tentativa de intervenção do Ministro da Saúde, para
que se cumpram as internações sem a existência de leitos.
Sabemos que o problema da saúde não se resolverá dessa forma. Não
é criando intervenções desse tipo, ou seja, pontuais, que
resolveremos esse problema. É preciso que haja vontade política,
ou melhor, ponha-se em discussão uma política de saúde.
Fiquei muito feliz ao saber que o Deputado Federal Rafael Guerra,
ex-Secretário de Estado do Governo, há duas semanas foi eleito
Presidente da Frente Parlamentar de Saúde, que congrega mais de
200 Deputados Federais.
O Deputado Fahim Sawan apresentou um requerimento na Comissão de
Saúde, da qual faço parte, que deve ser votado amanhã, pedindo a
presença do Deputado Federal Rafael Guerra, para discutirmos essas
questões. Acho extremamente importante que nossa Comissão esteja
em sintonia com essa Frente, para podermos servir de apoio para
atuação em Minas Gerais e para trazermos esses problemas para
nossa Comissão.
Peço ao Líder do Bloco PT - PC do B, Deputado Rogério Correia,
que leve essa preocupação à Bancada Federal do PT, que manifeste
isso ao Ministro da Saúde. Sabemos que os problemas não são
atuais, que passam por muitos Governos. Se o Governo do PT quer
administrar o social, que olhe com sinceridade, vontade e
preocupação a situação da saúde pública no País. É inconcebível
que hospitais fechem por absoluta falta de sintonia do poder
público com as questões sociais. Estou indignado com a falta de
propostas para a saúde pública, com a falta de vontade política de
criar uma linha de trabalho, uma pauta de discussões que resolva,
de uma vez por todas, essa situação que perdura há décadas.
Gostaria também de me manifestar a respeito da reforma
administrativa enviada pelo Governador Aécio Neves a esta Casa, a
qual será objeto de discussões muito interessantes nesta Casa.
Muito foi dito na tribuna ontem e hoje, mas um ponto importante
foi esquecido, que é a criação do Afastamento Voluntário
Incentivado - AVI. Esse afastamento cria a possibilidade de o
servidor ficar afastado do serviço público de seis meses a dois
anos recebendo 20% do seu salário ao mês. Muitas vezes o servidor
insatisfeito vislumbra uma oportunidade de criar seu próprio
negócio ou de partir para a iniciativa privada, o que é
extremamente importante, porque se tira do serviço público quem
está desmotivado para trabalhar, dando-se oportunidade de
crescimento a outra pessoa. Resguardando-se os direitos
trabalhistas e dando-se incentivo ao servidor para se afastar,
possibilita-se melhoria de atendimento no serviço público. Muito
obrigado.