Pronunciamentos

DEPUTADO MARCO RÉGIS (PL)

Discurso

Comenta o incêndio na casa de show Canecão Mineiro, no Município de Belo Horizonte. Comenta a atuação parlamentar do ex-Deputado José Laviola. Comenta o atentado terrorista no Word Irade Center - Torres Gêmeas, no dia 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, Estados Unidos, - EUA. Comenta a Guerra no Afeganistão.
Reunião 310ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 14ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 01/12/2001
Página 37, Coluna 2
Assunto HOMENAGEM. DEPUTADO ESTADUAL. (ALMG). ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. SEGURANÇA PÚBLICA.

310ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª LEGISLATURA, EM 27/11/2001

Palavras do Deputado Marco Régis


O Deputado Marco Régis - Sr. Presidente, Srs. Deputados, imprensa, visitantes que nos dão o prazer de estar aqui conosco. Antes de iniciar minhas palavras, Sr. Presidente e membros da Mesa, à semelhança do que o Deputado Eduardo Hermeto pediu, queremos também pedir 1 minuto de silêncio, em consonância com a opinião da Deputada Maria Olívia, que nos pediu que não deixássemos passar este momento, não só pelas vítimas do Canecão, como também pelo Deputado José Laviola. Ao fazermos 1 minuto de silêncio, lembramos a memória das pessoas que morreram tristemente na tragédia do Canecão em Belo Horizonte e a memória do saudoso Deputado José Laviola de Matos, que foi um dos baluartes desta Casa, campeão de votos em Minas Gerais, um parlamentar puro, humilde, sincero, comprometido com o ser humano, que fazia do chamado assistencialismo um compromisso com o ser humano, compromisso de suprir a omissão do Estado com os cidadãos.

Exerço a palavra na tribuna, nesta tarde, com muita honra, o que não fazia desde 23 de março. Não o fizemos porque, na verdade estávamos em fase de mudança partidária, em fase de mudança de plumagem, em fase de amadurecimento político. Precisávamos de momentos de reflexão, de usar mais o aparelho auditivo que a natureza nos deu do que a boca.

Hoje, volto à tribuna desta Casa para fazer uma reflexão sobre os acontecimentos do dia 11 de setembro, quando os Estados Unidos da América foram duramente golpeados, tendo sido atingida a suposta invulnerabilidade da maior potência do planeta, por gestos que não reputaria como ataques terroristas, como quer a mídia internacional, que faz a cabeça dos povos do mundo. Diria que os Estados Unidos foram duramente atingidos por um gesto guerrilheiro, de ação política. Ontem, tive a satisfação de ouvir, pela Rede Minas - Rede Cultura de Televisão, as palavras do tão decantado cientista político Octávio Ianni, que já tive a oportunidade de aqui citar, na minha primeira legislatura, quando combatia as privatizações. Gostaria de ler um artigo, publicado ontem no jornal “O Tempo”, que também quero saudar pelo quinto aniversário. É um jornal que tem dado grande contribuição à vida mineira, à política, à economia e à cultura. Receba, jornal “O Tempo”, seus Diretores e o Deputado Vittório Mediolli, um de seus proprietários, os nossos parabéns por sua presença de cinco anos na imprensa mineira.

Gostaria de ler artigo publicado na página 6 do jornal “O Tempo”, escrito pelo advogado, historiador, militante político e ex-Deputado Federal Dimas Perrin. Como o tempo é curto, deixaremos os comentários para outro momento. O artigo, em 80%, tem o meu sentimento, desde a minha manifestação feita no momento em que os Estados Unidos eram golpeados, por ato político, em Nova Iorque e no Pentágono. (- Lê:)

“A guerra dos Estados Unidos contra o Afeganistão é uma guerra injusta, baseada apenas em suposições. O pretexto é a caça a Osama Bin Laden. O Governo Norte-Americano acusa-o de ser o mentor dos atos ocorridos, dia 11 de setembro, em Nova Iorque e Washington. Por isso, quer prendê-lo ou matá-lo. Mas não apresenta nenhuma prova concreta da culpabilidade dele. Por que? Só pode ser porque não tem.

Muitos pensam, inclusive nos EUA, que George W. Bush e os políticos, empresários e militares que o assessoram estão aproveitando para fazer o que desejam: nova guerra mundial, a fim de que possam ganhar dinheiro com a venda de aviões, tanques, veículos e armas, o que já está acontecendo.

A guerra dos EUA contra o Afeganistão é um crime hediondo, desumano e cruel. Não se trata de campanha contra o terrorismo. É guerra de conquista, praticada pelos países mais ricos do Primeiro Mundo contra um dos mais pobres do Terceiro Mundo. Essa guerra covarde, que está fazendo sofrer ainda mais o valente povo afegão, é um incontestável ato terrorista, como constará da história.

O Brasil está correndo o risco de ser envolvido nessa guerra amaldiçoada. Diante da gravidade e iminência desse perigo, também por opção de justiça e pelo fato de sermos igualmente vítimas dos EUA, se temos de ficar solidários com alguém só pode ser com o povo afegão.

A vida é o bem mais precioso que possuímos. Mas só reconhecemos essa verdade quando estamos em idade avançada ou quando precisamos praticar o auto-extermínio para salvaguardar uma causa ou defender a vida de uma ou mais pessoas queridas. Sou um sobrevivente das câmaras de tortura. Sei, portanto, que só um ideal muito elevado ou um amor muito grande pode nos conduzir a essa triste e dolorosa decisão suprema. Esse é o motivo pelo qual, desde que a tragédia aconteceu, solidarizei-me com as famílias dos que perderam a vida, mas também compreendi o sofrimento, a revolta e o desespero dos que se imolaram, jogando-se contra aqueles símbolos da prepotência, da ganância, do poderio e do orgulho dos EUA. (Por exemplo, Mohamed Atha.) Os que me torturaram foram treinados por torturadores Norte-Americanos. Também diziam que estavam combatendo o terrorismo. Mas pensava e continuo pensando que quem sacrifica a própria vida pela sua pátria é patriota de verdade, e não terrorista. Os EUA estão colhendo o que plantaram. Lamento que o povo Norte-Americano não tenha ainda percebido que pode mudar a orientação de seus governantes e viver em paz, sem medo de terroristas e sem praticar terrorismo.

Lendo, em “O Tempo”, o pronunciamento de Osama Bin Laden, senti firmeza e sinceridade em suas palavras. Disse que a nação islâmica, há mais de 80 anos, tem sofrido humilhação e desgraça, vendo o derramamento de sangue de seus filhos e a dessacralização de suas santidades. Lendo isso, pensei em minha pátria e em meu povo. Também já não agüento mais ver o Brasil ser tratado como possessão dos EUA. Mas o meu caminho para a conquista da soberania nacional depende da vontade e da disposição do povo brasileiro, que precisa ser esclarecido, mobilizado e incentivado a defender mais e melhor o Brasil.

Somos um país católico. Mas os nossos concidadãos de origem árabe possuem sentimentos e costumes peculiares, que deveríamos conhecer para melhor conviver com eles. Os árabes consideram a liberdade como um dom de Deus e a defesa da religião, da justiça, da hospedagem e da honra do lar e do nome como deveres sagrados. Para garantir ou vingar a morte de quem está sob seus cuidados, não vacilam em arriscar a própria vida. É possível que os muçulmanos identifiquem os EUA como a cidadela do diabo, porque o Alcorão defende os pobres e humildes contra a ganância e a maldade dos ricos.

É sabido que o terrorismo e a violência não se extinguirão com a prisão ou a morte daqueles que os praticam. As causas principais do terrorismo internacional e da violência local são a ausência de soberania nacional para os países e de justiça social para as pessoas. Enquanto os países ricos não respeitarem o direito à autodeterminação dos povos, o terrorismo não se extinguirá, assim como enquanto não existir, em nosso País, justiça social não teremos paz para viver.

Os EUA têm ofendido, humilhado, oprimido e explorado muitos povos. É natural que sejam um país odiado por milhões de pessoas e que muitos queiram vê-lo destruído, como aconteceu com o Império Romano, que, pelo menos, respeitava as religiões, as leis e as tradições dos povos que dominava. Há muito tempo os EUA não são mais vistos como exemplo de país libertário e democrático.

Os EUA não apoiaram nossas lutas pela independência. Hoje, o que eles e seus aliados querem é apoderar-se dos recursos naturais dos demais países e transformar o mundo em um imenso e lucrativo mercado para seus produtos.

Alguns indivíduos mal informados dizem que o ataque ao World Trade Center e ao Pentágono foi o maior ato terrorista do mundo. Isso é mentira, porque essa primazia, indiscutivelmente, pertence aos EUA, que, no final da Segunda Guerra Mundial com a guerra já decidida, jogaram, por ordem do Presidente Harry Trumann, duas bombas atômicas no Japão, arrasando as cidades de Hiroxima e Nagasaki e matando 135 mil pessoas. Se esse crime monstruoso não bastasse para qualificar os EUA como o país mais terrorista do mundo - terrorismo de Estado -, poderíamos acrescentar a mortandade praticada, todo dia, pelas falanges israelenses, financiadas pelos EUA, contra os árabes, na Cisjordânia e na faixa de Gaza. Ou será que os palestinos não podem morar na Palestina?

Em 1969, eu vi muitos jovens vietnamitas com o corpo coberto de feridas provocadas pela explosão de bombas de Napalm jogadas sobre eles por oficiais e soldados dos EUA. E vi, também, horrorizado, várias moças vietnamitas cujos seios haviam sido decepados pelos torturadores Norte-Americanos. Como cidadão brasileiro e sobrevivente das câmaras de tortura, não posso apoiar os EUA nessa empreitada injusta e suja. Minha mente e meu coração estão com os afegãos, que são mais fracos, mas estão lutando por uma causa justa e em seu próprio território e, por isso, vão vencer moralmente, mesmo que tenham de entregar suas próprias vidas”.

Essas são palavras do lutador Dimas Perrin, militante político, advogado e ex-Deputado Federal, e tenho a honra de lê-las desta tribuna, para que fiquem gravadas eternamente nos anais da Assembléia Legislativa. Muito obrigado.