DEPUTADO MARCO RÉGIS (PPS)
Discurso
Presta esclarecimentos sobre os motivos de a Comissão Parlamentar de
Comissão Parlamentar de Inquérito - CPI - do Narcotráfico solicitar ao
Governador Itamar Franco o afastamento do Secretário de Estado de
Segurança Pública, Mauro Lopes, por seu suposto envolvimento com o
empresário que possui antecedentes criminais, Aquiles Caetano, do
Município de Muzambinho.
Reunião
199ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/12/2000
Página 32, Coluna 2
Assunto SECRETARIA DE ESTADO.
Aparteante Sargento Rodrigues.
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/12/2000
Página 32, Coluna 2
Assunto SECRETARIA DE ESTADO.
Aparteante Sargento Rodrigues.
199ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 29/11/2000
Palavras do Deputado Marco Régis
O Deputado Marco Régis - Sr. Presidente, Srs. Deputados, fico até
emocionado por ter o privilégio de deter um mandato parlamentar
outorgado pelo povo de Minas Gerais na construção da minha própria
vida. Se cheguei a esta Casa Legislativa, não foi por intermédio
de bênção política nem por financiamento de quem quer que seja.
Tenho a ventura, a alegria e a honra de dizer que aqui cheguei
pelo que produzi em minha vida. Recebi este mandato como
recompensa.
Por isso, no ofício que fiz a S. Exa., o Governador Itamar
Franco, disse que as denúncias que fazia contra o Secretário da
Segurança Pública, Mauro Ribeiro Lopes, eram por dever de
consciência e de ofício. Não sou advogado, gostaria de ter o
brilhantismo do Deputado Chico Rafael, o brilhantismo do professor
de Direito, Dalmo Ribeiro Silva, mas o faço na humildade de quem
passou a vida propugnando na área da saúde, lutando contra a
miséria e a doença de um país injustiçado por esse capitalismo
maldito, que traz, no seu bojo, tudo de ruim que vem junto, como a
degradação da moral e dos valores, que hoje nos traz a situação de
violência em que vive o País. E, ao fazer a denúncia, não o fiz
por ingenuidade, meu caro e brilhante Deputado Dinis Pinheiro, que
sempre admirei como o Deputado mais jovem desta Casa. Diria,
Deputado Dinis Pinheiro, que algumas pessoas que defendem o
Secretário, devem estar fazendo isso por ingenuidade. E não diria
diretamente à V. Exa., porque, talvez, se apresentasse a V. Exa. a
fita contida neste gravador e os demais documentos que passei à
CPI, que os encaminhou ao Governador Itamar Franco, tenho certeza
de que nenhum Deputado desta Casa se prestaria a defender o Dr.
Mauro Ribeiro Lopes. Tenho certeza de que um cidadão de bem desta
Casa, um Deputado que disser que está nesta Casa para defender o
bem, a sociedade, a coisa pública, um cidadão que está nesta Casa
com esse objetivo não teria coragem de defender S. Exa., o
Secretário. Até porque não jogo lama no Secretário, como disse o
Deputado Dalmo, que o estamos pichando e maculando, até porque o
Secretário já tem um passado manchado e maculado, desde que era
policial rodoviário federal. Não sou eu que digo isso, mas os
inúmeros recortes da imprensa que tenho aqui: “Jornal do Brasil”,
“Correio Brasiliense”, “Estado de Minas”. Não fui eu que maculei o
passado do Secretário, foi a imprensa. Mas tenho, também, o
depoimento de um companheiro do meu partido, no Congresso
Nacional, especificamente na Câmara dos Deputados, em março de
1994, Deputado Federal Augusto de Carvalho, que fez severas
denúncias contra o então Chefe da Polícia Rodoviária Federal,
Deputado Mauro Lopes. Minhas denúncias não são ingênuas nem
levianas, mas fruto do amadurecimento de muito tempo, e não das
respostas deslavadas, escrachadas e esfarrapadas do Secretário
Mauro Lopes, que diz que foi fotografado fortuita e
inadvertidamente ao lado do Sr. Aquiles Caetano, sobejamente
conhecido estelionatário, que é denunciado em nossa CPI, Deputado
Sargento Rodrigues, Deputado Marcelo Gonçalves, como
narcotraficante. Não fui eu quem fez a denúncia, mas está na CPI.
Tenho o dever de ofício, como Deputado e membro da CPI, de
investigar o cidadão, até porque era tido e havido na região como
sujeito envolvido com o crime organizado. Não posso provar que
alguém seja traficante, e essa CPI tem todas as suas limitações,
assim como a CPI federal, para provar que alguém é
narcotraficante, porque quem é apanhado são as pequenas “mulas”,
que transportam drogas. Os grandes traficantes estão incrustados
no poder público, no Judiciário, na fachada de grandes e
benevolentes empresários que doam verbas polpudas para fazer ação
social, enquanto nós, que temos o dever de investigar e defender a
sociedade, somos até processados por eles. O Sr. Aquiles noticiou,
na cidade de Muzambinho, que contratou o célebre jurista Miguel
Reale Júnior, para processar-me civil e criminalmente.
Sabemos que aqui, nesta Casa há denúncias contra os irmãos
Santiago, que têm, como advogado, o Sr. Nabor Bulhões, célebre
autoridade do direito, para defendê-los. Sabemos que o Deputado
Sargento Rodrigues veio de uma família humilde. Muitas vezes,
viajando com ele, de avião, emocionei-me com a história de sua
vida. Ele saiu de uma infância pobre, ganhou uma profissão honrada
de policial militar e chegou ao topo da política, como Deputado
bem-sucedido. Temos também o Deputado Marcelo Gonçalves, que me
disse que fui seu professor no hospital de Pedro Leopoldo. Na
verdade, eu era apenas um médico plantonista de fim de semana.
Dei, durante cinco anos de minha vida, plantões na Maternidade
Eugênia de Carvalho de Pedro Leopoldo, para ganhar o pão, para
cuidar dos meus filhos. Fiquei cinco anos preso dentro de um
hospital, 24 horas, todos os domingos. Muita gente não sabe o que
é a vida de um médico. A nossa vida de médico, Deputado Marcelo
Gonçalves, está intimamente ligada aos policiais. Cruzamo-nos com
os policiais a toda a hora, quando nos trazem as vítimas da
violência e os próprios praticantes dessa violência. Vemos a luta
desses policiais, na calada da noite, como a nossa, de médicos,
enfiados em hospitais. Não estamos aqui para fazer média com
ninguém. Não vim para a Assembléia Legislativa para fazer média
com quer que seja. Fui desaconselhado por muitos Deputados a não
fazer essas denúncias. Fui até indagado se, se o Secretário
retirasse o Delegado de Muzambinho, João de Almeida Simões Júnior,
que também é comprometido com o estelionatário Aquiles Caetano -
seu nome também está nessa placa -, eu me daria por satisfeito.
Disse não, porque a figura pior nessa história é a do Secretário,
uma vez que ele é amigo de muitos anos do Sr. Aquiles Caetano. As
fitas que trouxe provam isso. Nas fitas, o Sr. Aquiles diz que é
amigo do Secretário desde o tempo de policial rodoviário federal.
Coincidentemente, há um outro cidadão nessa história, um
empresário de São Paulo que, certamente, anda fornecendo
equipamentos para a Secretaria da Segurança. Vou fazer um
requerimento para ver se ele tem antecedentes criminais. E V.
Exa., Deputado Sargento Rodrigues, no seu aparte, colocou bem: o
art. 149 do Estatuto da Polícia Civil proíbe, veda, no capítulo
das transgressões disciplinares, que o policial tenha amizade,
tenha ligações com alguém com antecedentes notoriamente
criminosos. E o Sr. Secretário tem ligações íntimas com uma pessoa
que tem notórias atividades criminosas.
Há ainda os antecedentes criminais no Estado de São Paulo. A
carteira de identidade do Sr. Aquiles, hoje, tem os antecedentes
limpos, por um artifício do Delegado de Muzambinho, que lhe deu
uma nova carteira. Legal ou ilegal? Disseram-me que é legal ter
duas carteiras de identidade. É claro que, quando ele mostra a
carteira de identidade do Estado de Minas Gerais, seus
antecedentes de 25 inquéritos e 18 processos no Estado de São
Paulo não aparecem. A carteira que tem essa mancha é paulista. Com
essa carteira nova, ele havia limpado seu nome. Mas sou um homem
abençoado e iluminado. Num debate na Rádio de Muzambinho, caí numa
cilada, quando dava uma entrevista de Uberaba por telefone
celular. O Sr. Aquiles Caetano foi colocado no ar, e, a pretexto
de me fazer uma pergunta, deram-lhe o microfone durante mais de
meia hora. Tive de enfrentar, por um celular, uma pessoa na frente
de um microfone, no estúdio de uma rádio. Ele disse que já havia
pago por seus crimes, que estava quite com a sociedade. Fiquei até
encolhido, porque sou uma pessoa humana e meu mister não é execrar
as pessoas. Disse-lhe, então: “Se você se regenerou, muito bem. É
o que desejamos. A cadeia não foi feita para matar ninguém. A
cadeia foi feita para ressocialização”. Mas eis que sou uma pessoa
abençoada e iluminada, porque, na verdade, ele tinha outras
atividades criminosas. O Promotor de Justiça de Muzambinho passou-
me, através de ofício, no dia 29/8/2000, uma confirmação de
indiciamento, por ele chefiar uma quadrilha de estelionatários,
dando prejuízo a inúmeras empresas de Caxias do Sul, de Getúlio
Vargas, de Erechim, de Ipiranga, de Estação, cinco cidades
gaúchas. São 119 indiciamentos. Ele fugiu, durante mais de um mês,
da justiça de Muzambinho, para não assinar a citação para
comparecer, no dia 7/11/2000, à Comarca de Getúlio Vargas. Agora,
volta, depois que a citação não foi assinada. Depois que a citação
voltou em branco ao Rio Grande do Sul, ele volta à cidade e posa
até de poderoso, passando o dedo em riste em um meu assessor, lá
em Muzambinho, dizendo o seguinte: “Com você é assim, mas com seu
Deputado vai ser diferente”. Mas não pense ele, e não pensem
outros bandidos que estão envolvidos com a CPI do Narcotráfico que
me intimidarei. Para eu calar a minha voz, terão de dar um tiro
dentro da minha boca, terão que me matar, porque serei uma voz
agressiva e gritante neste parlamento.
O Deputado Sargento Rodrigues (em aparte) - Nobre Deputado Marco
Régis, gostaria de parabenizar por seu pronunciamento V. Exa. e
dizer que estou estarrecido com alguns pronunciamentos que foram
feitos, defendendo a pessoa do Deputado Federal Mauro Lopes frente
à Pasta da Segurança Pública. Não há uma onda de denuncismo, temos
provas concretas. Se fosse um Detetive que estivesse fazendo tudo
isso, não permaneceria na Polícia Civil, seria banido. Em nome
dessa Polícia Civil honrada é que estamos aqui como parlamentar.
Mas, muito mais, estamos aqui em nome da sociedade, porque não
podemos nos calar. Será que podemos receber todas as denúncias e
falar para a sociedade que está tudo direitinho, que ninguém está
envolvido? Queria ver como a sociedade iria encarar a CPI se fosse
assim.
Quero dizer que a CPI de Minas Gerais foi divulgada pelo jornal
“Estado de Minas” como a primeira CPI do Estado que, através de
suas investigações, teve conseqüências e condenação na justiça. Em
especial, gostaria de declinar o caso de Governador Valadares, do
qual tive oportunidade de ser sub-relator, em que uma Delegada e
um Carcereiro foram investigados, levados à justiça e condenados a
12 anos de cadeia, com perda da função pública.
Então, a CPI de Minas Gerais, desde a sua criação, não está
devendo. Ela é a primeira CPI na história do Brasil a investigar e
resultar em condenação na justiça. Não devemos nada à sociedade,
pelo contrário, a sociedade pode ter certeza de que estamos
fazendo nosso trabalho à altura e com respeito aos votos que nos
foram conferidos.
E, nobre Deputado Marco Régis, estava presente quando o Deputado
Dalmo Ribeiro Silva fazia o seu pronunciamento. Fiquei
impressionado, porque o Deputado Dalmo poderia conversar com
membros da CPI e perguntar o que está acontecendo. Da mesma forma
que estão falando que não podemos sair atirando pedras no telhado
dos outros, o Deputado desta Casa que for fazer um pronunciamento
nesse sentido precisa conhecer os autos da investigação da CPI,
precisa conhecer o que está se passando lá dentro, para não dizer
uma inverdade.
Então, volto a dizer que essa questão levantada por V. Exa. não é
uma questão pessoal, porque, caso contrário, no primeiro episódio,
em Valadares, o Secretário não teria ligado para o Deputado
Marcelo Gonçalves, Presidente da CPI, pedindo que amenizasse o
interrogatório da Delegada Maria Aparecida, que foi condenada a 12
anos de cadeia. Eu disse ao Presidente que somente esse ato já
seria motivo suficiente para se dirigir ao Governador do Estado e
pedir a saída do Secretário. Não podemos ter um Secretário de
Estado que procura interferir no trabalho da CPI. Fomos fundo,
procedemos ao interrogatório e, ao final, apresentamos o resultado
à sociedade. Não estamos aqui fazendo nenhum julgamento prévio,
porque não falamos que o Secretário está envolvido com o
narcotráfico, não falamos que ele está envolvido com o crime
organizado, falamos que, durante os trabalhos da CPI, encontramos
fatos concretos que, do ponto de vista da improbidade
administrativa, estão mais do que provados. Tenho uma profunda
admiração pelo Governador Itamar Franco e já tive oportunidade de
dizer ao Governador por duas vezes o seguinte:
Governador, se V. Exa. for candidato a Presidente da República,
aonde eu for defenderei seu nome em Minas Gerais.
Mas, Governador, fico sentido com essa posição, porque o trabalho
que realizamos foi sério. Fico mais estarrecido ainda porque em
outras denúncias levadas ao Governo V. Exa. afastou imediatamente
as pessoas, até mesmo para proceder à apuração. No caso do
Secretário Mauro Lopes, isso não ocorreu. Esses fatos apresentados
pela CPI do Narcotráfico não são suficientes? A base da Polícia
Civil, que está pegando o touro com a unha e prendendo bandido dia
e noite, passando aperto com delegacias superlotadas e morrendo,
sente-se à vontade para dar apoio ao Secretário da Segurança
Pública? Tive oportunidade de visitar um Detetive que recebeu
coronhadas na cabeça, de presos, no Distrito de Ibirité. Visitei-
o, num domingo, às 18 horas, no HPS. Esse Detetive, que estava
cuidando de preso, pode dizer que o Secretário da Segurança
Pública é um chefe ilibado, digno e honrado, que merece estar à
frente da Pasta da Segurança Pública? Tenho certeza de que não,
porque conheço a base das duas polícias. O exemplo se arrasta. Não
será mantendo Mauro Lopes como Secretário da Segurança Pública que
o Governador estará dando um bom exemplo para a Polícia Civil.
Deputado Marco Régis, volto a repetir que a Polícia Civil é cheia
de pessoas honradas e honestas. Apresentaram um documento assinado
por vários Delegados prestando apoio ao Secretário. No entanto,
também recebi informação contrária, da parte de um Delegado que
ligou para o meu gabinete dizendo que está sendo pressionado a
assinar o documento. Os Delegados dizem que, se o Secretário for
mantido no cargo, provavelmente os que assinaram o documento serão
promovidos, transferidos para onde querem ou terão ascensão na
carreira. Então, será que o Secretário teve mesmo apoio? Tenho
certeza de que não teve, porque conheço como funcionam as
polícias. Essa pressão de transferência e de perseguição sempre
acontece nesses casos.
Deputado Marco Régis, gostaria de lhe hipotecar todo o apoio e de
dizer aos membros da Casa que o trabalho que já foi feito, que
está sendo feito e que será realizado e concretizado no relatório
final é sério, árduo e difícil. Temos recebido várias ameaças, mas
parece que não gostam de me ameaçar. Não sei por que motivo. Mas
podem me ameaçar, porque já estamos acostumados. Quem já foi para
a linha de frente, combateu o crime e trocou tiros com bandidos
não se preocupa com ameaça. Isso para nós não faz diferença.
Sabemos que V. Exas. têm sentido muito e inclusive estão tentando
armar alguma para os membros da CPI. Não vamos permitir, porque a
sociedade está do nosso lado. Obrigado, Sr. Presidente.
O Deputado Marco Régis - Agradeço o aparte do Deputado Sargento
Rodrigues. Gostaria de dizer que tenho profundo respeito pela
instituição Polícia Civil. Faço minhas as palavras do Deputado
Sargento Rodrigues, dizendo que nós, ao fazermos tais denúncias,
envolvendo o Secretário com pessoas de antecedentes criminais
notórios e sobejamente conhecidos, o fazemos pela própria honra da
Polícia Civil, que não merece ter à sua frente uma pessoa que
infringe o art. 149 do Estatuto da Polícia Civil.
Concluo dizendo que não tenho divergências pessoais ou políticas
com o Secretário, até porque defendo o Governo Itamar Franco na
sua briga com o Presidente Fernando Henrique e também a sua briga
a respeito de Furnas e outras. Estou atento aos movimentos do
Governador na sua caminhada para a Presidência da República. Não
tenho lutas pessoais com o Secretário Mauro Lopes e não disputei
com S. Exa. eleição em nenhuma cidade de Minas Gerais. Portanto,
não tenho motivos pessoais nem políticos para enfrentá-lo.
Devo ainda dizer que fui apresentado ao Secretário, no dia
24/8/97, na cidade de Perdões, quando da inauguração de uma APAE.
Na ocasião, perguntou-me de onde era. Quando disse que era de
Muzambinho, disse-me que tinha um grande amigo na cidade.
Perguntei-lhe quem. Disse-me que era o Dr. Aquiles Caetano. Disse
para ter cuidado, porque era tido e havido como narcotraficante.
Muito obrigado.