DEPUTADO MÁRCIO CUNHA (PMDB)
Discurso
Comenta as refiliações partidárias.
Reunião
291ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 14ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/10/2001
Página 42, Coluna 2
Assunto REPRESENTAÇÃO POPULAR.
Aparteante Alberto Bejani.
Legislatura 14ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/10/2001
Página 42, Coluna 2
Assunto REPRESENTAÇÃO POPULAR.
Aparteante Alberto Bejani.
291ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 9/10/2001
Palavras do Deputado Márcio Cunha
O Deputado Márcio Cunha* - Sr. Presidente, Srs. Deputados, Sras.
Deputadas, senhores que nos visitam e imprensa, um assunto esteve
em pauta nestes dias, não só nesta Casa, mas também no Estado e no
País, diante do disposto na legislação político-partidária
brasileira sobre o prazo para novas filiações.
Trago esse assunto à consideração desta Casa justamente por ter,
em minha trajetória política, o traço de nunca ter mudado de
partido. No ano que vem, completo 20 anos como parlamentar: fui
Vereador por 16 anos e estarei no quarto ano do meu primeiro
mandato como Deputado Estadual. Fui um dos fundadores do PMDB de
Belo Horizonte, junto com Tancredo Neves e Itamar Franco, no
início da década de 80, quando fizemos a fusão do PP com o MDB.
Nos últimos dias, a imprensa noticiou, às vezes de forma
especulativa e às vezes com afirmações efetivas, a troca de
partido dos parlamentares - Deputados e Senadores. Na
oportunidade, inclusive, a nossa Bancada do PMDB, em reuniões
internas, discutiu o desejo de alguns Deputados de deixarem seus
partidos e filiarem-se ao nosso.
Antes de mais nada, gostaria que esta posição fosse registrada em
ata, porque, infelizmente, muitas vezes nossos posicionamentos são
mal interpretados por outras pessoas. Na verdade, nunca
obstaculizei a vinda de quem quer que fosse para o PMDB. Sou um
homem de princípios e extremamente partidário, sempre assumindo as
posições do meu partido. Em determinado momento, estipulamos que a
vinda de um filiado, com mandato ou não, deveria passar pelo crivo
de nossa bancada.
Portanto, se um parlamentar obstaculizasse a vinda de qualquer
pessoa que desejasse ingressar no PMDB, nós, da bancada, por
unanimidade, seríamos solidários com essa interpretação. As minhas
posições sempre foram partidárias. Particularmente, não tenho a
menor restrição com relação à vinda de nenhum Deputado. Insisto
que seja transcrito nos anais desta Casa o seguinte: Falam em
prováveis coligações de outros partidos com o PMDB. Em nível
proporcional, deixo claro que, da minha parte, não haverá nenhum
obstáculo. Haverá defesa intransigente com relação ao que
considero como sendo a minha casa, que é o meu partido, o PMDB.
Esse partido, sem dúvida alguma, nas últimas décadas, tem uma
bonita história a ser relatada. Nós, do PMDB, fomos os grandes
estuários e depositários das esperanças do povo brasileiro. Em um
determinado momento, abrigamos em nossa legenda inúmeros
companheiros que, infelizmente, por estarem filiados a partidos
clandestinos, não podiam ter trincheira própria para a sua luta.
Coube a nós, do PMDB, abrigá-los.
Sr. Presidente, a imagem e a história desse partido têm de ser
cultuadas e respeitadas. Como um dos peemedebistas históricos,
estou atento às novas filiações. Esperamos desses novos
companheiros o respeito à nossa legenda, às nossas bases
partidárias e aos diretórios municipais. Muitos deles têm poucos
votos, mas são diretórios sempre fiéis ao nosso PMDB.
Nos últimos dias, a vida política em Minas e no Brasil foi
pautada pela migração partidária, tendo centenas de Deputados
trocado de legenda. Isso até que poderia parecer uma ação normal,
se não estivéssemos a menos de um ano das eleições gerais. Afinal,
qualquer pessoa tem o direito de mudar de lado, de gravata, de
parceiro, de time ou de partido quando bem lhe aprouver. O
problema é o tempo exíguo para eveitar que o eleitor se sinta
confuso diante de um quadro partidário fragmentado e difuso.
Dentro de pouco tempo, o eleitor terá de escolher um Deputado ou
um governante que, na última eleição, ajudou a eleger por outro
partido.
Isso acontece porque as nossas instituições partidárias ainda são
frágeis. Além disso, a legislação eleitoral tem vigência
periódica. Um ano antes das eleições, alteram-se totalmente os
perfis das bancadas eleitas no pleito anterior, o que contribui
para o enfraquecimento dos partidos políticos. Nesta Casa, a
situação partidária era completamente diferente nas eleições de
1998, em que o maior partido, o PSDB, crescia verticalmente à
sombra dos Governos Estadual e Federal; e hoje, ele amarga a perda
de seis Deputados. O PL, que tinha pequena bancada, de apenas três
parlamentares, hoje é a segunda maior representação, com 11
Deputados, perdendo apenas para o meu partido, o PMDB, que elegeu
9, passou para 15 e hoje estabilizou-se em 13 Deputados.
Nunca mudei de partido – sou um dos fundadores do PMDB de Belo
Horizonte -, desde quando entrei para a vida pública, em 1982,
sendo eleito por quatro mandatos consecutivos para a Câmara
Municipal de Belo Horizonte e, em 1998, para a Assembléia
Legislativa. Acredito que se faz necessária a volta da fidelidade
partidária ou, no mínimo - esta é a minha proposta -, uma
quarentena partidária. Para a valorização do voto e da vontade do
eleitor, seria preciso ampliar o tempo para filiação. Na minha
opinião, ele teria de ser de, no mínimo, 24 meses, que seria o
tempo suficiente para que o eleitor entendesse que o que motivou a
troca de partido foram os critérios ideológicos, programáticos e
éticos.
Pelo contrário, o eleitor vê nessas mudanças a busca desenfreada
de poder, representada por partidos que estão mais bem
posicionados nas pesquisas, por meras intrigas políticas e
pessoais e, até mesmo, por pirraças.
O que vemos com essa legislação eleitoral capenga são adversários
de ontem se transformarem em correligionários de hoje. É claro que
essa situação causa certo desconforto entre os membros das
bancadas. Talvez seja essa uma das razões pelas quais o eleitorado
coloque justos e injustos no mesmo saco. Não podemos permitir que
essa situação perdure indefinidamente. Precisamos urgentemente
fortalecer os partidos, para que deles surjam propostas mais
concretas em prol da democracia e da sociedade. A reforma
política, ora em gestação no Congresso Nacional, tem de ser mais
discutida, envolvendo toda a sociedade brasileira; não deve servir
apenas para atender os detentores do poder, mas, sim, para fazer o
País avançar, sem que conveniências particulares sejam mais
relevantes que o coletivo da população.
Antes de dar aparte ao ilustre Deputado Alberto Bejani, quero
dizer-lhes o que aprendi com Tancredo, com quem tive oportunidade
de conviver durante algum tempo, quando me elegi Vereador por Belo
Horizonte. Naquela ocasião, eu lecionava em diversas escolas; por
isso, o Dr. Tancredo chamava-me pelo codinome de “Professor”.
Certa vez, disse-me: “Na política, não podemos ser tão adversários
a ponto de um dia não podermos ser companheiros, e não podemos ser
tão companheiros a ponto de um dia não podermos ser adversários”.
Isso aprendi com Dr. Tancredo, e tenho pautado a minha vida nesse
sentido. Independentemente de ser um intransigente defensor do meu
partido, tenho procurado conviver com todos os companheiros, mesmo
com os daqueles partidos de que somos adversários, sempre
imaginando que um dia ou outro poderemos estar do mesmo lado.
Entretanto, precisamos de critérios mais claros, mais bem
definidos, para esse troca-troca de partidos.
O Deputado Alberto Bejani (em aparte) - Muito obrigado, Deputado
Márcio Cunha. Parabenizo V. Exa. por continuar até hoje no partido
em que entrou em 1980. Lamento que não haja neste País, ainda, uma
lei para se ter respeito ao partido que elege o cidadão. Desculpe-
me a afirmação, tão popular, mas é ela que ouvimos nas ruas: “É
muita cara-de-pau”. Quando se aproximam as eleições, o cidadão
procura um partido em que possa se eleger com um número mínimo de
votos. Assim que ganha, vai para o partido do Governador. Isso
acontece em todos os Estados do Brasil. O cidadão vai para o
partido do Governador para ficar próximo ao poder, para ali buscar
vantagens. Não tem personalidade, ou melhor, tem dupla
personalidade. Além disso, há aqueles que, em alguns momentos,
aparecem fazendo um carinho todo especial ao comando geral do
Estado, que no nosso caso é o Sr. Governador Itamar Franco, e hoje
já se declaram de oposição. São homens que não têm personalidade,
não têm respeito pelo partido que os elegeu. Lamento profundamente
que isso esteja acontecendo não só em Minas, mas em todo o Brasil.
Estou no PFL e fui eleito pelo PFL. Tenho consciência do meu
trabalho, não tenho nenhuma preocupação quanto a se vou precisar
de 40, 50 ou 70 mil votos para ser reeleito. A minha preocupação é
continuar trabalhando. Se der, muito bem; se não der, continuo no
PFL - o Partido da Frente Liberal -, assim como V. Exa. continua
no PMDB. Lamento que esta Casa esteja vazia, mas tenho certeza de
que várias pessoas o estão vendo, escutaram o seu discurso e estão
comentando: “O Márcio Cunha, Deputado, tem razão”.
Estamos aqui para presenciar esse pronunciamento nota 10 e
lamentar - quem está falando isto é o Deputado Alberto Bejani,
trago para mim essa responsabilidade - aqueles que são medrosos,
que não trabalham, que procuram siglas partidárias para se
elegerem com um número pequeno de votos. Isso não é democracia. A
lei tinha de ser igual para todos, como está escrito na
Constituição Federal. Se você teve 35 mil votos, e o outro, 34
mil, está eleito o que teve 35 mil. Não é o que estamos vendo.
Deputados que tiveram 37 mil votos não entraram. Outros tiveram 19
mil e estão aqui. Que democracia é essa?! Tem de ser mudado esse
regime, a lei eleitoral deste País, para termos mais
responsabilidade.
Parabéns, Deputado Márcio Cunha.
O Deputado Márcio Cunha - Agradeço as palavras do Deputado
Alberto Bejani.
Terminando, Sr. Presidente, gostaria de resumir o assunto que me
trouxe aqui, hoje. Em primeiro lugar, em momento algum vetei quem
quer que fosse que quisesse se filiar ao meu partido, o PMDB, mas
assumi, como sempre assumi, as posições da minha bancada e da
Executiva do meu partido. Portanto, agi em defesa das propostas
que a própria bancada fez. É preciso ficar claro, porque muita
gente está achando que o Deputado Márcio Cunha não teria
facilitado o ingresso de alguns companheiros. Isso precisa ficar
claro. Infelizmente, não precisaria estar dizendo isso aqui.
Minhas posições são absolutamente transparentes. Não veto quem
quer que seja. À semelhança do que disse o Deputado Alberto
Bejani, nunca me preocupei com isso, aliás, fui daqueles que
enfrentou o PMDB de Belo Horizonte nos momentos mais difíceis.
Havia 23 Vereadores do PMDB candidatos à reeleição, mas apenas 4
foram reeleitos. Eu era um deles, estava lá segurando a bandeira
do meu partido. Nunca vetei quem quer que seja, mas sempre assumi
as posições da bancada. Se a bancada dizia: “Olhe, fulano de tal
sente-se desconfortável com a vinda de tal companheiro”, estava eu
ao lado da bancada.
Quero dizer, em segundo lugar, que todos são bem-vindos, mas peço
que tenham respeito por esse partido que ajudamos a fundar e cuja
imagem criamos ao longo de tantos anos. Muito obrigado.
* - Sem revisão do orador.