DEPUTADO HELY TARQÜÍNIO (PV)
Discurso
Transcurso do Dia Mundial da Saúde. Comenta o tema: "Salvar vidas -
Hospitais seguros em situação de emergência". Comenta a situação da saúde
no Mundo e as injustiças sociais. Solicita a regulamentação da Emenda
Constitucional Federal nº 29, de 2000, que trata da aplicação de recursos
na área de saúde.
Reunião
24ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 16ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 16/04/2009
Página 104, Coluna 2
Assunto CALENDÁRIO. SAÚDE PÚBLICA.
Legislatura 16ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 16/04/2009
Página 104, Coluna 2
Assunto CALENDÁRIO. SAÚDE PÚBLICA.
24ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª
LEGISLATURA, EM 7/4/2009
Palavras do Deputado Hely Tarqüínio
O Deputado Hely Tarqüínio - Sr. Presidente, Srs. Deputados, volto
a esta tribuna para fazer uma reflexão sobre um dia muito
importante: o Dia Mundial da Saúde, celebrado neste 7 de abril. É
importante fazer uma reflexão sobre o diagnóstico da saúde no
mundo.
Certamente nós, no Parlamento, os poderes constituídos, além de
refletirmos, devemos buscar materializar ações para melhorar a
saúde do ser humano em todo o mundo. Este dia tem um lema
escolhido a cada ano, e o deste ano é “Salvar vidas, hospitais
seguros em situações de emergência”. Esse é o lema sobre o qual
devemos refletir. Trata-se de um tópico muito importante
exatamente, porque vai permitir um amplo debate.
Quero aqui discutir saúde baseado primeiramente no conceito de
que saúde é um estado de bem-estar sob o aspecto e sob as
dimensões biopsicossociais: “bio” por estar ligado à parte
orgânica, do organismo; “psico”, referência à nossa mente;
“social”, o cenário da nossa existência com dignidade, além do
cultural, talvez até mais: do transcendental. Então, abordar saúde
é abordar a existência humana em todas as suas dimensões.
Seremos um pouco pessimistas, ao fazermos o diagnóstico da
situação atual da saúde no mundo. Vejamos alguns dados: 2 bilhões
de pessoas do globo terrestre, cuja população já ultrapassa 6
bilhões, não têm acesso a medicamentos e a assistência médica
digna; 0,3% estão em países ricos, que têm acesso a medicamentos e
assistência à saúde, enquanto 80% estão na África e não têm
assistência. Vemos, por exemplo, que no Japão a expectativa de
vida é de 85 anos; na África, em tese, essa expectativa cai para
50 anos; em Zâmbia, na África, é de 40 anos; uma criança nascida
em Lisoto, outro país da África, tem expectativa de 42 anos de
vida. Como se vê, realmente há disparidade entre as condições de
países ricos e pobres.
Temos aqui outros dados. Na Suécia, 1 em cada 17.400 mulheres tem
chance de morrer durante a gravidez ou no parto; no Afeganistão, 1
em cada 8; na Europa, 1 em cada 700; na África, 1 em cada 6. Ou
seja, no tocante à mortalidade de mulheres grávidas ou durante o
parto também há disparidade. A Organização Mundial de Saúde - OMS
- explica essas injustiças sociais que acontecem no mundo por meio
da chamada desproporção 10 por 90. Isso significa dizer que 90%
dos recursos mundiais da saúde são consumidos ou gastos com os 10%
mais ricos e que 10% dos recursos mundiais são gastos com os 90%
mais pobres.
O conceito de saúde está, sobretudo, ligado à economia, à
dignidade humana, àquilo que a Revolução Francesa pregou, como
liberdade, direito à vida, fraternidade e igualdade de
oportunidades. Portanto, do ponto de vista da eqüidade, há grande
injustiça social em relação à saúde dos seres humanos nos diversos
territórios do mundo.
Vejamos algumas estatísticas do IBGE: 40% da população sofre
injustiça social, em razão das condições socioeconômicas, da
pobreza. Isso está diretamente ligado aos fatores que determinam a
saúde do povo, aos indicadores sociais, como educação, moradia,
condições de trabalho, emprego e renda, além de aspectos
ambientais, como o cuidado com a natureza, que é propriamente a
ecologia, o cuidado e a distribuição das pessoas demograficamente
em condições dignas, que seria a ecologia social, o equilíbrio
social baseado na economia de cada país. O fator é, portanto,
socioeconômico, porque não há como bancar a saúde, se não houver
uma distribuição de renda mais igualitária.
O Brasil, como um país em desenvolvimento, apesar dos múltiplos
esforços do Presidente Lula e dos políticos bem-intencionados,
ainda convive com muitas dificuldades, com problemas de educação,
com esses fatores, indicadores sociais, que precisam ser mais bem
observados.
Está provado, segundo as estatísticas, que, no caso de uma mulher
com até o terceiro ano de educação, há três vezes mais chance de
perder a vida, ou de o seu filho perder a vida, em relação àquela
classe que é mais aquinhoada. O problema não é apenas o fator de
renda “per capita”, mas a distribuição de “renda per capita”, que
pesa nessa circunstância.
No Dia Mundial da Saúde, temos de refletir sobre isso - o próprio
IBGE. E também sobre o orçamento da saúde, que tanto discutimos
aqui, Deputado Adelmo Carneiro Leão, grande batalhador e defensor
da justiça social, assim como eu. Ficamos entristecidos, quando
percebemos tudo que já percorremos, desde 1500, do descobrimento,
até hoje, mas o Brasil ainda vive e convive com tantas injustiças
sociais. Então é hora de falar sobre isso, no Dia Mundial da
Saúde.
Em 2007, tivemos um orçamento de R$43.000.000.000,00 para a área
de saúde - não temos ainda os números de 2008, porque ele fecha em
abril. Aqueles recursos foram em época em que havia a CPMF, mas
que eram desviados da área da saúde. Então, não temos uma taxa
específica para fazer frente à saúde dos brasileiros. Essa
situação é muito triste. Aí compete ao Congresso Nacional refletir
e fiscalizar; enfim, a todos nós, a todas as mãos, a todos os
parlamentos, a união em torno da saúde, da dignidade do ser
humano. Já fizemos muitas incursões para arranjar um imposto,
definir um percentual para a saúde, como acontece com a área da
educação; porém isso não aconteceu porque o Congresso Nacional
ainda está bastante indiferente a essa situação. No País, a saúde
não é prioridade.
Em 2007, o Brasil pagou, de juros da sua dívida externa,
R$120.000.000.000,00, enquanto o orçamento da saúde foi de
R$43.000.000.000,00. Vejam que disparidade. E houve também o
pagamento do tal “spread”, que diagnosticaram agora, que foi um
mundo de dinheiro. Isso foi pago aos bancos, o que fortaleceu não
só os bancos internacionais, mas também os nacionais. O Congresso
Nacional tem de fiscalizar isso tudo.
Há necessidade de infra-estrutura no País, mas ela precisa de
ações do governo. Essa infra-estrutura está, principalmente,
ligada ao esgoto, uma vez que apenas 30% dos brasileiros têm
esgoto - relativamente ao esgoto tratado, nem sei qual é o
percentual. Vejam bem, pois isso é sério. Trata-se da principal
fonte de doenças, contaminação, e da causa de mortalidade
infantil. Conforme as estatísticas, onde há pouco esgoto, morre
mais criança no primeiro ano de vida.
Estamos sempre falando do tratamento de água. O nosso colega e
companheiro Deputado Adelmo Carneiro Leão esteve na Funasa,
conhece bem a matéria e sabe da indiferença dos governos. Parece
que a questão não desperta a atenção dos governantes, talvez por
se tratar de obras que, muitas vezes, estão debaixo do chão. Mas
tudo isso é importante para a nossa ecologia; temos muitos
problemas com o lixo.
Há ainda os fatores de segurança, com a violência que está
grassando por aí; e o uso das drogas, para o qual não há controle.
Tudo isso contribui para a nossa insegurança, fora as situações em
que as injustiças sociais geram a predominância de agressões e
dificuldades, quando o ser humano reage de outra forma, muitas
vezes praticando homicídios. Portanto é a hora de fazer o
diagnóstico de tudo isso. No Brasil, melhoramos, sim, em relação
aos dois últimos governos, do Fernando Henrique e do Lula. Nossa
mortalidade infantil hoje está na casa de 20 para cada 1000
nascidos até o primeiro ano de vida.
A mortalidade infantil da Argentina é de 14 para cada mil
nascidos até o primeiro ano de vida, e a da Costa Rica é de 11
para cada mil. Então, por que o Brasil não pode melhorar nesse
aspecto? Estamos perdendo para quase todos países da América do
Sul. Isso é responsabilidade que tem de ser compartilhada com o
povo.
O Parlamento, que são os olhos e os ouvidos do povo, que convive
com essa situação, tem de tomar uma atitude. Não podemos, como
sempre disse aqui, ou melhor, o Parlamento já não pode verificar
verdades e necessidades e ficar inerte diante das leis que são
elaboradas. Ele tem de fazer valer, partir para as ações.
Neste Dia Mundial da Saúde, precisamos refletir, fazer uma
verdadeira comunhão em torno da melhora de vida do nosso povo e da
saúde do ser humano. É aí que passamos a analisar o SUS, isto é,
esse projeto ambicioso do SUS, que tem de ser regulado cada vez
mais, exatamente quando pensamos que isso está na Constituição e
que é direito do cidadão e dever do Estado. O mundo está
precisando de regulação, não só na saúde, ainda mais agora, depois
que capotou o sistema do jogo, essa espiral de cassino que virou a
economia mundial, comandada pelo neoliberalismo. Aliás, aqui no
Brasil e no mundo inteiro convivemos com esse predomínio.
Quando falo de partido político, penso que todos eles são
neoliberais na prática, porque vestimos a camisa-de-força do
sistema. Mas, agora, vamos frear e, quem sabe?, teremos regulação.
Tenho mais 1 minuto para terminar e dizer que o nosso PSF foi um
grande avanço. Temos a certeza de que, com a formação do médico,
inspirada no sistema inglês, no sistema bolchevique e no sistema
de Cuba, teremos um médico cujo foco estará voltado para a família
e a existência das pessoas, isto é, bem-formado.
Já houve um grande avanço. O Presidente Lula tem colocado algum
dinheiro, mas ainda é muito pouco. Aqui em Minas Gerais não tenho
dúvida de que avançamos muito mais em relação ao Brasil e em
termos de PSF e de medicamento, mas todos os Estados ainda têm de
fazer um esforço conjunto perante o Ministério. O dinheiro para
saúde é muito pouco, e o PSF é um grande avanço para a saúde
preventiva, para diminuir a mortalidade infantil. No entanto, as
atividades assistenciais ainda deixam muito a desejar, e
precisamos, cada dia mais, fazer com que a Emenda nº 29 seja
votada no Congresso, para que ela seja exigida em todos os
Estados. Ou talvez buscar outros mecanismos, porque, sem dinheiro,
não há como se fazer saúde. Os médicos ficam frustrados, e a
população, cada vez mais agredida, com a insegurança da própria
vida.
Compete a este Parlamento desenvolver ações, haja vista que agora
a judicialização da saúde já foi proposta pelo Deputado Adelmo
Carneiro Leão na nossa Comissão, mas ainda falta fazê-la valer. Do
contrário, esse assunto será sempre discutido nas audiências
públicas sem que se consiga resultado algum.
Neste dia, fica registrada a nossa intenção de materializar uma
saúde melhor para o nosso povo. Obrigado.