BONIFÁCIO DE ANDRADA (PSDB), Deputado Federal - MG.
Discurso
Legislatura 17ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 07/09/2013
Página 4, Coluna 1
Assunto HOMENAGEM.
Observação O número que acompanha o requerimento sem número, constante no campo Proposições, é para controle interno, não fazendo parte da Proposição referida.
Proposições citadas RQS 2377 de 2013
34ª REUNIÃO ESPECIAL DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 17ª LEGISLATURA, EM 2/9/2013
Palavras do deputado federal Bonifácio de Andrada
Palavras do Deputado Federal Bonifácio de Andrada
Exmos. Srs. deputado Dinis Pinheiro, presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, liderança popular que se espalha por todo o nosso estado; desembargador José Tarcízio de Almeida Melo, presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais em exercício; deputado Sebastião Costa, autor do requerimento que deu origem a esta homenagem a José Bonifácio de Andrada e Silva, ao qual, em nome da família, deixo, de maneira muito expressiva, os nossos agradecimentos; Toninho Andrada, prefeito municipal de Barbacena e presidente da AMM; deputado Lafayette de Andrada, líder do governo; conselheiro Doutor Viana, presidente do Tribunal de Contas; Pimenta da Veiga, presidente do Instituto Teotônio Vilela, ex-ministro e ex-prefeito de Belo Horizonte; prezados jovens alunos da Escola Estadual José Bonifácio, que indiscutivelmente marcam essa solenidade com a juventude que vive os seus estudos dentro de uma casa cujo patrono é justamente o homenageado desta noite; deputados, vereadores, prefeitos, professores e ex-deputados; ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, deputado Carlos Eloy; senhoras e senhores.
Esta homenagem a José Bonifácio é uma oportunidade de traçar alguns dados a respeito da vida desse homem que indiscutivelmente foi a mola principal da independência nacional. Ele nasceu em 1763 e morreu em 1838, portanto estamos comemorando 250 anos de sua existência. Quero relembrar nesta hora que as palavras do deputado Sebastião Costa realmente focalizaram aspectos fundamentais da vida de José Bonifácio. Gilberto Freire costumava dizer que ele era o maior de todos os brasileiros e que estava 50 a 100 anos à frente do seu tempo.
José Bonifácio era uma personalidade cuja vida teve momentos de glória, momentos de realização patriótica construtiva do nosso país, mas também teve momentos de muito sofrimento, momentos de muitas dores e dificuldades. Ele nasceu em Santos, em 1763, e era filho de Bonifácio José Ribeiro de Andrada e de D. Maria Bárbara Ribeiro de Andrada. É curioso um dado que falarei a respeito dele, porque marca um instante da sua história. Ele nasceu no dia 13 de junho, no dia de Santo Antônio. O nome dele era Antônio Ribeiro de Andrada. O pai, que se chamava Bonifácio José - aliás o meu nome -, era um homem muito respeitado e muito conceituado em Santos e todo mundo chegava e falava: “Aqui o Zé do Bonifácio”. Ele então pediu ao pai que fosse, conforme as normas da época, até à igreja para trocar o nome, passando de Antônio para José Bonifácio. Então, inicialmente, seu nome era o de Santo Antônio, e ele trocou para Bonifácio. Devo dizer que relembra, também como Santo Antônio, quatro santos importantes da história da igreja; dois papas e um mártir, que foi São Bonifácio, que promoveu a cristianização da antiga Alemanha há séculos e séculos.
José Bonifácio tinha dois irmãos que, com ele e mais tarde, se projetaram na vida brasileira e conviveram muito no dia a dia: o Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e Martim Francisco Ribeiro de Andrada, o mais moço. Esses dois o acompanhavam sempre. Em momentos históricos da vida de José Bonifácio, estiveram a seu lado, participaram ativamente dos grandes acontecimentos da independência nacional. José Bonifácio era um jovem muito talentoso, e o pai o mandou estudar em Portugal. Em pouco tempo, ele foi para a Academia de Ciências de Lisboa, onde cresceu e assumiu uma posição de inteligência de tal destaque que ganhou uma bolsa do governo português para viajar por vários países do mundo, a fim de adquirir conhecimentos de que o país necessitava para a sua modernização. José Bonifácio foi encaminhado para vários países por 10 anos e teve contato com grandes cientistas da época, entre eles Lavoisier. Deles, recebeu ensinamentos e se tornou uma figura de expressão no campo da mineralogia. Ele foi o primeiro homem dessa área no Brasil e trouxe esses estudos, tendo renome internacional no setor. Aliás, há pedras que ele descobriu e outras que descreveu ao longo de seus trabalhos na Noruega, Alemanha e França.
Depois, José Bonifácio voltou para Portugal. O governo português lhe deu a tarefa de criar a siderurgia lá. Ele fez um esforço louco, mas a portuguesada da época não conseguia se adaptar aos esforços, aos trabalhos que os operários da Alemanha e da Noruega faziam, a fim de lá implementar a siderurgia. Depois de muito esforço, José Bonifácio participou ativamente da Academia de Ciências de Lisboa, da qual foi secretário-geral. Depois de várias pesquisas, atingiu certa idade e pediu para retornar ao Brasil. E foi bem aceito porque, já em Lisboa, José Bonifácio defendia as ideias que mais tarde trouxe para o Brasil de maneira ampla. Quando o mundo inteiro aceita a escravatura, ele já a condenava; em Portugal, condenava o tratamento dado pelo governo português aos índios brasileiros. Nos meios oficiais, era uma figura muito querida. Ao pedir a aposentadoria para vir para São Paulo, ela imediatamente lhe foi concedida.
José Bonifácio casou-se por volta de 1790, com uma jovem irlandesa, Narcisa Emília O´Leary de Andrada. O padre José Carlos Aleixo, nosso ilustre conterrâneo e filho da inesquecível figura de Pedro Aleixo, está escrevendo um livro sobre os elos entre Brasil e Irlanda, e a figura principal desse livro é a D. Narcisa, uma dedicada esposa, que soube estar sempre ao lado do marido, mesmo nos momentos difíceis, quando foram exilados. Essa senhora, D. Narcisa, era uma irlandesa de formação muito religiosa, porque possivelmente teria presenciado as lutas que à época aconteciam na Irlanda entre protestantes e católicos, e deu a suas filhas um ensinamento realmente muito valoroso da fé católica.
José Bonifácio teve três filhas; não teve filhos. A mais velha, Carlota, casou-se com um cientista: Vandelli; a segunda, Gabriela, casou-se com um tio: Martim Francisco, irmão de José Bonifácio; a terceira, Narcisa Cândida, casou-se com um primo: Francisco Eugênio. O casamento dessas três mulheres filhas de José Bonifácio é que traz a família para São Paulo. José Bonifácio era de Santos, vinculado inteiramente a Santos. Aliás, quem vai a Santos encontra ali repetidas homenagens a ele. Participei de algumas delas. Também o governador Alckmin e o ministro da Defesa, das três Forças brasileiras, participaram de homenagens a José Bonifácio em Santos, ainda que ele esteja muito impregnado em São Paulo. Com o nascimento de suas filhas, começa justamente a preparação dessas jovens, sobretudo de D. Gabriela, casada mais tarde com seu irmão Martim Francisco. Esse é o quadro da vida de José Bonifácio.
Mas é preciso dizer que em 1821, depois de entrar em conflito com o imperador, que dissolveu a assembleia constituinte, que dissolveu até a Casa de representação brasileira, José Bonifácio vai para o exílio, onde fica de 1822 a 1828, sofrendo muito. As cartas a esse respeito que nos chegavam e a que tínhamos acesso mostram um sofrimento enorme, até porque ele não tinha boas condições financeiras para viver em Paris, na França.
Mas há um caso ainda mais curioso. Quando foi dissolvida a assembleia constituinte de que ele fazia parte e o imperador e seu grupo, que não gostavam dele, queriam persegui-lo, ele foi colocado em um naviozinho de pouca significação, chamado Lucônia, onde estava acompanhado de alguns patriotas brasileiros, entre eles o padre Belchior, seu amigo, um mineiro ilustre nascido na região de Bom Despacho. Pe. Belchior, um parente distante de José Bonifácio, e outros deputados brasileiros que eram perseguidos entraram com ele no navio Lucônia. Em alto-mar, José Bonifácio, que era um cientista, começou a perceber, pelas estrelas e pela condução do navio, que ele não estava sendo levado para a França, como esperavam, mas de volta para Portugal, onde, possivelmente, ele seria objeto da fúria dos portugueses, que viam nele o grande inimigo de Portugal, com a criação e o nascimento do Brasil. Mas, ao ver isso, José Bonifácio mostra a sua liderança: consegue movimentar os marinheiros e as pessoas locais, prende o comandante do navio, assume o comando do navio e o leva para a Espanha - na altura em que estavam, não conseguiam mais ir para a França. Da Espanha ele consegue ir à França, graças a Canning, primeiro-ministro inglês que gostava muito dele porque conhecia suas ideias contra a escravatura e contra o tráfico negreiro, a que a Inglaterra também era bem contrária naquela época.
Então, José Bonifácio vai para o exílio e sofre muito. Mas vou falar agora da presença de José Bonifácio na atividade política brasileira. Quando saiu de Portugal convencido de que viria para o Brasil fazer os seus estudos de mineralogia, visitar o interior de Minas Gerais – José Bonifácio tinha muita vontade de conhecer Minas Gerais por causa da mineração -, pensando em continuar as suas pesquisas, começa o movimento no Rio de Janeiro e em São Paulo para que o imperador, o jovem príncipe D. Pedro, ficasse no Brasil. Portugal queria levá-lo para lá com D. João VI e acabar com qualquer hipótese de criação de um Brasil independente. D. João VI vai embora falando aquela frase célebre: “Meu filho, cuide da Coroa brasileira porque senão ela cai na mão de outro”. Então D. Pedro resolveu organizar uma equipe que pudesse, de fato, dar-lhe apoio para enfrentar os problemas de Portugal e do mundo inteiro.
Um dado interessante é que nessa época a política da Áustria, que dominava a política internacional, era contra a emancipação dos países sul-americanos e nações independentes. Havia um complô internacional para impedir que o Brasil fosse independente. Imediatamente o padre Belchior, que era amigo de D. Pedro, o procurou para dizer-lhe o seguinte: “O senhor deve chamar para o seu ministério um homem que é conhecido no mundo inteiro, um cientista, um mineralogista, conhecido na França, na Alemanha e em toda a parte. Se esse homem vier para o seu ministério, vai dar-lhe forças para enfrentar as dificuldades que terá como príncipe regente”. Então, D. Pedro convocou José Bonifácio, que estava em São Paulo, numa vida tranquila, procurando cuidar dos seus últimos dias de existência num ambiente que lhe fosse, digamos assim, mais tranquilo e mais calmo. E vai José Bonifácio para o Rio de Janeiro. Chegando lá, D. Pedro o nomeia praticamente primeiro-ministro. E José Bonifácio, que não esperava isso, assume o comando das ações governamentais.
O curioso é que começa a pressão de Portugal para impedir que o Brasil fosse independente. E a primeira pressão foi o Gen. Madeira, que estava no Rio de Janeiro com um batalhão forte de portugueses que estavam se preparando para impedir que o Brasil se transformasse em nação independente. E D. Pedro teve de se articular, se movimentar. Houve um instante em que parecia que havia de fato um plano para assaltar o palácio, prender D. Pedro e mandá-lo de volta a Portugal, porque o governo português o queria de volta. Aí, José Bonifácio, que já tinha participado das lutas de Portugal contra Napoleão, como coronel do grupo de estudantes de que fazia parte na Academia de Ciências, começa a articular imediatamente com os poucos soldados que tinha uma reação ao batalhão do Gen. Madeira, que era uma figura ilustre da vida militar de Portugal. O Gen. Madeira, então, vendo que poderia ter alguns problemas, coloca todo o seu batalhão no navio e vai para a Bahia. Aí começa uma estratégia à portuguesa. Os portugueses eram inteligentes e verificaram que, se tivessem dificuldades com o Rio de Janeiro, iam tomar conta da Bahia para cortar o Brasil ao meio, e o Norte do Brasil ficaria com Portugal. Aí, deixariam o Sul do Brasil com o Rio de Janeiro ou com outras tendências quaisquer que fossem da política brasileira.
Aí, o Gen. Madeira vai para Bahia. E lá chegam mais tropas e as forças de Portugal para enfrentar a luta e manter a dependência do Brasil em relação a Portugal. Uma coisa incrível. E José Bonifácio verificou que naquela época não tínhamos nenhum general. Além disso, a armada portuguesa começava a se movimentar para trazer forças para a Bahia, para o Rio de Janeiro, e dominar o Brasil. Então, José Bonifácio cria o Exército Brasileiro e convoca Pedro Labatut, um coronel de Napoleão que já tinha participado de algumas lutas na América do Sul. Dá toda a força a Pedro Labatut, que organiza o início do Exército Brasileiro na Bahia, e aí começa a luta entre os brasileiros e os portugueses, uma luta que demorou dois anos.
É curioso que nós, brasileiros, somos um pouco ingratos com a Bahia. O 2 de julho é que é a independência nacional. Depois do 7 de setembro é que as forças brasileiras de Pedro Labatut, na Bahia, conseguiram derrotar o Gen. Madeira, em 2 de julho, no ano seguinte ao 7 de setembro. Aí a independência do Brasil de fato se concretizou. Costumo brincar com os deputados baianos: “V. Exas. não trazem à Bahia a glória de realmente ter dominado os adversários da independência nacional através da guerra, do sangue e da morte de muitos baianos, que enfrentaram a luta em um momento histórico”. Pedro Labatut foi a grande figura, e ao seu lado estava um tio do Duque de Caxias, Gen. José Lima e Silva. Na realidade, Pedro Labatut foi quem armou todas as atividades.
Enquanto isso acontecia em terra, os portugueses levavam a sua armada para enfrentar o Brasil. José Bonifácio tinha de encontrar um almirante, pois no Brasil não havia ninguém capaz de comandar uma armada. Disseram a José Bonifácio que havia sido vitorioso no Chile um pirata inglês cujas façanhas eram de tal ordem, que havia conseguido, na Inglaterra, o título de lorde. Esse homem era justamente o Cochrane. Ele convocou o lorde Cochrane, que, apesar de não ser uma figura muito respeitada, veio para o Brasil, organizou uma pequeníssima armada e, com menos de seis navios, enfrentou toda a armada portuguesa e foi vitorioso usando a técnica da visão de mar dos marinheiros, que em nós, mineiros, não é muito grande. Como o mar não é plano, é curvo, as naus podem se esconder e aparecer. Isso foi o que o lorde Cochrane fez em relação à armada portuguesa, que, apavorada com esse homem que tinha um nome conhecido internacionalmente como grande lutador dos mares, voltou. A marinha nacional ficou sossegada, e o Brasil foi vitorioso na luta no mar, mas a luta em terra continuou.
José Bonifácio, com sua ação política, realmente realizou uma grande façanha. Por intermédio de lorde Cochrane, criou a Marinha do Brasil. Mas a Marinha faz algumas restrições. Sentimos que algumas lideranças da Bahia fazem restrições a lorde Cochrane e gostam de afirmar, como já fizeram em vários momentos, que o fundador da Marinha é José Bonifácio. Tenho uma bela placa com os dizeres: “Ao seu fundador, José Bonifácio de Andrada e Silva, a Marinha agradecida”.
Esse homem realmente realizou tarefas importantes. Depois, muito preocupado, defendeu a unidade nacional. Historiadores de alto nível acreditam que o esforço que José Bonifácio fez para manter a unidade brasileira foi uma das grandes façanhas da sua ação política. Aliás, ele conseguiu isso através da derrota dos portugueses na Bahia.
A sua ação no governo era também a favor da democracia. Ele defendeu muito a Assembleia Nacional Constituinte. Com seus dois irmãos, participou ativamente nessa assembleia, mas ela foi dissolvida. Então, José Bonifácio, com seus irmãos e vários deputados, como o padre Belchior, foram exilados na Europa, por longo tempo.
Logo depois, em 1826, quando o imperador foi obrigado a outorgar a Constituição, houve eleições no Brasil. O curioso é que, em 1826, imediatamente, os paulistas elegeram Antônio Carlos, irmão de José Bonifácio, que foi o principal líder da Assembleia Constituinte e o homem que escreveu o primeiro texto da Constituição. Ele havia participado da Revolução Pernambucana de 1817, onde já tinha feito uma constituição, que foi a primeira a entrar em vigor nas terras brasileiras. Antônio Carlos foi uma grande liderança, eleito pelos paulistas em 1826. E os mineiros elegeram Martim Francisco, em 1827, para a Câmara dos Deputados. Os baianos elegeram José Bonifácio também para a Câmara dos Deputados. Todos eles estavam no exílio e foram eleitos para tomar posse muito depois na Câmara dos Deputados no Brasil.
A ação de José Bonifácio é muito eficiente, atuante, e há muitos outros detalhes. Se fosse falar sobre todos eles aqui, gastaria muito tempo.
Gostaria de chamar um pouco a atenção para certos aspectos de José Bonifácio.
Como disse, José Bonifácio combatia duramente a escravidão, defendia terrivelmente os índios e achava um absurdo o que os povos faziam contra eles. Era um defensor da abolição, mas, ao lado disso, era um homem já dado à ecologia. Defendia com muita energia as nossas matas e as nossas árvores. José Bonifácio achava um absurdo o que se fazia no interior do País, onde se queimavam plantas e se jogavam árvores no chão. Ele era um ecologista; já defendia a ecologia naqueles tempos também.
Além disso, José Bonifácio era muito preocupado com a interiorização do Brasil. Ele é quem fez os primeiros estudos para levar a capital para o interior do Brasil. Foi ele quem deu o nome a Brasília; que disse que deveriam levar a capital para o interior com o nome de Brasília ou Petrópole. O presidente Juscelino Kubitschek adotou a ideia de José Bonifácio. Uma vez, Kubitschek encontrou o deputado Zezinho Bonifácio, meu pai, que combatia a transferência da capital do Rio para Brasília, numa reunião e lhe disse: “José Bonifácio, você está refutando as ideias do seu antepassado, e eu estou executando essas ideias: estou levando a capital para o interior e ainda vou dar-lhe o nome de Brasília”.
Curioso que os estudos que José Bonifácio fez sobre organização de cidade, a capital que ele pensava ficava perto de Paracatu, pouco distante de Brasília, de acordo com os estudos que tinham sido feitos e que hoje são conhecidos e estão à disposição de todos. Por outro lado, é muito interessante também relembrar - e eu estava há pouco tempo conversando com uma figura ilustre do Itamaraty sobre isso - que a política externa brasileira hoje segue, inteiramente e na sua essência, o que José Bonifácio defendia. Ele era favorável à união dos países sul-americanos numa grande coalizão, porque só assim poderia enfrentar as pressões europeias contra o crescimento dos países americanos. Ele era defensor disso.
Por suas ideias, José Bonifácio não era 100% monarquista. Era um homem político, um homem hábil e um homem realista. Ele achava que, para se manter a unidade do Brasil, tinha de haver um rei; que, se não houvesse um rei, não haveria uma unidade; e que, se o Brasil fosse república naquela época, aconteceria o que aconteceu com os países hispano-americanos: ele se subdividiria em pequenos países. Então, era preciso uma monarquia para se manter a unidade nacional. No entanto, ele não era 100% monarquista, tanto é que o imperador, por várias vezes, tentou lhe dar títulos de nobreza, como também a seus filhos e parentes, mas ninguém aceitou, porque ele achava que a monarquia era um instrumento político para manter a unidade do Brasil, não era uma solução definitiva para o Brasil.
Aliás, seu irmão Martim Francisco deixou um inscrito curioso. Quando o menino D. Pedro II iria se transformar em rei, ele disse: “Hoje estamos aplaudindo esse jovem aqui, mas, futuramente, passado os tempos, a vocação republicana no Brasil irá afastá-lo do poder”. Martim Francisco é citado por Pedro Calmon em um livro da biografia de D. Pedro II. Como sabemos, naquela epóca, D. Pedro II era uma criança de 6 anos.
D. Pedro I entrou em declínio desde que dissolveu a Assembleia Constituinte. Em 1831, ele abandona a Coroa brasileira e vai para Portugal tentar alcançar a Coroa portuguesa em uma guerra com o seu irmão D. Miguel, saindo-se vitorioso e tornando-se D. Pedro IV. Mas, quando D. Pedro I sai do Brasil, ele estava afastado de José Bonifácio, a quem tinha perseguido. Mas ele não sabia que José Bonifácio tinha muitos rancores contra ele. Apesar disso, D. Pedro I escreveu uma carta muito bonita para a Assembleia Constituinte, que era a reunião da Câmara e do Senado, indicando José Bonifácio para ser o tutor de seu filho, pois achava que ele era o único brasileiro à altura para cuidar daquele que seria o futuro imperador da sua segunda pátria, da sua nacionalidade, que era o Brasil. Ele nomeia José Bonifácio tutor de D. Pedro II. José Bonifácio começa a criar e educar D. Pedro II dentro de uma orientação revolucionária, ao contrário do tradicional, que é ficar dentro do palácio. Ele coloca D. Pedro II em contato com crianças e jovens da época, num ambiente brasileiro, para ser um imperador 100% brasileiro. Logicamente que a portuguesada da época, um pouco conservadora, não gostou disso. E, unidos com Feijó, tiraram José Bonifácio e passaram a atribuição ao Barão de Itanhaém, que era um mineiro muito religioso e muito assustado que cuidou de D. Pedro. Na realidade, D. Pedro vai ser educado por uma antiga portuguesa que vivia no palácio e que realmente passou a cuidar do jovem que, mais tarde, foi o segundo imperador do Brasil.
Finalmente, quero dizer que José Bonifácio era um homem que defendia a universidade e foi favorável à descentralização política do País. Parte do texto constitucional de 1823 se transformou em Constituição, com várias medidas de descentralização política. Ele não queria manter as províncias, que hoje se transformaram em nossos Estados; queria subdividi-las em pequenas áreas chamadas comarcas, que seriam administradas para que não houvesse risco de revoluções e conflitos em alguma área provincial muito forte. Mas suas ideias não tiveram êxito. Ele defendeu com muita energia a criação das universidades. Ele queria universidades em diversas partes do Brasil, em diversos lugares. Sustentava que a universidade era fundamental para o País, mas a mentalidade da época era napoleônica, contra a universidade e a favor das escolas técnicas. O Brasil desconhecia universidades até 1927, quando um neto do José Bonifácio criou a universidade em Minas Gerais. Então, nesse tempo todo, o Brasil ficou sem universidade.
A França, na fase napoleônica, também não tinha universidade. A partir da derrota dos franceses pelos alemães, em 1970, a França cuidou de formar universidades. Pesquisadores verificaram que a derrota da França na luta contra a Alemanha se deveu ao fato de a universidade alemã ser forte e ter assessorado o exército alemão nas lutas, permitindo que ele fosse vitorioso. A universidade alemã conhecia a França melhor que os próprios generais franceses. Enfim, José Bonifácio era uma figura de expressão.
Quero, Sr. Presidente, se V. Exa. me permitir, falar das ligações de José Bonifácio, meu caro Presidente, meu caro Prefeito de Barbacena, das vinculações com a nossa terra, e não com Barbacena. Aqui há vários barbacenenses. José Bonifácio, como o senhor sabe, tinha três filhas, entre elas Gabriela, casada com o seu irmão Martim Francisco. D. Gabriela e Martim Francisco tiveram três filhos: José Bonifácio, o Moço, figura muito expressiva na política nacional, um grande orador, professor de direito, um homem ilustre do Partido Liberal; o Martim Francisco, de muita expressão na época; e o menor, que era chamado de Antônio Carlos, nasceu em Santos. Esse filho menor, irmão do José Bonifácio, o Moço, irmão do Martim Francisco II, ficou tuberculoso. A tuberculose, naquela época, por volta de 1858, quase condenava a pessoa à morte, ela estava liquidada. O José Bonifácio, o Moço, filho da D. Gabriela, neto do patriarca, era do Partido Liberal. Nesse partido, conheceu o médico Visconde de Lima Duarte, de Barbacena. Eles falaram a Lima Duarte: “A nossa família está muito triste, porque o nosso irmão está muito mal em Santos e, dentro de pouco tempo, vai desaparecer, porque a cidade não lhe dá condições de tratamento”.
Então o Visconde de Lima Duarte, que era médico popular, ativo e uma liderança política muito forte no interior de Minas, falou para o José Bonifácio mandar seu irmão mais moço para Barbacena, terra dele, pois, com aquele clima, iria curá-lo e salvá-lo. A filha do José Bonifácio, D. Gabriela, então, deslocou-se de Santos, por volta de 1860, com o filho que amava muito, Antônio Carlos, para chegar até Barbacena, em 1860 e poucos. Imaginem a luta que foi essa viagem de Santos até Barbacena. Quem conhece Barbacena conhece a Praça do Globo, a Praça Conde de Prados. Havia uma pensão, e foram para lá. De fato, Antônio Carlos, que chegou lá com 22 anos, foi tratado pelo Visconde. Graças ao clima barbacenense -e o Sr. Prefeito precisa mantê-lo -, o jovem conseguiu viver até os 56 anos. E, nesse período, de 22 a 56 anos, teve 11 filhos, entre eles os que seriam mais tarde o presidente Antônio Carlos e o embaixador José Bonifácio.
Por conseguinte, está em Barbacena a presença do sangue de José Bonifácio em Minas Gerais: sua filha dileta, Gabriela Frederica Ribeiro de Andrada, casada com Martim Francisco, irmão de José Bonifácio. O curioso é que ela ficou em Barbacena. Seu filho, Antônio Carlos, quando se casou com D. Adelaide Lima Duarte, da Fazenda da Borda do Campo, recebeu como dote o casarão que a família tem até hoje; ele está lá. E D. Gabriela não se afastou de Barbacena. Morreu no final de 1880 e está enterrada no cemitério da cidade. É interessante a sua sepultura.
Seguindo os ideais do pai, ela não admitiu a escravidão. Quando chegou a Barbacena, todos os escravos foram libertados. Ela tinha muito apreço por uma escrava que sempre a acompanhava. Quem for ao cemitério daquela cidade pode verificar: está ali uma sepultura modesta da D. Gabriela, filha do patriarca, e, ao lado, a sepultura da D. Leocádia. É justamente a preta; não há nenhum nome. Sei que é Leocádia por causa dos escritos do meu avô. Indiscutivelmente, isso expressava um certo comportamento e uma certa concepção da existência humana. Ela está sepultada ao lado de uma negra escrava pela qual tinha muito apreço e amizade.
Assim, direi que José Bonifácio, por meio de sua filha muita querida, Gabriela, esposa de seu irmão, Martim Francisco, primeiro-ministro da Fazenda do Brasil e também ministro da Fazenda no primeiro ministério de D. Pedro II, está aqui em Minas Gerais. É um pedaço do Patriarca da Independência aqui nas terras mineiras, pedaço esse que nos esforçamos por honrar, pois, indiscutivelmente, José Bonifácio, como dizia não só Gilberto Freire, mas também mais tarde Latino Coelho, Venâncio Neiva e os historiadores modernos, foi uma personalidade valorosa e decisiva para manter os trabalhos para a criação do Brasil, esse Brasil continental, que não se subdividiu como os países da América espanhola.
Quero finalizar minhas palavras, Sr. Presidente, lendo algumas frases de Machado de Assis a respeito de José Bonifácio. É um verso. Machado de Assis não era bom poeta, mas era um escritor eterno e permanente não só na literatura brasileira, mas também na literatura mundial. Ele dedica esses versos a José Bonifácio:
“Vivo irás tu, egrégio e nobre Andrada. Tu cujo nome entre os que a pátria deram o batismo da amada independência, perpetuamente fulge. O engenho, as forças, o saber, a vida, tudo votaste à liberdade nossa, que a teus olhos nasceu, e que teus olhos inconcussa deixaram. Nunca interesse vil manchou teu nome, nem abjetas paixões; teu peito ilustre Na viva chama ardeu (…).” Em teu favor, sempre o amor à pátria querida. Muito obrigado a todos.