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Blocos e escolas de samba pedem mais recursos para carnaval de BH

Grupos defendem garantia permanente de recursos, hoje insuficientes para sustentar estruturas que funcionam o ano todo, não só durante o evento.

- Atualizado em 16/12/2025 - 11:20
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A implantação de política pública permanente garantindo a destinação de recursos para manter o funcionamento dos blocos de rua e caricatos e das escolas de samba, responsáveis pelo sucesso do carnaval de Belo Horizonte, foi a principal proposta extraída da reunião que a Comissão de Cultura Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizou na segunda-feira (15/12/25).

Originalmente destinada a debater o Projeto de Lei (PL) 3.587/25, que trata do reconhecimento do Carnaval como conjunto de manifestações artístico-culturais populares do Estado, a reunião acabou se tornando palco das insatisfações e reivindicações dos atores do evento. A deputada Bella Gonçalves (PSOL) é a autora do projeto e do requerimento pela reunião, que também leva a assinatura da deputada Lohanna (PV) e do deputado Doutor Jean Freire (PT).

Foi quase unânime a reclamação da falta de dinheiro para bancar todas as atividades que envolvem a festa popular, que ocorrem durante todo o ano. Alguns ainda criticaram a concentração de recursos do Governo do Estado em apenas algumas atividades do carnaval, como a Via Sonorizada, concentrada na Avenida dos Andradas.

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A vereadora de Belo Horizonte Juhlia André Santos, do Bloco Então Brilha, defendeu uma política pública efetiva para o carnaval, com garantia de recursos previstos no orçamento do Estado. “Sou da turma das utopias, da esperança. Para que façamos um carnaval digno, seguro e com fomento; temos que garantir isso ao longo do ano”, propôs.

Na opinião de Juhlia, a falta de investimentos nos grupos que fazem a festa acontecer levam à difícil situação atual, em que as “escolas de samba estão sucateadas, sem ao menos um barracão para colocar suas fantasias e ensaiar e os blocos de rua e caricatos apenas sobrevivem”. Como contraponto, destacou a lei municipal já sancionada na Capital, que, segundo ela, avança na organização da festa popular, tratada como uma estrutura que mantém toda uma cadeia produtiva que gera emprego e renda durante todo o ano.

Via Sonorizada é motivo de reclamações

A também vereadora de Belo Horizonte Iza Lourença reforçou que é preciso valorizar o carnaval o ano inteiro, não só em fevereiro ou março, preservando sua característica de festa popular. “Em vez de atender às reivindicações das pessoas que trabalham no carnaval, o governo canaliza recursos para a Via Sonorizada”, criticou.

Leandro César da Silva, do Conselho Estadual de Política Cultural, é outro crítico da Via Sonorizada. Ele disse que, em 2025, foram destinados a ela mais de R$ 11 milhões. A estrutura, responsável pela sonorização de vários pontos do circuito carnavalesco na Avenida Andradas, é alvo de reclamações de vários blocos, segundo o conselheiro.

Em 2026, o valor investido seria ainda maior: R$ 15 milhões. Ele considerou que o critério de seleção dos blocos da Via Sonorizada não é transparente.

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Carnaval popular

Em nome da Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Bruta BH), Carem Abreu reivindicou que o carnaval da Capital continue eminentemente popular e democrático. “Em 2009, mobilizações que fizemos na Praça da Estação contra a privatização daquele espaço - chamadas de Praia da Estação - fomentaram o que hoje temos de carnaval de rua, de luta e de amor”, registrou.

Passados 16 anos da luta, a entidade defende o direito de ter acesso aos lucros do carnaval de Belo Horizonte, que, em 2025, trouxe 6 milhões de pessoas à Capital. De acordo com Caren, o lucro gerado foi de R$ 1,2 bilhão. “Por que não tem lei para canalizar parte dessa verba para os blocos?”, questionou. 

Sobre os instrumentos de financiamento utilizados atualmente para o carnaval de BH, ela considerou-os insuficientes e pouco acessíveis: “A Lei Estadual de Incentivo à Cultura é inacessível para pessoas simples, que não são captadores, disse. Ela defendeu a luta pela inclusão de recursos para o carnaval no Fundo Estadual de Cultura, na sua opinião, mais inclusivo e com recursos transferidos diretamente aos blocos. 

Verba do Estado para Carnaval vem da Cemig

A representante do governo na reunião foi Maria Luiza Reis Jardim, superintendente de Fomento, Capacitação e Municipalização da Cultura da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult). Ela informou que os recursos repassados para o carnaval vieram de um edital da Cemig destinado a projetos aprovados na Lei Estadual de Incentivo à Cultura. “Recebemos mais de 420 projetos, sendo 300 de carnaval até outubro; depois, outros 300, a maioria voltados para o carnaval”, informou.

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A deputada Bella Gonçalves perguntou se haveria outros editais lançados pelo governo para o carnaval, ao que a gestora respondeu negativamente. No único edital lançada com essa finalidade, o da Cemig, o valor de cada projeto fica entre R$ 50 mil e R$ 150 mil. Segundo Maria Luiza, o objetivo é alcançar também o interior com esse edital.

A parlamentar lamentou a ausência da secretária de Estado de Cultura, Bárbara Barros Botega. “O carnaval é um dos eventos culturais mais importantes do Estado atualmente e o governo de Minas faz a publicidade em cima do carnaval, mas não faz um planejamento sobre os investimentos e preparativos para a festa”, condenou. Bella Gonçalvez solicitou à superintendente que encaminhe as reivindicações dos convidados a secretária.

Outro projeto, de autoria de Lohanna, que cria uma instância permanente de diálogo sobre o carnaval, com a participação de blocos, ambulantes, catadores, empresários e poder público, foi destacado por Bella Gonçalves, na audiência.

Ela divulgou, ainda, que vai direcionar R$ 1 milhão de emendas para o carnaval de BH. Colocou-se, por fim, à disposição para receber sugestões de aprimoramento do PL 3.587/25. 

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Escolas e blocos caricatos "sobrevivem"

Gleison Fernandes da Silva, presidente da Escola de Samba Unidos dos Guaranys, afirmou que os dirigentes de agremiações vivem crise de ansiedade, porque, faltando apenas dois meses para o carnaval, ainda não receberam o subsídio prometido pela Prefeitura de Belo Horizonte. “Alguém tem que pagar a conta dos galpões onde ficam os carros alegóricos! Esse é um filme que se repete a cada ano; o carnaval vai ser do jeito que der”, alertou.

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“Já fomos 72 blocos, hoje somos apenas nove”, lamentou Jairo Alves Pereira, do Bloco Caricato Por Acaso. Ele reclamou do atraso no pagamento do subsídio da PBH, afirmando que, se o recurso for entregue às vésperas do carnaval, não haverá como utilizá-lo.

Adjailson Andrade, da Associação de Vendedores Ambulantes de Belo Horizonte, defendeu que a Prefeitura disponibilize espaços noturnos para os filhos dos ambulantes e catadores que trabalham no carnaval. “No Rio de Janeiro é assim; e o prefeito de BH precisa copiar essa ideia que deu certo”, pontuou. Bella Gonçalves vai cobrar do poder público municipal essa medida.

Heleno Fernandes Campos, da Bruta BH, criticou a entrada no carnaval de grandes estrelas, como o DJ Alock em 2025: “Isso começou a descaracterizar o Carnaval de BH, trazendo um público que é de evento, não de carnaval”.

Centralização

Também da Bruta BH, Stefânio Teles criticou a centralização dos poucos recursos destinados ao carnaval na região Centro-Sul da Capital: “São cerca de 600 blocos cadastrados de todas as nove regionais; 76% dos recursos vão para a Centro-Sul e os 24% restantes ficam para oito regionais”, reclamou.

Kerison Lopes, de uma outra agremiação de blocos da Capital, a Liga Se Liga, reclamou que sua entidade não foi convidada para compor a mesa da audiência. Também condenou a vinda de nomes nacionais para o evento. Em 2026, a Prefeitura anunciou que o cantor Natan participará da festa. “No Rio de Janeiro isso aconteceu e blocos tradicionais deixaram de desfilar, porque Anita e outros artistas tomaram seu espaço”, afirmou. 

Sobre a Via Sonorização, Kerison, do Bloco Volta Belchior, discordou de convidados que o antecederam. “A sonorização da avenida foi uma demanda nossa e a considero um grande avanço”, apregoou. Segundo ele, todo bloco interessado em desfilar nessa avenida deve se inscrever na Belotur, que define quais desfilarão no espaço. Ainda assim, o folião defendeu a unidade dos blocos em torno da causa comum de obter mais recursos para todos de forma justa.

Comissão de Cultura - debate sobre o incentivo ao Carnaval no Estado

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Os desafios para que escolas de samba de Belo Horizonte e blocos desfilem foram debatidos na Comissão de Cultura TV Assembleia
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