Baixos salários, penúria e represálias: triste rotina na Orquestra Sinfônica e Coral Lírico
Os relatos surgiram na audiência pública da Comissão do Trabalho para discutir como obter melhores condições de trabalho para músicos, cantores e outros empregados da Fundação Clóvis Salgado.
- Atualizado em 29/04/2026 - 20:25Revisão do plano de carreira com reajuste de remunerações e incorporação ou criação de verbas extraordinárias, realização de concurso público, contratação de trabalhadores temporários via CLT e, por fim, o combate ao assédio moral.
A pauta de demandas foi apresentada nesta quarta-feira (29/4/26) pela direção do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de Minas Gerais e reforçada por outras lideranças do setor cultural mineiro, em audiência da Comissão do Trabalho, da Previdência e da Assistência Social da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que atende a requerimento do deputado Leleco Pimentel (PT).
Segundo o presidente da entidade, Antônio Maria Pompeu Viola, as reivindicações visam garantir condições de trabalho dignas para os trabalhadores da Fundação Clóvis Salgado (FCS), responsável pela Orquestra Sinfônica e pelo Coral Lírico de Minas Gerais, que, conforme os relatos, funcionam de forma cada vez mais precária.
O sindicalista explicou que um estudo feito entre 2015 e 2017 com a revisão do plano de carreira foi entregue à FCS, negociação da qual teria participado, segundo Antônio Viola, o recém-empossado presidente da fundação, Yuri Mello Mesquita. O gestor esteve na reunião da Comissão do Trabalho após convocação da ALMG.
“E olha que os valores que aparecem lá são de 2017, não corrigidos, mas que, se fossem implementados hoje, já seriam um bom reajuste, para vocês terem ideia do tamanho da nossa defasagem”, aponta Antônio Viola.
As remunerações na orquestra e no coral são consideradas as mais baixas entre instituições similares pelo País. O salário inicial nos dois órgãos, que têm a mesma carreira, é pouco maior do que o salário mínimo atual, em torno de R$ 1,6 mil.
O último concurso foi realizado em 2013. O resultado são as contratações temporárias de forma precária para os cargos vagos por meio da Minas Gerais Administração e Serviços (MGS) e de uma parceria com uma entidade sem fins lucrativos. Para os cargos mais especializados, como músicos e coralistas, a responsabilidade recai sobre a Associação Pró-Cultura e Promoção das Artes (APPA – Cultura & Patrimônio).
“Em 2019, detectamos contratos precários por meio do MEI, acionamos o Ministério Público do Trabalho e conseguimos reverter para a CLT, com mais estabilidade. Mas hoje isso está acontecendo de novo”, queixou-se Antonio Viola.
“Sem contar o assédio moral. Com a demissão da maestra Lígia Amadio, toda a orquestra se rebelou. Agora criam dificuldades até para fazermos reuniões com os músicos, que são pressionados de forma indevida”, emendou.
A reunião da Comissão do Trabalho foi marcada por depoimentos emocionados sobre a suposta situação de penúria da orquestra e do coral e, ainda, por momentos de tensão em virtude do temor de novas represálias.
A reunião chegou a ser suspensa a pedido do superintendente da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Minas Gerais, Carlos Alberto Menezes Calazans, após a denúncia de demissão de quatro trabalhadores temporários da FCS. Ao final da reunião, o barítono Eduardo Santana se identificou como um quinto demitido nas mesmas condições.
Isso teria acontecido mês passado, no dia seguinte à última audiência pública sobre o tema, realizada em 18 de março pela Comissão de Cultura da ALMG, justamente para debater outro suposto caso de represália na FCS: a demissão da maestra do cargo de diretora musical e regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, que completa 50 anos neste ano.
A demissão de Lígia Amadio ocorreu no início de janeiro de 2026, cerca de 40 dias após a maestra denunciar, em outra audiência pública da Comissão de Cultura, a precarização das condições de trabalho e a defasagem salarial dos músicos da orquestra mineira.
“Não podemos aceitar essas retaliações para quem fala da sua situação. A reunião só pode continuar com as garantias mínimas de direito de manifestação. Precisamos ter algum nível mínimo de convivência”, argumentou Carlos Calazans.
A reunião da Comissão do Trabalho desta quarta (29) foi retomada com o anúncio de Leleco Pimentel, que comandou a reunião, da composição de uma mesa de negociação.
Essa instância de diálogo deve se reunir a partir da próxima semana, na Superintendência Regional do Trabalho, para apurar as denúncias de represálias e tentar destravar a negociação com a direção da FCS e, por tabela, com o governo estadual.
“Não queremos só dinheiro, queremos respeito”
“Não queremos só dinheiro, queremos respeito”. A afirmação é do violoncelista João Cândido dos Santos, músico efetivo da Orquestra Sinfônica. Em tom de desabafo, revelou que seu último salário foi em torno de R$ 2,6 mil, o mesmo valor que custa apenas um encordoamento do violoncelo, utilizado nos concertos da Sinfônica, mas que ele próprio é obrigado a manter.
“São duas trocas por ano e o Estado nunca me deu nada para manter o instrumento. A cada apresentação mostramos a qualidade do nosso trabalho, mas, do outro lado, quem pode decidir melhorar nossas condições não nos enxerga dessa maneira. E quem assiste a um concerto bem-feito acha que está tudo bem e que nada precisa ser feito”, indigna-se.
“Mas somos pais e mães de família, avôs e avós, todos com contas a pagar. Fazemos bicos para levar recursos para casa”, admite. Só os encordoamentos são duas trocas por ano, feitas ao custo de mais R$ 500 a cada visita a um profissional especializado na manutenção do instrumento, que tem 124 anos e custa atualmente em torno de US$ 8 mil. “Não tenho seguro dele e preciso ter um carro para transportá-lo”, emenda.
João Cândido contou ainda que o salário de janeiro, quando não acontecem apresentações, é ainda menor, já que os músicos recebem um adicional por apresentação. “Já tivemos o caso de um músico tocando em condições precárias devido a um câncer para não perder essa verba. É chocante, é desumano”, diz.
Apesar da situação complicada, ele fez questão de exibir seu instrumento com orgulho da tribuna do Auditório José Alencar, onde aconteceu a reunião. Na orquestra de Goiás, segundo ele, o salário médio gira em torno de R$ 8 mil, mesmo valor da Bahia, e R$ 7,5 mil no Paraná. “Na Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, mantida com recursos públicos, é de R$ 10 mil. Não são valores altos pelos anos de estudo e dedicação; a discrepância é o nosso salário”, lamentou.
O cantor Paulo Henrique Campos Silva disse que a situação no Coral Lírico é muito semelhante. “O instrumento que eu preciso manter é minha voz, com a ajuda de fonoaudiólogo e otorrinos especializados, tudo por minha conta. Pode parecer caro manter uma orquestra e um coral, mas são patrimônios essenciais para a sociedade”, ilustrou.
“Ao longo dos últimos anos, muita gente talentosa saiu por oportunidades melhores. Três deles foram trabalhar em bancos, deixando a arte para a qual se prepararam pela vida toda. Isso é muito triste”, relatou Paulo Henrique.
Foi dele a denúncia da demissão de quatro trabalhadores contratados após audiência na ALMG. “Os demitidos são o elo mais fraco; eu estou aqui falando porque sou efetivo. Depois das demissões, argumentaram que agora vão contratar com rotatividade, por projeto. "Somos funções especializadas, isso não nos serve", criticou.
Concurso público é prioridade da nova gestão
O presidente da FCS, Yuri Mesquita, se colocou à disposição para o diálogo permanente com a categoria, incluindo a representação do Sindicato dos Músicos. Ele informou que encaminhou os estudos envolvendo as estruturas da cultura do Governo do Estado ao titular da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult), Leônidas José de Oliveira, e que a FCS estuda meios para viabilizar a manutenção de instrumentos musicais.
Segundo ele, já foram agendadas reuniões – que espera tornar permanentes - com as companhias e associações ligadas à fundação e com o sindicato. Sobre a possibilidade de perseguição a participantes da audiência, aventada por Carlos Calazans, o gestor buscou tranquilizar os participantes.
“Se houver qualquer ato de coerção ou de possíveis assédios, meu gabinete estará à disposição; não podemos permitir qualquer forma de assédio na Fundação, uma casa de cultura e artes, onde deve haver liberdade”, frisou. Por fim, o novo presidente da FCS reforçou que a realização de concurso público é prioridade na sua gestão.