Atrasos, sujeira e falta de segurança são queixas de usuários da Viação Pássaro Verde
Empresa admite falhas, anuncia novos ônibus e culpa concorrência com transporte clandestino.
Veículos com mau cheiro, sujos, sem cinto de segurança e com pneu careca, além de atrasos constantes nas viagens, foram alguns dos problemas levantados nesta quarta-feira (28/10/26) por usuários de ônibus da Viação Pássaro Verde, concessionária de transporte rodoviário intermunicipal que atende dezenas de municípios mineiros, como Belo Horizonte, Ponte Nova e Viçosa (Zona da Mata), Ouro Preto e Diamantina (Central).
Os problemas no serviço prestado pela empresa foram discutidos em audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) pela Comissão de Assuntos Municipais e Regionalização, a pedido de seu vice-presidente, Leleco Pimentel (PT).
Conforme resumiu o advogado Ezequiel Geraldo de Magela, “duas horas de atraso viraram o novo normal” das viagens compradas da Pássaro Verde, fundada há 70 anos e que já foi referência no segmento, como pontuou ele.
Segundo levantamento citado por Ezequiel, teriam sido realizadas 200 reclamações de passageiros nos últimos 15 dias, envolvendo viagens como para a região da Serra do Caraça, em municípios como Catas Altas e Santa Bárbara (Central). Foram destacados atrasos, ônibus sem limpeza, venda de mais passagens do que poltronas, crianças sentadas no chão, janelas fechadas e falta de ar-condicionado funcionando.
Outro usuário, também advogado, Rogério Fernandes, disse que nas últimas três semanas só tinha elogios sobre as viagens que fez pela Pássaro Verde entre Ouro Preto e a Capital, com ônibus novos e pontuais.
As melhorias teriam sido provocadas pela marcação da audiência na ALMG, disse ele. Até então, ele relatou vários transtornos enfrentados. "Mas meu divisor de águas foi o dia 19 de junho deste ano", contou sobre o momento em que decidiu formalizar os problemas, inclusive acionando o Ministério Público.
Perda de confiança
“Tenho 50 anos e a Pássaro Verde 70 anos, faz parte da minha história, mas nos últimos anos fomos perdendo a confiança”, lamentou Sidnéa Francisca dos Santos, citando viagens feitas em veículos com manutenção ruim, segundo ela, trazendo riscos de o passageiro ficar no meio do caminho por atrasos e estragos.
“Não temos mais horários diretos fixos, a maioria pega o ônibus em trânsito, em pontos fora da rodoviária”, disse ela, que sai de ponto em Veloso, em Ouro Preto, na linha com destino a Minas Novas (Jequitinhonha).
Ressaltando que os problemas causam estresse nos condutores, Sidnéa lembrou que, em 26 de agosto deste ano, um ônibus da viação, indo de Minas Novas para Belo Horizonte, sofreu um acidente e se incendiou, tendo o motorista retirado todos os passageiros. Ela reivindicou que ônibus em trechos mais perigosos rodem com dois condutores.
Vereadores também presentes endossaram os transtornos, como João Ronaldo Gomes, da Câmara de Catas Altas. Ele avaliou que o transporte clandestino só surgiu diante dos problemas das empresas regulares para atender às demandas a contento. E estas, ao mesmo tempo, não estariam suportando a falta de passageiros causada pelo clandestino.
Presidenta do Conselho Municipal de Saúde de Mariana, Ailda Anacleto pontuou que, sobretudo as mulheres, se sentem mais fragilizadas pela queda da qualidade dos serviços da Pássaro Verde, quando ônibus param em pontos pelas estradas ou estragam. Ela defendeu o retorno do auxiliar de viagem e cobrou maior fiscalização.
Viação admite falhas e anuncia novos ônibus
Procuradora da Pássaro Verde, Rejane Suely de Sena Luberiaga reconheceu a existência de problemas e disse que a intenção da empresa é ter um serviço de excelência como há oito anos, quando a idade média da frota era de três anos e hoje estaria em 10.
“Fazemos mea-culpa e estamos constrangidos, mas também temos elementos que resultaram nisso”, disse ela, citando a pandemia e a concorrência com o transporte clandestino.
A representante da empresa argumentou que o serviço concessionário é caro para as empresas e obedece a regras, enquanto o clandestino não tem as obrigações das empresas. Segundo disse, sem o combate ao setor clandestino, não adianta o DER multar a viação por condição do veículo, "pois não se tem dinheiro para comprar outro (ônibus)".
Por outro lado, ela informou que a Pássaro Verde conta com uma frota de 100 ônibus e que recentemente quatro veículos zero foram incorporados à frota que atende a região de Ouro Preto. E outros nove devem ser remanejados de outras empresas do grupo para a frota da Pássaro Verde.
Sobre atrasos constantes reclamados na audiência, Rejane Suely disse que alguns deles ocorrem porque a BR-356 virou uma rota alternativa para quem não quer pagar pedágio, tornando o tráfego pesado.
Em resposta a questionamentos do deputado, ela disse que a empresa não está em recuperação judicial e que mais dez novos veículos estão sendo encarroçados para futuro incremento da frota.
Fiscalização vê problemas
“De fato, o sistema de transporte está em colapso”, afirmou Eriênio Jaderson de Souza, gerente de Fiscalização de Transporte e Trânsito do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado (DER-MG).
“Nunca fiscalizamos tanto o transporte clandestino, mas o problema é que ele cresce exponencialmente e nossa capacidade de fiscalização, não”, afirmou ele. Apesar disso, o gestor ressaltou que o DER não estaria se furtando, tendo só em 2026 contabilizado 384 autos de infração envolvendo a Pássaro Verde até o último dia 20.
No mesmo sentido, o representante da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (Seinfra), Diovane de Sá Leopoldino, disse que o gerenciamento do sistema de transporte num Estado com 853 municípios tem sido uma tarefa gigantesca.
Segundo ele, que é superintendente de Transporte Coletivo Intermunicipal e Metropolitano, é preciso vencer barreiras, assegurando a regulamentação das leis sobre o serviço, e rever o regulamento do sistema do transporte concedido, que dataria de 2007.
Comissão irá à empresa
O deputado Leleco Pimentel destacou que, em 9 de novembro, a comissão fará uma visita à garagem da Pássaro Verde, conforme requerimento de sua autoria aprovado na reunião, para verificar as instalações e a frota da empresa. Uma nova audiência na sequência deverá analisar providências para corrigir problemas.
Autor de projeto de lei em fase final de tramitação na ALMG, tratando da mobilidade urbana e rural de Minas Gerais, o deputado defendeu as concessões públicas e o transporte público, inclusive por meio de um fundo público nas três esferas de governo.
“A mobilidade é um problema que afeta a todos e um direito humano a ser cumprido”, registrou Leleco Pimentel, endossando as críticas dos passageiros da viação e anunciando vários outros requerimentos com pedidos de providências à empresa e a órgãos públicos.
O deputado Dalmo Ribeiro (PSDB) considerou justas as reivindicações por melhorias da qualidade dos serviços da viação.