DEPUTADO GUSTAVO SANTANA (PL), autor do requerimento que deu origem à homenagem
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 26/08/2026
Página 2, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 19435 de 2026
Normas citadas RAL nº 5658, de 2026
31ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 24/8/2026
Palavras do deputado Gustavo Santana
Boa noite a todas e a todos. Quero cumprimentar o nosso presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, grande amigo e parceiro, Tadeu Leite; o Exmo. Delegado Richard, superintendente regional da Polícia Federal em Minas Gerais; o Exmo. Sr. Paulo de Tarso Morais Filho, procurador-geral de justiça do Estado de Minas Gerais; o Exmo. Sr. Desembargador Carlos Henrique Perpétuo Braga, presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais; o Exmo. Gen.-Div. Adriano Fructuoso da Costa, comandante da 4ª Região Militar do Exército Brasileiro; o Exmo. Carlos Henrique Dumont Silva, procurador-chefe da Procuradoria da República em Minas Gerais; o Exmo. Sr. Tarcísio Parreiras, procurador regional eleitoral; o Exmo. Sr. Max Emiliano, chefe do Ministério Público do Trabalho. Não posso deixar de cumprimentar nossos colegas aqui, meu e do Tadeu, deputados Doorgal Andrada e Tito Torres.
Minha senhoras, meus senhores, há sessões em que esta Casa faz leis; há outras, mais raras e mais belas, em que esta Casa faz justiça. A de hoje é destas. Não subo a esta tribuna para cumprir formalidade regimental. Subo para saldar dívida, aquela dívida silenciosa que um povo contrai com os homens que o defendem sem lhe pedir aplauso, que velam enquanto ele dorme e que fazem do distintivo, não um privilégio, mas um fardo voluntariamente carregado.
Permitam-me recordar por onde começam todas as grandes histórias brasileiras: pelo berço. Nasceu Richard Murad Macedo na Bahia, na mesma Salvador que deu ao Brasil a mais alta voz que jamais se ergueu em defesa do direito: Ruy Barbosa. Não invoco aqui a Águia de Haia por adorno retórico, Sr. Presidente. Invoco-a porque foi Ruy quem nos ensinou, na sua Oração aos moços, que “legalidade e liberdade são as tábuas de vida da democracia”. E porque a carreira que hoje homenageamos é, do primeiro ao último dia, a tradução prática dessa sentença: uma vida inteira passada a demonstrar que a lei não é a inimiga da liberdade, é a sua única fiadora.
Mas, se a Bahia lhe deu o berço, foi Minas que lhe deu o chão. Ainda menino, desceu com a família rumo às serras da Zona da Mata e fincou raízes em Manhuaçu. Foi ali que se fez gente. Foi ali que aprendeu o mineirês da alma, que não é sotaque, é temperamento. É a arte de falar pouco e cumprir muito. É a desconfiança sadia diante do fácil e a fidelidade teimosa diante do difícil. De Manhuaçu para Belo Horizonte; de Belo Horizonte para os bancos da PUC Minas, onde se bacharelou em direito, na turma de 2003; e de lá para o Brasil inteiro, mas nunca, jamais, para longe de Minas!
E aqui, senhoras e senhores, chego à parte deste discurso que nenhum currículo comporta, porque não cabe em diploma nem se comprova por certidão. Antes da PUC Minas, antes da Academia Nacional de Polícia, antes do FBI em Quantico, na Virgínia, antes da França, houve uma escola anterior, mais severa e mais doce que todas elas: a mesa da casa de seus pais. Foi ali que se ensinou ao Richard que a palavra dada é contrato que dispensa firma reconhecida. Foi ali que aprendeu que honestidade não é virtude de ocasião que se veste quando alguém está olhando, é a mesma no escuro e na luz, na fartura e na falta. Foi ali que compreendeu que o trabalho não humilha ninguém, dignifica a todos. Foi ali que recebeu a fé que não é adorno de domingo, mas bússola de segunda-feira. Foi ali, sobretudo, que lhe disseram a lição que havia de guiá-lo por três continentes: que ninguém é grande o bastante para humilhar, nem pequeno o bastante para ser humilhado. Seus pais não lhe deixaram fortuna, deixaram o caráter, que é a única herança que o tempo não corrói, que o infortúnio não confisca e que a corrupção, por mais alto que lance, jamais consegue comprar.
Quântico ensinou-lhe a liderar. A França ensinou-lhe os subterrâneos por onde escoa o dinheiro do crime. Mas Manhuaçu já havia lhe ensinado o essencial. Onde quer que hoje estejam, é a seus pais que esta Casa presta, neste instante, a primeira das suas reverências, porque não se homenageia um homem íntegro sem homenagear, no mesmo gesto, quem o formou.
Em 2008, o Estado brasileiro entregou-lhe uma insígnia e um dever: delegado de Polícia Federal. Mandaram-no para o Acre, onde a Pátria é larga e o Estado distante. Ali chefiou delegacias, comandou o enfrentamento ao crime organizado, respondeu pela superintendência. Mandaram-no para o Amazonas, e outra vez a confiança da instituição o encontrou no posto de comando. Trouxeram-no de volta a Minas Gerais, e Minas o viu supervisionar o Grupo Especial de Investigações Sensíveis, integrar as forças de combate ao crime organizado e conduzir as operações que perseguiu o tráfico internacional e a lavagem de dinheiro até naquela mesma Zona da Mata que o criara. Reparem na simetria: a terra que lhe deu a infância recebeu-lhe, adulto, a proteção. Há dívidas que só se pagam assim. Depois vem Roraima, e aqui peço a atenção de todos. Pergunte ao garimpo ilegal quem lhe barrou a marcha sobre as terras ianomâmi, quando ainda era incômodo falar disso. A Operação Tori responde. Pergunte aos milhares de venezuelanos que atravessaram a fronteira com fome, com medo, com filhos ao colo, quem os recebeu com o documento na mão em vez da porta na cara. A Operação Acolhida responde.
Rui Barbosa escreveu que a regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais na medida em que se desigualam. Pois, senhoras e senhores, este é um homem que não leu essa frase apenas para citá-la em prova de concurso. Leu-a para praticá-la na fronteira, sob o sol de Pacaraima, diante de gente que não tinha nada, sequer tinha país. Eis a marca da biografia: o rigor técnico de mãos dadas com a sensibilidade humana, a firmeza que não se converte em crueldade, a autoridade que não precisa de arrogância para ser obedecida.
Depois a diplomacia policial no Paraguai: oficial de enlace junto à Senad, tecendo, fio a fio, a cooperação que asfixia o narcotráfico na fronteira que mais fere o Brasil. Serviu ao seu país falando outra língua e fez-se entender, porque a integridade é um idioma universal. Vieram então as condecorações. A Marinha do Brasil o condecorou, o Exército Brasileiro o condecorou, a Força Aérea o fez membro honroso. A República do Paraguai lhe conferiu a Medalha de Honra ao Mérito da Inteligência Nacional e a Medalha do Mérito da Polícia Nacional. Mas eu vos digo, senhoras e senhores, que nenhuma dessas medalhas pesa no peito o que pesa o gesto de hoje, porque a medalha é o reconhecimento de uma instituição. O que Minas oferece agora não é reconhecimento, é o parentesco; não é consideração, é o pertencimento. Não lhe dizemos “obrigado, senhor”; dizemos “você é dos nossos”.
Desde 2024, Richard é o superintendente da Polícia Federal em Minas Gerais, e o faz sob três palavras de ordem que esta Casa acompanha e aplaude: Integração: porque o crime organizado não pede licença nas divisas dos estados, e o Estado não pode dar-se ao luxo de trabalhar em ilhas. A Força Integrada de Combate ao Crime Organizado, unindo Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Penal e Ministério Público, é a prova de que a segurança pública é obra coral, não solo de vaidade. Interior: porque Minas não termina no Anel Rodoviário. São 853 municípios de gente que também merece Estado presente, e é para eles que se voltam as delegacias descentralizadas que hoje recebem atenção e voz. Gente, a chamada gestão humanizada: porque quem se dedica a cuidar de um povo inteiro precisa, primeiro, ser cuidado como pessoa. O policial que é amparado protege melhor. O servidor que se sente visto trabalha por convicção, não por obrigação.
Ruy Barbosa dizia que “a pátria não é ninguém: são todos”. Hoje esta Assembleia, em nome de todos, cumpre um ato simples de justiça. Richard: nascido baiano, forjado mineiro, servidor brasileiro, homem do mundo e, ainda assim, sempre o menino de Manhuaçu que os pais educaram para não trair a palavra empenhada. Minas Gerais, pela Resolução nº 5.658/2026, não lhe concede um título. Minas está apenas reconhecendo, em documento público, aquilo que já estava escrito na sua história e na sua conduta. Não lhe damos a cidadania: nós a confirmamos. Ela já era sua desde o dia em que um menino desceu as serras da Zona da Mata e resolveu, sem saber, que devolveria a este estado tudo aquilo que dele recebeu. Que este título o encontre, o senhor e a sua família, não como ponto final de uma carreira, mas como abraço de um povo que sabe distinguir o servidor do funcionário, o comando da chefia, o homem público do ocupante de cargo. Seja bem-vindo, Richard. Minas Gerais não o adota; Minas Gerais o reconhece, e, ao reconhecê-lo, honra a si mesma. Muito obrigado. Deputado Gustavo Santana.