DEPUTADA LENINHA (PT), presidente "ad hoc"
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 04/03/2026
Página 10, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 16231 de 2026
2ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 2/3/2026
Palavras da presidenta (deputada Leninha)
Boa noite mais uma vez. É uma alegria ver esta Casa ocupada por vocês, como disse o deputado Leleco. Eu queria saudar aqueles que nos acompanham através das redes e dos canais de comunicação da Assembleia Legislativa; o meu amigo deputado Leleco Pimentel, parceiro cotidiano do Parlamento. Eu falo que ele é casca de bala, pois me protege demais e está sempre firme no Plenário, diante de tantos ataques que nós, mulheres, mulheres negras, mulheres da esquerda, sofremos.
Leleco, você deu origem a essa proposição, e foi muito importante a sua chegada a esta legislatura. A gente sempre evidenciou os temas da Campanha da Fraternidade, para que as pessoas, esta Casa, outros deputados católicos pudéssemos reverberar esse tema nas leis que a gente discute e aprova na Casa. Parabéns por esta iniciativa.
Eu queria cumprimentar o Pe. João. Estamos falando para ele fazer uma saudação, mas ele falou que está contemplado tanto pela fala do Carlão, quanto pela fala do Pe. Rodrigo. Eu queria cumprimentar a irmã Cristina, nossa parceira da Assembleia, que está acompanhando a reunião; a Claudenice, que hoje é coordenadora da Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte; o Carlão, coordenador da Pastoral Metropolitana; o nosso homenageado, Pe. Rodrigo de Souza, representando a CNBB; e todo o clero presente. Eu sei que também estão presentes frei Pedro, o José, o franciscano de Betim, que está na galeria; Pe. Henrique, todo o clero presente. Inclusive o Soró, que preside o PT de Betim, está aqui. A Rafaela, nossa querida cadeirante, está aqui na frente.
O Leleco está na luta conosco por moradia, pelo teto. Antes de fazer o pronunciamento do presidente, eu queria destacar duas questões que, para mim, são fundamentais. O Pe. Roberto falou muito bem, assim como o Leleco e o Carlão. Nós vivemos num país muito desigual. Trata-se de um país rico não só em riqueza financeira, como também em recursos naturais, mas é um país muito desigual. O papa Francisco lembrava muito bem que a prática da política não era só a caridade, a fraternidade, mas principalmente a justiça social. É por isso que todos nós estamos aqui. Refiro-me tanto a vocês, que estão em outras trincheiras, quanto a nós, que estamos no Parlamento. A gente tem muita injustiça social neste país. Por isso estamos neste Parlamento brigando muito. Somos minoria. Lutamos bravamente. Às vezes, somos derrotados, mas sabemos que estamos do lado certo da história. Não temos dúvida de qual lado estamos, mas se alguém tem dúvida, fique do lado dos pobres. A gente não carrega essa dúvida no Parlamento, enquanto mandatários, representantes eleitos por vocês. Eu queria falar isso porque sabemos que, para fazer justiça social, temos que mudar muito a estrutura, inclusive política, do Brasil. Os que sempre mandaram neste país, os que sempre se sentaram nas cadeiras de poder foram aqueles que sempre tentaram invisibilizar nossa gente pobre, a gente miúda, a gente pequena, mas valente – valente para continuar vivendo neste mundo. Então a nossa luta também é política a fim de que possamos ter representantes para, de fato, construir políticas públicas pela dignidade.
É muito importante quando a Igreja Católica – parte da nossa igreja, não é, gente? – e a CNBB colocam temas que devem nos provocar nessa busca pela justiça. Em todos os anos, quando adentramos o tema da Campanha da Fraternidade – como disse o Carlão, não queremos que isso fique só no período da Quaresma, mas que seja um tema para o ano inteiro –, ele traz e abre uma ferida na sociedade, dizendo que precisamos mudar essa realidade. Sei muito bem o que é isso. Estive em Juiz de Fora, em uma comitiva, no sábado, e vimos o quanto o nosso povo que mais sofre… Na discussão do racismo ambiental, das grandes enchentes, o problema não são as chuvas. Eu vim do semiárido mineiro, um lugar em que chove tudo, mas fica meses sem chover. O problema não é a chuva. O problema é a falta de políticas públicas a fim de se construírem moradias decentes para que, de fato, o nosso povo também ocupe lugares decentes na cidade.
Eu me lembrei, como criança pobre que eu fui, da minha casa, em que havia muita goteira. À noite, quando chovia, minha mãe ficava procurando nos abrigar para que a cama não molhasse muito. Ela ficava mudando a cama de lugar e buscava panelas para aparar as goteiras, pois havia muitas. Hoje, estando num teto seguro, eu não me esqueço das noites de chuva pelas quais passei e não me esqueço dos meus irmãos que, quando começa a chover forte, se preocupam com o que fazer com os filhos: “E se a chuva engrossar? E se a água subir? O que fazer?”. Eles saem de casa sem nada levar.
Então eu me lembro – eu me lembro perfeitamente – do que é ter uma moradia que traz insegurança, principalmente nos períodos de chuva. É por isso que a gente está aqui; não só para dar testemunho, mas para lutar, lutar para que as pessoas tenham teto e tenham dignidade. É muito importante que a CNBB faça isso e que nós nos enredemos nesse tema para fazermos questões concretas, como disseram o Pe. Rodrigo e o Leleco. Nós estamos falando de luta, não é, Carlão? Luta! A gente também acompanha essa discussão na luta pela manutenção nas ocupações, na luta que a gente faz nos tribunais para que as pessoas tenham direito a ter uma escritura, uma casa digna. Penso que é assim que vamos construindo, todos nós juntos, no lugar em que estamos, seja na resistência das ocupações, seja aqui no Parlamento.
Encerro a minha parte e não posso deixar de trazer o abraço do presidente desta Casa, o deputado Tadeu, que mandou seu pronunciamento para esta noite. Ele está em atividade em outra agenda, e eu fiz questão de vir, porque esse é um tema e uma caminhada que se referem aos lugares de onde vim – e eu não nego de onde vim: das CEBs, das pastorais, da minha diocese, de onde vieram o Leleco e o Padre João, enfim, de onde viemos nós, que ocupamos a política.
As palavras do presidente Tadeu: (– Lê:) “O povo mineiro é reconhecido, ao longo da história, por sua religiosidade e sua devoção, por uma fé que se expressa na solidariedade, muitas vezes silenciosa, no cuidado e no desprendimento com o próximo, na certeza de que vamos mais longe quando caminhamos juntos. É com esse espírito que nos reunimos nesta solenidade para homenagear a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB –, pela Campanha da Fraternidade de 2026.
O tema da campanha deste ano, “Fraternidade e moradia”, nos convida a uma reflexão em que se entrelaçam o espírito e a matéria, o espaço da intimidade e a dimensão social. Ao escolher a moradia digna como tema para 2026, a CNBB nos lembra de algo fundamental: o direito à moradia é, antes de tudo, o direito de existir com dignidade. O direito à moradia é o direito de ter um lugar no mundo. É o direito de contar com um teto que protege, uma porta que abre e acolhe, um espaço onde a vida pode se refazer e se renovar.
Nós, parlamentares mineiros, sabemos que essa compreensão deve nos levar a agir com efetividade para que Minas Gerais seja, cada vez mais, um lugar onde todos possam viver com dignidade, segurança e esperança. Essa missão exige políticas públicas responsáveis, planejamento urbano sensível, compromisso social e, acima de tudo, a capacidade de enxergar, em cada pessoa sem moradia, não um problema, mas a vida de um semelhante. Ao promover a campanha da fraternidade, a CNBB presta ao Brasil um serviço que ultrapassa o campo religioso e que fortalece as bases éticas da vida pública.
Nesta Casa, que é a casa do povo mineiro, reconhecemos e celebramos essa missão e reafirmamos nosso compromisso de seguir trabalhando, com diálogo e participação, para que esses valores éticos se expressem como realidade concreta na vida das pessoas. Que a mensagem dessa campanha da CNBB possa inspirar a todos nós, mineiras e mineiros, fortalecendo nosso senso de responsabilidade e nos ajudando a construir uma Minas Gerais cada vez mais justa, mais humana e mais fraterna. Muito obrigado.”
A locutora – Após o encerramento regimental, acompanharemos o jogral alusivo ao tema da Campanha da Fraternidade de 2026, que será apresentado, sob a coordenação do Pe. Roberto Rubens da Silva, vigário episcopal para a Ação Social, Política e Ambiental da Arquidiocese de Belo Horizonte.
A presidenta – Eu farei a leitura aqui, mas não é para vocês saírem, viu? Vamos acompanhar a apresentação. Isso faz parte do protocolo.