CARLOS ALBERTO SANTOS DA SILVA, coordenador da Pastoral Metropolitana dos Sem-Casa da Arquidiocese de Belo Horizonte
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 04/03/2026
Página 8, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 16231 de 2026
2ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 2/3/2026
Palavras do Sr. Carlos Alberto Santos da Silva
Boa noite a todos. Primeiramente, quero agradecer a Deus. Em segundo lugar, quero que vocês se levantem. Em memória do nosso mentor, Pe. Piggi, vamos rezar o Pai-Nosso. (– Fazem a oração.)
Vamos lá. Eu não sei falar bonito. Primeiramente, quero agradecer a Deus. Através de várias coisas, faço uma retrospectiva da nossa vida pastoral, quando a gente começou lá atrás. A gente começou lá atrás, com um homem que assentou 54 mil famílias, que hoje moram dignamente, e que talvez não teve a credibilidade necessária em vida, que era o Pe. Piggi. Quero que vocês batam… Para não perder o sentido de quem foi esse homem, quero que vocês batam uma salva de palmas para ele. Pe. Piggi, presente!
Foi dessa forma que fomos construindo a habitação, que fomos construindo esse grupo que ele me orientou a fazer. “Qualifique as pessoas no direito que é delas e peça a elas para lutar – para lutar, não esperar; lutar.” E é o que a gente faz. Agradeço a toda a pastoral. Deputado Leleco, deputada Leninha, deputado Padre João e demais, eu não movo isso sozinho, não. Temos coordenadores, temos pessoas que deixam a sua vida, os seus afazeres diários, para doar o seu tempo em qualificar famílias.
Toda vez que penso nessa retrospectiva passada, penso em quantas vezes estivemos nesta Casa e não fomos atendidos. Quantas vezes não nos deixaram entrar? Mas hoje me sinto fortalecido e até entendo. Com essa Campanha da Fraternidade, quero aqui, orgulhosamente, agradecer ao bispo; ao frei Marcelo, da Pastoral da Moradia e Favela; a todos os envolvidos; ao Pe. Roberto, que não estou vendo; ao Vicariato para Ação Social e Política; ao Rafael, do Movimento Popular de Rua; à Claudenice, da Pastoral de Rua. É isso que nos move. Os nossos direitos não são aferidos. A gente precisa lutar por eles dessa forma. A gente precisa lutar, porque é nosso. É o que a gente sempre fala nas pastorais: é o nosso direito, ninguém vai passar por cima dele.
Essa Campanha da Fraternidade veio para dar um gás. Sempre falo, desde lá atrás: o problema da moradia não é um problema da igreja, é um problema social. Mas o papel da igreja é muito fundamental neste momento. Talvez não vamos ver nunca mais, deputado Leleco, a construção deste país, em relação à moradia, igual vai ser em 2027, do jeito que a gente espera que isso vai acontecer. Eles incitaram as pessoas de baixa renda, dentro desse direito ilusório… Hoje o governo federal – eu não digo o Estado – e os municípios estão muito focados e agora não conseguem mais falar nada, porque a pauta do Brasil é moradia.
A gente precisa assentar essas famílias para morarem dignamente. Por quê? Porque nós vamos morrer, padre, e daqui a alguns dias não vamos mais precisar de casa. Quero agradecer muito ao Leleco e à Leninha por me deixarem falar. Eu não podia ir embora sem fazer isso, não. Nós estamos clamando por moradia de uma forma muito séria. A desburocratização dos terrenos da União, dos prédios ociosos da SPU tem que ser falada, discutida, cobrada. Vamos ver onde está isso para fazer valer o nosso direito, senão ele vai passar. Hoje são a mãe e o filho precisando de casa. O avô não conta. Todos precisam de casa. Falam que a pessoa de baixa renda vende a moradia, mas ela não vende. Após a construção de uma moradia existe o pós-morar. Não adianta a gente colocar as famílias… Da forma como foi construído o País, com essa verticalização… O saudoso Piggi falava dos “apertamentos”, que não são uma moradia digna.
Vários companheiros aqui viajaram conosco para São Paulo para tentar entender o que São Paulo faz e o que não faz. Era melhor não terem ido. Fazer retrofit de 30m²? Isso é besteira, não adianta, não é moradia digna. Aí surgem esses planos… A gente está cansado. O tal do plano nacional, que agora envolveu a Caixa Econômica Federal… Isso também virou outra política de habitação para que você entre nela. É muito sério isso. Quando a gente fala que morar é um direito e que ocupar é um privilégio… Ocupar é… Vamos lá! A gente não ocupou até hoje. Eu vim de uma moradia de 1991. A gente ficou na Igreja São José e depois foi para o Marzagão. O Vila Mariquinha foi o último empreendimento de moradia de interesse social do Estado, de 1992. De lá para cá só foi…
Há outros lugares, municípios que são ricos em terra, já fazem as suas leis de uso e ocupação do solo, destinam a ela… É bonito. Mas as grandes metrópoles estão enforcadas com esse tanto de gente. Agora, devido a várias coisas, as ocupações não tiveram uma política certa de moradia. Morar é um privilégio. Eu saúdo todas as ocupações, porque, querendo ou não, as pessoas estão morando. O Estado e o município não fizeram isso. As ocupações são muito importantes porque estão lá, com todas as famílias morando, fazendo direito na tora. É um direito. A gente então vai partir para isso. E é uma coisa que eu não quero. Eu quero construir. A gente sabe fazer autoconstrução e autogestão; a gente sabe construir para valorizar as famílias. É um direito, e elas nunca vão querer vender nem emprestar, porque vão participar de toda a construção das moradias.
Essa Campanha da Fraternidade… Lá atrás, quando frei Marcelo me ligou, eu falei: “Frei, esse é um problema muito sério. Mas é muito importante a CNBB jogar isso”. Por quê? A ideologia da moradia… A Campanha da Fraternidade de 1993 deu um avanço muito grande também, incitou muita coisa. Eu até falei com ele: “Frei, Deus abençoe que essa Campanha da Fraternidade não fique igual à quaresma. Nós não vamos deixar isso acontecer. Depois da quaresma, acaba a luta, acaba tudo. Nós não vamos deixar isso acontecer. A quaresma vai passar, e a gente vai lutar com a Pastoral da Moradia e Favela e com a Pastoral Metropolitana dos Sem-Casa até conquistar o nosso tão sonhado lar”.
Há muitas pessoas aqui que já estão assim, talvez indicadas. A gente está com uma autoconstrução na cidade de Contagem para poder fazer uma autoconstrução de autogestão. Isso não é fácil. Quando eu vi que não havia mais condições de fazer nada e fiquei na espera, falei: “Ou a gente age de forma construtiva para chegar a fazer ou a gente para com isso”. Eu opinei por tentar entender no âmbito nacional, estadual e municipal, com Belo Horizonte e o colar metropolitano, como a gente poderia fazer isso de forma mais precisa, como a gente poderia entregar às famílias o seu sonhado lar. Junto com os coordenadores e a pastoral, essa construção foi feita. Agora nós vamos tentar ao máximo fazer uma massa de assentamento. Para quê? Para provar para quem duvidou, para quem achou que não faz… Esqueça todos os seus pensamentos negativos ou políticos. Eu tenho um presidente que vai fazer. Estive com ele em Brasília e sei que, em relação à pauta, há muito dinheiro para fazer. O problema é a briga política. O Estado não quer fazer, porque talvez não converse com o governo federal, e nós no meio disso. A gente vai se manifestar. Peço a vocês força. Nunca foi fácil. Agora, há uma margem muito grande para a gente começar a fazer essas construções; se não houver como fazer a construção, ocupar é um direito.
Saúdo a todos. Quero que Deus abençoe cada um. Pe. Roberto, muito obrigado pelos vales-transportes. A galera já agradeceu. Muito obrigado por tudo. Você é um companheiro… Eu quero falar em tribuna que o vicariato da ação social e política é um parceiro da pastoral há muito tempo e que faz a nossa ajuda. Amém! Não vou me delongar, porque há gente para falar. Um abraço.