DEPUTADA BEATRIZ CERQUEIRA (PT)
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/12/2025
Página 123, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas PL 4380 de 2025
43ª REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA DA 20ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 43ª LEGISLATURA, EM 17/12/2025
Palavras da deputada Beatriz Cerqueira
A deputada Beatriz Cerqueira – Acho que todo esse processo da privatização da Copasa foi muito pedagógico. Porque não se trata de argumento. Não se trata de conhecer uma Copasa com o potencial e com a importância que tem. Não se trata de nada que nós pudéssemos ter dito durante todo esse período, da PEC até a tramitação do projeto. Hoje, para vir para o Plenário – a gente ia fazer várias falas –, eu peguei todo o meu material. Vejam aqui. Por meses, nós estamos falando o óbvio. Nós estamos falando do absurdo que é esse projeto tramitar nesta Casa. E, por meses, o governo não forneceu informações, a base do governo ficou em silêncio, porque esse debate não é sobre o direito da população ao acesso à água, ao saneamento básico ou sobre a Copasa. Essa votação é sobre o que o jornal O Globo evidenciou um tempo atrás: “Zema adota estratégia de Cláudio Castro para usar R$1.400.000.000,00 em obras e turbinar candidatura do vice em 2026”. Nós, em Minas Gerais, ficamos reféns de um projeto de poder, de entregar uma estatal para grupos econômicos, para a manutenção de um grupo no poder e para outro disputar o poder nacionalmente.
A votação que vai acontecer daqui a pouco é uma vergonha. Ela é uma vergonha, porque um Parlamento deveria cuidar da soberania do seu povo. (– Manifestação nas galerias.) Se você não tem um Parlamento, na sua diversidade, na sua dimensão, com 77 vozes cuidando dos interesses do seu Estado, o povo vai ter quem? Este debate é sobre soberania, é sobre algo fundamental. O mundo está reestatizando, e nós estamos jogando fora o direito do povo a… Eu não estou atrapalhando ninguém, não é, gente? Eu não vou continuar, não. (– Manifestação nas galerias.) Sabem por quê? Sabem por que eu parei da outra vez? A única coisa que nós temos é esta fala, porque, quando chegar a votação daqui a pouco, nós vamos perder, e nós sabíamos da nossa derrota quando começamos, às 10 horas da manhã. Mas saber da nossa derrota no placar não nos tira a responsabilidade de fazer o debate.
Nós não somos parlamentares para ficarmos do lado que vai vencer. Nós não somos parlamentares para ficar bem no placar. Nós somos parlamentares porque, neste tapete vermelho, nós juramos honrar a Constituição do Estado, e essa votação rasga a Constituição do Estado. É por isso que tem hora que a gente para de falar. É por isso que tem hora que a gente não aceita falas paralelas mesmo, não, porque o que a gente tem para fazer aqui é usar a nossa voz, a nossa fala, com os nossos corpos exaustos de falar o óbvio por meses, de debater conteúdo e não ter um incômodo no lugar que deveria se incomodar com a falta de conteúdo.
Nós estamos votando uma privatização sem conteúdo. Ninguém argumentou com a sociedade que privatizar será melhor. Eu acho isso uma vergonha! Ninguém debateu com a sociedade: “Olha, privatizar é melhor por isso, por isso e por isso”. “Os argumentos para continuar com a Copasa estatal não se sustentam por isso, por isso e por isso”. Nada. Nada! Nenhum documento. Não houve um documento que explicasse tecnicamente por que essa votação era necessária. Não é Propag, não é marco do saneamento, não é a necessidade de a população ter direito a algo, porque esse governo não respeita o direito da população. A conta vai aumentar assim que essa privatização for votada. Já vão começar a organizar a demissão de milhares de trabalhadores. A população não terá acesso a uma Copasa privatizada. E ninguém argumenta em relação ao porquê de que privatizar é melhor do que ter a Copasa estatal. Como se deprecia um patrimônio do Estado para atender projeto de poder! Essa votação é seu projeto de poder, para se disputar nacionalmente – e vai perder – e para tentar disputar em nível estadual, porque hoje o vice-governador não é conhecido, e quem o conhece o rejeita. Então é sobre a agenda eleitoral de 2026 e sobre como Minas Gerais abriu mão da sua soberania.
As guerras no mundo são organizadas hoje pelo controle dos nossos recursos naturais. É só ler jornais ou assistir à TV. Não está difícil entender. Não está difícil entender, porque o Trump está nos mostrando isso em toda a disputa mundial que ele está fazendo. E como nós estamos abrindo mão assim, sem um debate de conteúdo? Porque o que a gente fez nestes meses não é debate, pois para haver o debate tem que haver o argumento dos dois lados, tem que haver a contraposição, tem que haver tempo de amadurecimento na discussão. Nós não tivemos nada disso. Lamento muito.
Lamento muito essa votação, mas o que quero dizer é que nós cumprimos a nossa obrigação. Nós, que fomos eleitos no campo progressista, no campo popular, no campo de esquerda, temos a obrigação de defender os direitos do povo, mesmo quando isso não “lacra”, mesmo quando o videozinho não dá milhões de visualizações, porque a “lacração” é a violência na política, é a violência contra mulheres na política. É isso que “lacra” hoje. Nós não “lacramos” nesse período, mas a política não é sobre “lacração”; é sobre ocupar o espaço público para defender o interesse público, mesmo que essa defesa não seja uma defesa que vá “lacrar” nas redes sociais. Mas isso não é sobre “lacração”; é sobre estar do lado certo.
Nós fizemos toda a luta, toda a luta. Toda vírgula do Regimento Interno que poderíamos usar a nosso favor nós usamos. Todos os debates nós fizemos. Todas as audiências nós fizemos. Acho que muitos se ausentaram, e acho que quem ficou devendo nesse debate foram os prefeitos e prefeitas. Desculpem-me a franqueza. Nós ficamos sozinhos, nós ficamos isolados. Estávamos gritando, perdendo a voz, ficando aqui até a madrugada, e onde os prefeitos estavam? São as prefeituras que pagarão essa conta. Quem, no meio dessa confusão toda, já sinalizou para a Copasa que vai renovar contrato com uma Copasa privatizada ajudou na privatização. Os prefeitos se omitiram na sua grande – grande – maioria. São os municípios que vão pagar essa conta. É só olhar onde já está privatizado no nosso país. Faltou muita gente nessa batalha, e entre os que faltaram estão as prefeituras. Elas acharam que era um debate a que deveriam assistir de longe.
Esse debate não é só sobre o emprego de quem é trabalhador da Copasa. Se fosse sobre isso, seria legítimo, porque temos o direito de defender o nosso trabalho, temos o direito de defender a instituição ou a empresa em que ficamos nos últimos 30 anos. Mas não é! Não é só sobre esse debate. É sobre um futuro importante que impacta os municípios. Nós ficamos sem a voz dos municípios, que não se envolveram nesse debate importante, estratégico e necessário. Mas, mesmo com os ausentes, mesmo com os que se omitiram, mesmo com os que quiseram melhorar a privatização – que não tem como ser melhorada –, o que quero dizer, na minha última fala, é que nós fizemos toda a luta, todos nós que estamos aqui. Ninguém faz luta sozinho. Não adianta aquele que vai à frente se ele não tem retaguarda. Ninguém ganha sozinho. É um erro achar que alguém ganharia sozinho essa batalha, porque ninguém ganha sozinho.
Essa luta foi feita coletivamente, na diversidade, em algumas trombadas, em pensamentos diferentes, em táticas que às vezes foram diferentes, mas nós fizemos a luta. Vocês tiveram um grupo de deputadas e deputados que não arredaram o pé, nem de dia nem de madrugada, e que estiveram aqui fazendo a luta e fazendo as obstruções em comissões, que são extremamente desgastantes, extremamente desgastantes, cansativas e exaustivas. Nós não arredamos o pé da luta. Acho que esta é a prestação de contas que a gente precisa fazer com vocês: da luta que nós fizemos. E nós teremos orgulho do nosso voto nesse painel, porque nós votaremos a favor do povo mineiro. Nós votaremos a favor de uma Copasa estatal, que deveria ser fortalecida, que deveria ser protegida. Foi para isso que nós fomos eleitos e foi por isso que nós juramos proteger a Constituição Estadual. Ninguém aqui foi eleito com o direito de rasgar a Constituição Estadual. Isso fere a nossa democracia.
Esse debate e essa luta também foram sobre democracia, e nós fizemos a luta correta e estratégica. Tenho orgulho de ter feito parte dessa luta, mesmo que não sejamos vitoriosos no placar. Mas amanhã, quando cada aumento de tarifa acontecer, quando cada corrupção for comprovada, porque haverá corrupção, e existe muito grupo econômico a fim de ter as mãos naquilo que foi construído pela Copasa, nós vamos dizer: nós fizemos a luta; nós avisamos! E nós vamos continuar a luta em outros lugares, porque a luta parlamentar não é a única luta, ela é estratégica.
Para finalizar, acho que essa luta precisa nos ensinar mais como classe trabalhadora. Às vezes, a gente ignora parlamento – às vezes a gente acha que parlamento não é lugar de luta. Várias votações: foi por muito pouco! Isso significa que, o tempo inteiro, nós estávamos corretos em fazer a luta, porque essa luta nós sempre tivemos chance de ganhar. E essa luta, no parlamento, precisa ser feita mais, mais apropriada e mais incentivada, porque é aqui que decidem a vida da gente. Quando a gente se ausenta, decidem por nós. Então nunca mais nos ausentemos da luta no parlamento! Viva a Copasa! Viva os seus trabalhadores! Não à sua privatização!
O presidente – Obrigado, deputada Beatriz Cerqueira.