Pronunciamentos

ALDA LOPES DE OLIVEIRA COSTA, primeira médica-legista do Brasil

Discurso

Agradece a homenagem recebida pelo seu 100º aniversário.
Reunião 36ª reunião ESPECIAL
Legislatura 20ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 18/10/2025
Página 5, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 11990 de 2025

36ª REUNIÃO ESPECIAL DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 16/10/2025

Palavras da Sra. Alda Lopes de Oliveira Costa

Deputado Arlen Santiago, que fez a gentileza de indicar o meu nome ao presidente da Assembleia, Dr. Tadeu Leite; Dr. Thales Bittencourt de Barcelos, superintendente de polícia técnico-científica da Polícia Civil do Estado de Minas Gerais; Sr. José Roberto de Rezende Costa, ex-diretor do Instituto Médico Legal de Belo Horizonte, representando o presidente da Associação Mineira de Medicina Legal; senhoras e senhores; amigas e amigos; estou aqui com o coração transbordante de alegria e de gratidão neste momento de alegria. Quero agradecer ao Deus Todo-Poderoso; aos meus pais, que me deram o maior dos presentes, que é a vida; ao meu saudoso esposo Walter, que me fez feliz; e a todas as pessoas que contribuíram para eu ser a pessoa que sou.

Ser homenageada por esta Casa, representação máxima do Estado de Minas Gerais, é uma honra, honra esta que compartilho com todas as mulheres que lutam e lutaram para o cumprimento de suas obrigações. Represento a mulher que não desiste, que não cede às suas dificuldades, principalmente àquelas que perseguem seus sonhos.

Justamente hoje, há 100 anos, no dia 16/10/1925, eu nascia em uma pequena cidade chamada Poté, no Vale do Mucuri, perto de Teófilo Otoni. Fui alfabetizada aos 7 anos de idade no Colégio Santa Clara, na cidade de Itambacuri. Aos 12 anos, vim para Belo Horizonte, a fim de fazer o curso ginasial e o científico, já pensando num curso superior.

Ingressei na Faculdade de Medicina em 1947. Quando terminei o curso no colégio, eu deveria fazer um cursinho para prestar o vestibular e entrar na faculdade, mas eu morava em um pensionato situado, até hoje, na Rua Espírito Santo com Rua Bernardo Guimarães, e o portão do pensionato era fechado às 21h30min, sendo que o cursinho terminava às 22 horas. Então o que foi que eu fiz? Estudei sozinha, a partir do período da segunda quinzena de dezembro, janeiro e fevereiro, e, no dia 2 ou 3 de março, prestei o vestibular na Faculdade de Medicina. Na ocasião, eram 100 vagas e foram aprovados 97 alunos. Desses 97, 7 eram mulheres e 90 eram homens. Eu tive a felicidade de ser classificada em 9º lugar.

Quando ingressei na Faculdade de Medicina, em 1947, já no segundo ano de faculdade, fui nomeada funcionária pública da Secretaria de Saúde, a fim de que isso pudesse me ajudar a pagar a mensalidade da faculdade, a qual não era federalizada – ela só veio a ser federalizada em 1949. Ao terminar o meu curso de medicina, eu tinha que regularizar a minha situação de funcionária pública, isto é, eu deveria ser nomeada médica do Estado. Enquanto aguardava essa nomeação, fiz o curso de higiene e psiquiatria no Estado do Rio de Janeiro. Vindo para Belo Horizonte, em 24/2/1954, fui recebida no Palácio pelo então governador Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira, que me recebeu de maneira paternal, chamando-me de menina, porque na época eu era recém-formada. Ele me disse: “Não se assuste com o seu cargo. É o único existente no quadro médico do Estado. Você vai prestar serviço no Hospital do Pronto-Socorro”. Na época, esse hospital era pronto-socorro e medicina legal, ou seja, um departamento único.

Ao me apresentar ao diretor do pronto-socorro, fui recebida de maneira pouco cordial. Num telefonema, ele disse referindo-se à minha pessoa: “Acabo de receber um grande abacaxi”. É. Com bom humor, disse que não me sentia zangada, porque adoro abacaxi. Acho o abacaxi uma fruta deliciosa. Ele tentou se desculpar dizendo: “Aqui, no pronto-socorro, só há médicos e, nos dias de plantão, cada apartamento destinado a eles é ocupado por dois médicos. No dia do seu plantão, vou ter que arranjar um apartamento só para você, e não tenho esse apartamento”. Eu disse: “Alguma vez tem que ser a primeira. É problema do senhor”. Ele resolveu, e posso considerar que essa foi uma das primeiras conquistas femininas.

Iniciando o meu trabalho no pronto-socorro, observei uma situação “superantimédica” e antiética. As crianças ali internadas eram agregadas aos pés dos leitos das mulheres na enfermaria de mulheres. Isso é um absurdo! Fiz ver a diretoria que não era possível continuar, que deveria haver um aposento destinado às crianças. E consegui. Consegui um aposento com 10 ou 12 berços, que recebeu a denominação “berçário do pronto-socorro”. Ele foi criado por mim e ficou sob a minha responsabilidade. Não existia domingo nem feriado nem altas horas da noite para que eu fosse convocada para resolver uma emergência.

Tempos depois de ter começado a trabalhar no pronto-socorro, a medicina legal foi desmembrada do pronto-socorro, criando-se, assim, o Instituto Médico Legal. O diretor me mandou um recado dizendo que eu tinha que prestar serviço lá, uma vez que fui nomeada como médica-legista, sob pena de ser exonerada. Atendi ao pedido, mas com a condição de me especializar – já que o assunto me era inteiramente desconhecido – nos melhores serviços médico-legais do Brasil, que eram o Instituto Médico Legal de São Paulo e o Instituto Oscar Freire, sob a direção do Prof. Hilário Veiga de Carvalho, que era uma sumidade em medicina legal. Quando terminei o meu estágio no Instituto Médico Legal, tive a honra de receber um convite para ali permanecer como assistente do diretor e como funcionária do Estado de São Paulo. Apesar de ser honroso, eu tive que declinar do convite por motivos particulares. Vindo para Belo Horizonte, iniciei o meu trabalho na medicina legal com a promessa do diretor de fazer só exames de vênus forense, verificação de idade, perícia no vivo, me eximindo de necropsia e exumação. Mas logo os colegas acharam ruim. Então, eu disse: “Eu faço de tudo o que for necessário”, e, felizmente, me saí bem.

Como pediatra, eu tive a felicidade de ver o desabrochar da vida nas crianças por mim atendidas. E, como médica-legista, priorizei o respeito aos mortos, criando uma empatia entre a minha pessoa e os seus familiares, a fim de amenizar a dor sofrida por eles. Sou testemunha ocular e vivida da minha própria vida e de todos os fatos nela ocorridos, uns interessantes e outros doídos, que, contudo, foram por mim superados. Foram os olhos da alma, da ética, da imaginação e do meu bem-querer que me trouxeram até aqui.

Os serviços públicos em que eu tive a felicidade de trabalhar eram os melhores do ponto de vista médico. Posso citar alguns deles: o Pioneiras Sociais, criado por dona Sarah Kubitschek; o serviço do Ministério da Saúde que dava assistência a crianças com deficiências somáticas, psíquicas e motoras; e, ainda, o Pepe – como a própria sigla indica, Plano Especial de Pediatria –, que era um serviço excelente. Nós dávamos assistência médica e alimentação sob a forma de leite, soja, ovos. Tínhamos até uma horta comunitária destinada às mães e, ainda, dávamos uma pequena ajuda financeira para que elas pudessem ir ao serviço e voltar de lá. Mas, infelizmente, todos foram extintos. E, na vida, com as coisas boas não se conta apenas pela sua durabilidade, mas, sim, pelo benefício deixado por elas.

Fui auditora do SUS, após o fechamento desse serviço, cedida pelo Ministério da Saúde. Lecionei anatomia e fisiologia humanas e higiene e puericultura do segundo ciclo do departamento do curso superior e secundário da Secretaria de Educação. Tenho o Título nº 2055 datado de 19/2/1970. Aprendi, desde cedo, a ter orgulho de mim mesma no cumprimento das minhas obrigações. A gente tem que trabalhar com amor e dedicação. Não há creme anti-idade e nenhuma cirurgia plástica capaz de desfazer uma expressão mal-humorada de uma pessoa. É o sorriso estampado na face que nos salva de nós mesmos, cura nossas angústias e nos reconcilia com a vida. É a realização do que fazemos que nos torna e nos mantém saudáveis.

Finalizando, deixo o meu abraço a todos da Assembleia, na pessoa das senhoras deputadas e dos senhores deputados, aos meus familiares, amigas, amigos. Que nesse abraço seja passado um laço para que a gratidão atada ecoe dizendo a todos vocês o quanto sou grata. Acrescento ainda: o viver está no decorrer da vida, e o meu apetite pela vida se fez presente todos estes anos e foi direcionado ao amor. Amem, amem tudo o que fizer parte da vida, porque é o amor que não nos deixa sentir o correr do tempo e, mais ainda, faz-nos ver a beleza do viver. Obrigada.