Pronunciamentos

DEPUTADO DOUTOR JEAN FREIRE (PT)

Discurso

Critica declarações do governador Romeu Zema a respeito da população de rua em entrevista concedida ao programa Roda Viva. Declara que o não posicionamento do governador diante de crimes violentos, como o assassinato do gari Laudemir de Souza Fernandes, estimula o ódio. Manifesta solidariedade às vítimas de ataques homofóbicos ocorridos no município deTeófilo Otoni, durante a parada LGBTQIA+, e no Município de Virgem da Lapa, durante um churrasco. Anuncia solicitação de audiência pública na Comissão de Direitos Humanos para tratar do tema.

52ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 26/8/2025

Palavras do deputado Doutor Jean Freire

O deputado Doutor Jean Freire – Deputado Leleco, boa tarde; colegas servidores desta Casa, público que nos assiste pela TV Assembleia, público aqui presente e que também nos segue e nos assiste pelas redes sociais, boa tarde.

Deputado, não vou me ater a responder às provocações, afinal de contas, como disse o Professor Cleiton, o que deve ter deixado a cabeça do governador muito confusa – o cérebro ainda pensa… Mas alguns cérebros não pensam ou parecem não pensar. Quem conhece o presidente Lula e mesmo aqueles que são de outra sigla partidária ideologicamente diferente da do presidente, mas que têm bom senso, sabem que o presidente não é racista. Acho que não estão sabendo interpretar o conceito, deputado Leleco. Mas interpretação é algo que… Mesmo quando eles sabem, fazem questão de fazer diferente.

Deputado, quero, mais uma vez… Fiz isso na semana passada e quero fazer mais uma vez. Deputado Leleco, V. Exa. deve ter ouvido, nos últimos dias, as falas do governador, que inclusive as repetiu. Ele chamou a situação dos moradores de rua, a situação em que eles vivem de “chiqueiro humano”. Dizer que eles estão ali porque querem, já que existem albergues… Eu, governador Zema, vou fazer mais um desafio a V. Exa. Tenho feito vários aqui, nesta tribuna. Eu o convido a ir comigo visitar as pessoas que vivem em situação de rua na nossa querida cidade de Belo Horizonte. Eu o convido, governador. Saio, todos os dias, do bairro onde moro, venho dirigindo até a Assembleia, até os meus trabalhos, e passo por muitos irmãos e irmãs que vivem em situação de rua, em situação de vulnerabilidade.

Hoje passei pela Avenida Antônio Carlos, deputado Leleco, e vi alguns deles que, por sinal, têm muito cuidado com o ambiente. Alguns vivem embaixo de um viaduto, na Avenida Antônio Carlos. Um deles, por exemplo, plantou banana. Espero que o governador não vá lá comer banana com casca, pois só estou convidando-o para uma visita. Ele plantou mamão e flores ali. As pessoas não vivem em situação de rua porque querem. Então, governador, fica o convite: V. Exa. me leva aos albergues, nos quais V. Exa. diz que existem vagas à vontade, já que as pessoas estão na rua porque querem, e eu levo V. Exa. a um bate-papo. Quem sabe V. Exa. aprenda muito com eles? Não se preocupem. Eles não são “belicosos”. Quem sabe V. Exa. aprenda muito com as pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade e que não estão ali porque querem? V. Exa. topa? Repito: V. Exa. me leva aos albergues, e eu levo V. Exa. para dialogar, conversar, participar de um bate-papo com essas pessoas. Quem sabe muitas ideias interessantes saiam de lá?

Talvez o governador ache também que, ao entrarem nos corredores de vários hospitais, no Vale do Jequitinhonha, no Mucuri e em Belo Horizonte, as pessoas estejam em cadeiras porque não querem ficar nas macas, estejam nas macas porque não querem ficar nas camas e estejam nos corredores, com o soro pendurado fora dos suportes próprios, porque querem ficar ali. Talvez V. Exa. ache também que os buracos que permanecem nas estradas, há três anos, entre Virgem da Lapa e Araçuaí, entre Joaíma e Felisburgo, entre Felisburgo e Rio do Prado, em toda Minas Gerais, estão ali porque foram abertos pela chuva e pelos caminhões, e não porque V. Exa. e os órgãos que deveriam cuidar das estradas não o fizeram. Daqui a pouco, V. Exa. vai querer terceirizar a culpa e dizer que isso não é culpa de V. Exa. Talvez V. Exa. procure culpar sempre o outro e nunca tenha um olhar para ver onde o governo errou.

Essa fala de ódio vai se perpetuando. Às vezes, eu fico pensando e me perguntando se é realmente para criar um personagem, se é para tentar furar uma bolha ou permanecer na sua bolha, se é maldade mesmo ou se é uma mistura das duas coisas. E aí vamos vendo, em vários ambientes e em várias regiões, atitudes de ódio.

Quando vemos um governante, independentemente de ideologia política, não esperamos que ele estimule atitude de ódio. Não esperamos isso. Eu não ouvi — e me desculpem, porque talvez o tenha feito, mas eu não vi claramente — o governador do Estado de Minas Gerais falar sobre o crime cruel, bárbaro, em relação ao gari, que vivenciamos há poucos dias. A gente espera de um governador, de uma liderança, que, quando acontecer um fato que leve ao mundo do ódio, ele faça uma fala, ele se solidarize. Nós não podemos achar que tudo está normal, que é comum vivermos nesse ambiente de ódio. Não devemos estimular o ódio.

E, por falar em ódio, sempre escondido, essas pessoas, em sua maioria, se dizem cidadãos e cidadãs de bem, cristãos, bons esposos, patriotas. Há quem seja isso tudo de verdade, mas que não faz questão de explanar assim. Mas muitos, por trás de se dizerem cidadãos de bem, justificam o ódio e a intolerância, o ódio e a intolerância. Às vezes, eu me pergunto por que determinadas pessoas se preocupam tanto com o sorriso do outro, com o cantar do outro, com a música de que o outro gosta, com o amor do outro, com o que o outro é.

Quero, nesta tribuna, nesta Casa, neste microfone, na Assembleia, denunciar o ocorrido em nossa querida cidade de Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, na parada LGBTQIA+, que aconteceu neste final de semana. De maneira covarde, cruel, jovens passaram, enquanto as pessoas estavam cantando, dançando, vivenciando sua diversidade de pensamento, e jogaram uma bomba naquele ambiente. No ano passado, um jovem já havia sido agredido, espancado, nessa mesma cidade, por defender a parada LGBTQIA+.

Quero parabenizar o grupo In-Cena, o André, o Bruny, todos que se juntam para fazer este momento. É um momento de denúncias, de reivindicações, de alegria, como eu disse, mas, infelizmente, eles têm que passar por isso. Apesar de não terem apoio institucional, eles vivem e sobrevivem. Este ano, não pude estar presente, como já estive em outros momentos com eles, lá em Teófilo Otoni, mas é inadmissível isso. Aconteceu no ano passado e aconteceu novamente neste ano.

Recebemos também uma denúncia, no dia 22, na sexta-feira passada, em Virgem da Lapa, no Vale do Jequitinhonha. Um homem foi esfaqueado durante um churrasco na casa dos pais. O motivo? Foi alvo de ofensas homofóbicas de um vizinho. Por que isso? Às vezes, a gente se pergunta. Situações tão óbvias… Por que tanto ódio pela alegria do outro? Por que tanto ódio pela forma de o outro amar? Por que tanto ódio pelas dores e os amores dos outros? Nós temos tantos problemas, tantas falhas institucionais, que precisam ser corrigidas, que não perpassam o fato de ser de direita ou de esquerda. Mas alguns preferem viver no mundo do ódio.

Por isso, eu quero deixar, mais uma vez, toda a minha solidariedade aos organizadores do evento em Teófilo Otoni. Quero dizer que solicitei uma audiência pública nesta Casa, na Comissão de Direitos Humanos, e que nós temos que usar esses espaços para denunciar também. Temos que ter coragem para isso. Isso, deputado Leleco… Preocupam-se com a fala do presidente Lula, mas eu não os vejo subir aqui para fazer essas denúncias. E, como eu disse, isso não perpassa o fato de ser de direita ou de esquerda. Eu acabei de ver um deputado que estava criticando a fala do presidente Lula, ali de baixo, falando que cada um tem o direito de ser como quer. E é verdade. Mas não denunciam, não falam, não se somam a essas lutas.

Eu quero recorrer às palavras da escritora Bell Hooks. (– Lê:) “O amor é o que o amor faz. O amor não é apenas um sentimento, mas uma escolha, uma ação contínua, um compromisso com a responsabilidade e a ética”. Isso é o amor. Isso é o amor verdadeiro. E esses que não têm o direito de ser quem são, que não têm o direito de amar quem querem amar, ainda sentem as suas dores por ser quem são, por amar quem são, dores provocadas por extremistas, que, na maioria das vezes, deputada Beatriz, se dizem pessoas de bem, cidadãos e cidadãs de bem, se dizem cristãos e cristãs, mas que não respeitam o pensamento do outro, não respeitam o pensamento da outra.

Por isso, fica o meu abraço a vocês, ao André, ao Bruny, a todo o instituto, a todos vocês que organizaram a parada. Eu tenho certeza de que não sou somente eu quem pensa assim. Nesta Casa e nessa audiência pública, muitos deputados e deputadas vão se somar à nossa luta. Vou dialogar com a deputada Bella, presidenta da Comissão de Direitos Humanos, para que, o mais rápido possível, nós façamos algo para cobrar investigações, que, me parece, já estão sendo feitas. Para cobrar e ficar vigilante em todos os momentos. Muito obrigado, colegas deputados.