RODRIGO SOUZA DA SILVA, Padre, secretário-executivo do Regional Leste II da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 23/03/2024
Página 5, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 5719 de 2024
10ª REUNIÃO ESPECIAL DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 21/3/2024
Palavras do Pe. Rodrigo Souza da Silva
Exmo. Sr. Deputado Leleco Pimentel, a paz de Cristo continue a permanecer com o senhor; Exmo. Sr. Deputado Federal e irmão no ministério, Padre João, a quem saúdo e manifesto a minha gratidão por estar aqui nesta noite. A presença do senhor nos honra muito. Na pessoa do senhor, cumprimento todos os irmãos e as irmãs que estão aqui compondo esta Mesa nesta noite. Tive a grata satisfação de conhecer o Daniel dos Santos, que aí está e levantou a mãozinha. Ele tem uma vocação belíssima, mas até mesmo difícil de ser vivida, que é ajudar as pessoas em situação de rua. Gostaria de uma salva de palmas a ele e a todas as pessoas que trabalham com esse serviço. A nossa reverência!
A Campanha da Fraternidade, cujos 60 anos de existência ora celebramos, tem o seu início em um momento forte, em um contexto difícil. A cidade de Nísia Floresta foi habitada por soldados norte-americanos por ocasião da Segunda Guerra Mundial. Lá estiveram presentes mais de 10 mil homens que foram embora deixando grandes marcas positivas, marcas exigentes, crianças, famílias. E, naquela belíssima ocasião, estiveram ali dois padres, dois sacerdotes que se colocaram a favor dessas pessoas, dessas realidades: o Pe. Nivaldo Monte e o Pe. Eugênio Sales, hoje já falecido, D. Eugênio Sales.
Em 1948, naquela cidade de Nísia Floresta, acontece uma grande movimentação entre os cristãos católicos para se colocarem a favor, ao lado daquelas famílias necessitadas. Os anos foram se passando, aquele trabalho foi se incorporando e, no ano de 1963, 16 dioceses do Brasil já abraçavam o tema da Campanha da Fraternidade. Depois, em 1964, nós tivemos o então 1º-secretário-geral da CNBB, D. Hélder Câmara, que fez uma carta endereçada aos bispos do Brasil.
Permita-me ler esta, que poderíamos assim chamar de certidão de nascimento da Campanha da Fraternidade. (– Lê:) “Excelência, é provavelmente do seu conhecimento o plano de uma campanha nacional na linha de coletas que são feitas na Alemanha católica. Embora ainda estejamos estudando com técnicos em publicidade o lançamento dessa promoção, permita-me a confiança fraterna de enviar-lhe o primeiro esboço do que está ocorrendo como sugestão. Por favor, envie-nos uma primeira reação urgentemente. Em tese, a ideia lhe agrada? A diocese de V. Exa. aderirá à Campanha da Fraternidade? Que impressão lhe causa o material remetido? Tem sugestões a apresentar? Aguardo suas instruções e suas ordens. O amigo em Jesus Cristo, D. Helder Câmara”.
Esse texto, essa carta é tida com a certidão de nascimento da Campanha da Fraternidade. A partir dali, a Conferência Episcopal, que é composta pelos bispos, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, abraça, em todo o território nacional, a Campanha da Fraternidade e decide então trabalhar esse tema da fraternidade na ocasião da Quaresma, em que somos motivados inclusive pelo texto litúrgico a que fazemos memória na celebração da Quarta-Feira de Cinzas ao exercício do jejum, da esmola e da caridade, oração que nos leva a essa profunda conversão frente à nossa postura ética, moral e religiosa na comunidade. Decidiram então que o tema da Campanha da Fraternidade anualmente seria e deveria ser trabalhado durante o período quaresmal, iniciando-se no período quaresmal.
Para este ano, como já foi muito bem citado aqui, nós temos o tema “Fraternidade e amizade social” e uma grande provocação no Evangelho de São Mateus 23:8, que é uma exortação de Jesus para as pessoas que estavam na sinagoga: “Vós sois irmãos e irmãs”. Ora, meus queridos irmãos e irmãs, Cristo, o verbo de Deus se encarnou, e ele se encarna em uma realidade, ele se encarna em um povo e ele assume a realidade, ele assume esse povo e se coloca como aquela pessoa que sempre esteve a favor da vida. Por isso ele se intitula: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Então a grande provocação da Campanha da Fraternidade não é simplesmente porque existem situações complicadas, mas ela se enraíza na palavra de Deus e no próprio Cristo. Obviamente, celebrando a fé nesse Cristo que se encarna, os nossos pés não se desvinculam da nossa realidade, e por isso, a cada ano, a Campanha da Fraternidade nos lança uma grande provocação. Para este ano, é o tema da amizade social. Se, para Platão, a amizade significava uma abertura para o belo, se, para Aristóteles, a amizade social é um grande vínculo, é uma virtude, em 2020, o nosso querido papa Francisco, escrevendo a sua carta encíclica Fratelli tutti, nos coloca à frente e alarga esse tema da amizade que nos toca muito profundamente. O papa Francisco diz o seguinte a todos nós: “A amizade social é o amor presente nas relações sociais, é o amor feito cultura. Ninguém alcança a plenitude isolando-se. O amor exige uma progressiva abertura”. O papa Francisco, quando trabalha esse tema da amizade social, lança bases e provoca a todos nós para que reflitamos tanto sobre amizade social como também sobre amor político.
Ora, meus queridos irmãos e irmãs, se a Campanha da Fraternidade traz para nós um tema, traz um lema, é porque o nosso contexto clama por uma postura religiosa. Ao olhar para o mundo, para a nossa realidade, para o Brasil, para nós como pessoas, nós nos deparamos com situações muito difíceis de violências. Nós sabemos que somos diferentes, e até mesmo oponentes, mas não podemos ser inimigos. Não podemos, para sobressairmos, querer que o outro seja destruído. Podemos até ter pensamentos divergentes, mas não podemos ser inimigos uns dos outros.
É claro que, se olharmos também para a nossa sociedade, vamos ver muitos sinais positivos que nos mostram que a amizade social existe. A Campanha da Fraternidade tem este objetivo: despertar-nos para o valor e a importância da fraternidade. Temos vários exemplos, vários sinais, como, por exemplo, as comunidades cristãs, que se fazem em momentos celebrativos, em atos litúrgicos, mas que se estendem nos braços e nos corações de tantos homens e mulheres que, na sociedade, vivem ali o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Há várias atividades em nível nacional. Por exemplo, tivemos a campanha “É tempo de cuidar”, durante o período pandêmico.
Nós temos aqui a proposta do nosso papa Francisco: economia de Francisco e Clara. Nós temos provocado por ele o primeiro pacto global pela educação. São várias iniciativas que queremos trazer e motivar para que possamos abraçá-las, despertando-nos para essa realidade. Assim, o texto-base da Campanha da Fraternidade 2024 nos coloca frente a três níveis: o da pessoa, o da família, o da comunidade, da sociedade. Primeiro, eu, enquanto ser humano, eu, Rodrigo, preciso ter essa consciência de que é preciso ter a amizade, é preciso sermos irmãos e irmãs. É preciso que eu acredite. É preciso que eu abrace essa causa, não simplesmente externamente, mas de coração; que eu acredite que, sem a amizade – desculpe-me a palavra muito simples –, o mundo não tem jeito. Mas também é preciso percebermos que, no nível da família, da comunidade, precisamos nos converter a essa amizade; inúmeras pastorais, inúmeros movimentos, inúmeras associações, cada um com seu objetivo, com seu propósito, mas lembrando que a nossa raiz é única, é a palavra de Deus, é Jesus Cristo. E, enquanto sociedade, a amizade social não é só para viver, eu, Rodrigo, somente entre as nossas comunidades cristãs, mas na sociedade de um modo geral: cristãos, não cristãos, católicos, não católicos. Podemos perceber que é preciso voltarmos os nossos olhares para essa grande situação. E numa expressão do nosso papa Francisco: “É preciso iniciarmos processos!”.
“Padre Rodrigo, é muito difícil falar da amizade no meu trabalho. É muito difícil falar da amizade em todo esse contexto.” Mas é preciso iniciarmos processos. Aqui abro um parêntese para citar uma experiência que aconteceu comigo no ano passado. Um senhor chegou para o sacramento da reconciliação, da confissão, e disse assim, Sr. Deputado: “Padre uma das coisas que eu não quero ao final do dia é retornar para casa”. Falou isso com lágrimas nos olhos. Chorou, chorou, e depois ele mesmo explicou: “Porque lá em casa está uma briga terrível, está uma divergência terrível. Nós não temos um lar onde há a paz”. Fecho o parêntese e até me emociono com essas palavras desse senhor, porque eu via que ele sofria, na sua carne, a agressividade do momento que estávamos vivendo e que ele vivia na sua casa. Ele pedia a bênção, confiando em Deus e dizendo assim: “Padre, essa situação tem de ser mudada. Não podemos continuar assim”. Um senhor que, acredito, nunca frequentou um ambiente acadêmico de universidade, mas de uma profundidade existencial tremenda.
Em 1999, quando acontecia a 36ª Assembleia Ordinária dos Bispos do Brasil, decidiu-se, então, criar o Fundo Nacional de Solidariedade – FNS. Esse fundo tem o seu grande alicerce no Domingo de Ramos, na campanha que todas as igrejas do Brasil fazem e em que os cristãos católicos são motivados a fazer a sua doação financeira, e aquele valor arrecadado nas missas do Domingo de Ramos é destinado para os projetos sociais. Do Fundo Nacional de Solidariedade, toda diocese e arquidiocese, ao arrecadar o total das doações do Domingo de Ramos, recebe 40% dos valores arrecadados. Os outros 60% ficam nas dioceses, no Fundo Diocesano de Solidariedade, e são valores destinados a projetos sociais. Esse Fundo Nacional de Solidariedade tem sido uma mão misericordiosa de Deus frente a várias propostas, a vários projetos sociais.
Minas Gerais, nosso estado, é o que mais acessa esse Fundo Nacional de Solidariedade. No ano passado, os valores destinados aos projetos sociais em Minas Gerais chegaram a quase R$800.000,00. Desde o Norte de Minas, a Região Central, o Sul de Minas existem projetos; alguns deles foram, digamos assim, aceitos e tiveram investimentos desse projeto social, que é o Fundo Nacional de Solidariedade.
Quero concluir por aqui, manifestando, publicamente, a nossa gratidão, representando aqui os bispos do Estado de Minas Gerais. Em nome de D. José Carlos, presidente da nossa regional e atualmente arcebispo da Arquidiocese de Montes Claros, quero dizer da nossa gratidão, satisfação por esta homenagem.
A fé precisa se tornar um ato público. Nós, que muitas vezes anunciamos tantas coisas negativas em nossas redes sociais, precisamos, cada vez mais, continuar anunciando coisas boas. Então a nossa reverência à Casa, na pessoa do Exmo. deputado Leleco Pimentel, por este momento público de manifestação da fé em Jesus Cristo e do cuidado com as pessoas, motivando-as a continuarem a caminhar sendo todos irmãos e irmãs. Deus nos abençoe!