Pronunciamentos

PADRE JOÃO, Deputado Federal

Discurso

Homenagem à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – pelo lançamento da Campanha da Fraternidade de 2024, cujo tema é “Fraternidade e amizade social”, e cujo lema é “Vós sois todos irmãos e irmãs”.
Reunião 10ª reunião ESPECIAL
Legislatura 20ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 23/03/2024
Página 3, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 5719 de 2024

10ª REUNIÃO ESPECIAL DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 21/3/2024

Palavras do deputado federal Padre João

Nosso boa-noite a todas, a todos e a todes. Quero dizer da alegria de poder voltar a esta tribuna depois de muitos anos. Agradeço as palavras do deputado Leleco e o parabenizo pela iniciativa. Na sua pessoa, quero saudar todos da Mesa – e todos já foram citados –, o homenageado, assim como o Pe. Rodrigo.

Esta reunião especial tem um cunho diferente este ano, porque são 60 anos de um profetismo que vem de dois bispos, D. Eugênio Sales e D. Hélder, que iniciaram todo esse processo. Começou já num diálogo entre duas cabeças que pensavam diferente e que, acho, enxergavam até de forma diferente. Eles tinham uma concepção de igreja, e foi possível mostrar para o mundo essa iniciativa da CNBB. Desde a primeira Campanha da Fraternidade, todos os papas se manifestaram. Seja em vídeo ou em carta, mas se manifestaram saudando esta iniciativa da CNBB. São 60 anos de provocação ao povo. Muitas campanhas, como as ecumênicas, são uma provocação a todas, às diversas religiões, dizendo que não basta ir ao culto, não basta ir à missa, não basta rezar, não basta orar, não basta cantar, se seu irmão está na rua, se seu irmão está passando fome, se seu irmão está sem teto, se a água está sendo contaminada, se a mãe Terra está sendo violentada, se as matas estão sendo destruídas, se a biodiversidade, se as outras criaturas…

Esse lema vai muito além do ser humano. São Francisco já dizia lá atrás que somos todos irmãos e irmãs também, reafirmando o Evangelho. Se somos todos irmãos e irmãs, então este é o desafio da nossa fé, da nossa religiosidade: enxergar sobretudo os mais vulneráveis, os mais vulneráveis, e ter o gesto de Jesus Cristo. Não é ter dó, é ter compaixão. Quem tem compaixão se move, se junta, transforma, muda aquela realidade: uma realidade de fome e miséria em abundância de pão; uma realidade de sem teto para com teto. Por isso as campanhas trabalharam tudo isto: a terra, a água, o trabalho, a juventude, a própria política. Então esses 60 anos também devem recuperar todos esses temas e lemas, assim como o da criança.

Deputado Leleco, V. Exa. é feliz nesta iniciativa, por meio da TV Assembleia e de quem também aqui participa, ao levar essa reflexão, ao provocar na mesma linha do que o papa também diz. A Campanha da Fraternidade sempre coincide com a Quaresma, que tem a importância do jejum, que foca a esmola, que foca a oração, mas nada disso tem sentido se a gente não enxergar o irmão e a realidade desse irmão, garantindo dignidade para esse irmão. Mesmo sendo diferente, esse é um direito de cada um. Cada um é diferente. É isso que existe. Então é respeitar. Na fraternidade e amizade social, a gente também deve enxergar, valorizar e respeitar o outro.

Há uma frase de Mahatma Gandhi que sempre me provoca, que eu sempre cito e que também está sempre em muitas casas legislativas. Está lá bem grande, num letreiro: “Que as divergências de opinião não se traduzam em hostilidade”. Se tivemos um ganho, esse ganho foi a democracia. A democracia é uma grande conquista. A democracia é respeitar o diferente, é buscar o diálogo, é buscar o entendimento. A política tem sentido nessa busca do poder, seja no Legislativo, seja no Executivo, como também no Judiciário. Como também no Judiciário! O Judiciário é para promover a justiça, para promover a justiça. Então é dialogar, é dialogar, é construir consensos. E o poder deve ser serviço, tem de ser serviço, todos os três Poderes. Acho que a democracia tem de nos levar a isso, senão é a negação, a negação do direito de ser o que é, é a negação do direito ao teto, do direito à comida, que é um escândalo a essa altura, considerando-se a riqueza que é o nosso país.

Então que esse cuidado com os irmãos seja o cuidado com que convivemos no dia a dia, mas também o cuidado com aqueles que às vezes não têm voz, como uma abelha, a água, a própria mãe Terra, até o cuidado com todas as criaturas. Deus tudo nos confiou para de tudo cuidarmos, e não para destruirmos, e não para destruirmos. Por isso é que essa nossa irmandade tem de reconhecer todas as outras criaturas. Por isso é que não podemos ser indiferentes a nada, nem à fome, nem à miséria, nem à guerra. Nem à guerra!

Encerro dizendo que é muito triste essa situação, quando o poder econômico mata e escraviza. E nunca mataram tanto! Duas atividades econômicas que hoje ainda matam muito é a atividade minerária e o agronegócio, além da indústria farmacêutica. Esses setores matam e buscam o lucro sempre, assim como a própria guerra, como a própria guerra. Nós somos todos irmãos. Não existe fronteira que rompa essa irmandade, seja de cubanos, de venezuelanos, de argentinos ou de palestinos. Todos somos irmãos e temos de cuidar uns dos outros. Então, mais que o jejum, que a esmola, que a oração, que o canto, que os louvores, temos de expressar o amor, o respeito, o serviço ao outro, em todos os dias da nossa vida, em cada dia, em todos os momentos da nossa vida. Muito obrigado. É esta a nossa saudação, com esse grande desafio para cada um de nós.