D. VICENTE DE PAULA FERREIRA, Bispo da Arquidiocese de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 24/10/2023
Página 4, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 9140 de 2021
RQN 3816 de 2023
Normas citadas RAL nº 5609, de 2023
27ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 19/10/2023
Palavras de D. Vicente de Paula Ferreira
Sempre que há algum momento, em Minas Gerais, de maior importância religiosa ou política, ou os dois, como agora, começo com um desabafo, um lamento, mas também com a certeza de que a poesia e a arte nos ajudam a suportar os momentos mais dramáticos e traumáticos da nossa vida.
Um mês depois do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, olhando as brumas, era fevereiro, veio-me um sentimento poético que consegui transformar em música. Iniciaria, então, deputada Ana Paula, com esse sentimento, compartilhando-o com vocês. Peço que façam uma fezinha, porque a emoção está embargando a minha voz, o meu corpo, e acho que essa canção nos ajuda a mergulhar num mundo mais profundo da nossa humanidade.
– Procede-se à apresentação musical.
D. Vicente de Paula Ferreira – Duzentos e setenta e duas joias?
A plateia – Presente.
D. Vicente de Paula Ferreira – Duzentos e setenta e duas joias?
A plateia – Presente.
D. Vicente de Paula Ferreira – Duzentos e setenta e duas joias?
A plateia – Presente.
D. Vicente de Paula Ferreira – Até quando?
A plateia – Sempre.
D. Vicente de Paula Ferreira – Hasta cuando?
A plateia – Sempre.
D. Vicente de Paula Ferreira – Até quando?
A plateia – Sempre.
D. Vicente de Paula Ferreira – Obrigado. Deputada Ana Paula e queridas autoridades que compõem esta Mesa, para mim, Minas é um mundo, porque, com 15 anos, fiz uma das travessias mais importantes da minha vida quando vim da roça, do Sul do Espírito Santo, deputado Betinho, da Serra do Caparaó – um moleque da roça. Imaginem, minha comunidade tinha 200 pessoas. Fui para a cidade de Juiz de Fora para fazer o percurso de formação na Congregação Redentorista, e essa história durou 37 anos em Minas. Aqui, Patrus, aprendi a filosofia, a arte de pensar, a teologia, a poesia do Clube da Esquina, as nossas tradições religiosas e culturais. D. Joel – o senhor, como um mineiro de Belo Horizonte –, quanta riqueza temos aqui, neste lugar. Eu aprendi também, principalmente, deputado Tadeu, que é lá do Norte – ele estava aqui –, essa mistura de idiomas. São muitas Minas. E também compreendi essa coisa de ser um eterno aprendiz, caçador de mim. Isso é mineiro. Talvez eu já tivesse isso na minha infância, mas essa coisa foi instigada pelo sentido mineiro das músicas, das canções, essa coisa maravilhosa do sertão grande, das poesias de Adélia.
Em Minas, entrei num mundo mais diverso e plural. Considero que tenha me feito o homem, a pessoa que sou hoje. Deputada, vá controlando o meu tempo. Construí aqui uma coisa que considero a mais preciosa da minha vida, um mundo, um coração. Antes de ser externo, uma procissão na vida. Isso desfraldou mais fortemente, com todo o itinerário redentorista desse trabalho, uma bandeira a partir do momento em que o papa Francisco me nomeou, me escolheu um bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte e D. Walmor, o arcebispo, me enviou para o Vale do Paraopeba, dizendo: “Como você é de uma congregação missionária, quero que vá fazer o seu trabalho numa região missionária”. Tudo isso, pelo mistério da vida, culminou num dia que nunca é ontem. Na história de D. Vicente Ferreira, 25/1/2019 é sempre hoje. Brumadinho nunca é passado. Brumadinho é sempre presente, porque, desde o início desse crime que aconteceu ali, eu disse: “Não é um problema local. É a consequência de um modelo global”.
E eu cresci, não abro mão da minha perspectiva de que esse modelo capitalista, neoliberal vai ter fim, vai acabar e não vai demorar muito. Vim aqui a esta tribuna numa outra audiência e disse ao deputado: “O senhor foi mais religioso e eu fui mais político que o senhor, porque esse modelo está hoje servindo apenas a 1% da sociedade global”. Não é possível! Não é possível que os outros 99% dos moradores deste Planeta Terra não terão força suficiente para derrubar esse modelo que só pensa no lucro e não protege a vida – nem a vida dos pobres nem a vida do planeta.
Essa é a minha voz. Não abro mão dela. Foi aqui que ela nasceu, mais precisamente na lama, mas não pensem que Brumadinho, para mim, é só lama, desastre, tragédia, crime; é afeto também. Conheço e amo o coração de muitas pessoas feridas por esse sistema. E mais: não faço nenhum discurso sem consultar alguém que de fato vive o drama de ser um atingido por esse sistema capitalista e, aqui, no nosso caso, pela mineração, que representa muito bem esse sistema. Sei que a minha palavra não está sozinha e é coberta por rede de pessoas como vocês todos, que estão aqui e acreditam num mundo novo.
Escrevi e publiquei recentemente um livro que se chama Crepúsculo e coloquei no meio desse livro uma metáfora: as chagas de Jesus, que são os nossos lugares teológicos de hoje. Ou a gente faz como Tomé e toca de fato nas feridas sociais e ambientais, ou não teremos paz. É no que eu acredito. E chego ao final da minha fala dizendo o seguinte: gratidão, Minas Gerais, mas agora tenho Livramento. Estou na Bahia, estou no Nordeste.
Falam que sou profeta, não sei se isso confere, mas, antes de saber que ia para a Bahia, para o Nordeste, fiz um tuíte naquela passagem extraordinária que tivemos do ano passado para este ano, naquela virada de espírito político neste país, de democracia neste país. Tuitei, sem saber de nada, sem saber de nada: “Obrigado, Nordeste, porque mais uma vez você deu um presente para o nosso Brasil”. Vocês se lembram disso ainda ou já se esqueceram? Eu digo lá sempre... Nordeste... Acho que vocês vão se lembrar de alguma coisa recente. Não entrem nessa de que Nordeste é apenas lugar de pessoas que recebem auxílio, não. Nordeste é lugar de gente trabalhadora. Estou aprendendo demais lá, em Livramento. Alguém perguntou assim: “Está feliz em Livramento?”. Eu disse: “Quem nunca precisou na vida de um livramento?”. Portanto, estou feliz, pois já ganhei o meu.
Mais uma vez, Dom Joel, obrigado por sua presença. Durval, nosso amigo de longa data, obrigado. Patrus, viemos de Livramento, 1.100km de carro. Estou aqui com um padre de lá, com uma turminha nossa do stand de teologia. Passamos pela sua terra, não é? Ele me perguntou: “O Patrus é daqui?”. Falei: “Exatamente daqui”. Deputado Betinho, obrigado pela coordenação dos trabalhos desta noite. Deputado Tadeu e todos que vieram, a gente ainda vai ter mais alguma coisinha.
Deputada Ana Paula, não preciso dizer mais nada, mas queria registrar um momento, porque, quando a gente é bispo, a gente fica cheio de protocolo: “Cuidado, você vai tirar foto com quem?”. Ainda mais nesse meio político. “Olha, nessa coisa toda, tem que levar muito jeito”. Chegou essa menina na Serra da Piedade e um mar de jovens pedindo uma benção, porque era candidata à deputada estadual. E eu, assim muito despretensiosamente, tinha outros jovens com ela, disse: “Vamos abençoar. Isso não vale muita coisa, não, mas vamos rezar, vamos abençoar”. Olha, Ana Paula, além do título de Cidadão Honorário de Minas Gerais que você, juntamente com a Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, me concedeu, você também, desde aquele momento, me fez acreditar mais na força da oração, viu? Foi ali que nasceu a nossa amizade. Depois, quando iam acompanhando o resultado daquelas eleições, há oito anos, pois já é o seu segundo mandato, alguém disse: “Olha, a Ana Paula foi eleita deputada estadual”. Eu fiquei feliz e sempre lembro com ela das nossas bênçãos. Espero que não façam fila aqui no final para pedir benção.
Um beijo no coração de vocês. Muito obrigado por tudo, Minas Gerais.