Pronunciamentos

DEPUTADA ANA PAULA SIQUEIRA (REDE), Autora do requerimento que edu origem à homenagem

Discurso

Entrega do Título de Cidadão Honorário do Estado de Minas Gerais a Dom Vicente de Paula Ferreira.
Reunião 27ª reunião ESPECIAL
Legislatura 20ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 24/10/2023
Página 2, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 9140 de 2021
RQN 3816 de 2023

Normas citadas RAL nº 5609, de 2023

27ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 19/10/2023

Palavras da deputada Ana Paula Siqueira

Boa noite a todas e a todos. Que alegria ter todos vocês aqui conosco presencialmente, todos e todas que nos acompanham através dos diversos canais da TV Assembleia. Hoje é um dia de festa, Minas Gerais está com o coração cheio de alegria.

Eu quero começar saudando o deputado Betinho Pinto Coelho, nosso querido presidente hoje da nossa sessão, 3º-vice-presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, representando aqui o deputado Tadeu Martins Leite, presidente da Assembleia. Cumprimento o Exmo. e Revmo. Sr. D. Vicente de Paula Ferreira, bispo da Arquidiocese de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia; e o Exmo. Sr. deputado federal Patrus Ananias – muito obrigado pela presença, Patrus; nós compomos conjuntamente a Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz da nossa Arquidiocese de Belo Horizonte; é muito bom tê-lo aqui conosco. Cumprimento também o Exmo. Sr. conselheiro Durval Ângelo Andrade, vice-presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. Muito obrigado, Durval Ângelo, pela sua presença aqui também, que é motivo de muita alegria. Você está sempre conosco em diversas caminhadas, organizando o grande encontro do Fé e Política do ano que vem, que muito nos anima e fortalece na política – seja muito bem-vindo. Cumprimento o Exmo. e Revmo. Sr. D. Joel Maria dos Santos, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, representando aqui a Arquidiocese de Belo Horizonte; e todas as minhas colegas deputadas e colegas deputados aqui presentes.

Eu estou muito feliz, gente, e emocionada. Normalmente eu não sou tão protocolar assim, mas, em dia de festa, a gente acaba extrapolando um pouquinho e fugindo até dos protocolos. Trouxe um tanto de coisa anotada, D. Vicente, para a sua homenagem.

Teólogo, psicanalista, poeta, compositor, escritor, D. Vicente de Paula Ferreira nasceu em Alegre, no Espírito Santo, em 27/10/1970, e foi ordenado presbítero em 16/11/1996, na Congregação Redentorista. Em 2017, foi nomeado pelo papa Francisco bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte e é presidente da Comissão Especial sobre a Mineração e Ecologia Integral da CNBB.

À frente do Vicariato Episcopal para Ação Missionária, D. Vicente se entregou, de corpo e alma, e exemplificou diariamente o seu lema episcopal: “A caridade jamais acabará”. Ele cumpre a missão da congregação e de seu carisma, que é a de levar a pregação do Evangelho aos pobres, principalmente em regiões populares abandonadas. Capixaba, ele dedicou 37 anos ao povo mineiro, em especial aos que mais precisavam, e é expressão verdadeira de uma igreja em saída, como nos orienta o papa Francisco.

A minha história se encontra com a sua, D. Vicente, em vários momentos. Eu também tenho um Vicente em casa – na fotinho o senhor o estava carregando: Manoel Vicente, meu filho, que chegou ao mundo já mudando a história, já transformando a nossa sociedade e mudando a política. Foi com a chegada de Manoel Vicente que nós conseguimos alterar a Constituição do Estado de Minas Gerais e garantir às parlamentares mineiras o direito à licença-maternidade no ano de 2019.

A minha história também se cruza com a do senhor, D. Vicente, porque o meu primeiro filho, João, nasceu no dia 27/10/2015. E tem mais: D. Vicente tem um olhar atento, cuidadoso para as pessoas que moram nas regiões de vilas e favelas, inclusive parte do trabalho arquidiocesano dele foi dedicado às vilas e favelas. E é de lá que eu venho também. Sou nascida e criada na periferia de Belo Horizonte, no Bairro Vera Cruz, na região Leste de Belo Horizonte. Conheço bem a realidade da vida, as dificuldades de quem mora nas regiões das periferias da nossa grande capital e do interior de Minas Gerais e dedico também o nosso trabalho parlamentar em favor da população menos favorecida e que está nesses territórios.

Temos também uma outra convergência: D. Vicente tem uma preocupação com a formação e com a garantia de oportunidades para a juventude. Esteve integralmente ao lado dos jovens. Foi nesse momento, nesse encontro com a juventude que eu me encontrei verdadeiramente com D. Vicente. Eu me lembro, D. Vicente, como se fosse hoje, daquele 15/8/2018, na Jornada da Peregrinação da Juventude ao Santuário da Serra da Piedade, de que o Wendel também se recorda bem, não é, Wendel? Naquele momento, gente, naquele 15 de agosto, a arquidiocese fazia o maior encontro da juventude de Minas Gerais, reunindo mais de 12 mil jovens na Serra da Piedade – é uma marca histórica. D. Vicente conseguiu, numa homilia de mais de 15 minutos, prender a atenção desses 12 mil jovens, falando da vida de Jesus e de política. Aquilo mexeu comigo. Eu falei: “Esse homem é diferente”. E fui atrás dele, gente, no meio da multidão, fui procurar D. Vicente, que rezou para mim. Naquele momento, rezou para uma menina que sonhava em ser deputada e fazer diferença na política. Agora, D. Vicente, aquela menina que lhe entregou o santinho e lhe pediu voto hoje lhe entrega uma das maiores honrarias da Assembleia Legislativa de Minas, que é o título de cidadão mineiro. É muito bom quando a história da gente caminha.

No dia 25/1/2019, vivenciamos o maior crime socioambiental da história da humanidade: o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, que vitimou 270 pessoas e causou impactos incalculáveis. Nós ainda não éramos deputadas, Beatriz, não tínhamos tomado posse – tínhamos sido eleitas –, mas estávamos lá, naquele dia 25 de janeiro, e vimos com os nossos olhos aquele horror cometido pelo crime da Vale.

Em meio àquele caos, gente, a chegada de D. Vicente a Brumadinho foi decisiva na vida das famílias devastadas pela lama. D. Vicente não se calou; defendeu incansavelmente a ecologia integral, como ensinou o papa Francisco na encíclica Laudato Si, ensinando que as crises ambientais e sociais não estão dissociadas – Brumadinho veio em seguida à encíclica como o maior exemplo disso –, uma perspectiva que busca mudar a forma como nos relacionamos com a nossa casa comum, destacando a urgência da busca por um desenvolvimento sustentável, com equilíbrio entre a atividade econômica, o bem-estar social, condições de vida dignas e preservação da natureza. Eu vi, D. Vicente, nas suas lágrimas, a sua humanidade, a compaixão com a dor de tantas famílias. Fez um resgate de almas e corações, liderando diferentes frentes de atuação para garantir o amparo material e espiritual, garantindo assim a dignidade daquelas famílias e de todo o povo de Minas Gerais.

“Liberdade ainda que tardia” é o lema da Inconfidência Mineira que estampa a bandeira de Minas Gerais. Acima de tudo, é pela libertação do povo mineiro da exploração da mineração predatória e de tantas outras formas de opressão pelo que D. Vicente luta, pelo que nós lutamos. Por representar também os valores que guiam a história de resistência de Minas Gerais em defesa da democracia, é que a Assembleia Legislativa de Minas Gerais concede o título de Cidadão Honorário de Minas Gerais a D. Vicente de Paula Ferreira.

Eu tenho a convicção de que D. Vicente carrega no peito uma das marcas musicais mais relevantes para nós, mineiros, e que representa o nosso povo: “Oh, Minas Gerais/ Quem te conhece não esquece jamais”. E agora, com o título de Cidadão Honorário de Minas Gerais, D. Vicente se torna para sempre, eternamente a voz do povo mineiro. Seja bem-vindo, D. Vicente, mais uma vez, a Minas Gerais, agora como cidadão mineiro.

D. Vicente, ser mineiro é poder quebrar protocolo – não é, presidente? –, um pouquinho só; ser mineiro é ter coragem de carregar as nossas lutas, de compreender a nossa diversidade, as nossas dificuldades e não se calar diante dos desafios. Hoje, neste dia de festa, gente, são inúmeros os movimentos sociais, as paróquias, as comunidades, os padres, as instituições que gostariam de estar aqui conosco e não puderam, pelas tarefas que têm. O senhor sabe como é a vida pastoral, como é a vida nas paróquias, e muitos padres, D. Joel, não puderam vir porque estão celebrando neste momento.

Eu recebi vários e-mails e mensagens. Não vou ler todos aqui em função do nosso horário, mas eu trouxe um que eu gostaria que representasse a voz de todos e todas que se manifestaram conosco. Abre aspas: “Em tempos desafiadores, em que a razão, o bom senso e a verdade parecem sucumbir diante de fortes ataques à razoabilidade, com criação de narrativas que ludibriam a realidade, D. Vicente se destaca como um ser humano, um cristão e um líder religioso comprometido com a profecia nos tempos atuais. A ele cabe certamente o que já disse o saudoso D. Hélder Câmara: 'Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo; quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista'.

Nosso coração mineiro se alegra por acolhê-lo como cidadão da nossa terra. Ele, de fato, sabe que a vida é cheia de Minas: empatia, amizade, amor, justiça, solidariedade e verdade. Por isso, o coração precisa sempre mais se alargar no horizonte das gerais da vida. Sua vida, no meio de nós, configura o lema da nossa bandeira: 'Libertas quae sera tamen'.

Parabéns, D. Vicente; parabéns, nosso irmão, Minas das Gerais”. Pe. Nogueira, vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Boa Viagem, em nome de todos e de todas que aqui não puderam estar.

Viva D. Vicente!