Deputados divergiram quanto à atuação e permanência do atual chefe da Polícia Civil
Andrea contou que foi cobrada por não atender a pedidos de transferências de policiais

Ex-chefe da Polícia Civil relata ingerência política

Andrea Vacchiano participou de audiência que debateu áudio que mostraria suposto aparelhamento da corporação.

10/07/2018 - 14:03

A ex-chefe da Polícia Civil, delegada aposentada Andrea Claudia Vacchiano, participou, nesta terça-feira (10/7/18), de audiência pública da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e relatou o que seria uma tentativa de ingerência política na instituição.

O objetivo da reunião era discutir áudio divulgado pela imprensa que mostraria suposto envolvimento de integrantes da Polícia Civil e agentes políticos com vistas a aparelhamento da corporação.

O caso veio a público em junho, em áudio exibido pela "Rede Record" e pelo "Portal R7". Na conversa, o atual chefe da Polícia Civil, João Octacílio Silva Neto, fala com um então assessor do deputado Durval Ângelo (PT), solicitando uma reunião com o parlamentar.

João Octacílio parece sugerir substituições na Polícia Civil e cita o deputado federal e então secretário de Estado de Governo, Odair Cunha (PT-MG), e a então chefe da corporação, Andrea Vacchiano. Ela seria substituída pelo próprio João Octacílio, semanas depois.

Presente na audiência, Andrea Vacchiano contou que foi cobrada, em reunião com Odair Cunha e com o vereador Wellington Magalhães (PSDC), por não atender aos pedidos do vereador. Wellington Magalhães é investigado e chegou a ser preso por supostamente fraudar licitações na Câmara Municipal de Belo Horizonte.

Segundo ela, os pedidos de Wellington Magalhães se tratavam, em sua maioria, de transferências de policiais. Andrea Vacchiano afirmou que explicou ao parlamentar que todos os pedidos de transferências recebidos, independentemente da origem, eram alvos de análise técnica e que muitos foram negados diante da falta de recursos humanos na Polícia Civil.

A delegada ainda defendeu a aprovação de projeto para que o chefe da Polícia Civil seja escolhido a partir de lista tríplice com o objetivo de garantir que não haja ingerência do governo na instituição. Segundo ela, o fato de a escolha ser feita pelo governador evidencia essa subordinação.

Deputados divergem sobre atuação de chefe da Polícia Civil

O presidente da Comissão de Segurança Pública e autor do requerimento, deputado Sargento Rodrigues (PTB), defendeu a exoneração de João Octacílio como chefe da Polícia Civil e condenou o teor do áudio, que, segundo ele, causou repulsa. “Mais parece uma conversa de organização criminosa”, apontou. O parlamentar pediu providências para os órgãos cabíveis, em especial da Corregedoria da Polícia Civil. 

O deputado João Leite (PSDB) criticou a escolha de João Octacílio para chefe da Polícia Civil, que teria sido uma opção político-partidária. Para ele, Andrea Vacchiano foi retirada do cargo por não aceitar influências políticas em suas decisões. Ambos os deputados elogiaram a atuação da ex-chefe da corporação.

Operações policiais - Já o deputado Paulo Guedes (PT) defendeu a gestão de João Octacílio à frente da Polícia Civil. Segundo ele, a substituição na chefia da Polícia Civil foi puramente técnica, não havendo nenhuma motivação política. De acordo com ele, na nova gestão já foram feitas mais de 70 operações policiais, enquanto que na anterior nenhuma operação teria sido realizada, informação que foi contestada por Andrea Vacchiano.

O parlamentar ainda condenou a forma agressiva como estariam sendo tratadas as forças policiais em Minas Gerais. Para ele, a comissão está virando palco para se passar uma ideia de caos na segurança pública em Minas Gerais, além de denegrir a imagem dos chefes das polícias Civil e Militar.

O deputado Sargento Rodrigues defendeu o trabalho da Comissão de Segurança Pública, que segundo ele realiza o maior número de audiências entre as comissões permanentes da Assembleia. Ele também voltou a denunciar "maquiagem de dados" estatísticos sobre a área em Minas, segundo ele, para impedir que a realidade da segurança seja mostrada à sociedade.

Peritas fazem relato sobre pressão sofrida

Outro assunto debatido na reunião foi o relato feito por duas peritas criminais de pressão sofrida dentro de unidade da Polícia Civil em que teriam sido acusadas de produzir um laudo falso.

A perita da Polícia Civil, Viviane Marcia Mendonça, explicou que recebeu uma intimação para comparecer a um depoimento na Delegacia de Fraudes. Segundo ela, no depoimento realizado ontem (9/7), ela foi pressionada pelo delegado Rodrigo Bossi, que teria questionado, aos gritos, a validade de laudo produzido por ela e pela perita Daniela Venâncio Mendes há seis anos.

Ela afirmou que o delegado teria dito que o laudo produzido teria culminado em uma condenação injusta de Nilton Monteiro, responsável pela divulgação da chamada Lista de Furnas. Segundo ela, o delegado a questionou sobre o laudo, mas não lhe deu acesso a ele, e afirmou que elas são alvo de uma investigação que apura a existência de uma quadrilha dentro da Polícia Civil.

Gritos - Daniela Venâncio Mendes confirmou o relato da colega e explicou que foi a segunda a prestar depoimento. Segundo ela, do lado de fora da sala, era possível escutar os gritos do delegado Rodrigo Bossi durante o depoimento de Viviane Mendonça.

O presidente do Sindicato dos Peritos Criminais de Minas Gerais, Wilton Ribeiro de Sales, apoiou as peritas e afirmou que foi feita uma representação na Corregedoria. Os deputados João Leite e Sargento Rodrigues condenaram o ocorrido. O subcorregedor da Polícia Civil, Fábio Silva Tasca, afirmou que a Corregedoria está atenta a todas as questões levantadas e que vai tomar as providências necessárias.

O deputado Paulo Guedes disse que vai apresentar novo requerimento para que o delegado Rodrigo Bossi compareça à Comissão de Segurança da Assembleia e possa explicar o ocorrido. A perita Viviane Mendonça solicitou que a comissão, então, peça acesso ao depoimento dela naquela ocasião, para que se possa fazer o contraponto à fala do delegado, se ele por acaso comparecer à próxima audiência.

O presidente da comissão, deputado Sargento Rodrigues, lembrou que o delegado foi convidado para a reunião desta terça-feira, mas não compareceu.

Requerimentos – Na reunião foi aprovado requerimento do deputado Carlos Pimenta (PDT) para realização de audiência pública para debater a extinção de unidade da Polícia Militar no Bairro JK, em Montes Claros (Norte de Minas).

Outra audiência pública aprovada foi solicitada pelo deputado Sargento Rodrigues. A reunião vai debater a falta de repasse dos recursos devidos ao Instituto Elo, instituição que, por meio de parceira com o Estado, atua em programas de prevenção à criminalidade.

Do mesmo parlamentar, foi aprovada a realização de reunião para entrega de votos de congratulações a policiais civis de Teófilo Otoni (Jequitinhonha/Mucuri).

Consulte o resultado da reunião.