Comissões debateram os danos que a instalação de um aterro sanitário na comunidade de Quilombo, em Divinópolis, causaria às comunidades locais
Segundo Adriana Silva, 28 famílias seriam diretamente atingidas pelo aterro
Parlamentares falaram sobre os riscos que envolvem empreendimentos desse tipo

Moradores querem arquivar processo de aterro em Divinópolis

Alegação é de que projeto em área visada pela empresa traria danos a nascentes e licenciamento teria falhas.

16/03/2016 - 17:01

Moradores de Quilombo, em Divinópolis (Centro-Oeste de Minas), reivindicaram, nesta quarta-feira (17/3/16), o arquivamento do processo de licenciamento ambiental para a instalação de um aterro sanitário na região pela empresa Viasolo Engenharia Ambiental S.A. O empreendimento, segundo eles, causaria danos às comunidades de Quilombo, Choro, Costas, entre outras, comprometendo três nascentes e a agricultura familiar na região.

Foi denunciado, ainda, que o processo de licenciamento, aberto em 2013, teria irregularidades e questionado o fato de não ter havido licitação para o empreendimento. O assunto foi discutido em reunião conjunta das Comissões de Agropecuária e Agroindústria e de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

Presidente da Comissão de Meio Ambiente e um dos autores do pedido da audiência, o deputado Fabiano Tolentino (PPS), alertou para riscos que envolvem empreendimentos desse tipo. Ele lembrou que recentemente houve o vazamento de chorume de aterro inaugurado no ano passado em Montes Claros (Norte de Minas) pela Viasolo, a mesma empresa que agora pretende implantar o aterro em Divinópolis.

O chorume é uma substância líquida resultante do apodrecimento de matérias orgânicas e muito encontrado em lixões e aterros sanitários, provocando mal cheiro. Caso não seja tratado, pode atingir lençóis freáticos, rios e córregos, provocando a contaminação dos recursos hídricos. “À epoca a empresa teria creditado o vazamento em Montes Claros a uma chuva intensa na região, mas uma obra desse porte tem que prever isso”, destacou o deputado.

Moradores - A presidente da Associação dos Moradores, Adriana Silva, explicou que Quilombo é o centro de uma comunidade que tem cerca de 2,5 mil moradores, vivendo no seu entorno 28 famílias que seriam diretamente atingidas pelo aterro, com prejuízos à agricultura familiar. “Aterros são necessários, mas devem estar em áreas improdutivas e de baixo impacto social”, cobrou.

Segundo Adriana, essas famílias produzem cerca de 8,4 mil pés de alface por semana, além de frutas e verduras, e ainda 25 mil litros de leite por dia, queijo e outros derivados. Ela destacou que a produção segue os padrões do serviço de inspeção e abastecem o Programa de Aquisição de Alimentos, voltado para merenda escolar e creches, além de ser comercializada em várias feiras livres e no comércio da cidade.

“Sabemos da importância do tratamento do lixo, mas somos contra o local escolhido e não concordamos com nenhuma compensação que venha”, frisou.

Licenciamento - O advogado da Comunidade do Quilombo, Pedro Paulo Pozzolini, afirmou que a Viasolo vem tratando a questão do aterro de forma “obscura”, sem observar a legislação e omitindo informações. Ele denunciou que o projeto da empresa não obedece os limites mínimos de distância a que os aterros devem estar de nascentes e rodovias. A empresa também não teria apresentado o Estudo Prévio de Impacto de Vizinhança, exigido no processo de licenciamento ambiental.

Segundo o advogado, o projeto do aterro atingiria ainda uma faixa de servidão de uma torre de transmissão da hidrelétrica de Furnas, que no caso teria que se manifestar sobre o empreendimento. “Furnas negou o pedido de anuência feito pela empresa, que omitiu essa informação no processo de licenciamento. Somente isso já coloca em xeque os demais estudos que a empresa apresentou no processo”, afirmou Pozzolini.

Para o advogado, chama atenção ainda o fato de que o terreno cogitado para o aterro ter sido vendido pelo dono original, em agosto de 2014, por R$ 200 mil. O comprador, em 15 de dezembro do mesmo ano, teria vendido a área para a Viasolo por dez vezes mais, ou R$ 2 milhões.

Questionou-se, ainda, o fato de a Viasolo ter sido considerada inabilitada, neste mês de março, em processo de licitação aberto no município de Divinópolis para assumir a coleta de lixo. Segundo Pozzolini, a inabilitação se deu pelo índice de endividamento. O fato provocou dúvidas na audiência quanto à sustentabilidade de um aterro da empresa, já que a mesma não teria mais a coleta do lixo.

Investigação - Segundo o advogado Robervan Faria, do “Grupo No Quilombo, não!”, a Prefeitura de Divinópolis teria optado pela implantação de um aterro na cidade por concessão administrativa, e não por meio de Parceria Público-Privada (PPP), para não passar pelo crivo da Câmara Municipal.

Ele afirmou que muitos políticos da cidade teriam recebido doações da empresa Viosolo durante suas campanhas e mostrou a lista dos nomes. “Foram doações legais, mas será mapeado o posicionamento deles com relação à questão do aterro”, disse o advogado, que fez uma representação ao Ministério Público pedindo investigação de irregularidades no empreendimento.

Deputados cobram análise de impacto social

O deputado Fabiano Tolentino defendeu que, mesmo que o empreendimento viesse a cumprir requisitos legais, seria preciso também ouvir a comunidade de Quilombo e verificar a situação local. Ele destacou que no próximo dia 28 de março haverá uma audiência pública sobre o assunto na Câmara de Divinópolis.

Considerando que o risco de vazamento de chorume em aterros é real, a deputada Marília Campos (PT) lamentou que aterros no Brasil geralmente sejam construídos em bairros de periferia e próximos a áreas de adensamento populacional.

“Deve-se considerar as pessoas e a qualidade de vida”, cobrou a deputada sobre o empreendimento em Divinópolis, lançando ainda questionamentos como o que seria feito com o chorume do aterro e se outras áreas foram estudadas para sua implantação.

O deputado Fábio Avelar Oliveira (PTdoB), também autor do requerimento da audiência, considerou que não se deve aprovar um aterro que pode vir a comprometer três nascentes, como se pretende em Divinópolis, sobretudo em tempos de crise de água.

Já o deputado Cristiano Silveira (PT) considerou que instalar um aterro no terreno em questão fere, entre outros, o direito ao trabalho, no caso o de agricultores familiares. Ele considerou absurda a intenção e defendeu a mobilização social e um esforço conjunto para reverter a situação, inclusive junto ao Executivo Municipal.

Ausência - Eduardo Arantes do Nascimento, assessor da presidência da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (Fetaemg), defendeu não só o arquivamento do processo de licenciamento mas a obrigatoriedade do comparecimento da empresa a audiências como as da ALMG. “Que se suspenda o processo enquanto a empresa não comparecer”, apontou.

Além de considerar que a Viasolo não está cumprindo requisitos de publicidade ao conduzir a questão, Nascimento disse que a empresa estaria intimidando moradores com a presença de seguranças durante audiência pública realizada como parte do processo de licenciamento.

A empresa Viasolo justificou sua ausência na reunião alegando pouco tempo para viabilizar o envio de representantes. O presidente da Comissão de Meio Ambiente lamentou o fato e informou que foram enviados à empresa três convites por e-mail em datas diferentes, além de feito contato telefônico.

Supram garante que comunidade será ouvida

O titular da Superintendência Regional de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Supram) Alto São Francisco, Paulo Tarso Alvim Miguel, afirmou que o processo de licenciamento para o aterro será conduzido de “forma técnica e humana”. Segundo ele, o processo foi aberto à comunidade e todas as informações foram dadas aos interessados.

Quanto à reivindicação de que seja arquivado, o representante do Governo lembrou que a extinção ou não de um processo depende de análise prévia e de justificativa, sob pena de gerar um mandado de segurança contra o Estado. “Mas posso garantir que da forma que chegar ao final esse processo, vai chegar com todos vocês tendo sido ouvidos”, disse o superintendente. Ele afirmou que todas as questões envolvendo a situação estão sendo analisadas e que embora não possa antecipar o resultado final, a Supran está aberta ao debate.

Consulte o resultado da reunião.