Representantes de um projeto de urbanização no local apresentaram medidas de sustentabilidade previstas pela empresa, mas dúvidas não foram sanadas

Empreendimentos no Sinclinal Moeda preocupam ambientalistas

Impacto da captação de água nos aquíferos subterrâneos está no centro das discussões sobre a urbanização da região.

11/06/2015 - 21:05 - Atualizado em 12/06/2015 - 11:27

Ambientalistas e moradores do Sinclinal Moeda, formado pelas Serras da Moeda e do Itabirito, estão preocupados com os impactos que novos empreendimentos vão trazer principalmente para os aquíferos e nascentes da região. Em audiência pública conjunta promovida pelas Comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e Extraordinária das Águas da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) nesta quinta-feira (11/6/15), representantes de um projeto de urbanização no local apresentaram as medidas de sustentabilidade previstas pela empresa, mas as dúvidas não foram completamente sanadas.

O Sinclinal Moeda é um sistema montanhoso com grandes reservas de água subterrânea que começa ao sul de Belo Horizonte, na divisa com Nova Lima, e segue até a região de Congonhas. Noi entanto, nem só de suas belezas naturais vive a região – no sinclinal, estão instalados condomínios de luxo, mineradoras e, mais recentemente, uma fábrica da Coca-Cola, em Itabirito. O maior empreendimento, porém, é o projeto urbanístico CSul, que engloba 27 milhões de m² entre Nova Lima e Itabirito e pretende atrair cerca de 145 mil moradores nos próximos 45 anos.

Segundo a presidente da ONG Abrace a Serra da Moeda, Beatriz Vignolo, as mais novas atividades empresarias no sinclinal, a fábrica de refrigerantes e o condomínio da CSul, não realizaram previsões do impacto da captação de água necessária nos aquíferos subterrâneos. Vignolo explicou que a captação por meio de poços profundos, o mais usual nesses casos, causa cones de depressão no aquífero que, conforme o volume extraído, podem impactar as nascentes da região.

A ambientalista também acusou as empresas de apenas transferirem a responsabilidade pelo abastecimento de água para as companhias de saneamento locais, como a Samotracia e o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Itabirito. “Provavelmente vai sair muito mais água do que voltar”, apontou.

Os deputados Iran Barbosa (PMDB) e Fred Costa (PEN), que requereram a reunião, também se mostraram preocupados em relação ao consumo de água no sinclinal e o abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), muito dependente da bacia do Rio das Velhas. “Venho estudando cada vez mais o assunto e a captação subterrânea de água sempre me preocupa”, afirmou o deputado Iran Barbosa. De acordo com o parlamentar, se não chover, a RMBH terá que reduzir o consumo de água em 30% para evitar um racionamento já a partir de setembro.

O deputado Fred Costa questionou Luciana de Souza Lima, representante da Copasa na audiência, se, com o consumo previsto pelos empreendimentos na região e todo o passivo gerado nas últimas décadas, não há risco de falta de água nos municípios do entorno. Ela respondeu que a Copasa monitora a situação e que existe, sim, o risco de racionamento, mas ainda não mensurável.

A técnica da Copasa esclareceu ainda que, se confirmadas as previsões de grande demanda de abastecimento de água pela fábrica e pelo condomínio, esse consumo seria suficiente para abastecer algumas cidades mineiras. Outra questão levantada por ela foi a possível impermeabilização do solo com as atividades desenvolvidas no sinclinal.

CSul garante sustentabilidade do empreendimento

Waldir Salvador de Oliveira, superintendente da CSul, assegurou que o projeto urbanístico desenvolvido pela empresa é revolucionário e prevê o cumprimento de toda a legislação ambiental. “Na CSul, não discutimos legislação ambiental; cumprimos”, garantiu.

Em relação ao impacto do empreendimento no abastecimento de água da região, ele afirmou que a ideia da empresa é atrair para um espaço multiuso e que proporcione qualidade de vida a pessoas que morariam em outros lugares, predominantemente a Zona Zul de Belo Horizonte. Ou seja, uma população que já demandaria mais recursos hídricos, com o crescimento natural das cidades. “Temos que conquistá-los, inclusive no que diz respeito à gestão ambiental, uma das maiores preocupações contemporâneas”, explicou.

O técnico Thiago Metzker, também representando a CSul, apresentou o trabalho ambiental que engloba o condomínio. “Tudo foi mapeado. Separamos áreas de conservação da área de construção urbanística, que corresponde a 36% de todo o empreendimento”, disse.

Segundo Metzker, o projeto prevê 11 milhões de m² de áreas para recarga de aquíferos e, dentro dessa área, mais de 3 milhões de m² de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Ele garante que áreas de preservação permanente estão protegidas e que inclusive terrenos sem restrição ambiental, mas de apelo paisagístico, foram considerados para que não haja intervenção urbana.

Ainda segundo o técnico da CSul, o empreendimento conta com projetos de drenagem e monitoramento da água superficial e subterrânea, um plano de recuperação de áreas degradadas e monitoramento dos indicadores de sustentabilidade. A CSul ainda esclareceu que o loteamento da área obrigatoriamente tem que contar com um sistema de tratamento de todo o esgoto que o condomínio vai gerar.

Parlamentares apontam crescimento da Capital como irreversível

Os deputados João Vítor Xavier (PSDB) e Iran Barbosa ressaltaram que não adianta se prender ao sonho de que as áreas ainda não urbanizadas vão se manter intactas. Ambos enfatizaram que, com o crescimento inexorável das grandes cidades, a preocupação tem que ser a de proporcionar qualidade de vida às pessoas e expandir os municípios de forma responsável e sustentável.

Sobre esse aspecto, o deputado Fred Costa se mostrou curioso sobre o investimento em mobilidade urbana do projeto urbanístico da CSul, uma vez que seu objetivo seria atrair pessoas cansadas dos problemas das metrópoles, como o trânsito. O superintendente Waldir Salvador de Oliveira afirmou que as avenidas internas do empreendimento terão 40 metros de caixa, semelhantes à Avenida Afonso Pena, na Capital, justamente como prevenção ao esperado crescimento da região.