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Livro relata sofrimento e absolvição de jornalista acusado de
crime
O jornalista José Cleves lançou nesta terça-feira
(30/6/09), na Galeria de Arte da Assembleia Legislativa de Minas
Gerais, o livro A Justiça dos Lobos, em que reconstitui o
período de oito anos entre a acusação de ter assassinado a própria
mulher e sua absolvição pela Justiça. Antes do lançamento, a
Comissão de Direitos Humanos promoveu debate sobre o assunto, no
Teatro da ALMG. Os participantes da reunião também discutiram a
atuação da mídia no caso, a liberdade de imprensa e a regulamentação
da profissão de jornalista.
O assassinato de Fátima Aparecida, mulher de José
Cleves, ocorreu em dezembro de 2000. Ele foi indiciado pela Polícia
Civil, mas sempre negou ter cometido o crime. O jornalista disse que
os dois foram vítimas de um assalto e apontou armação no caso.
Antes, ele havia denunciado, em diversas reportagens, o envolvimento
de policiais em episódios de corrupção e tortura. Cleves foi
inocentado pelo Tribunal de Justiça (TJMG), mas os promotores do
caso recorreram ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Supremo
Tribunal Federal (STF). No ano passado, os dois tribunais superiores
confirmaram a decisão do TJMG.
A reunião desta terça-feira (30) foi realizada a
pedido do presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado
Durval Ângelo (PT). Ele lembrou o espaço dado pela comissão para que
Cleves se defendesse e disse que, apesar de o jornalista ter sido
vítima de uma injustiça, a verdade prevaleceu. "Este livro não traz
a pessoa querida de volta ao seio da vida, talvez não devolva a paz
a seus filhos, mas repõe a verdade dos fatos", afirmou o
deputado.
Depoimento emocionado - Cleves deu um depoimento emocionado sobre o caso e relatou o
sofrimento de ter sido apontado como criminoso pela polícia e a
maior parte da imprensa. "A dor da injustiça que vivi é
indescritível", declarou. O jornalista disse que só teve força para
enfrentar o processo por causa do apoio de amigos e do suporte dado
pela Comissão de Direitos Humanos, desde que a procurou, em 2001.
"Fui atendido com todo o carinho, fui tratado como cidadão",
afirmou, citando especialmente os deputados Durval Ângelo e João
Leite (PSDB).
O jornalista Dídimo Paiva, um dos mais respeitados
nomes da profissão em Minas Gerais, fez uma crítica à atuação da
imprensa no caso José Cleves. Ele notou, com indignação, que nenhum
jornal divulgou a reunião desta terça-feira (30). Dídimo comemorou,
ainda, a recente revogação, pelo STF, da Lei de Imprensa editada em
1967, durante o regime militar. Ele aproveitou a ocasião para propor
uma nova Lei de Imprensa, com apenas um artigo, determinando aos
veículos de comunicação que concedam ao direito de resposta o mesmo
espaço dado a uma acusação.
Durval Ângelo disse que vai ler o documento
apresentado por Dídimo no Plenário da ALMG e vai apresentar
requerimento, na Comissão de Direitos Humanos, para que a proposta
seja encaminhada ao Congresso Nacional.
Omissão - O jornalista
Washington Mello, que representou a Federação Nacional dos
Jornalistas (Fenaj), lamentou a omissão da categoria no processo
vivido por José Cleves e destacou a "coragem, sofrimento,
compromisso moral e força ética" do autor do livro.
A atuação da imprensa também foi mencionada pelo
advogado Marcelo Leonardo, que defendeu Cleves da acusação de
assassinato. Ele afirmou que o jornalista foi vítima de um massacre.
"Uma eventual condenação criminal talvez seja pior do que a
condenação dos meios de comunicação, que é como se fosse uma
condenação da sociedade". Leonardo assumiu a causa de Cleves a
pedido de Dídimo Paiva. Os dois foram objeto de elogios de diversos
participantes do debate, por seu apoio ao jornalista.
Também participaram da reunião a representante do
Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Valéria
Said Tórtaro, e o vereador de Belo Horizonte Adriano Ventura (PT).
Ambos criticaram outra decisão recente do STF sobre a área, o fim da
exigência do diploma para exercício da profissão. Ventura, que
também é jornalista, acrescentou que o caso José Cleves é exemplar
de como o jornalismo deve ser exercido com responsabilidade.
Presenças - Deputados
Durval Ângelo (PT), presidente; e Weliton Prado (PT).
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