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Expositores apresentam propostas para a previdência em
fórum
As causas e os efeitos do déficit da previdência e
o financiamento do regime próprio do servidor público em Minas
Gerais serão alguns dos temas abordados, nesta segunda-feira
(14/4/2003), primeiro dia do Fórum Técnico "Reforma da Previdência",
promovido pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Com 1,5 mil
inscritos, o evento vai durar três dias e abordará temas polêmicos,
como a aposentadoria dos servidores públicos, o teto dos benefícios
e a viabilidade do regime geral. No encerramento do fórum técnico,
uma síntese das propostas será entregue ao ministro da Previdência,
Ricardo Berzoini.
Números - Segundo dados do
Ministério da Previdência, relativos a 2002, em Minas Gerais há 319
mil servidores ativos e 190 mil inativos e pensionistas. A relação
de servidores ativos e inativos é de 1,67. A receita com
contribuições, de acordo com o governo estadual, foi de R$ 638
milhões e a despesa com inativos e pensionistas foi de R$ 3,4
bilhões. O resultado é a existência de um déficit de R$ 2,7 bilhões.
Já o déficit do ano passado, somando os 26 Estados e o Distrito
Federal, foi de R$ 14,5 bilhões (número estimado pelo Ministério da
Previdência). Todos esses números deverão ser discutidos no fórum
técnico, assim como apresentadas propostas de reforma da
previdência.
Os expositores a seguir vão participar do primeiro
dia do Fórum Técnico "Reforma da Previdência". Cerca de meia hora
antes de cada painel, eles vão estar à disposição da imprensa no
Salão Nobre da Assembléia.
Segunda-feira (14/4/2003)
8h45 - Painel "Diagnóstico da seguridade social no
Brasil"
* Roberto Brant, deputado federal, presidente da
Comissão Especial para a Reforma da Previdência
Ao comentar proposta do governo federal de
estabelecer um teto único para aposentadoria no serviço público e na
iniciativa privada, Brant destaca que não se pode agravar o déficit
da previdência geral, a fim de elevar o teto de benefício do
funcionalismo. Hoje, os servidores públicos têm aposentadoria
integral. O teto de contribuição e de benefício do regime geral de
previdência é de R$ 1.561,56, mas em junho passará para R$ 1.830,00
(inflação acumulada nos últimos 12 meses). Uma das propostas em
discussão é elevá-lo para R$ 2,4 mil (10 salários mínimos,
considerando o aumento do mínimo para R$ 240). O novo teto seria
aplicado ao serviço público e à iniciativa privada. Para Roberto
Brant, a aposentadoria de parlamentares e juízes deve ser igual à
dos demais trabalhadores. No caso dos militares, poderia haver
regras de ajuste, tendo em vista a natureza da atividade. É
favorável à contribuição dos inativos, mas defende que os
aposentados que recebem até o teto do INSS deveriam ficar isentos da
cobrança.
* Sérgio Miranda, deputado federal, membro da
Comissão Especial para a Reforma do Sistema Tributário
Nacional
Exerce seu quarto mandato como deputado federal e é
membro titular da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara e da
Comissão Mista de Orçamento. Para o deputado, o Projeto de Lei 9/99,
em tramitação no Congresso, constitui uma quebra de contrato com os
servidores públicos, pois desrespeita o direito à aposentadoria
integral. Esse projeto trata da previdência complementar para os
servidores. Para Sérgio Miranda, instituir a previdência
complementar para o serviço público aumentará gastos em vez de
reduzi-los. Isto porque os servidores que recebem acima do teto e
contribuem com 11% de sua remuneração para o governo passarão a
pagar para os fundos. Assim, o governo terá de desembolsar a
contribuição patronal para esses fundos de previdência. O deputado
também destaca que, em comparação ao PIB, o déficit do setor público
está caindo, enquanto aumenta o do regime geral, o INSS. Em 2003, o
gasto com a previdência dos trabalhadores da iniciativa privada
corresponderá a 1,38% do PIB. EM 2037, subirá para 2,23%. Em relação
à previdência dos servidores públicos federais, o resultado é
decrescente. Neste ano, o déficit corresponderá a 0,99% do PIB e, em
2037, cairá para 0,33%.
* Márcio Soares Pereira, gerente executivo do INSS
em Belo Horizonte
Servidor da Previdência Social há 33 anos, ocupa a
gerência executiva do INSS na Capital desde dezembro de 1999. Ele
falará sobre fontes de custeio do INSS, benefícios, população
atingida e fator previdenciário. Márcio Soares Pereira defende que a
sonegação, a fraude e a inadimplência precisam ser combatidas, para
dar maior credibilidade ao sistema. Merece tratamento prioritário,
acrescenta ele, a cobrança da dívida inscrita, ajuizada ou não, da
ordem de R$ 100 bilhões de créditos a receber do setor público e
privado. "Esse valor seria suficiente para recuperar a dignidade do
valor dos benefícios", enfatiza. Márcio Soares Pereira lembra que a
cobrança eficiente é necessária também para coroar o esforço da
fiscalização.
* Eli Iola Gurgel Andrade, professora da Faculdade
de Medicina da UFMG
Economista, é doutora em Demografia pelo
Cedeplar/UFMG. Sua tese tratou do equilíbrio financeiro da
previdência social brasileira. Eli Andrade discorda de que o regime
geral de previdência, administrado pelo INSS, seja sustentável do
ponto de vista financeiro e atuarial. Ela lembra que a arrecadação
cobre menos da metade dos trabalhadores e daqueles que têm renda -
58% não contribuem com o INSS; outros 42% pagam a previdência hoje.
Isto se deve, acrescenta a professora, ao descrédito que a
Previdência Social vem sofrendo nos últimos 20 anos. "As pessoas não
confiam no sistema", enfatiza. Eli Andrade defende que o regime
geral seja restaurado e se transforme no esteio da previdência
pública (da União, dos Estados e dos Municípios). Ela pondera que
deveria ser aplicada a integralidade ao regime geral. Desta forma, o
trabalhador privado voltaria a contribuir para o INSS.
* Ruy Brito de Oliveira Pedroza, ex-membro da
Organização Internacional dos Trabalhadores (OIT)
Ex-presidente do Departamento Intersindical de
Assessoria Parlamentar (Diap), Ruy Pedroza ressalta que as reformas
feitas pelos governos anteriores fracassaram por resultarem de um
diagnóstico reducionista e preconceituoso do sistema previdenciário
e pela interferência dos grupos nacionais e estrangeiros
interessados na privatização da previdência. Ele lembra que,
enquanto a contribuição do segurado do INSS é de 8% a 11% até o teto
de R$ 1.561,41, o servidor público contribui com 11% sobre a
totalidade de seus vencimentos. "Teto de benefício mais elevado não
significa privilégio se o beneficiário paga contribuição
correspondente", pondera. Ele aponta que a causa principal do
déficit da União, dos Estados e dos Municípios é a dívida pública,
que já representa cerca de 60% do PIB. Ruy Pedroza defende, ainda,
que se reforme todo o sistema, "dele extirpando as mazelas
existentes em todas as áreas". Caso contrário, os ajustes apenas no
plano de benefícios serão inócuos.
14 horas - Painel "A previdência social do servidor
público e dos militares em Minas"
* Gleison Pereira de Souza, diretor de Previdência
do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais
(Ipsemg)
Superintendente de Modernização Administrativa da
Secretaria de Estado da Administração e Recursos Humanos no governo
anterior, ele participou também dos debates que resultaram na Lei
Complementar 64/2002, que trata da previdência dos servidores
públicos. Segundo o diretor de Previdência do Ipsemg, em 2002, a
despesa com pagamento de inativos e pensionistas foi de R$ 3,4
bilhões; e a receita de contribuições, de R$ 638 milhões. A
diferença atingiu R$ 2,7 bilhões e o déficit atuarial chegou a R$ 21
bilhões.
* Coronel Roberto Rezende, diretor-geral do
Instituto de Previdência dos Servidores Militares (IPSM)
Presidente do IPSM há dois anos, o coronel
defenderá, no fórum técnico, o regime próprio de previdência para os
servidores militares de Minas Gerais. Segundo ele, o regime próprio
é viável por vários motivos, entre eles os seguintes: os inativos já
contribuem com a previdência; o grupo é homogêneo e a escala
salarial também, já que um coronel não chega a receber quatro vezes
o que recebe um soldado. Outra proposta é que o IPSM seja o gestor
de um fundo previdenciário próprio, nos moldes do que ocorre hoje
com o Ipsemg (o instituto de previdência dos servidores civis).
Todas essas propostas foram apresentadas sob a forma de um
anteprojeto de lei às Secretarias de Administração e da Fazenda,
além da Procuradoria-Geral do Estado, durante o governo anterior.
* Olga Carvalho Hott, diretora do Sindicato dos
Auditores Fiscais da Previdência Social em Minas
(Sindifisp/MG)
É auditora fiscal aposentada da Previdência Social.
Segundo ela, "aqueles que se dedicam ao estudo da previdência sem
ter seus objetivos voltados para o mercado especulativo em nenhum
momento vêem na reforma proposta pelo governo e o FMI a construção
da justiça social". Para Olga Hott, ela consolida a privatização da
previdência, iniciada na década passada; o esvaziamento dos cofres
públicos; a radicalização do Estado mínimo. A diretora acrescenta
que a privatização dos regimes próprios dos servidores terá grandes
conseqüências a médio e longo prazos para os trabalhadores da
iniciativa privada e do serviço público. "Defendemos uma reforma que
recupere as conquistas perdidas com mudanças anteriores e não que
retire mais direitos", conclui.
* Andréa Myrrha Guimarães de Almeida, presidente do
Sindicato dos Servidores do Ipsemg (Sisipsemg)
Assistente social no Ipsemg e presidente do
sindicato há dois anos, Andréa falará sobre a Lei Complementar
64/2002, que trata da previdência dos servidores públicos, abordando
dificuldades para sua implementação e aspectos positivos da lei.
Segundo essa norma, o Ipsemg passou a ser o gestor do Funpemg (o
fundo de previdência dos servidores), que será capitalizado até 2010
e pagará aposentadorias futuras.
* Luiz Gonzaga Ribeiro, presidente da Associação
dos Praças, Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais
(Aspra-PM/BM)
Presidente da Aspra há cinco anos, participou dos
debates no Congresso sobre a Emenda 20 (Reforma da Previdência),
quando era vice-presidente da Federação Nacional das Entidades
Representativas dos Sub-Tenentes e Sargentos. Luiz Gonzaga Ribeiro
defende o regime próprio de previdência para os militares, tendo em
vista particularidades como o alto risco da profissão, a vida útil
reduzida e a inexistência de disparidades salariais. Reivindica,
ainda, a criação de um fundo de previdência, nos moldes daquele
instituído para pagar as aposentadorias futuras dos servidores civis
(o Funpemg); e também que o IPSM seja o gestor do sistema. Hoje, há
38.093 militares na ativa e 16.495 aposentados; além de cerca de 4
mil bombeiros militares na ativa e 300 aposentados.
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