SR. SÉRGIO DE PAULA RAMOS, Membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Estudos sobre o Álcool e Outras Drogas (Abead). Membro da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina.
Discurso
Legislatura 18ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 11/07/2015
Página 46, Coluna 1
Evento Ciclo de Debates: Políticas Sobre Drogas e a Juventude: Prevenção, o "X" da Questão.
Assunto DROGA. MENOR.
Observação No decorrer de seu pronunciamento, procede-se à exibição de slides.
Proposições citadas RQC 716 de 2015
13ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 18ª LEGISLATURA, EM 25/6/2015
Palavras do Sr. Sérgio de Paula Ramos
O Sr. Sérgio de Paula Ramos - Na pessoa do Dr. Antônio Jorge, prezadíssimo amigo há algumas décadas, cumprimento as autoridades presentes, manifestando a minha honra por estar aqui hoje com vocês. Ao mesmo tempo, cumprimento os senhores e as senhoras, agradecendo a presença, que muito me honra.
Antes de mais nada, gostaria de declarar aos senhores que não tenho nenhum conflito de interesse com tudo o que for dito nesta noite. Nunca trabalhei para indústria nenhuma, nunca recebi subvenções de espécie alguma nem tenho familiares que as recebam. Do mesmo modo, digo que trabalho voluntariamente pela Associação Brasileira de Psiquiatria, pela Associação Brasileira de Estudos sobre o Álcool e Outras Drogas e sou diretor técnico da Villa Janus.
Os manuais de conferências nos ensinam que, para ganhar a plateia, precisamos iniciar uma conferência com uma brincadeira.
Na nossa área é difícil achar uma brincadeira ao vermos uma propaganda como essa. Essa propaganda, certamente, não foi feita para fazer o Dr. Sérgio de Paula Ramos tomar cerveja Devassa. Obviamente, essa propaganda foi feita para induzir um jovem atrapalhado com sua sexualidade a tomá-la, porque veicula a ideia de que, se ele tomar essa cerveja, vai conseguir botar a Paris Hilton de quatro.
Essa situação brasileira sobre drogas – estamos absolutamente de acordo com o que todos disseram, ou seja, que começa com o uso de álcool – caracteriza um problema complexo demais, que pretendemos enfrentar nesta noite. Aí, me ocorreu o pensamento de um antigo senador americano. Ele disse que para todo problema complexo existe uma solução simples, elegante e completamente errada.
Devemos considerar o que acontece com o cérebro humano. Achava-se que o cérebro humano estaria completamente amadurecido aos 18 anos, quase amadurecido aos 16 anos. Por isso permitimos que um jovem de 16 anos vote. Permitimos igualmente que um jovem de 18 anos dirija. Nos últimos 10 anos, as neurociências começaram a mostrar-nos uma situação diferente da que pensávamos. Nesse conjunto de fotos, vocês veem o cérebro de uma criança de 5 anos, 8 anos, 12 anos, 16 anos e 20 anos. As áreas em azul são as maduras, as áreas em amarelo, verde e vermelho são as imaturas. Notem os senhores que o cérebro humano começa a se desenvolver, a amadurecer de trás para a frente. Primeiro, amadurece o lobo occipital. Depois dos 21 anos, culmina o amadurecimento pelo lobo frontal. Qual é a consequência disso? Primeiro amadurecem os impulsos, o “eu quero”. No fim das contas, amadurecem os núcleos do bom senso, do juízo crítico, da ponderação.
Esperar que um jovem tenha tudo isso é, no mínimo, desconhecer neuroanatomia. O jovem, o adolescente não tem cérebro para ser maduro, não tem cérebro para segurar seus impulsos, por isso se beneficia, em grande parte quando seus pais estão próximos dele, que, por assim dizer, os pais funcionam como lobo frontal auxiliar. É exatamente por essa razão que a maior parte dos hoje dependentes químicos começou a se envolver com droga na adolescência, porque esta é caracterizada pelo comportamento impulsivo, é caracterizada pelo “primeiro faz, depois pensa no que fez”. Aí a droga tem um apelo muito forte. Entendam os senhores que, quando falo em droga, estou falando tanto das lícitas quanto das ilícitas. No Brasil sempre começamos com o álcool.
Essa situação é tão grave que a Organização Mundial de Saúde, na virada do século XX para o XXI, achou que estava em bom termo a sua luta do século anterior contra as moléstias infectocontagiosas e passou, agora no século XXI, a priorizar o embate contra as possíveis causas ou fatores contributivos de doenças crônicas. Aqui vocês têm uma extensa lista de fatores que contribuem para o surgimento de doenças crônicas. Vejam que, logo ali em cima, em terceiro lugar, está o uso de álcool. Em seguida, o uso de tabaco para, em terceiro lugar, aparecer a obesidade, o sobrepeso. Então, álcool, tabaco e sobrepeso são metas absolutamente defensáveis, até pela Organização Mundial de Saúde, por exemplo, um bom gestor de saúde pública… Principalmente em um país que tem poucos recursos. Sabemos todos que poucos recursos não dão para espalhar, porque não se faz nada. Então, na minha gestão de secretário estadual de Saúde, de secretário municipal de saúde, vou enfrentar o álcool, o tabaco e o sobrepeso. Esse gestor precisa tirar nota 10 porque a sua ação estará em grande parte respaldada pelo último conhecimento médico, pela Organização Mundial de Saúde e por todas as pessoas de bom senso.
Vivemos em um país que dá um exemplo mundial na questão do tabaco. Somos capazes de enfrentar o tabagismo, somos capazes de enfrentar a poderosíssima indústria do tabaco, e estamos no caminho de vencer esse grave problema de saúde pública. O que fizemos com o tabaco? Em primeiro lugar, demos informação. Informação séria, afastada do terrorismo, mas também afastada do oba-oba. Em segundo lugar, restringimos o acesso ao tabaco. Não pode fumar no cinema, não pode fumar no restaurante, não pode fumar no shopping center, não pode fumar em escola, não pode fumar em hospital, não pode fumar, não pode fumar, não pode fumar. Isso é restringir o acesso, dificultar a vida do fumante. Em terceiro lugar, proibimos a propaganda. Esse fato, senhores legisladores aqui presentes, é o turning point. Quando conseguimos proibir a propaganda de algo que faça mal para a saúde, ato contínuo, ganhamos a mídia. A mídia pouco falava sobre os malefícios do tabaco enquanto este era seu anunciante. No momento em que se proibiu a propaganda – já existe um trabalho a esse respeito da Dra. Ilana Pinsky, de São Paulo –, cada centímetro de matéria falando dos malefícios do tabaco antes da proibição se transformou em 7cm de jornal depois da proibição da propaganda.
Parece que esse é um fator fundamental. Fazendo isso com o tabaco, em Porto Alegre, por exemplo, tínhamos 48% de tabagistas entre a população adulta nos anos 1960, e hoje temos 17%. Essa é uma política bem-sucedida. Aqui o que se destaca? Restringiu-se o acesso e se proibiu a propaganda.
Trago dados sobre o impacto do álcool no mundo. O uso nocivo do álcool resulta em 2,5 milhões de mortes a cada ano. Trezentos e vinte mil jovens, entre 15 e 29 anos, morrem de causas relacionadas ao álcool, o que corresponde a 9% de todas as mortes nessa faixa etária. O problema não é a cocaína, o problema é o álcool. O álcool é o 3º fator de risco para o desenvolvimento de doenças. O álcool está ligado a sérios problemas sociais e questões de desenvolvimento, incluindo violência, negligência, abusos infantis e absenteísmo no trabalho. Esses dados são da Organização Mundial de Saúde. Preocupado com o impacto do álcool no mundo, a OMS convocou um grupo de 60 especialistas em álcool e drogas para uma reunião em Genebra, da qual tive a honra de participar junto com o Dr. Ronaldo Laranjeira. Fomos os únicos dois sul-americanos convidados para esse evento, que tinha como propósito a redução do consumo global do álcool. A indústria do álcool adorou essa reunião. Dela surgiram princípios éticos para balizar políticas. Primeiro, todas as pessoas têm o direito a uma vida familiar, comunitária e de trabalho, protegida de acidentes, violências e outras consequências negativas do consumo de álcool. Segundo, todas as pessoas têm o direito às informações imparciais e programas de educação, começando cedo na vida, sobre as consequências do consumo de álcool para a saúde, família e sociedade. Todas as crianças e adolescentes têm o direito de crescer num ambiente protegido das consequências negativas do consumo de álcool e, sempre que possível, da promoção de bebidas alcoólicas. Vocês podem ver que o poder da indústria do álcool é tão grande que, até nessa reunião de experts em álcool e drogas, na hora de se redigir o documento, alguém ainda fez passar esta expressão: “sempre que possível”. Na versão original, não tinha “sempre que possível”. Todas as pessoas com o uso abusivo de álcool e os membros de suas famílias têm direito aos tratamentos e cuidados.
Por fim, são só cinco princípios. Todas as pessoas que desejam ter uma conduta de abstinência alcoólica devem contar com suportes de políticas públicas que lhes deixem confortáveis nas suas opções de não beber. Quero, entre esses cinco princípios, destacar o terceiro, que diz respeito ao cuidado com nossas crianças e adolescentes. Eles têm o direito de crescer num meio social, protegidos da influência do álcool, e o que estamos assistindo no Brasil? Festas de crianças de 5 anos em que papai e mamãe vão porque vai haver espumante. Esta semana, um paciente abstêmio, há três anos, foi a uma dessas festas e me contou: “Eles começaram a tomar espumante às 17 horas e, às 19 horas, resolveram fazer um baile. Eles tiraram da sala os brinquedos das crianças para poderem dançar. Daí a meia hora, as crianças estavam jogadas num canto, algumas chorando, porque mamãe e papai, já de pilequinho, estavam se divertindo. Este é o País que estamos dando para nossos filhos.
Então, fruto das próprias postulações da OMS, surge um conjunto de sete propostas que realmente funcionam, com eficácia internacionalmente comprovada, que podem ser aplicadas em qualquer país do mundo e que deixo para os legisladores desta Casa: regulação do mercado de bebidas alcoólicas, em particular para os jovens; regulação e restrição da disponibilidade de álcool. Abro um parêntese para comentar que vocês que viajam para o exterior sabem que o choque de um transeunte brasileiro em qualquer cidade da Europa ou dos Estados Unidos é perceber que, comparado com o que vemos aqui, lá não tem bares ou farmácias. A verdade é que tem, mas não na densidade que temos. Seguindo: implementação de políticas apropriadas sobre beber e dirigir; redução da demanda através da taxação e demais mecanismos de aumento de preço; aumento da preocupação pública com o tema para dar suporte às políticas; oferta de tratamento; e implementação de programa de diagnóstico precoce e intervenção breve. Qualquer arcabouço legal ou política pública sobre álcool e drogas que tenha por objetivo essas medidas estará no caminho certo.
Baseado na maior parte delas, o que vem acontecendo nos Estados Unidos em relação à prevenção dos problemas do álcool relacionados com adolescente, que é o tema da nossa noite? Nesse documento, um dos documentos mais sérios publicados anualmente nos Estados Unidos, diz-se claramente que o uso de álcool, em um acompanhamento de longo tempo, iniciado em 1980, vem declinando nos Estados Unidos graças à eficácia dos programas de prevenção, tanto os comunitários quanto os de dentro das escolas. Apesar disso, ele diz que em torno de 54% dos que estão na 12ª série – correspondente à nossa 2ª série do ensino médio – e de 13% dos menores reportaram já ter bebido ao menos uma vez na vida. Ou seja, mesmo em um país em que a prevenção funciona, um grupo relevante ainda escapa das ações preventivas.
De qualquer forma, vejamos o que nos diz o próximo gráfico, que traz, no primeiro quadrante, o uso de álcool e, no segundo quadrante superior, à direita, a percepção de risco. Notem que, nas fases em que a percepção do risco sobre o beber por parte dos adolescentes aumenta, o consumo cai. No momento em que a percepção de risco diminui, o consumo aumenta. O que a propaganda brasileira consegue fazer é diminuir a percepção de risco. Na cabeça do adolescente, não existe possibilidade alguma de divertimento que não inclua a bebida alcoólica. Ou seja, na cabeça do adolescente brasileiro, cevada pela indústria do álcool, divertir é igual a beber, e não tem risco algum. Portanto, como vocês verão daqui a pouco, os dados nacionais são absolutamente alarmantes.
Essa tabela está ilegível, mas quero apenas destacar que a experimentação de álcool estava no patamar de 80% em 1980 e, em 2012, caiu para o patamar de 50%. Ou seja, em 20 anos, com uma lei eficaz e cumprida – como os senhores sabem, em vários estados americanos, a bebida alcoólica é proibida para menores de 21 anos de idade –, somada a programas comunitários de prevenção, eles praticamente reduziram pela metade o consumo de bebidas alcoólicas por menores de idade.
E na Europa, terra do vinho, qual é a tendência do consumo atual de álcool? Francamente declinante. Com isso, chegamos ao nosso Brasil.
Como as coisas estão acontecendo aqui? Eu falava antes de álcool e violência no mundo. Vou trazer alguns dados de álcool e violência no Brasil: 36% dos suicidas têm alcoolemia positiva; 48% das pessoas que se envolveram em agressão física no último ano disseram-se sob efeito do álcool, fora as que estavam, mas não disseram; 56% das mulheres agredidas em casa reportaram que seu cônjuge, no momento da agressão, estava alcoolizado; em 76% dos processos criminais, o autor, a vítima ou ambos estavam alcoolizados; e 82% das vítimas fatais no trânsito estavam relacionadas ao álcool.
Podemos dizer que a arma que mais mata neste país é o álcool. Somando todas essas variáveis, posso antecipar a vocês que, se por um desígnio divino, baixássemos um decreto para que hoje à noite em Belo Horizonte ninguém consumisse bebida alcoólica, hoje à noite em Belo Horizonte teríamos 50% menos gestos violentos. É o único fato associado a violência cuja resposta é imediata. Quando se diminui o consumo de álcool em uma dada comunidade, diminui-se, na mesma proporção, os índices de violência urbana.
Temos de chegar à questão da publicidade. Não sei se existe outro país – eu desconheço, talvez o Aloísio possa me ajudar – no mundo cujo código de regulamentação da publicidade de bebida alcoólica é feito pelos publicitários. Não sei se isso existe no mundo. Não existe, não é? O Brasil é campeão. Imaginem a raposa cuidando do galinheiro. O que diz o código que os próprios publicitários fizeram: “2 – As propagandas não deverão favorecer a aceitação do produto como apropriado para menores. 3 – Deverão evitar a exploração do erotismo”. Esse é o código de regulamentação feito pelos próprios publicitários.
Em oposição a essa realidade, temos a indústria do álcool que, avaliando não mais conseguir aumentar o consumo entre os homens adultos, tem tentado ampliar seu mercado investindo sobre três nichos principais: adolescentes, mulheres e idosos. Se vocês compararem as propagandas de cerveja feitas há 15 anos com as atuais, as de 15 anos atrás só tinham homem bebendo. Agora é meio a meio, homens e mulheres. O código de regulamentação publicitária diz que as propagandas devem evitar o erotismo, mas está aí o exemplo.
Confesso a vocês que nunca consigo estar atualizado na apresentação que faço. Depois dessa propaganda... No último verão houve a propaganda da cerveja Sol. Vocês se lembram dessa propaganda na televisão? “Vai Sol, vem Sol”. Era uma moça quase pelada vendendo cerveja.
Tenho como hobby a fotografia e mexo muito com o Photoshop. Para a tranquilidade das senhoras presentes, esse glúteo não existe, muito menos se tomar cerveja. Isso aqui é Photoshop. Esse “uniforme de madre superiora” não tem nada a ver com erotismo, segundo o Conar.
Fiz uma breve coletânea, já desatualizada, mas vejam o nível de perversidade da indústria. Faz o Papai Noel tomar cerveja. Faz uma mulher grávida tomar cerveja. É claro, na vertical, em letras indistinguíveis no fundo, está dito que a cerveja que a grávida está tomando é sem álcool. Mas não dá para ler essa parte. Olhem o nível de perversidade. A associação é sempre com o erotismo, é um tesão de cerveja. Lançaram há um mês a cerveja Proibida. Quero uma Proibida. É sempre a associação com o erotismo e sempre o apelo juvenil. Eu não quero tomar nada que é proibido, mas um adolescente quer.
O grupo da Escola Paulista de Medicina fez algumas perguntas a esses jovens para avaliar qual era o impacto da propaganda na cabeça deles. Começaram indagando se eles viam propaganda de bebida alcoólica. Praticamente a metade dos jovens disse que viram muitas vezes no último mês, ou seja, a propaganda é feita para eles, com o beneplácito de nós, cidadãos brasileiros.
Qual é o impacto do consumo de álcool por menores de idade na receita da indústria? É 6% do mercado. Certamente estão aqui vários empresários, e pergunto a eles se, por conta própria, num gesto altruísta, abririam mão de 6% da sua receita. A resposta, obviamente, é não. Mas a indústria, por ela mesma, não vai mexer nesse mercado.
E agora vem a consequência disso. Perguntaram a jovens de 18 a 25 anos quando haviam começado a beber, e eles responderam que, em média, aos 15,3 anos. Em seguida perguntaram o mesmo aos jovens de 14 a 17 anos, a geração seguinte, e a resposta foi 13,9. Nessa batida, senhores, álcool vai passar brevemente a ser item de merenda escolar. E aqui está um dos problemas. Quanto mais cedo a pessoa começa a beber, maiores são as chances de se transformar em alcoolista. Tanto isso é verdade que quem começa a beber antes dos 13 anos – como se vê na parte esquerda do slide –, como os brasileiros estão fazendo, tem uma chance de praticamente 50% de se transformar no futuro em alcoolista.
Aqui está a confirmação de que, sim, no Brasil o álcool é a droga de entrada para os jovens. Concluindo, pensando-se na saúde pública, nosso dever é criar leis e fiscalizar o cumprimento delas, para baixar o consumo global de bebidas alcoólicas. É claro que o interesse da indústria do álcool é o inverso. Que cada um se pergunte de que lado quer ficar.
E a maconha? Falei do álcool, do caso bem-sucedido do tabaco, e chegamos à maconha. Publiquei recentemente um artigo no jornal Zero Hora, no Rio Grande do Sul, em que estava dito: “Ainda seremos sócios, nós, médicos, do George Soros”. Ele é um dos megainvestidores que está interessado na legalização da maconha.
Notem que, ao contrário do que a mídia professa, o patamar de consumo de drogas no mundo está mais ou menos estável. Em torno de 3% a 5% da população diz já ter experimentado alguma droga ilícita. A única droga grafada ali em preto que está aumentando, e galopantemente, é a maconha. E percebam que aumenta galopantemente depois que começou esse movimento mundial pela sua legalização.
No Brasil, se formos ouvir os adolescentes, eles dirão que todo mundo usa maconha, mas 7% da população já experimentou maconha na vida, a metade deles no último ano, o que coloca o Brasil na saideira das estatísticas internacionais. Vejam que os campeões mundiais de experimentação juvenil de maconha são o Canadá e a Nova Zelândia. Quando um filho ou um neto de vocês quiser fazer intercâmbio e escolher a Nova Zelândia ou a Austrália, botem as barbas de molho, porque não querem aprender inglês, querem é puxar fumo sossegado.
O uso da maconha no último ano, no Brasil, está na faixa de 3%; e, no Canadá e na Nova Zelândia, na faixa de 13%, 14%. Mas o preocupante no Brasil é que 62% das pessoas que experimentaram maconha disseram que foi antes dos 18 anos. Ai temos de nos perguntar: maconha é uma droga inocente?
Efeitos associados ao uso de maconha em jovens – falarei rapidamente, porque são conhecidos de todos: prejuízo do desempenho escolar – esta é fantástica –, usuários de maconha ficam burros comparados com não usuários, perdem até sete pontos do QI aos 25 anos; dependência de maconha, dependência da erva – “é verde, é ecológico”; aumento de chance de se envolver com outras drogas; aumento de chance de sintomas psicóticos, esquizofrenia e depressão; aumento de chance de fracassar na vida – tudo isso com muita evidência científica; e dobra a chance de se envolver em acidentes de trânsito.
No Brasil, 37% dos usuários preenchem critérios de dependência. Este é o resumo do que falei antes. Vejam que, comparados com não usuários, praticamente há 2,5 vezes mais evasão escolar; mais ou menos isso sem diplomas; amparo previdenciário; comportamento suicida; uso de outra droga ilícita. Ou seja, aos 25 anos, quem usou maconha na adolescência está muito pior do que quem não usou.
Num dos últimos trabalhos publicados no The Lancet, o principal periódico do mundo em psiquiatria, o nosso amigo David Fergusson, que já esteve em Ouro Preto, no congresso da Abead, mostra – e é o primeiro trabalho que mostra isto – o que chamamos relação dose-efeito. Ele mostra que quanto mais maconha, mais evasão escolar, mais envolvimento com outras drogas e mais tentativas de suicídio do que quem não usa maconha. Então, maconha é uma leseira, sobretudo para adolescentes.
Aqui está a tabela demolidora. Na coluna da direita está quem nunca usou droga; e, nas outras colunas, quem usou de 1 a 99 vezes, de 100 a 200, até quem usou mais de 400 vezes. Para um usuário de maconha que usou mais de 400 vezes é nada, são duas vezes por semana durante um ano e meio, dois anos.
Porcentagem dos com diplomas universitários aos 25 anos: se atribuirmos o valor 1 ao encontrado em quem não usa maconha, veremos que quem usou pelo menos 400 vezes tem 80% menos diplomas. O ajuste pessoal está inferior: 33 contra 25. Há cinco vezes mais encosto na Previdência Social; e três e pouco, quatro vezes mais desempregados. Ou seja, como eu disse no slide anterior, quem usa maconha está muito pior do que quem não usa.
Mas agora vem a bucha. O autor perguntou às pessoas: você é feliz? Quem usa maconha disse ser um pouco mais feliz do que quem não usa. Estão lesados, burrinhos, sem emprego, doentes, mas estão se achando mais felizes. Essa é a perversão da maconha.
Aqui se repete monotonamente o que mostramos com álcool e, agora, com a maconha. Quanto menor a percepção de risco, maior o consumo.
Vejamos as consequências. Em 1993, o uso diário de maconha reportado por alunos do high school dos Estados Unidos foi de 2,4%; em 2012, 6,5%. Todo esse oba-oba de legalizar simplesmente multiplicou por três a experimentação de maconha.
Vamos ao resumo dos efeitos associados ao uso de maconha, agora em adultos: prejuízo neurocognitivo de longo prazo, ou seja, emburrece para a vida toda; cria uma geração descomprometida com o trabalho; acidentes de trânsito. São três coisas que já estão bem demonstradas com maconha em adultos.
O que dizer sobre as experiências liberalizantes? Vamos liberar, vamos legalizar, dizem por aí. Tive a honra de participar de um grupo de especialistas da Abead que se debruçou sobre as pequisas desses países liberalizados: Austrália, Brasil, Espanha, Holanda, Portugal, Reino Unido e alguns estados americanos. No mapa que vemos sobre essa questão nos Estados Unidos, em verde temos os estados onde a maconha era legalizada há dois anos, momento desse estudo. Vemos aqui o primeiro trabalho que compara os estados que legalizaram de alguma forma com os estados que não legalizaram. Do lado de lá temos os estados não legalizados; do lado de cá, os legalizados. Vejam que nos não legalizados, nos que preenchiam critérios por abuso de dependência, o índice é de 1,3%; nos legalizados, 2,6%, portanto o dobro. Da mesma forma, temos 3,6 e 7,1%. Então, os estados onde houve a legalização tem o dobro de problemas dos não legalizados.
Portugal, não sei se vocês sabem, liberou todas as drogas há 12 anos. Observemos o que ocorreu lá no que se refere ao uso na vida na população em geral, em escolares e na população em geral. Os três gráficos são eloquentes em demonstrar que o uso de maconha em Portugal, depois da legalização, dobrou o consumo. Na Inglaterra houve o mesmo fenômeno.
Vamos enfrentar então essa questão. Se as evidências sinalizam que, com a possível liberalização da maconha, haverá aumento de consumo, aumento dos problemas decorrentes desse consumo e mero deslocamento dos sujeitos do sistema judiciário para o de saúde, a pergunta não é para que liberar, mas também quem está interessado na sua liberação. Em primeiro lugar, os usuários, descompromissados com a saúde pública, que querem ter o direito de puxar o seu fuminho em paz; em segundo, os idealistas defensores do direito de se drogar; em terceiro, operadores do direito angustiados com a superlotação dos presídios; em quarto, grupos de interesse econômico na exploração desse novo negócio. E é aqui, como se diz lá no Rio Grande do Sul, que a vaca vai para o brejo. Acima há a sua lógica e o seu idealismo. Nesse último, é grana que está em jogo.
Tive a felicidade de ser convidado pelo Congresso uruguaio, quando lá se discutia a legalização da maconha, para fazer aos deputados e senadores uruguaios uma apresentação como essa sobre maconha. No dia em que estava em Montevidéu para fazer isso, a primeira página do jornal mais famoso do país, o El Pais, dizia que o George Soros prometia mundos e fundos para legalizar a maconha, até dizendo que ele mesmo daria – vejam como é bonzinho – dinheiro para a pesquisa que mediria o impacto da legalização. De novo estamos vendo a raposa tentando cuidar do galinheiro.
Se a maconha for legalizada, daqui a pouco haverá anúncios. Temos uma plêiade de capas de revistas importantes pró-legalização da maconha. Essas revistas estão preocupadas com o problema da maconha e acham que a saída seria legalizá-la. Uma das coisas mais graves que acontece no mundo hoje é a epidemia de ebola no Norte da África. Procurei quantas capas de revistas deram para a questão do ebola. Foram dadas quatro. Comparem o impacto da maconha com a gravidade do ebola. Há grana atrás disso.
Nesse sentido deixo para a plateia a tarefa de responder qual indústria das atualmente instaladas tem vocação para explorar esse novo negócio. Por acaso será uma que, nos últimos anos, perdeu mais de 50% do seu mercado, cujo expertise é fabricar cigarrinhos.
Trouxe um recorte de um jornal econômico de 2014, em que um expert da indústria do tabaco diz que a indústria já está totalmente preparada para estratégias de ampliação do mercado da maconha. E nós aqui querendo fazer prevenção.
Vamos ver o que a propaganda de cigarro promovia há um século. Em 1900 e pouquinho, uma propaganda dizia que fumar fazia bem para bronquite. Ela dizia que você, mulher, tem o direito de votar e de fumar. Essa é a questão do direito. A propaganda dizia que o cigarro era até recomendado por alguns médicos. Isso era o que se falava sobre o tabaco de 1905 a 1920.
O que se fala hoje sobre maconha? “Uso medicinal.” “Direito de usar.” “Até recomendada por alguns médicos.” Não se deram ao trabalho de mudar a peça publicitária. Utilizaram a mesma mensagem usada há um século. Aqui está a razão disso. Nos Estados Unidos, legalizada a maconha, em 2018 o seu mercado mobilizará até US$6.000.000.000,00 por ano. Outro periódico de base econômica vai mais longe e avalia isso no mundo. Esse autor diz que os principais negócios no mundo ganharam um patamar de estabilidade: os bancos, o petróleo, a indústria bélica e a indústria da informática. Não se vislumbra um boom seja lá do que for.
Qual é o negócio novo? O álcool não é um negócio novo e opera US$500.000.000.000,00 por ano; o tabaco, US$350.000.000.000,00; e o conjunto das drogas, US$300.000.000.000,00. A maconha é responsável por US$142.000.000.000,00. E, como vimos que, se for legalizada, o consumo dobrará, estamos falando de um negocinho de US$300.000.000.000,00 por ano, ou seja, isso é praticamente o suficiente para dobrar a receita da indústria do tabaco. É disso que estamos falando.
Para vocês compararem, as indústrias da falsificação movimentam US$320.000.000.000,00 e a da pornografia, um valor bem menor. Logo, alguns ganharão muito dinheiro com esse novo negócio. Lamentavelmente, com o aumento do número de pacientes, nós, médicos e profissionais da saúde, também. Seremos sócios do George Soros. Muito obrigado.
– No decorrer de seu pronunciamento, procede-se à exibição de slides.