PAULO ROMANO, Consultor em Recursos Hídricos e Agricultura da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Discurso
Comenta o tema "Agricultura - uso e produção de água".
Reunião
4ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 01/04/2006
Página 66, Coluna 3
Evento V Fórum das Águas para o Desenvolvimento de Minas Gerais.
Assunto RECURSOS HÍDRICOS. MEIO AMBIENTE AGROPECUÁRIA.
Legislatura 15ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 01/04/2006
Página 66, Coluna 3
Evento V Fórum das Águas para o Desenvolvimento de Minas Gerais.
Assunto RECURSOS HÍDRICOS. MEIO AMBIENTE AGROPECUÁRIA.
4ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 22/3/2006
Palavras do Sr. Paulo Romano
Meus cumprimentos aos componentes da Mesa na pessoa do Deputado
Laudelino Augusto, Presidente da Comissão de Meio Ambiente desta
Assembléia. Expresso meu agrado por estar com meus conterrâneos,
especialmente depois que voltei a trabalhar em Minas Gerais como
Consultor na Secretaria de Agricultura, para fazer uma melhor
integração prática na ação com a questão ambiental.
Deixarei para apresentar o roteiro que preparei após uma breve
introdução. Pretendo chamar a atenção para algumas questões que,
para mim, passam a ser uma preliminar do tema “Agricultura - Uso e
Produção de Água”. O primeiro deles diz respeito aos temas de
ontem - questão cultural e educacional - e ao tema de hoje - a
informação. Afinal de contas, não existe produção de cultura nem
eficácia em educação sem boas informações, o que, na verdade, é
produção de conhecimento, o que, na verdade, acumulando, gerará
cultura.
Para motivar o pensamento, tomarei uma palavra do Dr. Maurício
Andrés, mineiro com destaque na assessoria da ANA, respeitado na
área de meio ambiente e cultura. Fez uma síntese contundente,
apropriada ao meu tema. Diz que, na verdade, somos uma sociedade
urbana e, em relação à água, “hidroalienados”. Ora, se somos
“hidroalienados”, usando sua respeitabilidade, falta-nos
informação ou compreensão do problema. Na verdade, compreender
algum problema sem ter informação é difícil. Qualquer gerente só
toma boas decisões quando tem boas informações. Então, essa é uma
premissa importante.
É difícil falar sobre água para uma sociedade essencialmente
urbana, como no Brasil.
Por isso chamo a atenção: o que se fala em relação à agricultura
no contexto das questões ambientais, principalmente da água, e
considerando-se o sistema formal, é perdido na essência da função
mais importante da agricultura, que é a produção e a conservação
da água. Só vemos a agricultura como usuária de água à vista da
sociedade urbana.
Hoje, o Renato Machado, no “Bom Dia, Brasil”, referindo-se ao
Fórum Mundial da Água realizado no México, disse que pode faltar
milho por falta de água. Isso é um absurdo porque, a rigor, no
Brasil, a produção de milho que depende de água para irrigação é
praticamente zero. A desinformação assusta as pessoas e joga a
sociedade contra o produtor.
Ontem, o nosso amigo Wagner, da Fiemg, disse que o consumo de
água, para se produzir um 1kg de milho, é equivalente a 10 mil
litros. Mas estava-se referindo a processamento da planta. Num
fórum anterior, um Diretor da Usiminas falou sobre o que precisava
para se produzir 1t de aço ou 1t de milho. Os ambientalistas,
desavisadamente, começaram a falar que isso era um absurdo, que
estavam exportando nossa água por intermédio dos grãos, esquecendo
que isso é parte de um processo da natureza. Quando se exporta
grão ou carne de frango, exporta-se uma síntese. O grão gastou
milhares de litros de água, mas ele está na natureza. São
incompreensões que acontecem.
Quando falei de falta de informação para a população, não quis
dizer desse sistema formal, porque nele a peça mais importante em
relação a planejamento e gestão de água no Brasil - legislação
recentemente aprovada e que está levando o Brasil a uma dianteira
-, chama-se Plano Nacional de Recursos Hídricos. Quem aqui já
acessou a internet para saber o que é esse plano? Essa é uma
realidade. A maioria dos agricultores não têm acesso à internet.
Precisamos trabalhar melhor essa realidade.
Dizem também que a agricultura é a maior consumidora de água,
referindo-se à água que é extraída. Isso é verdade, mas é água que
fica no sítio. Ela pode entrar com uma qualidade inferior e sair
com uma qualidade superior, depurada pela planta. Fala-se que o
consumo urbano de água é de apenas 10%, mas vemos no boletim do
Igam que, para se depurar 1 litro de esgoto, precisa-se de 30
litros de água. Então, na verdade, não são apenas 10%: é esse
litro mais os outros 30.
São realidades diferentes que dispersam a agenda. Falo que
precisamos dessas informações para tocar a emoção das pessoas. A
Coordenadora da Educação falou muito bem sobre isso ontem.
É preciso tocar a emoção das pessoas. Historicamente, as
Prefeituras e as empresas de abastecimento de água em geral, como
as grandes líderes - Copasa e todas as outras -, não resolvem o
problema de esgoto, por ser muito tranqüilo manter o discurso de
que a água é essencial, esquecendo-se da agenda da água fora do
conforto. Como novamente disse o Andrés: as pessoas estão contidas
entre a água que sai da torneira e vai para o ralo. Essa expressão
foi dele. Professores de universidades não sabem sequer o ciclo de
tratamento da água.
Discorrerei sobre ciclo hidrológico, rompido quando a natureza
foi devastada e depreciada pelo homem por razões históricas.
Quando o entorno do nosso Rio Doce era mata atlântica, habitada
somente por índios, não havia problema, pois a natureza estava
equilibrada. Quando trouxemos demandas, iniciou-se o
desequilíbrio.
Esse é o nosso desafio. O problema ambiental número um -
concitando-os a ampliar a agenda, que já é complexa - é a
quantidade, e não a qualidade da água. Quando for feito o
tratamento do esgoto e dos afluentes e quando houver melhores
processos agrícolas, resolveremos o problema da qualidade. A
quantidade de água é um problema seriíssimo, que ocorre não
somente em relação ao curso principal ou às acumulações, como
também na natureza, no solo, que deve estar bem irrigado, para que
as safras sejam melhores e mais seguras e para que haja ofertas
difusas, com ampla capilaridade, porque, depois que a água cai no
rio, é muito difícil retirá-la para atender a alguma demanda, pois
o transporte é caríssimo.
Em Minas Gerais precisamos estrategicamente manter a água no
território mineiro pelo maior tempo possível. Por isso, não somos
a favor da transposição da água. Alguém utilizou uma expressão
muito forte, que gostei: seria um seqüestro de água, que o sistema
legal e político está permitindo. Temos de segurar a água enquanto
estiver no território mineiro, pois, da mesma maneira, interessa
ao pequeno, ao microprodutor e ao grande produtor a água que está
em seu território de atuação. Isso é essencial. Estamos perdendo
essa batalha, pela falta de conservação da água em nosso
território.
Rapidamente, direi coisas óbvias. Por que precisamos de água na
agricultura? Precisamos dela em razão das demandas da sociedade.
Quando falo em água, refiro-me aos ciclos natural e artificial de
irrigação. A sociedade demanda alimentos mais baratos, ofertas
permanentes e diversidade de produtos requeridos, geração de
divisas para pagar conta externa, geração de emprego e renda e
qualidade do produto. A cada dia a sociedade fica mais exigente.
As exigências para o produtor são as seguintes: busca de
alternativas tecnológicas para melhorar o uso da água; cuidados
ambientais, pois até do ponto de vista mercadológico é um problema
produzir sob condições negativas ambientais, já que alguns
mercados rejeitam; e eficiência econômica, pois sem
sustentabilidade não se chega a lugar nenhum. Os representantes
dos agricultores dizem que “o produtor no vermelho não cuida do
verde”. Isso não acontece porque ele quer, mas porque, quando
precisa investir para resolver um problema, para mitigar um dano e
para revitalizar um curso de água e o meio ambiente, precisa
desembolsar. E, infelizmente, a agricultura é uma atividade de
rentabilidade baixa. Por isso, nem bancos nem grandes empresas de
outros setores trabalham na agricultura.
Não se esqueçam de que estou falando de uma agricultura que, em
Minas Gerais, sobretudo, é 80% dependente de pequenos produtores.
Oitenta por cento do solo mineiro está distribuído entre pequenos
produtores.
No mundo, 70% do consumo na irrigação é de água extraída de poço
artesiano ou de outro manancial e corresponde a 17% da área
irrigada. Vejam a eficiência: 40% da produção em volume.
Os que são da minha geração se lembram bem da década de 70. Na
época, eu era Secretário Executivo do Ministério da Agricultura.
Faltava feijão, e o povo fazia fila para comprar esse item
importante na mesa do brasileiro. Foi a irrigação que acabou com o
problema e também com a história das frutas sazonais. De modo
geral, podemos comprar todas as frutas o ano inteiro. A irrigação
está atendendo a esse requisito da sociedade.
No caso do Brasil, 61% do volume de água extraída vão para a
irrigação, e apenas 5% da área cultivada no Brasil estão sob
irrigação. Isso é baixíssimo em comparação aos índices de
irrigação na agricultura mundial. Mesmo assim, no nosso caso,
geram 16% da produção e 35% do valor da produção.
Explique-se que a maior parte da área irrigada no Brasil é de
frutas, hortaliças e sementes, que têm um valor agregado maior,
sendo que a maior parte é de arroz, no Rio Grande do Sul. Nesse
caso, a água circula: vai e volta.
No País, há crescimento no uso da irrigação, e, na minha opinião,
isso ampliará. Estima-se que a área irrigada deverá crescer para
30% da área total agricultivada.
Um dado novo que pode gerar enorme polêmica é a irrigação para a
produção de agroenergia. Energia da biomassa é uma realidade
importante para Minas Gerais. Bioóleo, álcool e madeira são uma
agenda importantíssima para o Estado.
Quando o assunto é irrigação, as recomendações gerais são as
seguintes: melhorar o manejo de água na irrigação, visando a
reduzir desperdícios e promover a reutilização para irrigação.
Em futuro não muito longínquo, desejamos que cidades em ambiente
agrícola tratem seus esgotos para reutilizá-los na irrigação de
plantas e árvores em geral. Obviamente, jamais irrigaremos
hortaliças com esgoto, mesmo que tratado.
Prossigamos com as recomendações. Aprimorar planejamento da
irrigação. Nesse ponto, o conhecimento é importante. Temos de nos
aprofundar nas pesquisas. Até hoje usamos indicadores
internacionais para fazer avaliação de projetos de irrigação.
Promover a eficiência da agricultura de sequeiros é, a meu ver,
um ponto fundamental. Quase 100% dos pequenos produtores que vivem
da agricultura familiar produzem grãos. Melhorar a agricultura de
sequeiros é um investimento importante que se relaciona
diretamente com a questão da água.
Quanto à produção de água, o essencial é ajudar a natureza a
recompor o ciclo hidrológico. No passado, quanto tudo era virgem,
os córregos ainda eram limpos e estavam cheios de peixe. Agora a
realidade é outra; em Minas Gerais, por exemplo, mais da metade do
território do Estado está com pastagens em alto nível de
degradação. É triste ver a realidade dramática do Rio Doce, do
Mucuri, etc. Então, falo aqui nessa recomposição do ciclo após as
chuvas, porque esse é o único momento em que a natureza
prodigamente nos fornece aquilo que o sistema de gerenciamento e a
lei propõem, ou seja, a distribuição democrática da água - ainda
que em alguns anos chova mais em um lugar e menos em outro, em
Minas Gerais temos, em média, tirando o semi-árido, 1.400ml por
ano, o que é muita chuva, e chuva boa. No entanto, a maior parte
dessa chuva está escorrendo rapidamente, o que ocorre por uma
série de problemas, não apenas pelo manejo inadequado do solo,
dentro das fazendas; ocorre também em virtude das estradas
vicinais e de outros danos feitos fora das fazendas. Tendo em
vista essa situação, é preciso reconhecer o produtor rural como um
prestador de serviços ambientais no momento em que estiver fazendo
conservação de água e solo. Isso está na lei, onde foi parar
exatamente porque é da natureza - não se dissocia a conservação de
água da conservação de solo, pois a primeira é decorrência da
segunda. E o melhor lugar para se armazenar água é o solo; é ali
que ela se filtra, infiltrando-se, vai alimentar mananciais, e,
enquanto estiver no solo, é parte da alimentação, da vida da
planta, da vida econômica ou da natureza. Esse ponto é
fundamental, e temos de trabalhar esse tipo de conceito.
A grande mudança que se propõe é a adoção da tecnologia de
integração lavoura-pecuária. Essa é uma mudança de paradigma da
visão européia, trazida pelos Estados Unidos, de fazer
revolvimento, de afofar o solo para o plantio. Hoje, já não se faz
isso. Mas estamos caminhando muito devagar, ainda no início desse
processo. Hoje, o negócio é plantar deixando camadas de material
vegetal, resto de culturas ou a própria pastagem degradada, seca,
e plantar em cima. Já há tecnologia para o pequeno produtor e já
se pode plantar nessa perspectiva em qualquer circunstância. Além
disso, reduzir o plantio de morro abaixo, o que é básico; reduzir
o excesso de compactação; trabalhar com as pastagens degradadas;
eliminar os solos desnudos; e resolver a questão das estradas
vicinais maltratadas e malconservadas - em Minas não temos essa
estatística, mas em São Paulo 50% da erosão se deve a problemas de
estradas de terra malconservadas e maltraçadas.
Para a produção de água, temos a perspectiva mineira de trabalhar
com florestas, de fazer o reflorestamento em áreas que já foram
florestas e onde não é possível recompor a floresta natural no
todo - onde for área de preservação permanente ou de reserva
legal, sim. Do ponto de vista econômico, nós, que estamos com uma
monocultura degradada de pastagem, de braquiária, vamos passar
para a integração lavoura-pecuária, a integração pecuária-floresta
ou, simplesmente, floresta, como já temos exemplos muito bons aqui
em Minas. Aproveito para repetir que devemos deixar de lado o
preconceito com o eucalipto. Minas tem nesse produto algo
fundamental para gerar renda e emprego e para fazer a recomposição
ambiental - não para ser usado em área de floresta natural, mas
para substituir pastagens degradadas.
Aí, temos algumas das indicações, como aumentar a permanência da
água. Nosso grande desafio é encontrar o caminho do
desenvolvimento sustentável.
Neste quadro, a intenção é apenas demonstrar que a redução de
perda, digamos a economia de água quando se faz o plantio direto,
se comparado com o plantio convencional: no plantio direto, mantêm-
se praticamente 70% daquilo que se perde por erosão no plantio
convencional.
O verde mostra o plantio direto. Os outros dois traços mostram o
plantio convencional e a perda acumulada de água ao longo dos
anos. A perda acumulada de água segue a mesma tendência. Por isso
digo que, fazendo a agricultura com o manejo adequado do solo,
teremos resultados no manejo da água.
No plantio convencional, há setas mostrando os resultados:
emissão de carbono, degradação do solo, lixiviação e uma série de
outros danos. É tudo extraído do solo. Aqui temos o aquecimento da
atmosfera. É o inverso, trazendo para a matéria orgânica. Aqui
temos baixa sustentabilidade. Em última análise, deixaremos de
arar o solo, que é um ato mecânico de elevada perda por erosão,
para adotar um processo que não tem aração de solo e é biológico.
As plantas mortas formam redes de capilares em que o ar e a água
circulam. Isso mostra que, em Minas Gerais, já temos solução para
esses macroproblemas ambientais.
Mas quero plantar uma semente nova: vamos redescobrir que, do
ponto de vista de floresta, Minas tem uma vocação natural, mas não
gerou uma cultura florestal. Precisamos fazer com que o ato de
reflorestar faça parte da cultura mineira. Muito obrigado.