PAULO CÉSAR TINGA, Jogador de futebol profissional.
Discurso
Legislatura 17ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 06/12/2014
Página 32, Coluna 1
Evento Ciclo de debates: Muda Futebol Brasileiro: desafios de uma renovação.
Assunto ESPORTE. LAZER.
Observação O número que acompanha o Requerimento Sem Número, constante do campo Proposições, é para controle interno, não fazendo parte da identificação da Proposição referida.
Proposições citadas RQS 2802 de 2014
62ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 17ª LEGISLATURA, EM 24/11/2014
Palavras do Sr. Paulo César Tinga
O Sr. Paulo César Tinga - Boa tarde a todos. Primeiramente, é uma satisfação estar participando deste debate para tentar passar a visão de quem está dentro do futebol, assim como o Ruy vai fazer também. É muito importante haver um debate sobre futebol. Falamos que somos o país do futebol e pouco se viu debater sobre essas questões. Nos 18 anos de carreira, nunca havia participado ou escutado falar que estava havendo um debate sobre futebol.
Passado esse resultado de 7x1, muito se falou na mudança, e até hoje ninguém a apresentou. Essa é uma percepção nossa, que estamos dentro do futebol, e acredito ser também do torcedor. Quem tem um pouco de conhecimento sabe que o Bom Senso está travando uma luta muito grande para que essa mudança aconteça e que essa iniciativa é louvável. Ficamos muito felizes por isso. Quem teve essa ideia, essa força e essa dedicação para que isso acontecesse merece os parabéns. Já é o início da mudança.
Vou passar-lhes a visão de quem vive e viveu de futebol. Vivi, durante quatro anos e meio da minha carreira, na Alemanha. Peguei, praticamente, o processo dessa mudança em 2006. Vi que a mudança do futebol alemão aconteceu dos clubes para a seleção. Estamos falando dos resultados daquela mudança naquele país. É isso que tem de acontecer aqui. Não podemos achar que a mudança, o resultado da seleção vai influenciar os clubes. Posso estar errado, mas, para nós, jogadores, se o Brasil fosse campeão ou não, as coisas continuariam como estavam. O resultado nos fez estar aqui e temos de tirar proveito dessa situação.
Acredito que há pessoas capacitadas para falar sobre legislação, pois há muitas coisas a serem feitas. Isso é muito importante, porque as pessoas acham que o futebol se resolve dentro dos campos, somente por meio dos gols e das defesas. Realmente, isso não é verdade. Graças a Deus, tive a oportunidade de participar de clubes em momentos sempre bons; na maioria sempre houve um detalhe diferente. Um pouco mais de organização já produz bons resultados. Isso tem acontecido no Cruzeiro. Acredito que ele tem os seus déficits também, como os demais clubes brasileiros, mas tem um pouquinho de diferença. Já está buscando mais um título. Isso mostra a importância do que falei.
Como o Medina citou, a parte política está ligada à parte do futebol, e elas têm de caminhar juntas. Muitos que não entendem o futebol, que acham que ele só acontece dentro do campo podem estar nos escutando agora, vendo-nos aqui reunidos, falando de futebol na Assembleia Legislativa e podem achar que isso não tem nada a ver. Mas pelo contrário, isso pode ser mudado aqui e acabar tendo um impacto direto naquilo que discutimos a todo momento, como os valores de ingressos, por exemplo. Tudo pode se resolver aqui, na medida em que formos ganhando força.
Como representante dos jogadores, como o Ruy, acho importante nos posicionarmos. Pedimos mudanças, mas às vezes não estamos presentes e não participamos; mas, quanto mais o atleta se fizer presente, mais força vamos ter para brigar em todas as situações e conseguir mudanças.
Outra luta do Bom Senso diz respeito à CBF, com a qual, graças a Deus, estamos conseguindo ter mais proximidade. Minha posição, que também é difundida no futebol, é a de que todas as grandes seleções tenham atletas dentro da confederação, como sempre tiveram. Não apenas na comissão técnica, como já acontece - lembrando que está sendo legal ver o bonito trabalho que já está sendo feito na seleção -, mas também na parte de organização. E não me refiro apenas à CBF. Também as confederações de Minas Gerais, de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul precisam ter gente do futebol. Temos muitos atletas que foram exemplo durante sua carreira. O Euler, por exemplo, que vejo aqui, foi um exemplo como atleta e, não sei se já está, mas deveria estar em uma confederação - mineira, paulista ou outra. Essas coisas têm de acontecer. E isso em todos os lugares. Não colocar pessoas do futebol somente na seleção e não nas confederações e nos clubes. É importante começarmos a lutar para termos um representante na seleção, mais precisamente na CBF, para brigar com a questão do calendário, por exemplo, passando a visão do atleta, daquele que vivenciou as situações e sabe como é difícil jogar em alguns lugares, segundo o calendário: às vezes, a pessoa joga no domingo lá no Sul e, na quarta-feira, em Belém. O atleta que viveu isso sabe a dificuldade que é. Então, é importante que comecemos a lutar por isso. Não adianta ficarmos olhando a CBF e achando que eles vão resolver tudo. Não. Podemos resolver coisas em nosso Estado; podemos colocar gente do futebol na Confederação Mineira, para lutar por essa mudança.
Outra de nossas buscas, a que o Medina também se referiu, diz respeito à base. Para melhorarmos o futebol do futuro, temos que começar pela base. Vejo uma diferença muito grande entre a situação atual e aquela de quando comecei minha carreira. Joguei na base até 1996, quando comecei a jogar no profissional. Ou seja, peguei um pouco da década de 1990, a década de 2000 e estou pegando a metade desta, de 2010 para a frente. Assim, passei por épocas distintas e vejo uma diferença muito grande entre elas com relação à formação. Não sei precisar, porque não estudei a legislação, mas acredito que alguma coisa não esteja muito bem posta em termos de lei, já que não conseguimos garantir alguma segurança para os clubes com relação à formação do atleta. Talvez os próprios clubes não se interessem por isso, mas o fato é que hoje o atleta não tem mais raiz. O próprio diretor de futebol da base também não tem, pelos jogadores, aquele apego e carinho que talvez tenha tido comigo e com o Ruy, quando se formou, porque sabia que o jogador era do clube. Talvez ele não tenha mais esse apego porque não sabe o que vai acontecer. Como foi dito, de alguns jogadores os clubes não têm nem 1%. Isso faz com que a relação com o jogador ganhe a conotação de produto, e o clube acaba deixando de cuidar do seu produto, porque sabe que o produto não é seu e, se não der certo, pode deixá-lo para lá. Temos de ter essa preocupação e buscar encaixar as leis para que o clube tenha alguma garantia sobre os jogadores e os jogadores não se sintam um produto. Sei que sempre haverá empresários dentro do futebol e que isso é necessário, mas não com a autonomia que eles têm atualmente. Hoje, o empresário praticamente determina o que acontece dentro de alguns clubes, até escolhendo os jogadores que vão jogar. Para alguns clubes, ele determina pessoas de fora, porque tem 10 ou 15 jogadores no plantel.
Então, com relação a essas coisas, nós, que estamos dentro do futebol há um pouco mais de tempo, sentimos uma grande diferença. A interferência de fora do campo para dentro está muito grande e é feita por pessoas que talvez nunca tenham estado próximas do futebol. Se eu estiver errado, corrijam-me, mas vejo que hoje uma pessoa que tem uma condição financeira melhor resolve investir no futebol, pegar um jogador e investir no futebol. Mas o futebol é um produto do povo. A gente vê isso em todas as áreas e é o que se fala por todo o canto: que o futebol é do povo. É o que penso sobre a questão da base. Não estava preparado para falar sobre isso, porque achei que nosso papel aqui seria mais de intermediação, mas essa é minha visão, exposta muito rapidamente. É isso o que penso sobre o futebol.
Como eu disse, tive a oportunidade de viver na Alemanha, durante a mudança. Vivi em outros lugares, como no Japão, onde não há toda essa força em termos de futebol técnico, mas que faz um futebol inteiramente organizado. Joguei também em Portugal e via muito isto acontecer: a questão de não se sentar e debater, conversar sobre o futebol. Considero isso muito necessário e creio que tem de acontecer com mais frequência. E não só deve acontecer, mas as pessoas têm de saber que isso acontece. Estou aqui agora, mas terei de sair antes do término - vou ter de ir ao Cruzeiro -, e tenho certeza de que 99% dos atletas não sabem que acontece isso. Então, há alguma coisa errada. Se nós, que dependemos disso, não sabemos, há alguma coisa errada. Nós temos de saber, temos de divulgar, temos de apoiar o Bom Senso, temos de apoiar quem está apoiando o Bom Senso.
Acredito que uma das soluções seja colocar pessoas capacitadas na nossa área. Não adianta eu, como jogador, querer coordenar o futebol na parte legislativa. Não é a minha área, eu não estudei para isso. Se eu me formar, enfim, posso até debater, mas há pessoas capacitadas para tal. Já entre jogadores, diretoria, campo tem de ter essas pessoas, e nós temos.
Nós vamos falar hoje da nossa seleção, da nossa CBF, que é impossível não citar quando se fala em organização. Há muitos jogadores capacitados que poderiam estar lá, como Cafu, Raí, entre vários outros jogadores, que poderiam estar presentes ali para discutir esse calendário, discutir a forma de fazer a coisa. Não vejo isso. A única coisa que tem acontecido é o Bom Senso, brigando, batalhando - como o Ruy, representante -, principalmente diante dessa dificuldade que há do outro lado do futebol e que muita gente não vê. Todo mundo só vê aquele produto que acontece na TV aos domingos, mas a gente sabe que, na grande maioria dos casos, o futebol tem dificuldades muito grande. E pelos ganhos que temos dentro do futebol, pelo que a CBF colhe, esses clubes têm condições de ser melhor apoiados, de ter uma qualidade melhor. Os próprios clubes grandes também têm condições de ajudar esses clubes com seus ganhos. Se a gente quer uma democracia e está pensando em todos, a gente pode tirar um pouquinho do nosso, dos nossos clubes grandes, para que a gente possa melhorar as condições desses outros campeonatos que vivem com muita dificuldade.
É muito rápida a minha participação, é muito breve, porque tenho de ir embora. Não aproveitei todo o tempo a mim concedido, até porque não tenho muito mais o que dizer. Quero agradecer a todos e dizer, mais uma vez, que isso tem de acontecer mais vezes, e nós, atletas, temos de participar mais. Coloco-me à disposição para que isso aconteça e que divulguemos esse fato. Agradeço a todos os presentes, porque, quando se fala em organizar futebol, em se reunir para debater futebol, todo mundo fala; mas estar presente, escutar, saber e conhecer, pouca gente quer. Todo mundo quer dedicar a isso somente o final de semana, o domingo, mas o futebol começa a mudar e a se resolver aqui. Obrigado e um abraço a todos.