Pronunciamentos

PAULO CÉSAR DE CASTRO, GENERAL. Comandante da 4ª Região Militar e 4ª Divisão de Exército.

Discurso

Transcurso do 200º aniversário de nascimento de Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, e do Dia do Soldado.
Reunião 17ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 28/08/2003
Página 27, Coluna 1
Assunto HOMENAGEM. CALENDÁRIO.
Proposições citadas RQS 655 de 2003

17ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª LEGISLATURA, EM 25/8/2003

Palavras do Deputado Paulo César de Castro


Exmºs Srs. Vice-Presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais, Deputado Rêmolo Aloise, que aqui representa o Presidente, Deputado Mauri Torres; Vereador Betinho Duarte; General-de-Divisão Amauri, tão querido em nosso Exército; Décio de Carvalho Mitre; Sr. Murilo Badaró; Deputado Doutor Viana, autor do requerimento que deu origem a esta homenagem; meus comandados da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Exército, Região Mariano Procópio; demais autoridades civis; parlamentares que nos honram com sua presença; minhas senhoras e meus senhores, quando entrou em vigor a Lei nº 10.641, de 28/1/2003, determinando que seria inscrito no livro dos heróis da Pátria, que se encontra no Panteão da Liberdade da Democracia, o nome de Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, em comemoração ao bicentenário de seu nascimento, o Governo brasileiro rendia suas homenagens àquele a quem, à beira de seu túmulo, assim se referiu o Visconde de Taunay: “Há muito que narrar! Só a mais vigorosa concisão, unida à maior singeleza, é que poderá contar os seus feitos. Não há pompas de linguagem, não há arroubos de eloqüência capazes de fazer maior essa individualidade, cujo principal atributo foi a simplicidade na grandeza”. Seguiu Taynay: “Carregaram o seu féretro meia dúzia de soldados rasos; mas, senhores, esses Soldados que circundam agora a gloriosa cova e a voz que se levanta para falar em nome deles são o corpo e o espírito de todo o Exército Brasileiro”. Era 10 de maio de 1880. Sepultava-se o homem que, ainda em vida e até nossos dias, o povo, a imprensa, estadistas, chefes militares notáveis, pensadores, escritores, historiadores militares e civis têm definido, entre outros títulos, como O Filho Querido da Vitória, O Pacificador, O General Invicto, O Condestável, A Escora, O Esteio e a Espada do Império do Brasil, O Duque de Ferro e da Vitória, O Símbolo da Nacionalidade e O Maior Soldado do Brasil.

Nesta Casa, representativa do povo das Minas Gerais, Assembléia onde ecoam os exemplos dos inconfidentes, sítio onde se cultua o sonho de liberdade de outro herói e Soldado do Brasil, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, patrono cívico da Nação, encontramo-nos hoje, parlamentares, convidados e nós, os representantes do Exército de Caxias, para lembrarmos o exemplo deixado por Luís Alves e perpetuado nas palavras “caxias” e “caxiismo”, derivadas de seu título. E o fazemos porque todos deles precisamos, como, com sabedoria, afirmou o imortal Gilberto Freire. São suas essas palavras: “Caxiismo não é o conjunto de virtudes apenas militares, mas de virtudes cívicas comuns a militares e a civis. Os caxias devem ser tanto uns como os outros. O caxiismo deveria ser aprendido tanto nas escolas civis quanto nas militares. É o Brasil inteiro que precisa dele”.

O que mais admirar na obra daquele que nasceu na Vila do Porto da Estrela, na Capitania do Rio de Janeiro, filho do Marechal-de-Campo Francisco de Lima e Silva e de Mariana Cândida de Oliveira Belo? Seu batismo de fogo em Salvador, em 1823, na Guerra da Independência? Quem sabe a obra pacificadora, iniciada em 1840, com a vitória no Maranhão, seguida da pacificação das Províncias de São Paulo e Minas Gerais, em 1842, e concluída no Rio Grande do Sul, quando depuseram as armas os rebeldes farroupilhas, vencidos pelo Barão, o que lhe valeu o título de Conde? Tenho dúvidas.

Outros dirão que seu maior legado pode ser encontrado nas campanhas do Prata. A de 1851-1852, contra Oribe e Rosas, e a da Tríplice Aliança, de 1865 a 1870, contra o ditador guarani que havia criado o mais poderoso exército sul-americano da época. Nesta, empreendera a famosa manobra de Santo Antônio, uma manobra de flanco, que permitiu flanquear o inimigo pelo Chaco Paraguaio e vencê-lo sucessivamente em Avaí, em Lomas Valentinas, em Itororó e em Angustura, abrir as portas de Assunção aos exércitos aliados e, na visão mais pura da ciência militar, definir a sorte da guerra. De lá regressado, recebe título ímpar da monarquia brasileira, o de Duque, Duque de Caxias.

Mas esse legado teria sido tão-somente militar, o legado do homem das armas. Poderiam outros dizer que sua maior lição residiu no exercício da atividade política, como Senador e como Chefe de Governo, cargo que exerceu por três vezes, como Chefe do Conselho de Ministros. Nessas funções, coube-lhe pacificar a questão religiosa, ao ver aprovado pelo Imperador seu parecer de anistia aos Bispos de Olinda e de Belém, que haviam sido presos. Afirmou Luís Alves: “O bem do Estado e da humanidade aconselham o emprego de tão salutar providência”.

Permaneço na dúvida. Qual teria sido sua maior lição?

Estou convicto, contudo, da perenidade de seu legado. Sobre o valor, a atualidade e a dificuldade de exercitar esse legado, bem proclamou, em ordem do dia de 25/8/2001, o então Comandante do Exército: “Quanto custa ser Caxias?... O Soldado sabe quanto custa ser Caxias...

Custa exercitar lealdade, ética, dignidade, espírito público e amor incondicional ao Brasil, virtudes tão escassas nos dias que correm...

Custa ser Caxias quando se assiste à perversa inversão de valores em um regime de liberdades no qual só os direitos existiriam e os deveres seriam postergados.”

Quanto custa? - repetimos.

Mas, senhores parlamentares, autoridades, convidados e queridíssimo povo de Minas Gerais, hoje os tranqüilizamos ao afirmar que permanecemos sendo Caxias, como Caxias são os homens de bem que constroem a nossa Pátria trabalhando anonimamente, acatando as leis, cumprindo com suas obrigações, pagando impostos, respeitando conscientemente as autoridades, transmitindo, nos lares, nas famílias, nas escolas, nas associações e no exemplo de vida, a mensagem pura, simples, mas exigente do Pacificador.

Estou convicto de que Caxias, mais do que passado, é, sobretudo, presente. Como ele, é necessário ser intransigente com a desordem, enérgico com a rebeldia, conciliador nas negociações, humano no perdão, artífice da integridade nacional. É preciso continuar sendo Caxias.

Emocionado, agradeço a homenagem que, pelo transcurso do bicentenário de nascimento de Luiz Alves de Lima e Silva, a Assembléia Legislativa de Minas Gerais presta aos Soldados do Exército Brasileiro, que exercem suas atividades entre estas montanhas. Emocionado, lembro que, enfrentando os desafios do presente, seguiremos o chamado que ele nos fez às margens do Itororó: “Sigam-me os que forem brasileiros!”. Emocionado, afirmo que o Exército Brasileiro permanecerá sendo o braço forte e a mão amiga com que podem contar todos os patrícios. Emocionado, conclamo-os a que perseveremos sendo Caxias. Emocionado, afirmo que, a exemplo do Duque, nós seremos eternamente Soldados e pacificadores. Muito obrigado, Minas Gerais.