MARLISE MATOS, Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Mulher - NEPEM - UFMG.
Discurso
Discursa sobre o tema: "Mulheres, as desigualdades e o poder".
Reunião
3ª reunião ESPECIAL
Legislatura 16ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 17/03/2007
Página 50, Coluna 2
Evento Ciclo de Debates: "A participação da mulher nos espaços do poder".
Assunto MULHER.
Legislatura 16ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 17/03/2007
Página 50, Coluna 2
Evento Ciclo de Debates: "A participação da mulher nos espaços do poder".
Assunto MULHER.
3ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª
LEGISLATURA, EM 14/3/2007
Palavras da Sra. Marlise Matos
Bom-dia a todas e a todos. É com muito prazer que hoje
represento a UFMG, por meio do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre
a Mulher, do qual sou a atual Coordenadora. Hoje falarei
especificamente sobre as mulheres, as desigualdades e o poder.
Algumas palestrantes anteriores mencionaram estatísticas a
respeito desse tema. Teremos a oportunidade de discutir isso aqui.
Serei o mais breve possível e, de antemão, peço desculpas porque o
tempo é muito curto.
Uma primeira questão digna de nota é que a inclusão das mulheres
na esfera pública é um avanço significativo, inclusive do ponto de
vista democrático, mas temos que contrabalançá-la à existência e
perseverança de muitas estratégias de opressão e discriminação em
que continuam operando e vivendo as mulheres.
Essa palestra foi pensada com três eixos. O primeiro seria o
direito das mulheres na plataforma dos direitos humanos. Falarei
muito rápido sobre isso porque não temos muito tempo. Falarei
sobre alguns dados de representatividade de inclusão de mulheres
em alguns campos da esfera pública no Brasil, especialmente no
Poder Executivo, no Judiciário e no Legislativo. O Nepem está
fazendo uma pesquisa aprofundada sobre a participação das mulheres
na esfera legislativa. Estamos entrevistando todas as candidatas à
Assembléia Legislativa de Minas Gerais no pleito do ano passado;
entrevistamos as eleitas da legislatura passada e as Deputadas
Federais da última legislatura. Já fizemos metade desse trabalho,
que é árduo porque as nossas Deputadas são muito ocupadas. Até
solicitamos às Deputadas da Casa que nos recebam para que possamos
terminar esse trabalho que está rendendo alguns frutos.
Vocês me desculpem mas não dará tempo de falar muito sobre os
direito humanos. Hoje já não resta dúvida de que há um grande
avanço nesses campos que estão listados, que são as plataformas de
luta do movimento de mulheres no Brasil: saúde sexual e saúde
reprodutiva, direitos trabalhistas e previdenciários, direitos
políticos e civis e violência de gênero. Avançamos muito nessas
arenas, mas muito ainda tem que ser conquistado. E aqui vamos
discutir um pouco sobre a percepção da equidade de gênero no
espaço dos poderes constituídos do Estado brasileiro.
Um ponto a mencionar é a cidadania ainda incompleta das mulheres,
porque vivemos uma situação evidente de sub-representação. O
processo dessas conquistas é histórico. Uma das formas de opressão
é o esquecimento. As pessoas se esquecem de que desde o Brasil
Colônia existiram mulheres que estavam à frente de um processo de
busca de transformações. Uma forma de oprimir é esquecer, é não
ter memória desse processo constante de luta. Não começamos do
zero o Plano Nacional de Políticas para Mulheres de 2004. Temos
uma história, que é pouco mencionada, de luta, de enfrentamento
para conquistar esses espaços.
A igualdade política que nos traz aqui hoje é o objetivo básico
da democracia. Portanto, se não temos essa igualdade política
realizada de forma plena, posso afirmar que temos um déficit
democrático. Vivemos no Brasil, do ponto de vista da qualidade da
nossa representação legislativa, um problema para a democracia.
Temos um estágio ainda a ser consolidado de real eqüidade de
gênero, que é um elemento importante do processo democrático.
A convenção para a eliminação de todas as formas de discriminação
contra a mulher, ratificada pelo Brasil desde 1984, prevê o
direito de ser votada e de votar nas eleições, participar da
formulação e da execução das políticas governamentais, de
participar de organizações e associações governamentais e não
governamentais e de participar, portanto, da vida pública do País.
Mas isso existe? As mulheres estão ocupando esses espaços?
Os dados que nos interessam estão em vermelho, para vermos o quão
sofridos são esses números.
Farei uma propaganda. Qualquer pessoa pode acessar o “Google” e
solicitar o documento “O Progresso das Mulheres no Brasil”,
elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento da
Mulher. Vocês encontrarão boa parte desses dados aqui listados.
Nesse “site”, vocês poderão baixar esse livro inteiro e ter acesso
a informações até o ano de 2002. Esses dados fornecem um panorama
bastante bacana sobre o que apresentarei a seguir.
A participação feminina no Poder Executivo Estadual, de 1998 a
2000, foi 4%. Na esfera municipal, registramos a participação de
mais ou menos 3%. Na administração pública federal, se
verificarmos os cargos de DAS, os mais altos na hierarquia
funcional pública federal, onde quanto maior o número, maior o
salário e mais alto o cargo, notaremos que 52% das servidoras
estão no DAS 1 e apenas 17% recebem os proventos relativos aos DAS
5 e DAS 6.
Em relação ao Ministério das Relações Exteriores, dos 98
Embaixadores no ano de 95, apenas 3,52% eram mulheres. Esse
percentual aumentou um pouco, em 2002, para 4,45%.
No que diz respeito à representatividade no cargo de Ministro, o
Brasil historicamente apresenta uma sub-representação de mulheres
nos altos escalões ministeriais do País - de 6,2% foi para 12%, e
caiu para 11%. Em 2003, houve a novidade de algumas Ministras
estarem à frente de cinco pastas importantes. Esse foi o maior
número alcançado até agora.
Em relação ao Poder Judiciário, as colegas que me antecederam
falaram sobre essa questão. Os dados vão até 2002, mas revelam
essa sub-representação.
Pensando em outras esferas político-decisórias, 5% de mulheres
estão na direção nacional dos partidos; 10% em 98 e 12% em 2000.
Verificamos que está havendo um aumento, mas muito lento.
É interessante percebermos que, no que diz respeito às diretorias
de empresas, as mulheres só ultrapassam esse famoso teto de vidro
dependendo do segmento ocupacional em que são inseridas. Nos
serviços comunitários, sociais e pessoais, foram registrados 50%
de mulheres em cargos de chefia das empresas, mas, nos outros
cargos, em que são discutidos orçamentos e finanças, onde há
realmente recursos a serem geridos, as mulheres não se encontram.
Nos setores das indústrias, como a manufatureira, foram
registrados apenas 11% de ocupação das mulheres. No Legislativo,
que é o que nos interessa, segundo dados de 2006, o Brasil amarga
a 74ª posição mundial. Cerca de 191 países compõem o planeta, e o
Brasil perdeu posição para vários, por exemplo, Costa Rica,
Argentina, Uruguai, Peru, Equador, México, Venezuela, Bolívia, El
Salvador, Panamá, Nicarágua, Chile, Barbados, República
Dominicana, Jamaica e Paraguai. Estamos muito mal na fita. O
índice de representação está ainda muito baixo.
Leva-nos realmente à reflexão imaginar que, ao longo de todos
esses anos, desde 1932, quando as mulheres adquiriram direito a
voto, a representação das mulheres aumentou de 1% para algo em
torno de apenas 10%. Aplaudo a idéia de se discutir esse tema
nesta conferência, porque é algo digno de ser debatido de fato. Na
Câmara dos Deputados, da primeira eleição de uma mulher, em 1932,
até 2002, aparecem apenas 43 mulheres. Os números são muito
modestos.
O mais crítico de tudo isso é que as mulheres representam 51,3%
da população brasileira, 42,7% da população economicamente ativa,
27% das pessoas de referência nos domicílios e quase 52% do
eleitorado brasileiro. Por que, então, isso acontece?
Aqui está o gráfico da Assembléia Legislativa do Estado de Minas
Gerais desde sua primeira legislatura até a penúltima. Ele é
eloqüente por si mesmo. A distância entre a participação masculina
e a feminina fica clara e evidentemente demonstrada pelo gráfico,
que, aliás, está desatualizado, ou seja, não conta com a última
legislatura, em que caímos de 10 para 7 mulheres - e agora 6, com
a saída da Deputada Elbe Brandão.
Esse é o tema de nossa pesquisa: por que a presença das mulheres
nos poderes decisórios, em especial no Poder Legislativo, tem
avançado tão lentamente? Quais são nossos obstáculos?
Esse é um primeiro conjunto de arrazoado para se pensar na
análise dos resultados que estamos obtendo nessa pesquisa. Podemos
concluir que há uma combinação profundamente perversa de fatores
institucionais que definem o espaço da cultura política deste país
com fatores individuais.
Costumo dizer que as candidatas a cargo político neste país
percorrem uma verdadeira corrida de obstáculos. E, se as mulheres
forem pensar - como todos acreditamos - como seres racionais, que
calculam custos e benefícios e fazem equilíbrios e ponderações se
devem ou não se candidatar, elas certamente não se candidatarão.
Então, não é mentira que, quando se pega na ponta da linha de uma
liderança partidária, não se consegue compor as cotas, porque as
mulheres não querem ir para o espaço político. Claro que não. Por
que iriam? Qual é a vantagem disso?
Para acompanhar a verdadeira corrida de obstáculos que as
mulheres têm de superar, passaremos pelo tema do recrutamento
político, da nomeação das candidaturas e do sistema político-
partidário do Brasil.
Quando do recrutamento dos candidatos dos partidos, quem faz a
seleção? Como faz? Quem consegue ser selecionado e por quê? Essa é
a primeira pergunta.
Sabemos que as associações e os partidos são instituições que
mobilizam, agregam interesses e transmitem comandos e diretivas, e
isso, sempre, de cima para baixo. Então, obviamente, há uma
influência de fatores institucionais do próprio sistema e da
lógica que opera a partir de diretivas que nem sempre ficam muito
claras e explicitadas nas falas quando entrevistamos as
lideranças. Mas as mulheres, principalmente aquelas que não se
elegem, fazem questão de mencionar as dificuldades e os obstáculos
que se lhes opõem.
A primeira barreira que a mulher encontra é a da ambição
política. Está na ponta da língua das pessoas que as mulheres não
desejam o espaço político. Aí, então, temos de contar a história
do processo de separação e dicotomização entre público e privado.
As mulheres estiveram estritamente relacionadas e enclausuradas
ao mundo privado, até muito recentemente.
Era socialmente sancionado e permitido às mulheres cuidar da
família, do marido e dos filhos. Esse era o papel feminino por
excelência. Mudamos muito, mas não mudamos tanto assim. E os
homens, em contrapartida, são os donos do espaço público, do mundo
do trabalho e da política. Essa dicotomia arrasta e inclui as
mulheres que estão no mundo público, desejam ou, às vezes, não
desejam estar nesse mundo. Temos de imaginar que desejar espaço
político é processo de formação de uma consciência crítica de
inserção e da necessidade de inserção dessas mulheres no espaço
político. Elas não o desejam porque não querem pura e
simplesmente; às vezes o desejam, mas são tantas as dificuldades,
que, talvez, torne-se impossível até ambicioná-lo.
Tenho uma aluna que estuda OP, em Belo Horizonte, pelo viés do
gênero, e me traz discussões interessantíssimas. As mulheres estão
nas plenárias, reivindicando a sua obra, determinando as
diretrizes, mas, na hora da escolha dos Delegados, não se sentem
capazes, têm déficit de auto-estima, falta de informação,
sentimento de não-pertencimento àquele espaço, de não se sentirem
bem aqui, neste lugar, neste Plenário. Por quê? Porque não é o
lugar em que foram primariamente socializadas, secundariamente
socializadas. Família e escola ajudam muito pouco em termos de se
reverter essa dinâmica.
Portanto, dizer que a mulher não possui ambição política tem de
ser relativizado tendo em vista o contexto de uma cultura
profundamente conservadora ainda, que atribui papéis e lugares
específicos para homens e mulheres neste país. E as mães e as
professoras, infelizmente mulheres, em sua maioria, continuam a
reproduzir esses lugares e a repor esses papéis.
Digamos que as mulheres desejam ir além, mesmo com todo o
estímulo contrário, com todo o contexto adverso, com toda uma
cultura que recusa a sua participação, em que será malvista, mal-
interpretada, malsignificada. Elas conseguirão.
Há barreiras no que diz respeito à elegibilidade. Vocês sabem
perfeitamente bem que as mulheres, para se candidatarem, têm de
ter, pelo menos, um ano de filiação partidária e um ano de
domicílio eleitoral. Quantas mulheres aqui presentes são filiadas
a partidos políticos? Quantas mulheres no Brasil são filiadas a
partidos políticos? Muito poucas. Essa constitui outra barreira,
que nos parece invisível, mas existe. Por que as mulheres não se
filiam aos partidos? É uma pergunta que precisa ser feita. Por que
as mulheres têm essa dificuldade? Então há mais um obstáculo.
Depois de se candidatarem, terem um ano de domicílio, serão
candidatas de fato? Há a barreira do sistema político partidário.
Quem são os atores que definem quem pode ou não se candidatar?
Baseados em que critérios esses atores, essas lideranças, esses
selecionadores têm capacidade e condição de dizer que essa ou
aquela pessoa pode se candidatar? Isso não está claro. Não há
clareza na fala das pessoas. Não estão claros esses elementos
indicadores. A partir desse gráfico, quero chamar a atenção para
alguns fatores que diminuem o número de candidatas. Primeiro, o
contexto cultural, que já mencionamos; segundo, há uma percepção
ainda presente nesse campo, onde se notam e se atribuem
determinados elementos, o lugar dessas mulheres, que não são
compatíveis ou diretamente assimiláveis a uma qualidade
partidária, à qualidade que os partidos elaboram para ser parte,
para ser partido no jogo político. Agregue-se a isso um elemento
que não nos podemos esquecer de mencionar: as duplas e as triplas
jornadas de trabalho que as candidatas mulheres têm de cumprir,
pois os homens não tomarão conta dos seus filhos enquanto
estiverem no espaço da reunião política do partido. O partido
determina que a reunião será realizada de meia-noite às 3 horas da
manhã. A mulher levanta a mão e diz: “Com quem as minhas crianças
ficarão?”. O partido não possui creche ou outro local, não
estimula a mulher, e o seu marido não a acompanhará ou ficará com
as crianças.
Essa mulher, além de participar politicamente, tem que cuidar da
casa, da família, do orçamento, do marido e do seu trabalho,
porque normalmente ela trabalha. Este é um outro elemento. Por que
o perfil das mulheres eleitas neste país é de mulheres mais
velhas, descasadas e de alta escolaridade? Porque essas mulheres
já criaram os filhos, estão com a vida garantida no bolso e podem
dedicar-se ao luxo de fazer política. O resto das mulheres está
sobrevivendo, correndo atrás do prejuízo, literalmente.
Quais são as rotas? Até agora, já identificamos duas rotas muito
claras para a entrada da mulher nos espaços políticos em geral. Em
primeiro lugar, são os vínculos familiares: ter um capital
familiar, um capital social e simbólico, um marido, um pai, alguém
na família que tenha proeminência política. Obviamente, o caminho
abre-se imediatamente, com uma possibilidade quase que imediata de
ser eleita. A segunda rota é o ativismo político prévio, realizado
pelas mulheres que estão nas marchas, nos movimentos sociais e nas
associações de bairro. São mulheres corajosas e ousadas, que se
lançaram à conquista de mais um espaço na política
institucionalizada. São mulheres que passam pela lógica do partido
e conseguem candidatar-se.
Outra barreira é que mulheres não votam em mulheres, porque, se
votassem, não estaríamos na situação atual, pois representamos
mais de 50% do eleitorado brasileiro. Por que as mulheres não
votam em mulheres? As candidatas dizem, com todas as letras, que
têm maior dificuldade de ser aceitas pelas mulheres do que pelos
homens. Se a candidata for bonita, sua chance acaba, porque há uma
competição, uma rivalidade. Dizem que ela quer ser eleita para
aparecer. Há um componente que temos que investigar melhor. Por
que essas mulheres não têm um comportamento eleitoral condizente
com a luta e com a conquista desse espaço? Por que as mulheres não
criam critérios para votar em outras mulheres candidatas?
Vamos supor que essas mulheres superem essa barreira e consigam
eleger-se, indo para o parlamento. Quando entram no parlamento, o
seu comportamento legislativo, motivado pelas forças ocultas que
se mobilizam, é atuar nas comissões que são nichos da atuação
feminina: saúde, educação, securidade e previdência. Por que as
mulheres não vão para a Comissão de Constituição e Justiça e para
a Comissão de Fiscalização Financeira e Orçamentária? Por que as
mulheres não estão nos lugares em que o poder é decidido, em que
se trata sobre dinheiro e informação? Ainda temos muito que
conquistar.