Pronunciamentos

MARK WILLIAMS, Professor. Chefe do Departamento de Ciências da Vida da Universidade Brunel Londres. PhD em ciências do movimento e psicologia experimental pela Universidade de Liverpool. Pesquisador financiado pela Federação Internacional de Futebol – FIFA -, pela União das Federações Europeias de Futebol – Uefa – e pela Associação Inglesa de Futebol.

Discurso

Apresentação da palestra magna: “Science and Football: “Developing Elite Players”.
Reunião 61ª reunião ESPECIAL
Legislatura 17ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 06/12/2014
Página 8, Coluna 1
Evento Ciclo de debates: Muda Futebol Brasileiro: desafios de uma renovação.
Assunto ESPORTE. LAZER.
Observação O número que acompanha o Requerimento Sem Número, constante do campo Proposições, é para controle interno, não fazendo parte da identificação da Proposição referida.
Proposições citadas RQS 2802 de 2014

61ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 17ª LEGISLATURA, EM 24/11/2014

Palavras do Sr. Mark Williams


O Sr. Mark Williams - Bom dia a todos. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à Assembleia Legislativa de Minas Gerais o convite para vir aqui falar aos senhores. É sempre uma grande satisfação visitar o Brasil. Cheguei ontem à noite, exatamente no momento da vitória do Cruzeiro, então parabenizo o time local. Vou falar para vocês nesta manhã sobre o papel da ciência do esporte no futebol, mais especificamente em três aspectos: primeiramente vou falar sobre a alta preparação dos atletas do Reino Unido, com foco no instituto inglês de esportes.

Como o esporte de alta perfomance representa os jogos olímpicos, depois vou falar mais sobre a ciência esportiva, a ciência do esporte como um grande e positivo impacto no desenvolvimento do campeonato inglês, e também, mais especificamente, sobre minha principal área de expertise, que é a psicologia esportiva. Vou destacar alguns exemplos sobre como a psicologia esportiva tem ajudado a facilitar o desenvolvimento de jogadores de elite na Inglaterra, e, especificamente, sobre como temos melhorado o comportamento de treinadores e ajudado a identificar os jogadores de elite, no tocante ao impacto de mudança de processos e sistemas que são fundamentos, isto é, a base do desenvolvimento de jogadores e atletas do Reino Unido.

Em primeiro lugar, vou falar um pouco sobre a ciência do esporte, que é um campo multidisciplinar que envolve as disciplinas de fisiologia, psicologia, biomecânica e análise da perfomance, para tentar melhorar a perfomance dos atletas e também para a promoção da atividade física, o bem-estar e a saúde.

A ciência do esporte, sobretudo as ciências biológicas, têm sido muito bem abraçadas ou recebidas no Reino Unido. Aqui temos alguns exemplos de medições, testes, provas ou exames que têm sido feitos pelos fisiologistas na área do esporte. Também utilizamos jogos para a participação, para a tomada de decisão e para a biomecânica. São campos muito bem aceitos no futebol. De fato, historicamente, como uma disciplina acadêmica, a ciência do esporte é comparativamente recente. Ela teve início na Inglaterra em 1985, e eu fui um dos formandos nessa área em 1998. Nos últimos 20 anos, essa ciência, essa disciplina tem aumentado e crescido muito.

Então, basicamente em 1998, havia somente meia dúzia de universidades no Reino Unido que ofereciam esse curso de graduação em ciência do esporte. Somente 10% a 20% da população britânica ia para esse tipo de universidade. Agora, em 2014, das 130 universidades do Reino Unido, 90 oferecem ciência do esporte como curso de graduação. Quase 45% da população britânica vai para a universidade, e agora o curso de ciência do esporte é mais popular e tem sido cada vez mais procurado. Na verdade, essa é uma reflexão de como esse campo tem crescido durante os últimos 25 anos.

Agora gostaria de destacar um livro recente que editei, muito embora a perspectiva da palestra de ciência do esporte envolva muito mais a psicologia. Esse livro conta com a contribuição de diferentes disciplinas, de pessoas famosas na área da fisiologia, da psicologia de esporte e da biomecânica. Houve muitas contribuições para esse livro. É um livro muito útil, que nos dá uma ideia muito ampla do tipo de pesquisa e trabalho aplicado que acontece no mundo do futebol. O livro conta com diferentes capítulos que ilustram muito bem como são as teorias, os princípios e as medições utilizadas e aplicadas em clubes profissionais. O chefe da ciência do esporte no Manchester e no Liverpool, por exemplo, também contribuíram com capítulos para o livro.

Neste momento, quero falar um pouco sobre o desenvolvimento e a preparação dos atletas olímpicos do Reino Unido.

Historicamente o Reino Unido não tem investido muito no esporte de elite. Contudo, no início dos anos 1990, na verdade no início dos anos 2000, quando a cidade de Londres foi selecionada para ser a sede dos Jogos Olímpicos de 2012, eles realmente começaram a se preocupar mais com isso e também a investir mais. Então temos a seleção da Grã-Bretanha, a Associação Olímpica Britânica e também a Associação Paraolímpica. Eles se juntaram, e hoje temos o Instituto Britânico de Esporte, que tem um orçamento de mais ou menos £100.000.000,00 por ano. Eles investiram mais ou menos £600.000.000,00 basicamente em um sítio de quatro anos, de 2008 a 2012. Eles continuam, então, com o mesmo nível de investimento no esporte de elite até as olimpíadas do Rio. Eles também têm 250 pessoas, funcionários dedicados à ciência do esporte. Temos a distribuição dos cientistas do esporte em diferentes disciplinas do conhecimento. Por exemplo, temos 70 fisioterapeutas, 20 fisiologistas, 15 pessoas da área de análise da performance e tudo mais. Então há o total de 250 pessoas dedicadas à ciência do esporte que são contratadas especificamente pelo Instituto Britânico de Esportes para dar apoio e base a ele e aos estudos feitos com o esporte de elite. Temos também 15 centros de alta performance e parcerias com 12 instituições.

Os pontinhos azuis são as áreas do Instituto Britânico de Esportes. Na verdade, houve muito debate sobre os benefícios de haver apenas um centro nacional para onde todos os atletas iriam. Uma outra ideia seria distribuir os centros pelo país. Cada centro estaria dedicado a um esporte diferente. Por exemplo, no centro que está na cidade de Birmingham temos a vela; ciclismo está baseado na cidade de Manchester; e hóquei está muito perto de Londres. Então, basicamente, temos centros espalhados por todo o país dedicados, cada um deles, a um esporte específico. Há ainda parcerias com 12 instituições acadêmicas que também têm a contribuição e o apoio da ciência do esporte para cada atleta. Também o Instituto Britânico de Esporte basicamente apoia 50 modalidades esportivas para 1.700 atletas. Está calculado que eles oferecem 4 mil horas de apoio e contribuição para atletas de elite por semana. Basicamente, temos £1.000.000,00 de apoio da ciência do esporte em um período de quatro anos.

É claro que existe um investimento muito considerável no esporte de elite e alta performance. Acho que o mais positivo que poderia falar sobre Londres é que o investimento paga dividendos. Acho que o sucesso do time de BIC, a associação de que eu falei anteriormente, é basicamente uma forte reflexão ou reflexo do dinheiro investido por meio de medicina do esporte e da ciência do esporte na preparação e no treinamento dos esportistas de elite. Em relação ao esporte profissional, temos uma estrutura basicamente semelhante à de futebol, tênis e rúgbi. Todos estão muito bem estruturados e têm um bom apoio e uma contribuição da ciência do esporte. Acho que o Barclays Premier League, o campeonato inglês, tem um financiamento muito importante que basicamente vem dos direitos oriundos da TV.

Também a grande maioria dos clubes e os times do campeonato inglês têm também uma equipe de apoio da ciência do esporte que é muito maior que muitos departamentos acadêmicos de algumas universidades. Não seria pouco comum, por exemplo, o Manchester City, um grande clube, recrutar talvez 50 cientistas esportivos. Então há muitas pessoas trabalhando a questão de condicionamento físico. Algumas pessoas também trabalham com a questão de nutrição. Talvez meia dúzia de pessoas estão trabalhando com análise de performance de jogadores, e outras estão dedicadas à psicologia de esportes. Também temos um pessoal trabalhando com jogadores. Há ainda outro tipo de funcionários trabalhando com a questão acadêmica. Então essa tem sido uma área que tem crescido muito. No instituto anterior onde trabalhei, na universidade na cidade de Liverpool, no Noroeste da Inglaterra, estabelecemos o primeiro curso de graduação na ciência do futebol. Ele foi lançado em 1997, e agora temos 80 formandos dessa universidade que trabalham no campeonato inglês.

Avaliação não apenas das práticas, mas também de todas essas estratégias que foram implementadas no futebol inglês. Por exemplo, os acordos televisivos para a transmissão desses jogos também nos liberou um certo orçamento, que nos permitiu melhorar um pouco em relação a verbas, e hoje em dia já dispomos de cifras em torno de £6.000.000,00. A Premier League aumentou de modo significativo e notável o controle por meio da certificação de todas essas academias, saindo de uma-estrela para quatro-estrelas, dependendo do apoio fornecido a cada um dos jogadores. Quanto maior o ranking, maior seria o valor da verba transferida para a Premier League. Havia um incentivo muito grande por parte de todos os clubes para que estivessem sempre em conformidade com esses padrões impostos pela liga inglesa.

De modo geral, nesta palestra gostaria de falar um pouco sobre a estrutura que temos desfrutado na psicologia do esporte e no desenvolvimento dessas atividades e habilidades.

A primeira parte se concentra no treinamento dos treinadores. É interessante, como cientista que trabalha com o aprendizado, diferenciar, para os treinadores, performance, desempenho, de aprendizado. Por exemplo, se um treinador estiver trabalhando com um grupo de adolescentes de 14 e 15 anos de idade, meninos e meninas, em uma sessão de treinamento, o que vemos é o desempenho desses pequenos atletas. Opostamente a isso, a aprendizagem envolve a retenção de conhecimentos que se apresentarão ao longo de um período mais extenso de tempo. Trata-se da transferência dessas habilidades. Basicamente, isso seria a transferência e a variação dessa habilidade que se apresentará, por exemplo, em determinada competição. A diferenciação entre desempenho e aprendizagem é importante por haver variáveis que, na verdade, influenciam cada uma delas.

E essas variáveis são diferentes. Cada um dos treinadores faz três coisas: a primeira, transmitir informações, dar instruções verbais e fazer demonstrações; a segunda, a estrutura da prática para que os jogadores tenham uma forma de participar da prática; a terceira, o feed back, que variará de complexidade e de intensidade. Basicamente, a tarefa do treinador é obviamente induzir o atleta a um determinado desempenho em uma sessão de treinamento. A ciência tem dito que quanto maior a instrução, a educação e as demonstrações feitas, melhor será o aprendizado do atleta. Por exemplo, a prática constante em blocos nem sempre produzirá a melhor performance, mas certamente o melhor feed back nos proporcionará uma melhora no desempenho.

Nem sempre vemos o mesmo em relação ao aprendizado. Se estivermos focados na produção do aprendizado, talvez as perguntas para o treinador fossem: qual é o mínimo de informação prescritiva que terá de passar ao atleta para que possa executar uma determinada habilidade? Em segundo lugar devemos nos perguntar: será que estou fazendo essa prática de forma aleatória ou com uma determinada variabilidade que, de fato, ajude no desenvolvimento daquela atividade? Será que o que temos visto no treino será reproduzido na quadra ou no campo? Naturalmente, isso forçará os atletas a se adaptarem para desenvolverem essas novas habilidades. Qual é o mínimo de feed back que precisamos desses atletas para que possam passar a desenvolver também o aprendizado de forma independente?

Como podem ver, do ponto de vista filosófico, a influência do treinador na performance e no aprendizado certamente guiará o seu comportamento.

Há dois, três anos, o nosso interesse principal era entrar nos clubes da Premier League da Inglaterra e tentar identificar especificamente o que cada um dos treinadores estava fazendo com os jogadores, ou seja, qual estratégia estavam utilizando. Então, fizemos filmagens de 80 sessões de treinamento, envolvendo treinadores que estavam dentro da licença que chamamos de A ou B da Uefa. Registramos todas essas sessões e fizemos o que chamamos de análise de time use, ou a análise da utilização do tempo para entender que tipo de engajamento havia em cada uma delas.

Nesse gráfico que está na tela, no eixo vertical temos a proporção do tempo, para cada uma dessas sessões, de tratamento gasto nas atividades físicas. Por exemplo, tinha o trabalho fisiológico, que é aquele feito sem bola, ou seja, aquecimento, resfriamento, o treino com bola, mas sem adversário. A prática de habilidades era feita com bola e com adversário, mas sem nenhuma estratégia tática. Do outro lado do gráfico, no outro eixo, temos o número de atividades que achávamos que refletiam melhor as demandas de atividades, que é o que chamamos de forma de jogo. Fazendo um cruzamento, temos o que chamamos de face play, que seria a defesa versus ataque, temos os jogos de posse, jogos de condicionamento. Então, todos esses treinadores já estavam trabalhando ali no meio acadêmico, com jogadores de elite. Observamos que 1/3 deles já trabalhava com grupos não de elite.

Com esse trabalho descobriu-se que 65% do tempo era gasto nas atividades de treinamento e apenas 35% nas atividades de jogo propriamente ditas. O nosso argumento era o seguinte: pelo fato de essa atividade de jogo refletir melhor a perfomance necessária, talvez devesse se gastar um pouco mais de tempo nas atividades de jogo do que nas de treinamento.

Na Inglaterra, observamos que há uma espécie de divisão bem clara do tempo. Infelizmente, o que os treinadores estavam fazendo com os jogadores não tinha o suporte científico prescrito pela academia. Vemos que há pouca diferença entre esses três grupos de atividades. Ou seja, o tipo de treinamento que os treinadores específicos davam para os atletas de elite, de não elite ou de subelite era basicamente o mesmo. Também havia três grupos etários. Tínhamos um grupo de jogadores de 9 até 13 anos, o sub-16, e os adultos. Observamos alguns padrões bem semelhantes em todos essas faixas etárias.

Concluímos que, aparentemente, os treinadores gastavam 65% do seu tempo em atividades que quase sempre não estavam fortemente relacionadas à competição em si. Isso não pareceu ser uma grande mudança na prática, independente da idade desses jogadores. Talvez, seria o caso de gastar um pouco mais de tempo nas atividades de jogo, especialmente na medida em que esses grupos se tornassem mais velhos. Contudo, ainda não temos todos os dados necessários para suportar que os resultados da equipe serão esses.

Atualmente, estamos tentando melhorar o tempo de jogo gasto nas atividades de jogo e, possivelmente, daqui a pouco, vamos inverter isso. Ou seja, gastaremos 65% nas atividades de jogo e apenas 35% nas atividades físicas pré-jogo. Também registramos os comentários verbais dos treinadores. Utilizávamos o microfone de lapela e, na medida em que a sessão de treinamento evoluía, tudo o que se falava era gravado. Então, fomos categorizando os comportamentos dentro dessas quatro categorias que vocês podem ver aqui. Como pode ser observado, a atividade mais frequente era a instrução e a menos frequente, o silêncio prolongado. Tínhamos um ambiente muito rico em instruções. Ou seja, as atividades de treinamento eram intensamente direcionadas e as atividades táticas e técnicas, aprendidas e experienciadas de forma educativa.

Talvez o treinador estivesse agindo como um catalizador para facilitar o ambiente, muito mais que apenas o possuidor do conhecimento que deveria ser transferido para o atleta. Muito possivelmente, seria um ambiente mais focado no aluno que no próprio treinador. Vemos aqui o desenvolvimento de uma estrutura sistemática para a avaliação e o treinamento dos treinadores. Será que sabemos o que os treinadores estão fazendo ao longo das diversas seções de treinamento? Sabemos, por exemplo, o que está sendo feito numa parte do Brasil, se comparada com outro estado, com outro clube? Há necessidade muito grande de fazermos um benchmarking em todos esses clubes para entender a natureza e os comportamentos que os treinadores estão utilizando com os jogadores.

Há perguntas interessantes, por exemplo, sobre o currículo adequado para os jogadores de 10, 12 ou 14 anos. Como podemos monitorar, avaliar, para saber se o comportamento do treinador, se as mudanças de performance estão sendo significativas? Então, haveria benefício em fazer um benchmarking no estabelecimento de métricas, por exemplo, para engajar diferentes tipos de atividades. Para investirmos na educação dos treinadores, até certo ponto deveríamos melhorar a educação da família, dos pais sobre o que é uma boa prática de treinamento. Muitas vezes os pais têm a ideia de que o treinador é aquela pessoa que grita muito, que está sempre dando instruções. Talvez não seja essa a verdade. As evidências, como eu disse há pouco, indicam que o treinamento deve ser focado no aprendizado, e não na performance. Talvez possamos fazer mudanças por meio da educação da própria família, para que os pais percebam que tipo de ambiente é aquele e se está de fato melhorando ou não as práticas de aprendizado.

Nessa segunda seção vamos falar um pouco a respeito do trabalho que temos desenvolvido na aquisição de habilidades dentro desse meio. Estamos muito interessados, por exemplo, no desenvolvimento de habilidades de jogo como antecipação, previsão e tomada de decisões. Talvez possamos até afirmar que, ao longo dos últimos 20 anos, obtivemos bons resultados para desenvolver ideias que suportassem melhor mudanças nutricionais, condições de fortalecimento, treinamentos de força e de resistência. A ciência tem tentado muito desenvolver essa área particular, ou seja, o treinamento tático. Sabemos que uma das principais habilidades, principalmente dos jogadores de elite, é observar a orientação postural de um oponente. Essa informação permite ao jogador avaliar, por exemplo, que tipo de ataque o oponente fará. Isso envolve testes como gravações. Temos um sistema que permite, por exemplo, identificar onde o jogador está fixando o seu olhar. Assim, podemos observar um jogador um pouco mais habilidoso, outro menos habilidoso. Então, esse estudo nos dá uma sequência de estratégia, que vai sendo utilizada pelos atletas.

Aqui temos várias situações que nos permitem analisar o que um atleta faz, por exemplo, se a bola está longe ou perto da marca do pênalti. Os jogadores profissionais são mais eficazes na utilização dos próprios sistemas visuais para verificar e perceber essas atitudes.

Será que poderão me ajudar no vídeo? Estou sem mouse para acionar o vídeo. Esse é o Frank Lampard, que é um excelente exemplo. Vejam como está observando antes de receber: está olhando para os lados, a fim de ter uma visão geral do campo. Esse vídeo foi retirado de uma transmissão convencional de jogo. Estávamos observando a capacidade de esses atletas fazerem um registro.

Por favor, voltemos à apresentação. Obrigado. Também sabemos que os jogadores profissionais são os melhores no reconhecimento da estrutura e da familiaridade no desenvolvimento de sequências de jogo. Na medida em que os profissionais assistem a essas sequências, eles reconhecem, por exemplo, as ligações entre os diversos elementos do campo, como a zaga e os volantes. É preciso que essa familiaridade favoreça o desenvolvimento de uma determinada jogada ao longo do jogo. Essa é uma das questões principais, ou seja, justamente essa capacidade de antecipar jogadas.

Outra habilidade que também sabemos - se pudesse mostrar aqui outro vídeo - é quando o goleiro manda a bola para um lateral ou um zagueiro, que está ali circulado. Ele recebe a bola e tem a opção de verificar o próximo elemento do campo a quem passará a bola. Foi-se desenvolvendo uma hierarquia de probabilidades que ajuda a prever o que vai ocorrer a partir de determinada situação de jogo.

Quero mostrar a vocês que fizemos um trabalho muito intenso para tentar identificar que tipo de teste poderia nos ajudar a verificar as habilidades que teriam mais influência no desenvolvimento dessas capacidades, como previsão de jogada. Muitas vezes um comentarista diz que um jogador tem visão de jogo, o que não quer dizer que ele tem melhor capacidade de visão que outros jogadores. A qualidade da informação que chega a um determinado jogador é exatamente a mesma que chega a outro. A diferença é a forma como um determinado jogador de elite processa a informação por ele percebida. Depois de milhões de horas de prática, os resultados nos levam a acreditar que esses especialistas, esses jogadores diferenciados processam a informação de forma mais eficiente. Eles captam a informação postural do seu oponente, reconhecem aquela estrutura, possuem um sistema de reconhecimento da familiaridade, têm mais familiaridade com aquele movimento e refinam aquele conhecimento, por exemplo, de qual seria a principal jogada do oponente e para onde ele mandaria a bola.

Hoje é possível medir um pouco essas habilidades. Temos um projeto com a federação de futebol da Austrália. Foram realizados testes com 50 jogadores de 11 a 18 anos, para analisar as suas habilidades. É uma forma semelhante de trabalho que tem sido desenvolvida em várias outras copas, em ligas, em premières de vários países. O objetivo geral dessas pesquisas é desenvolver um programa de treinamento que facilite a aquisição mais rápida de habilidades inteligentes de jogo. Exploramos a forma como podemos reestruturar o treinamento, para melhor promover as habilidades de tomada de decisão de jogo. Temos tentado identificar os diferentes processos de raciocínio utilizados por jogadores diferenciados, durante e após as jogadas. Procuramos diferenciar esse processo de raciocínio do de um atleta não tão habilidoso. Temos utilizado muitos vídeos, a realidade virtual, a tecnologia de animação, para simular essas situações para os jogadores, na prática.

Acredito que muito em breve a próxima geração do playstation da Fifa terá algum dispositivo na cabeça e a sensação de jogo em primeira pessoa. É claro que a tecnologia é extremamente cara e não dá para ser comercializada, para as famílias comprarem para os seus filhos. Mas é uma tecnologia muito útil, para o desenvolvimento de treinamento, o treinamento dos jogadores e para dar feedback aos jogadores. Em princípio, consegue-se voltar com aquele jogador exatamente na mesma jogada experimentada no jogo do dia anterior. Ele simula aquela jogada, o que faz com que reaja de forma diferente. Desse modo, vai-se construindo o treinamento.

Estamos tentando utilizar isso da melhor forma possível. É uma área interessantíssima e, na minha opinião, há dois fatores que diferenciam esses jogadores de alto nível: basicamente a sua capacidade psicológica, o que dá melhores condições de antecipação de jogo; e o desenvolvimento de suas habilidades táticas.

Nessa última sessão, falaremos a respeito da psicologia do esporte e da aquisição de habilidades, o que pode influenciar os administradores, por exemplo, no estabelecimento de procedimentos para o desenvolvimento de jogadores de elite. Em primeiro lugar, uma pergunta que diz respeito a especialização versus diversificação. Alguns países abraçam a visão de que as crianças devem participar de grande variedade de esportes precocemente e que o esporte principal só deve ser treinado mais tarde. E os dados do futebol, ao redor do globo, indicam-nos que temos um sistema de engajamento precoce maior que o de especialização precoce. O engajamento precoce diz que o jogador de futebol começa a praticar o esporte a partir dos 4 ou 5 anos de idade e passa muito mais horas engajado naquele esporte do que em quaisquer outros, muito embora não esteja restrito ao futebol, já que também participa de outras atividades esportivas. E o tempo que gasta em outras atividades esportivas não tem influência negativa no acúmulo de desenvolvimento de suas habilidades. Isso porque o futebol é um esporte tão forte do ponto de vista cultural que os jogadores gravitam ao seu redor muito precocemente. Esses são dados que obtivemos há alguns anos, utilizando questionários, entrevistas e formulários, na tentativa de observar a quantidade de horas de treinamento cumulativo que determinado jogador acumularia entre os 8 e os 16 anos de idade.

Temos, aqui, as diferentes categorias de jogadores representando seus colegas das escolas públicas, mas não representam os jogadores como um todo. E aqui temos o número de horas acumuladas: 7 mil horas de prática. Se você quer realmente ser um jogador do campeonato inglês, tem que, normalmente, começar a praticar o esporte aproximadamente aos 5 anos, investir o mínimo de nove ou dez anos no esporte, perfazendo, basicamente, 700 horas de treino por ano, 16 horas por semana, 9 horas de prática em treino informal e também 9 horas semanais em práticas individuais, ou seja, 7 mil horas no total. São dados que coletamos de seis países da Europa. Aqui temos dados de Portugal, Suécia, Inglaterra e França. O que tentamos fazer com o estudo foi mapear o perfil do desenvolvimento de jogadores de 6 a 16 anos de idade.

Aqui temos a competição, que é basicamente o jogo, as horas gastas por ano pelos jogadores nos jogos de futebol. Aqui temos o gráfico, com pontinhos em preto, mostrando as horas investidas basicamente em treinos com um treinador, nas limitações da academia, como resultado do plano de performance dos jogadores de elite do campeonato inglês. Temos aqui os pontinhos quadradinhos, que estão aumentando no gráfico, mostrando que os clubes agora têm acesso aos jogadores basicamente por 10 horas semanais, a partir dos 6, 8 anos de idade. E esse triângulo representa as horas investidas em futebol de rua sem nenhum tipo de treino com treinador, fora do ambiente acadêmico ou mais formal. Aqui, como vemos no gráfico, há na Europa um sistema bastante formalizado, onde as crianças gastam boa quantidade de tempo em treinos com treinadores, num ambiente mais formal, e um tempo razoável - eu diria - no jogo. E, depois, com 10, 11 anos de idade, há uma mudança muito clara, visto que menos horas são gastas com brincadeiras ou jogos e mais horas são gastas com o treino formal com treinadores.

Temos também dados coletados no Brasil. Não vou falar qual sistema é melhor ou pior, mas posso dizer que o perfil é muito diferente. Nossas informações se referem a 50 jogadores de elite no Brasil. Como vocês podem ver, temos muito menos investimentos em treinos com treinador, em treino formal durante o desenvolvimento do jogador e mais horas investidas em atividades relacionadas a brincadeiras, que não incluem o futsal. Se acrescentarmos o futsal, as horas aumentarão muito.

Apoio os jogos mais informais, o futebol jogado na rua. A diferença em relação aos europeus diz respeito mais às atividades com brincadeiras, mais informais. O interessante é que Portugal registra menos horas de treino formal, mas não há nenhum jogador da Europa investindo nesse tipo de atividade mais informal, como acontece no Brasil. Lá é muito mais formal a partir de uma idade muito baixa. Essa amostra é de jogadores a partir dos 11 anos. Parece que recentemente isso tem mudado, o foco é muito mais em treinos liderados por treinadores, um ambiente muito mais formal.

Em termos da importância do treino e do jogo, acredito que é relevante sim. Temos dados de jogadores que acompanhamos na Premier League, o campeonato inglês. Na faixa de 13 aos 16 anos, basicamente, eles são contratados ou liberados pelo clube. Queríamos registrar aqui as horas semanais investidas em atividades não lideradas por treinadores. Lembrem que é o mesmo grupo de jogadores, todos entrando para o clube aos 6 anos de idade, com a mesma exposição aos treinos com treinador entre 6 e 16 anos e realizando o mesmo tipo de treino e de jogos. Podemos ver ali as horas por semana de futebol de rua - depois esses jogadores se tornaram profissionais na idade de 16 anos. Temos, então, há quatro anos, com a idade de 12 anos; há três anos, 13 anos de idade; com 14 e 15 eles foram mantidos ou liberados pelo clube.

Podemos ver que os jogadores que passaram mais tempo fazendo atividades, como o futebol de rua, entre 13 e 16 anos de idade, têm mais probabilidade de se tornarem profissionais na idade de 16 anos. A ideia é a seguinte: será que eles tiveram maior probabilidade de se tornarem profissionais porque tiveram uma boa combinação entre atividades de brincadeira ou de jogo informal? Ou será que a natureza desse tipo de atividade é importante no sentido de que ela cria uma dinâmica ou um ambiente de descoberta, de aprendizado, com habilidades técnicas que vão ser integradas de uma forma diferente? As crianças, quando jogam, recriam o que veem na TV.

Dos dados que mostrei anteriormente, quando os treinadores entram, têm de fazer uma coisa muito mais estruturada, com simulações e jogadas mais formais. Será que eles se afastam do que realmente é o jogo? Em essência, se não há um equilíbrio bem feito, não entre o jogo e o treino, mas com a atividade que o treinador está fazendo... Se o treinador está criando atividades que são específicas de jogo, as jogadas, e isso é um desafio para os meninos, ótimo; mas, se estão criando atividades muito estruturadas, muito rígidas e os afastam da condição de jogo, é uma evidência clara de que o que as crianças fazem sozinhas na rua, sem treinador, é necessário para compensar a falta desse tipo de habilidades técnicas e do ambiente de aprendizado que eles não têm num treino muito formal, muito rígido, com treinador. E, é claro, é necessário também esse tipo de atividade mais relacionada a brincadeiras de rua, a futebol de rua para a aquisição de habilidades.

Fizemos outro estudo enviando alguns questionários e entrevistas para sabermos se, quando faziam 16 anos, eram retidos ou liberados, e o resultado está ali. As crianças que se tornam profissionais na idade de 16 anos têm mais horas acumuladas de atividades relacionadas a jogos feitos na rua, a ambientes menos rígidos.

A questão não é o acúmulo puro das horas de treino, tem muito mais a ver com uma meta específica. Na verdade, nesse tipo de treino há intenção definida de melhorar as habilidades.

Aqui temos um modelo típico de aprendizado de habilidades. Vemos que o aprendiz tem três etapas. Primeiro, temos um estágio cognitivo, que demanda menos atenção, e depois o outro estágio. Por exemplo, se estou aprendendo a dirigir um carro, no início tenho de me concentrar muito, é muito cognitivo. Tenho de me concentrar muito na marcha, mas depois que essa habilidade for adquirida, tudo fica mais automático e já posso dirigir sem prestar tanta atenção, já posso ouvir rádio etc. Mas não quero ser um Lewis Hamilton da Fórmula 1. Quando quero ir da minha casa para o trabalho, tenho esse desenvolvimento, não tenho de melhorar as minhas habilidades para mudar de marcha. Nós chegamos ao segundo estágio, mas os jogadores continuam para mudar as habilidades nas quais eles são bons. Os especialistas, por exemplo, passam mais tempo praticando coisas em que eles não são bons do que naquelas em que eles são bons. Eles acham que o treino tem mais demanda física e mental e passam mais tempo refletindo sobre o treino. Eles têm um comportamento compulsivo, têm um distúrbio compulsivo, porque o esporte é a obsessão da vida deles. Eles ficam obcecados em melhorar aquilo que eles não fazem tão bem.

Em termos de implicação prática, o importante é monitorar o engajamento prático do treino em que os jogadores têm uma agenda diária de treinamento. Há algumas associações de futebol que estão fazendo isso na internet. Há uma oportunidade muito boa para atividades de brincadeiras, sobretudo na Europa. Aqui eles já fazem esse tipo de atividade de brincadeira e futebol de rua. Há necessidade de que os jogadores desenvolvam a alta regulação e as habilidades mentais de reflexão, que são necessárias para aprender novas habilidades.

Algo que eu poderia avisar para eles não fazerem é não enfatizar demais a questão da maturidade física no desenvolvimento dos jogadores de elite. Temos dados de mais de 6 mil jogadores dos clubes do Campeonato Inglês entre 9 e 16 anos de idade. A seleção, na Inglaterra, começa em setembro, e 48% dos jogadores nasceram entre setembro e dezembro. Somente 12% nasceram no último trimestre, de junho a agosto. É isso que falamos do efeito da data de nascimento. Basicamente, acontece isso com os jogadores profissionais, os semiprofissionais e o futebol amador. A ideia é que os treinadores estão selecionando jogadores baseados na parte física, que estão no início do desenvolvimento, e, potencialmente, poderíamos estar perdendo jogadores dos últimos meses do ano, que talvez tenham mais habilidade no futuro.

A tendência dessa questão é piorar, e não melhorar. Temos dados do Brasil que refletem isso. A idade relativa aqui é muito forte e está aumentando em importância nos últimos 20 ou 30 anos. Temos dados de seis nações da Europa, das seleções nacionais de jogadores sub-21. Coletamos dados no ano de 2000 e coletamos os mesmos dados, das mesmas equipes, em 2010. Como podem ver, temos o efeito da idade relativa. Ela existe de fato e tem aumentado e ficado cada vez mais forte. Aqui temos uma alta quantidade de jogadores que nasceram no primeiro trimestre do ano de seleção, que é normalizado na competição da Uefa, feita em janeiro, que é o mês de seleção.

Em relação à população normal, seria uma distribuição de 25%. Temos dados nacionais da França. O gráfico superior destaca a data de nascimento para todos os jogadores que foram para o Clairefontaine, na França.

Como vocês podem ver, aqui temos o efeito da idade relativa, que existe de fato, que tem aumentado e ficado cada vez mais forte. Temos uma grande quantidade de jogadores que nasceram no primeiro trimestre do ano de seleção, que é, claro, normalizado na competição da Uefa, em janeiro, que é o mês de seleção.

Em relação à população normal, seria uma distribuição de 25%. Aqui temos dados da França. Esse gráfico superior destaca a data de nascimento para todos os jogadores que foram para Clairefontaine, na França. Como podem ver, há um forte efeito da idade nos que foram para Clairefontaine, onde a seleção treina, onde é o centro de treinamento. Nesse tipo de amostra de jogadores, temos também dados fisiológicos e endométricos. Concluímos que não houve diferença significativa entre os quatro trimestres. Isso significa, na verdade, que os jogadores selecionados nascidos no quarto trimestre eram tão maduros fisicamente quanto os que nasceram no primeiro trimestre do ano.

Na verdade, a chance de ser selecionado para a academia ou centro de treinamento de elite é menor se você nasceu mais tarde, porque biologicamente a pessoa é, na média, mais imatura. No outro gráfico inferior, o que vemos é a percentagem de jogadores que vão para o centro de treinamento de elite, aos quais é oferecido um contrato profissional. E aqui vemos os jogadores nascidos no quarto trimestre que são convidados a jogar profissionalmente.

Também temos os dados de todos os jogadores que foram selecionados como candidatos para jogador do ano e também para jogador da Fifa nos últimos 20 anos. Nessa amostra, realmente não vemos claramente o efeito da idade, da data de nascimento. Nessa linha pontilhada, temos o que seria o resultado esperado para toda a população. E vemos que a proporção mais alta é de jogadores que nasceram no primeiro e no quarto trimestres do ano. Somente consigo especular que esses jogadores não tinham a vantagem da ciência esportiva e a desvantagem do tamanho físico no início do seu desenvolvimento, então, para se manterem competitivos, tiveram de desenvolver outras características como habilidades técnicas, táticas, de tomada de decisão, o que os beneficiou quando chegaram à maturidade. Talvez não estivessem na média física, mas outras habilidades desenvolvidas por eles os ajudaram a se tornar jogadores. Antigamente, o que víamos como desvantagem, hoje vemos que não é tanto assim. Em relação a jogadores que nasceram no início do ano, como poderíamos ter certeza de que teriam o ambiente de treinamento adequado para focar nas suas habilidades técnicas e táticas, e não compensar ou depender demais da fortaleza física?

Algumas pesquisas têm sugerido que, para cada ano de seleção, se mude a data de corte. Temos 25% de jogadores nascidos em cada trimestre do ano. Há diferentes sugestões, como basear a seleção não tanto na idade, mas nas características biológicas e físicas, também há a ideia de se ter uma política mais flexível de seleção de jogadores, para que os jogadores que não têm a vantagem do tamanho físico também entrem no sistema. Isso também tem sido basicamente sugestão, mas a solução continua sendo um fenômeno muito presente.

Finalmente temos um debate muito interessante sobre a questão da busca por talento e pelas habilidades. Temos muitas pesquisas e estudos de ciência de esporte que tentam identificar o que poderiam ser talvez características sociológicas e psicológicas do talento, os preditivos do talento. É um debate até interessante. O campeonato inglês, por exemplo, agora faz uma comparação com todos os jogadores. Os clubes têm de tirar basicamente medidas físicas e fisiológicas três vezes por ano, a partir de 16 anos até os 21 anos de idade, dos jogadores. O campeonato inglês está coletando uma base de dados, que vai mapear as características de desenvolvimento dos jogadores. Também estão acrescentando medidas de antecipação e habilidade de tomar decisão como preditivos sociais, como a idade, o histórico social, econômico e a educação. Eles estão criando uma base de dados durante um tempo bastante amplo, para comparar o que seria normal e não normal em termos do estágio de desenvolvimento, potencialmente para identificar o que seria um preditivo do talento.

O problema, entretanto, é que o futebol é um esporte com múltiplas facetas, que exige diferentes habilidades, características, competências e tendências que se juntam de diferentes formas. Aqui temos o perfil de performance, mostrando o primeiro jogador do Manchester United com diferentes características, como força física da parte superior do corpo. Essa linha em preto, na parte azul, mostra o ponto forte. Se a linha estiver mais perto do vermelho, mostrará o ponto fraco. Esse tipo de perfil é utilizado por muitas equipes como uma forma de melhorar a performance. Podemos ver, numa ilustração gráfica, os pontos fortes e fracos do jogador para customizar um programa de treinamento para ele.

A razão pela qual estou mostrando isso é que, se fizermos uma plotagem do perfil para cada jogador no primeiro time do Manchester United, teremos perfis muito diversos porque os jogadores são muito diferentes entre si. Se o jogador não tem, por exemplo, força física na parte superior do corpo, não será um bom profissional? O que significará se tivermos que compensar essa diferença com o desenvolvimento de outros pontos? Esse tipo de natureza, de expertise muito variada, faz com que a identificação de talentos seja muito difícil. O meu argumento é que, muito embora seja interessante estabelecer uma base de dados multidisciplinar para a questão do sistema de gestão da performance, ainda não estou convencido de que existem marcadores claros de talento, que, com certeza, poderão prever aqueles que, com 6, 7 anos de idade, vão se tornar depois, com 19 anos, jogadores de elite muito bons. Isso é difícil. Naquele grupo, por exemplo, talvez seja um pouco mais fácil prever, entre aqueles que têm 12 anos de idade, quais vão se tornar de fato bons jogadores profissionais. Quanto maior o tempo, mais difícil será identificá-los.

Agora tratarei das conclusões. No Reino Unido, nos últimos 20 anos, tem havido uma mudança de mentalidade na ciência de esporte, cuja importância como campo de conhecimento, como já disse, tem aumentado muito. Cada vez mais há uma maior conscientização do governo, das pessoas e das associações envolvidas com esporte de que é preciso investir na ciência do esporte. Temos sido ajudados pelo governo, que tem cada vez mais investido no esporte de elite, sobretudo com os jogos olímpicos acontecendo em Londres. E nos beneficiamos muito desse grande volume de dinheiro vindo do mundo inteiro para ser investido nos direitos de TV do campeonato inglês, que é muito popular. Isso está refletindo, sobretudo, no orçamento dos clubes de elites. Há uma cultura cada vez mais forte sobre o treino baseado em evidências, em ganhos marginais. Ou seja, estamos tentando fazer pequenas mudanças de cada faceta do desenvolvimento do jogador. Se conseguirmos um benefício de 1% em diferentes lugares, é claro que, no final, serão 10% de benefícios. Essa é a cultura que permeia todos os aspectos do desenvolvimento do jogador.

As ciências biológicas, a nutrição, os sistemas, como o GPS, tudo isso está muito bem estabelecido agora. A psicologia do esporte está cada vez mais forte e tem uma importância cada vez maior, sobretudo sobre a ciência da aprendizagem, para tentar identificar o ambiente que seria mais adequado para criar jogadores mais competentes. Muito obrigado pelo tempo que me dispensaram.