Pronunciamentos

MÁRIO MARRA, Jornalista e comentarista de futebol da rádio CBN de São Paulo. Representante da Confederação Brasileira de Futebol - CBF.

Discurso

Comenta o tema do 1º painel: “Gestão e governança”.
Reunião 62ª reunião ESPECIAL
Legislatura 17ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 06/12/2014
Página 41, Coluna 1
Evento Ciclo de debates: Muda Futebol Brasileiro: desafios de uma renovação.
Assunto ESPORTE. LAZER.
Observação O número que acompanha o Requerimento Sem Número, constante do campo Proposições, é para controle interno, não fazendo parte da identificação da Proposição referida. No decorrer de seu pronunciamento, procede-se à exibição de slides.
Proposições citadas RQS 2802 de 2014

62ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 17ª LEGISLATURA, EM 24/11/2014

Palavras do Sr. Mário Marra


O Sr. Mário Marra - Boa-tarde. Primeiro quero dizer que é uma honra para mim estar aqui. Agradeço a oportunidade, o convite, para estar na minha casa, na minha terra, BH, em meu Estado de Minas. Nasci por acaso em São Paulo, e agora voltei para lá. Foi por acaso mesmo, porque meu pai trabalhava num banco e foi transferido. Ficou dois anos em São Paulo, e eu nasci. Depois vim para BH, onde construí a minha vida. Foram 40 anos em BH, e já há quatro anos fui para São Paulo. Comecei como jornalista. Tive a primeira oportunidade como comentarista, jornalista esportivo na rádio CBN de Belo Horizonte, em 2000, e fiquei por 10 anos na CBN BH, também Rádio Globo. Fiquei no Premiere e SporTV um tempo, na Rede Minas, e desde 2010 estou na rádio CBN de São Paulo, tendo uma oportunidade para mim diferente. Muitas vezes o jornalista sai para a pauta pensando em alguma coisa, mas, chegando lá, acontece outra coisa, e ele precisa ter jogo de cintura para convencer o chefe a esquecer o que ele faria, porque há outra coisa que é notícia. Não é para eu esquecer tudo o que preparei, mas é quase isso, porque desde de manhã as coisas foram tomando um certo corpo diferente do que eu imaginava.

Meu material continua dentro do contexto, mas considero importante posicionar-me e apresentar algo do papel da imprensa pela minha experiência e vivência, pelo tempo e por ser um observador. Hoje em dia, com rede social se consegue ser observador do que acontece no futebol mineiro na capital, no interior, como no interior de Sergipe, na Inglaterra, na França. Quer dizer, consegue-se fuçar, olhar tudo o que acontece e obter modelos, exemplos e vivências diferentes.

A imprensa foi muito citada aqui hoje por várias vezes. Na minha visão, ela tem muita culpa no cartório do que se tornou o futebol brasileiro, do que ele é e do caminho que tomamos. Por quê? Porque a imprensa quer acelerar as coisas, ou seja, muitas vezes quer a notícia, que pode ser mal conduzida, acabar tendo uma proporção e até um conteúdo diferente. É claro que há pessoas e pessoas. Há gente boa e menos boa.

Serei bem prático. Por exemplo, recentemente estava fazendo um jogo na Arena Corinthians. Alguém disse - não sei se isso chegou por meio de rede social - que o Luciano, do Corinthians, é jogador de segundo tempo. “Esse é jogador de segundo tempo, Mário Marra. Jogador que entra e não resolve quando começa de cara no jogo. No entanto, quando entra depois, sempre resolve. Jogador de segundo tempo”. Ali, no estádio, vendo aquela situação, pensei: “Espera aí; quantos anos tem o Luciano? Vinte e um. Ele merece carregar esse rótulo de jogador de segundo tempo aos 21 anos, tendo agora a primeira oportunidade num time grande? Espera aí. Eu vou contribuir e assinar a sentença de jogador de segundo tempo, foguete molhado, para um menino de 21 anos? Não. Vamos contextualizar a coisa e lembrar que ele é um menino de 21 anos que está tendo oportunidade. Se os outros não estão jogando tão bem, ele vai lá e entra. Então os outros não são jogadores de primeiro tempo? É isso? Vamos mudar a ótica”.

Muitas vezes a imprensa nos leva a tomar algumas decisões e a rotular pessoas, infelizmente. No caso do Ruy, é uma brincadeira: Ruy Cabeção e tal. No entanto falar: Ruy, o jogador violento; Rui, o jogador de segundo tempo... Que coisa! Ele vai carregar isso para o resto da vida? Muitas vezes nós, da imprensa, ajudamos na construção dessa imagem, assim como de outras imagens que aceleram o processo. A imagem do dirigente inteligente ou gastador. Quando o time se vê envolvido em quatro derrotas consecutivas, o dirigente tem de demitir o técnico? Calma. É esse o futebol que queremos mesmo? Esse que dura quatro derrotas? Especialmente em Belo Horizonte, é fácil dizer isso porque o Cuca, quando assumiu o Atlético, teve seis derrotas consecutivas e depois foi campeão da Libertadores.

Uma vez trabalhando aqui, pelo SporTV, ouvi outra frase que mexeu muito comigo e que me fez... Aliás, foi no interior cuja cidade não citarei. Retornei a BH no mesmo dia. Confesso que isso ocupou os 50km na minha cabeça, porque não considerei justo. Um goleiro havia falhado contra um time grande. Quando eu estava correndo para pegar o carro e vir embora para Belo Horizonte, passei perto de uma cabine e ouvi alguém - não sei se era um comentarista ou narrador, não conheço -, com o microfone na mão, dizendo: “Ele falhou. Hum! Tanta obra inacabada no centro da cidade. Podia estar lá batendo laje, e coisa e tal”. Pensei: “É esse o meu papel?”. Quando eu ia estudar... Fiz o meu curso de jornalismo longo porque trabalhava com outra coisa e tinha filho pequeno. “Foi para isso que larguei o meu filho pequeno em casa? Para dizer que tem obra inacabada? Para dizer que aquele goleiro tem de largar a sua profissão para terminar as obras inacabadas?” Não, definitivamente não é esse o nosso papel, o papel da imprensa. Sei que ela contribui para um lado negativo do futebol.

Acho que a gente precisa - aí parte para uma reflexão interessante -, todos nós da imprensa, jogar luz e fuçar. Você joga luz em uma informação, tenta entender o que está acontecendo e fuça. Limpa as coisas que são apenas de assessoria, apenas alegorias e tenta entender a notícia. Para entender a notícia, dependendo do contexto em que ela está, se ela estiver em um contexto esportivo, falando de campo, de bola - e, muitas vezes, está -, temos de nos preparar melhor, bem melhor. Por isso tenho a honra de falar que, para mim, tem sido um prazer imenso fazer parte da Universidade do Futebol. Também estou fazendo o curso de gestão técnica com o prof. Medina e o Eduardo Tega. E algumas coisas que, para mim, eram palavras de senso comum, estou tendo a oportunidade de questionar. Preciso assumir o questionador por ser filho único, meio chato. Estou tendo oportunidade de questionar a minha vida pessoal e profissional. Quando abro o microfone, preciso entender que aquele menino de 20 anos não precisa morrer com o rótulo de jogador de segundo tempo, precisa pensar, contextualizar.

Na semana passada, ficamos sabendo que a Copa Africana de Nações vai ser disputada na Guiné Equatorial, que é um país africano rico, é até engraçado a gente falar isso. Foi sede da Copa Africana de Nações, em 2012, com o Gabão - são vizinhos. Até aí tudo bem. O problema é que na Guiné Equatorial - peço desculpas porque coloquei os links, estava imaginando algo, como falei anteriormente, mas vou passar rápido por eles, porque achava importante contextualizar e entrar na questão pessoal da imprensa -, que foi sede da Copa Africana de Nações, em 2012, e agora, em 2015, três anos depois, terá novamente uma edição da CAN, uma em cada oito crianças morre antes de completar cinco anos. Qual seria o papel da imprensa? Noticiar. “Vamos fazer outra?” Além disso, nesse meio tempo, houve um concurso de miss África lá. “Que país é esse? Ficamos bonitinhos para o mundo, fazendo Copa Africana de Nações; vem a turma jogar aqui, o Drogba. Vamos bater palmas, eles estão ali e tal. Fazendo concurso de miss, sediando outra copa africana, e as crianças estão morrendo”. Esse é o papel da imprensa.

Vejam esse primeiro parágrafo que separei da imprensa - não da imprensa de Guiné Equatorial, porque lá não tem jeito, lá não tem nem jornal na capital. É um país onde se vive na ditadura Teodoro Obiang. A relação lá é complicada. Aí a imprensa se cala. A imprensa que tenta falar é convidada a não falar mais, de uma forma não muito educada. Achei esse primeiro parágrafo bastante interessante e crítico, e não precisa ser chato: “No dia em que a natureza distribuiu credibilidade, os dirigentes da Confederação Africana de Futebol tinham ido almoçar”. O jornal angolano foi ótimo. É nesse país, na Guiné Equatorial, que as coisas estão acontecendo, e o mundo do futebol tinha de olhar para lá de qualquer jeito. É nesse país que crianças morrem, a taxa de analfabetismo é imensa, e é um país que, em 1996, descobriu mais e mais extração de petróleo. Por isso é um país rico, mas a riqueza fica muito para a turma do presidente. O custo estimado dos estádios e dos cinco aeroportos construídos é “x”, ninguém tem ideia.

Na Guiné Equatorial, precisaria jogar essa luz e fuçar muito, para saber qual é o custo. E esse é o papel da imprensa.

Aqui, no Brasil, tivemos vários exemplos, bons exemplos da imprensa jogando luz em alguma informação e fuçando para ver o que encontrava. Uma luz muito bem jogada, uma mexida muito boa foi feita na época da Máfia da Loteria. Uma matéria premiadíssima da revista Placar, que - e gostaria de falar - mudou os rumos do futebol. Gostaria de falar isso mesmo, mas, anos mais tarde, apareceu outra máfia, a Máfia do Apito, da qual vocês devem se lembrar, dos jogos manipulados de 2005. Ainda bem que a imprensa conseguiu fuçar e descobriu algumas coisas.

A imprensa do mundo força a imprensa da Rússia e também está fuçando e jogando luz na construção dos estádios para a Copa do Mundo de 2018, mas não vou tomar o tempo dos senhores com isso. Tem sido frequente o número de matérias questionando a indicação do Catar para a Copa de 2022. Estou pegando os jornais The Guardian, da Inglaterra, e o Telegraph, ambos com a foto do presidente da Fifa, Joseph Blatter.

Esse é um personagem famoso, pelo menos deveria ser, para todo jornalista esportivo: Andrew Jennings, um velhinho. Parece até simpático conversar com ele, mas converse com ele com tudo em dia, por favor, porque esse velhinho coloca luz e fuça tudo, descobre as coisas, dá um jeito de publicar e já recebeu mil ameaças. Se ele andar um pouquinho torto, para direita ou para esquerda, não tenha dúvida de que irão pegar exatamente o seu passo mal dado.

Na nossa, na minha profissão, na profissão de jornalista - e aqui há alguns colegas -, somos convidados a observar essas coisas o dia inteiro. Se, desde hoje cedo, estamos falando de um cenário do futebol brasileiro nada agradável, não tenham dúvida de que, no futebol brasileiro, que também é uma realidade fora do Brasil, não existe clube santo. Se o seu clube ou o clube do vizinho é santo, tenham dúvida do repórter que faz o dia a dia do clube, porque não é o clube que é santo, mas o repórter que não vê, porque há erro. Claro que há. A nossa função não é trabalhar como assessor de imprensa de clube, por isso, às vezes, somos chatos. Por isso também peço a meu filho que não veja as redes sociais, porque, num dia, viro atleticano; no outro, cruzeirense; no outro, americano; e, no outro, antibrasileiro. Calma! Estamos falando de ideias, situações. E alguns sabem o time para o qual torço, pois recentemente publiquei um livro sobre isso.

Para dar luz a essas coisas e voz às pessoas, fomos para a faculdade, deixei meu filho pequeno e fiquei várias vezes endividado, sem almoçar nem fazer nada, porque tinha um sonho. Nós mesmos vivemos, no Brasil, a realização da Copa do Mundo. E é muito bonito. Quando fiquei sabendo que a Copa do Mundo seria no Brasil, estava trabalhando na Rádio Globo, o anúncio foi em 2006, 2007. A primeira coisa em que pensei na hora foi: Meu Deus, não posso morrer até lá. Vou fazer exames, procurar um cardiologista, entrar num regime, mas não posso morrer, não posso perder, porque a Copa será aqui, no meu quintal. Quero ver tudo. Quero consumir tudo. É claro que sim. Sonho com isso desde menino.

Na Copa do Mundo de 1982, a rua em que morava, Rua Guaranésia, no Floresta, era toda enfeitada com bandeirinha o tempo inteiro. Você tinha de participar rapidamente do par ou ímpar ou do dois ou um, senão você pegaria a seleção de Camarões ou outra seleção, mas queríamos jogar com a seleção do Brasil, representar aquela brincadeirinha como a seleção do Brasil, da Argentina ou da Alemanha, uma coisa boa. Isso faz parte da nossa cultura, mas, mesmo fazendo parte da nossa cultura, mesmo eu tendo ficado preocupado com a minha saúde, com o fato de que queria estar vivo na Copa do Mundo, não podia me calar diante de algumas coisas. O que era para ser um sonho maravilhoso, algumas vezes foi.

Quem iria dar voz para aquela senhorinha que teve a casa desapropriada porque onde ela morava iria ser construído algo para a Copa do Mundo? Ela teria de gritar na praça pública, teria de buscar um microfone. E é claro que até na queixa daquela senhorinha temos de jogar luz, fuçar e limpar. Algumas coisas não têm contexto, outras têm. É a função: jogar luz, limpar, pegar o produto e trazer para as pessoas, sem paixão de preferência.

No início deste ano descobriram as falcatruas na venda do Neymar. Um jornalista do El Mundo se indispôs com muita gente, porque era a venda de um astro que estava chegando para um clube grande, e acabou descobrindo que aquele astro foi comprado por quase o dobro do valor anunciado. Por meio da sua matéria, acabou provocando prisão de dirigente de clube e queda de presidente de clube. A coisa ficou feia para ele. Mas ele jogou luz, essa é a nossa visão. Ele destrinçou bem o caso. Jogar luz é a nossa função como jornalista, fuçar, limpar e extrair o produto final.

Quero pedir desculpa, porque muitas vezes no futebol brasileiro, eu e a minha classe contribuímos para a formação do imediatismo. Contribuímos para acabar com a carreira de árbitros de futebol, técnicos, zagueiros. Nós rotulamos e acabou. Rotulou, é formador de opinião, vai para a rádio e complicou. Se não pedir desculpas imediatamente, o cara desliga o rádio. Não precisa pedir desculpas, mas, se não tiver em si o conceito arraigado de que sua função não é de executor, vai acabar executando alguém. E isso é desnecessário e injusto. A nossa função não é essa, a nossa função é também trabalhar com coisas subjetivas, como o jogo, como o drible, como o cansaço. Mas é necessário ter respeito. Se não tiver respeito, não valeu a pena aquele tempo todo que ficamos assentados na faculdade, quase achatados. Não valeu de nada, porque era um princípio básico trabalhar com o ser humano, jogar luz, limpar, mas trabalhar com respeito.

Trabalho na rádio CBN, em São Paulo, e lá tem uma pilastra. Temos um colega meio desajeitado, e uma das televisões da redação fica nessa pilastra. Ele já conseguiu quebrá-la duas vezes. Quando entramos na redação, damos de cara com uma frase escrita nessa pilastra: “O jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter.” Essa frase nos machuca muitas vezes. Muitas vezes, eu sei que não fizemos o certo, mas já pedi desculpas anteriormente. Se tiver conceito, costumamos conseguir mudar as coisas. Obrigado.

- No decorrer de seu pronunciamento, procede-se à exibição de slides.