Pronunciamentos

MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES, Economista. Professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Professora associada da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp

Discurso

Comenta o tema "O Estado e a crise do neoliberalismo".
Reunião 37ª reunião ESPECIAL
Legislatura 14ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 26/10/1999
Página 28, Coluna 1
Evento IV Fórum Técnico Políticas Macroeconômicas: Alternativas para o Brasil
Assunto ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. FINANÇAS PÚBLICAS.
Observação Participantes do debate: Marcionília Torres Nunes, Raquel Coimbra Mourthé, Leonardo Rodrigues, Marcela Couto, Geraldo Magela, Newton Figueiredo, Marcelo Pinto Coelho, Gláucia, Felipe Máximo.

37ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª LEGISLATURA, EM 5/10/1999

Palavras da Sra. Maria da Conceição Tavares

Muito obrigado. Não vou começar pela indignação, porque já extrapolei ontem, no lançamento do meu livro. Era um auditório, falei pouco, os meninos perguntaram, fui me indignando e acabei rodando a baiana. Já dei uma coletiva aqui e já rodei de novo a baiana. Já me levanto irada e não consigo dizer mais nada articulado.

Tentarei, para um público tão jovem, dar uma aulinha sobre o mundo e o tema que me pediram, em que o Brasil está, desde que nasceu, há 500 anos, como colônia. Não esteve sempre como colônia.

A dizer a verdade, tenho dois livros, um ensaio curto - e peço ao João e ao pessoal de Minas que façam o favor de xerocar e panfletar o meu artiguinho, porque os meninos não vão pagar um livro desse tamanho, que custa uma fortuna -, que se chama “Império, Território e Dinheiro”, feito de memória e em memória dos 500 anos do Brasil.

Temos de ter claro que o Brasil nasceu como país independente, não como República, o que foi uma exceção para a América Latina hispânica, onde todos nasceram como República. Nascemos como Império. Um império espremido entre dois impérios, o português, em decadência, e o inglês, em ascensão delirante, em 1822.

Dizem os historiógrafos que estão consultando os arquivos que já começamos como um negócio. Porque, na verdade, em troca de mantermos a escravidão e em troca de abrirmos os portos e as portas ao capital inglês, tornamo-nos independentes de Portugal.


Como não houve guerra civil nem guerra da independência, nisso também não somos nada parecidos. Nos constituímos como Estado nacional, como império, numa altura em que as repúblicas dominavam o mundo, mas, à sombra do império decadente, o português, acharam, para a sua ingenuidade, que podiam fazer esse negócio, porque o outro império iria protegê-lo. Como se sabe, o outro império não protegeu Portugal, protegeu D. João VI, protegeu a coroa portuguesa dos espanhóis, nos ajudou na luta com os espanhóis. Digo “nos” porque sou luso-brasileira, então, pertenço aos dois impérios. Gostaria de viver até ver a república, ou nesse longo amanhecer, como diz Furtado, que tarda tanto a ocorrer. Mas estamos chegando ao ano 2000, terminou o ano 500, é capaz de terminarem também os impérios. Vamos ver isso. Pelo menos, vou discutir, não quero fazer fantasias. Isso é uma história complicada, e, apesar de termos entrado dessa maneira submissa, estávamos numa ordem mundial que tinha um domínio absoluto do império inglês sobre as armas, sobre o dinheiro, sobre a revolução industrial, sobre a tecnologia. Essas são as armas dos impérios. Apesar de ser essa a situação em que supostamente éramos apenas condenados à divisão internacional do trabalho e produtores de matérias-primas, era dinâmica a situação, porque produzíamos café, que era o ouro negro de então. Depois, foi o petróleo. Conseguimos nos constituir em uma Nação deste tamanho por duas características: a genialidade do Marquês de Pombal, quando ainda éramos colônia, e o fato de que Minas está no coração. Quando terminou o ouro de Minas, Minas continuou, foi o primeiro lugar onde houve civilização urbana, onde houve uma cultura que, já naquela altura, se podia chamar - como depois se chamou - antropofágica, porque criou um barroco, que é mineiro, não é português, criou uma música barroca que é mineira, não é barroca européia, criou cidadãos políticos que realmente conspiraram contra a coroa e pediram que este território e, por conseqüência, depois o do Brasil se tornassem independentes. Então, vocês, mineiros e mineiras, levem, no coração, a sério o que essa velha está tentando fazer. Não interessa se, de vez em quando, tem ataque ou não tem ataque, não interessa se sou uma velha luso-brasileira, que, de vez em quando, fico com raiva. Não precisa de raiva nenhuma. Só precisa de ética, determinação e raízes. Vocês são da terra onde o território brasileiro começou a virar Brasil. Não foi na cana. É verdade que começou com o “Grande Sertão Veredas”, com o latifúndio e com a escravidão. Vão ter que se ver livres da herança do latifúndio e da escravidão, até hoje não liquidada, a despeito de os homens conservadores de Minas, de boa estirpe, lutarem sempre contra ela. Só que não ganharam. As elites, mesmo quando são boas - e Minas teve várias boas -, conservadoras e não conservadoras, não são suficientes. Tivemos o império, tivemos e ainda temos um território enorme e nunca tivemos dinheiro que fosse verdadeiramente um dinheiro brasileiro. O nosso dinheiro sempre esteve submetido ou ao padrão libra, ou ao padrão dólar, e sempre fomos um país endividado. Houve uma única exceção - que não foi por acaso -, uma situação de ruptura da liderança internacional e de guerra, na qual, simplesmente, mandamos os banqueiros ingleses “pastar”, mas, depois, fomos pedir apoio aos americanos, em 1939. E, assim, substituímos os credores ingleses pelos americanos.

Como não nos deram nem um tostão até no muito avançado da década de 50, 60, ficamos liberados e, por isso, conseguimos fazer, uma única vez, que durou 30 anos, o Projeto Nacional Desenvolvimentista, que era nacional e desenvolvimentista, independentemente de a burguesia ser ou não associada a quem quer que fosse. O problema é que todas as vezes que se tentou paradoxalmente avançar, de uma maneira mais universal, tanto no nacional quanto no popular, os regimes foram autoritários.

Então, já está claro o desafio. Os senhores têm esse desafio pela frente: que o nacional ou popular e democrático, pela primeira vez na história do Brasil, fiquem juntos. Essa é a tarefa de vocês. Esse é o fim da aula. Agora, vamos ao começo.

O começo é o seguinte: Estado e neoliberalismo. A pergunta que rola na cabeça de todos os intelectuais do mundo é: os Estados nacionais vão acabar, com a globalização, com a grande potência unipolar que quer comandar o mundo? Os Estados nacionais surgiram junto com o capitalismo. Se os Estados nacionais acabarem, o capitalismo vai acabar também.

Essa não é apenas a profecia de Marx. Essa é também a análise de Weber. Qualquer grande cientista social que pensou a economia mundial, o mercado, o capitalismo, a mercadoria, os direitos, etc., sabe que, no dia em que acabarem os Estados nacionais, também acaba o capitalismo, porque surgiram juntos. E surgiram juntos justamente como forma de regular a concorrência. A concorrência, a violência e a propriedade apareceram a partir de territórios dados. Qual é o problema do capitalismo? Ele não gosta de limites territoriais; desde que nasceu, tem a mania de se expandir mundialmente.

O capitalismo existe há praticamente 500 anos, se considerarmos o capitalismo mercantil como sua origem, mas só houve dois períodos de hegemonia clara do capitalismo financeiro, do império, de um padrão monetário, das armas: um é a “pax” britânica, que correspondeu ao Império Britânico, que se estendeu pelo mundo inteiro, como a Rainha Vitória tinha orgulho de dizer: “Império onde o sol nunca se põe”. Naturalmente, foi esbarrar no Japão, tendo colonizado a China e a Índia, duas antigas civilizações milenares, e as reduzido a pó.

Ali não fizeram capitalismo a convite, mas neocolonialismo, enquanto no Brasil permitiram que fizéssemos capitalismo a convite: “Vá via capitalismo, que ajudo”. E mandaram para cá investimentos; e financiaram ferrovias; e tomaram as ferrovias do Barão de Mauá quando este faliu; e tomaram as empresas do Barão de Mauá, e todos esses fatos da história do Brasil que - espero - os meninos, agora, podem aproveitar e ler, mesmo que seja na versão jornalística que está em moda.

Quinhentos anos servem para alguma coisa. Aprendam a história deste País, sem a qual não haverá país nenhum, porque ninguém começa país pela cabeça, começa pelo território e pela história. Então, entendamos como isso surgiu.

Surgiu assim: esse império mundial, que também não ia terminar, e tanto não ia terminar que foi feita uma ode à “pax” mundial - que não era a “pax” britânica, naturalmente, mas era -, pela qual, tendo o império chegado ao auge, não haveria mais guerras, a paz seria universal. A cultura do império inglês, suas instituições de mercado, a sua tecnologia, os seus hábitos, a sua aristocracia “meritocrática”, a sua burocracia nas colônias, na Índia, na África, no Brasil e em outros lugares, governariam o mundo com muita diplomacia e sapiência. Como todos sabem, essa gracinha terminou em duas guerras mundiais, além das guerras contínuas contidas por eles. O século XX é muito duro.

Não contentes em haver dominado o mundo, ganharam a Guerra de 1914, com o apoio da sua ex-colônia, os Estados Unidos, que, naturalmente, não tinha aplicado a doutrina do liberalismo, ou seja, a doutrina do hegemônico, porque os impérios hegemônicos querem que o mundo fique sem fronteiras, aberto, que não haja Estado nacional, que todos aceitem que o mercado deve regular o Estado, e não o contrário, que o Estado se deve submeter, deve abrir, e que algumas burocracias devem cuidar da polícia, da ordem e da propriedade. Essa é a doutrina liberal em sua essência. Ela volta sempre. Fica subterrânea, mas volta. Mas como esse sistema, que deveria ser auto-regulado pelo mercado, e o Estado apenas garantiria a paz, não funciona, termina sempre estourando. Quando estoura, é uma desgraça.

O primeiro império mundial, que foi o inglês, custou uma guerra mundial, uma depressão, porque os americanos não conseguiam pegar imediatamente o “facho”, é claro; nem estabelecer um padrão monetário diferente do padrão libra, que voltou todo precário; não conseguiram segurar a peteca da dívida alemã; não conseguiram segurar a Europa. Enfim, foi um caos. O Presidente Wilson, dos Estados Unidos, que inventou a Liga das Nações - que foi de pouca duração -, desenhou a bico de pena os Balcãs. Kosovo é produto dos americanos, desde o início. Quem desenhou os Balcãs a bico de pena foi o Presidente Wilson. Quem resolveu intervir com uma missão pacificadora, em que se matou a população civil, e não morreu um soldado, foi o Presidente Clinton. Como podem ver, do começo ao fim, aqueles infelizes dos Balcãs devem muito à existência de três impérios, o otomano, o russo e o inglês. Já basta. Já é desgraça bastante estar no canto de três impérios, que já morreram, mas ficaram os resíduos. Imaginem quando um império novo, inexperiente, como era o império americano, ainda em formação - porque só agora virou império para valer -, desanda a desenhar a bico de pena quais são as nações. Deu a desgraça que está ali. Ninguém nunca deu licença àqueles povos para dizerem a qual nação pertenciam. Aquilo é uma desgraça, pior do que o povo polonês, que ficou a vida inteira entre dois impérios, sempre varrido de um lado para outro, não sabendo qual era o seu território. É um povo que não sabe quais são as suas fronteiras. Essa desgraça não temos. Devemos à sabedoria portuguesa mercantil, porque é o primeiro império, não é o quinto, é o primeiro.

Como era o primeiro império, era mais na base do negócio, muitas trocas para cá, um pouco de escravidão para lá. Não traziam mulheres, casavam-se com as negras mesmo. Enfim, era aquela coisa portuguesa, tudo acontecia debaixo dos panos. Vocês sabem que mineiro tem muito de português, tem muita dívida, aquela malandragem mineira. A ira mineira também é muito portuguesa. Embora não pareça, os portugueses ficam irados de vez em quando.

O que fizemos aqui não foi brincadeira. Nós temos o território unificado desde o Tratado de Madri de 1750, na prática. O Barão do Rio Branco apenas fez o finalzinho. E ninguém nunca atacou as nossas fronteiras, salvo naquela guerrinha do Paraguai, mas nunca se soube quem começou aquela brincadeira. Não tivemos guerra civil e não tivemos guerra mundial. Ninguém nunca bombardeou populações em fuga, que não sabem onde é a sua casa. Isso é uma sorte, porque aqueles que acham que guerra é uma boa maneira de virar potência não têm idéia de quanto custa uma guerra. Perguntem para os alemães a beleza que é virar potência. Perguntem para os japoneses - o império onde o sol nasceu e não se pôs sob o império britânico - a gracinha que é ser um império periodicamente derrotado e com a bomba de Hiroshima nos cornos, com perdão da palavra, que matou e deformou milhares de japoneses. Vão lá para verem o Monumento de Hiroshima. Ah, mas os japoneses já esqueceram! É, quando esquecem começam a fazer besteiras, como, por exemplo, achar que os Estados Unidos eram aliados deles. Mas, como não são, tomaram uma trombada para não se meterem a ser.

Os chineses não costumam achar que ninguém é mais aliado deles porque a experiência do Império Britânico foi brutal. Agora, se eles acharem - parece-me que não acham, também ninguém é idiota ali na China - que a aliança com os americanos para segurar a Rússia e o Japão é para valer, estarão fritos. Amoldam-se devagarinho e se, de reforma em reforma, aderirem ao neoliberalismo, a China acaba. E se a China acabar, será uma desgraça monumental, porque é o maior país do mundo em população. Não é provável.

Em todo o caso, diria que o desastre hindu, o desastre da China do século XIX, de onde supostamente o império inglês não iria retirar mais as patas, para onde a rainha teve a coragem de mandar o seu representante quando Hong Kong finalmente virou chinês e ainda achava que mandava, é uma coisa inusitada - não a rainha, o governo inglês, porque a coitada não manda mais nada, nessa altura é só representação -, demorou um século, mas eles saíram daquela situação colonial, com a Guerra de ópio.

Conseguimos fazer duas vezes o desenvolvimento nacional autônomo, só que autoritário: o do Estado Novo de Vargas e o do Geisel - em dois períodos de ruptura de hegemonia. Na década de 70, os Estados Unidos eram considerados “urbe et orbi” depois da ruptura do padrão dólar como um império em decadência, como uma hegemonia em decadência, desafiados pelos alemães, pelos japoneses, etc., “tutti quanti”. Era um equívoco. Eu só percebi o equívoco em 1984. Fui a primeira cientista social latino-americana - participei de vários congressos mundiais - a perceber isso. Escrevi um artigo que se chamava “Retomada da Hegemonia Americana”. Percebi que não era uma retomada de hegemonia qualquer, era a retomada de uma hegemonia com desejo imperial e que ia levar o Japão e a Rússia a ficar de joelhos. É claro que nunca esperei que as elites russas fossem tão vagabundas, que, sem disparar um tiro, a diplomacia americana acabasse com o império russo, que levou mil anos para se construir.

Não creio que Antônio Carlos Magalhães faça uma coisa dessas, mandar no nosso império como tem feito nos últimos 30 anos. Disfarçadamente, é o Vice-Rei do Brasil e, da Bahia, é o rei propriamente dito. Não creio que fizesse essa barbaridade. Dizer que as nossas elites são vagabundas, não, vagabundas não, são malvadas, muito exploradoras e predatórias, não gostam do povo. Quando começam a falar do povo e da pobreza, minhas orelhas ficam “desse tamanho”, e penso: lá vem embromação, que é periódico, também, nelas. Quando a coisa fica preta, fica populista subitamente, mas, vagabundas, no sentido russo, de jeito nenhum. Vagabundas são elas. O homem da estrelinha, que embasbacou; aqueles sete economistas débeis mentais que seguiram a doutrina do Fundo Monetário ao pé da letra, que deixam o Dr. Malan parecendo um jegue heterodoxo, e Deus sabe que de heterodoxo não tem mais nada, apesar de ter sido na juventude. A gente tem de se comparar com o mundo porque, se não, a nossa auto-estima vai para o chão. E o povo que tem a auto-estima no chão não consegue reagir. Primeiro: pertencemos aos países-baleias, aos países-mamutes, aos países-elefantes, e só existem cinco: os Estados Unidos, a Rússia, que mesmo não sendo império, é gigantesca, a China, a Índia e nós. Acabou. Está claro? Por mais que um País, deste tamanho, a menos que nos desmembrem o território e que rompam o pacto federativo a ponto de arrebentar tudo, o que não é provável porque temos tradição dura de negociar, não é provável que invadam Minas, não é provável que invadam o Rio Grande do Sul. Provável, não é; e, se ocorrer, é porque Deus realmente não é brasileiro, embora, em princípio, achemos que é. Como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, porque sempre correspondem, onde tem Deus, tem também o Diabo, é evidente. Nossas elites têm essas coisas: são conservadoras, elites territoriais. Então, temos o privilégio de nunca ter feito reforma agrária. Um País, da civilização ocidental, que nunca fez reforma agrária, quando todos, inclusive os orientais, fizeram reforma agrária. Até a pobre da Bolívia fez. Até o pobre do México. E nós, não. Por quê? Porque o território é um instrumento de poder. As nossas elites políticas são de duas naturezas: umas são aliadas do império, essas são cosmopolitas, neoliberais, blá-blá-blá, o mercado, os Bancos, a finança, o orçamento, a estabilidade, tudo conversa para boi dormir, porque são os primeiros a “instabilizar”. Eles é que “instabilizam”, porque são os que levam 100 bilhões de juros, são os que predam o Estado e são os responsáveis pelo déficit. Não é o povo brasileiro porque, que eu saiba, não tem acesso a déficit algum. Não tem nada, não tem saúde, não tem educação; então, que déficit tem? Quer dizer que o culpado pelo déficit é o povo brasileiro ou são os “funças”. Os “funças” são culpados pelo déficit. Em matéria de cinismo, isto sim, as nossas são as mais cínicas elites do mundo, porque os americanos são mais “out spoken”, mais brutos, são capazes de levar seu aparvalhado lacaio a declarar que não invistam em Minas. Mas trata-se de um aparvalhado lacaio, quer dizer, o sujeito não é propriamente da elite, é um serviçal. Não posso considerar o atual Presidente do Banco Central um representante da elite. Ele é um serviçal. Não conseguirão que o Presidente Fernando Henrique ou o Ministro Malan digam essas coisas. Não dirão porque são elite, a despeito de serem uma elite subordinada, uma elite que se submeteu ao império, partindo da hipótese de que a globalização era inarredável, de que o império está muito forte e que, portanto, não há salvação. Isso se chama covardia das elites cosmopolitas ilustradas. Então, temos elites cosmopolitas ilustradas, sempre associadas ao império, que, como Furtado disse, não é nem a tecnológica, nem a financeira, que já são tramadas, é a cultural.

E as nossas elites ilustradas tendem a ser colonizadas mentais. Não tem jeito! Primeiro era de Paris, Departamento Francês de Ultramar, ou de Londres, e agora está na moda, Boston, Washington. Danou-se. Passam mais tempo lá do que cá, e, então, efetivamente, devem pensar em inglês, não pensam mais em português. Aí fica difícil. O sujeito começa a mudar a linguagem, a estrutura mental vai para o espaço, e, como todo o mundo que entende alguma coisa de direito da linguagem sabe, não se pode mudar a língua assim porque não dá muito certo. Dá nisso. Mas isso são as elites cosmopolistas associadas ao negócio do dinheiro, ao negócio do comércio internacional, ao negócio da dívida. As elites, que são as elites negociadoras da geoeconomia brasileira, essas traíram o País sistematicamente. Não importa a origem deles. Podem ter sido comunistas na juventude, socialistas, democrata-cristãos, homens honrados, não é disso que se trata, não estou dizendo que batem a carteira de ninguém, e isso deixam para as elites territoriais menores, deixam lá para a malta da Amazônia, do Pará, do Centro-Oeste, algumas do interior de Minas, do Rio de Janeiro, mas não propriamente para a elite cosmopolita, que não está aí para bater a carteira, está aí para permitir que os seus senhores culturais, ideológicos e políticos vendam o País. É claro que a extensão do que está ocorrendo agora não tem precedentes. E isso por uma razão muito simples. Nunca, como agora, o núcleo orgânico dos Estados capitalistas esteve tão submetido. Se olharem a história, a partir de 1860, quando terminou a guerra civil dos Estados Unidos, quando a Rússia terminou a servidão, quando o Japão fez a sua primeira revolução interna e saiu do feudalismo extremo, isto é, quando as duas potências mais atrasadas do ponto de vista agrário, que eram a Rússia e o Japão, saíram do feudalismo, já eram potências. Pois bem, desde então, o sistema de Estado, que constitui o coração do sistema, é o mesmo. Não há nenhuma potência, depois de 1914. Entre 1860 e 1914, com a hegemonia britânica a mil, com a Rainha Vitória no auge, ela já não estava sozinha. Já tinha como sócios auxiliares, nas regras de hierarquia mundial, os Estados Unidos e o Japão, como últimos entrantes, e as velhas potências européias, da guerra civil européia, vale dizer, a França, a Alemanha e a Rússia. E a Inglaterra, a França, a Alemanha, os Estados Unidos e o Japão estão aí como sócios dessa pândega mundial, dessa hierarquia do poder das relações internacionais, há muitos anos. Portanto, olhem a diferença. E é por isso que está tão perigoso agora. Quando a Rainha Vitória estava no auge do Império, quando Kipling fazia seus versos e ia recitá-los na Índia, quando o pessoal achava que a aristocracia britânica dava o sangue pela sua pátria e quando servir o império era uma honra, já havia cinco países-potências disputando a organização dos espaços econômicos além do seu território.

Imediatamente quando os Estados Unidos começaram a guerra civil, começaram a comprar o resto dos territórios que faltavam. Compraram parte do México, a Luisiânia. Os Estados Unidos não são um território que nasceu unido e com a mesma língua como o nosso, era uma confederação. Ademais, com a guerra civil, monstruosa, compraram da França a Luisiânia e um pedaço do México, depois expulsaram na “porrada” os pobres mexicanos do Texas, da Califórnia, e, se bobearmos, tomam a nova União. Porque, se há país que deve chorar no continente, é o México. Como dizem: “Tan ecos de Diós y tan cerca de los Estados Unidos”. É uma desgraça total. Trata-se de um povo heróico que, a cada 100 anos, se levanta, a cada 50 anos, faz uma revolução e depõe um governo pelas armas para começar tudo de novo. Aquilo é uma desgraça ou não? Como diz o outro, “é uma solidão, é um labirinto da solidão”.

Aqui é diferente: a gente briga com o outro e depois dá beijinho. Eu bato no Senador Antônio Carlos Magalhães, e ele me cumprimenta e diz que fiz um discurso bonito. Assim não dá. É outra coisa. Só não estou conseguindo cumprimentar o Presidente, mas é de propósito, porque não sabemos o que fazer ao olhar um a cara do outro. Já disse tanta coisa dele que vai ser desagradável olhá-lo. Mas com o Antônio Carlos fica por isso mesmo, entra por um ouvido e sai pelo outro. Ele sabe que sou uma intelectual crítica, uma velha senhora. Ele tem mais coisas na vida para fazer além de brigar com a Sra. Conceição Tavares - assim como eu com ele, porque não sou maluca.

Xingar pode, mas brigar não é conveniente. Só vou brigar quando ganharmos. Aí a gente acaba não brigando, porque já estamos um pouco velhinhos. Então, ocorre a morte do filho de um parlamentar: que desgraça foi a morte do seu filho! Aí, vamos chorar juntos. A gente chora no enterro, juntos. O que é bom: o nosso sentimentalismo português ajuda de vez em quando e impede que coloquemos uma faca nos dentes e a enfiemos no coração do adversário, que - diga-se - também não é muito civilizado.

A gente usava capitão-do-mato para matar escravo, trabalhador, o povo. Cavalheiro não se mata um ao outro. Insulta-se e depois se pedem desculpas, naturalmente. Faz parte das regras civilizatórias, luso-anglo-saxônicas, que herdamos de nossos ancestrais. Eu, sendo descendente da Padroeira de Aljubarrota, sou um pouco mais mal-educada, ao que estou autorizada por ser mulher e portuguesa de origem. Isso me tem impedido de levar boas pancadas na cara. O que é bom, porque abuso da minha condição feminina. Sou velha e acho que tenho todo o direito. Estou cansada, porque, se vocês estão cansados dessas elites, imaginem eu que já os agüento há 45 anos! Fui colega, aluna ou professora deles todos. É um inferno ou não? O João Heraldo é um dos meus ex-alunos e é dos bons. Há cada ex-aluno que tenho! Professor é uma tragédia.

O coração do sistema de Estado - o famoso G-7 -, nunca passou de sete. Um pequeno detalhe: acabaram de colocar para fora um, a Rússia. Colocaram-na para fora, mas, como são mentirosos, colocaram para dentro. Agora, ao invés de G-7, temos o G-8. Não é fantástico? Quer dizer, ela não pertencia à Organização Econômica de Desenvolvimento porque esta era do Ocidente. Eles eram o sistema imperial adversário. Foram derrotados numa “nice” pela diplomacia, pelo jogo das armas em que não foi disparado um tiro, na famosa “guerra nas estrelas”.

Quer dizer, quando o sistema americano de cultura dominou inclusive as elites russas, que são muito embasbacadas - à época de Napoleão, os Generais russos falavam francês e babavam de admiração por ele... Se não fosse o pobre do Kutuzov, de “Guerra e Paz”, aquele camponês que foi recuando, recuando, recuando, Napoleão tinha tomado a Rússia! Aí, tomou, foi até Moscou, gelou, voltou e morreu de infarto. Isto é, morreu derrotado pelos ingleses, numa boa, como convém ao império dominante. (...) Dessa vez ninguém teve de tomar nada: foram derrotados culturalmente, ideologicamente, diplomaticamente, sem que se disparasse um tiro, e aceitaram, como ninguém, as regras do mercado - em um país que não tinha mercado! Não é fantástico? Não havia mercado algum; então, implantaram-se as regras. Só que não havia regras! Não havia o sistema de propriedade privada, não havia juiz, não havia lei, não havia banco central, não havia nada. Como, diabos, o mercado funciona se não estiver embebido nas instituições jurídicas, bancárias, etc? É possível uma coisa dessas? Alguém já viu mercado em contrato? E lá não tinha contrato! Sem leis? Sem uma escola de direito privado, que diga como se faz um contrato? Sem um banco central, que diga qual é a taxa de juros? Sem bancos privados? Não havia nada! Era tudo por encomenda do Estado. De repente, em três anos, viraram um mercado. É claro que, ao invés de virar mercado, viraram uma sociedade de celerados. Porque isto é, hoje, universalmente conhecido: quem são os donos das coisas senão bandidos, ex-burocratas, as máfias italiana, japonesa, russa... É uma confusão medonha. O Presidente deve estar bêbado e, além de estar bêbado, tem um irmão que é dono da droga. É uma confusão para ninguém botar defeito! A tal ponto que, ao olharmos para aquilo, dizemos: puxa, como é bom ser brasileiro. Evidentemente. Continuamos tendo um Presidente de luxo, do ponto de vista internacional. Se todo o sistema de Estados abaixa a cabeça para os Estados Unidos, o nosso, pelo menos, o faz com elegância, não é verdade? Isso já é bom. É claro que não prevíamos um Presidente do Banco Central desses, mas a crise nos impôs essa coisa que aí está. Bom, isso, realmente, já é o começo da nossa compostura luso-britânica. Aí, não está bom; já não está legal; as coisas já estão começando a piorar.

Bem, de 1860 a 1914, tem-se um sistema totalmente organizado pelo padrão libra-ouro, pela armada inglesa, pelas companhias do (...) públicas inglesas, pela praça financeira de Londres - regulando os mercados de capitais, enlouquecidos, como sempre, mas regulando-os -, que dominavam o comércio mundial, as finanças, as armas, etc. Mas, apesar disso, o sistema arrebenta, e surge um sistema de potências nacionais que disputam o poder entre si. Aí, obviamente, as regras começaram a se complicar.

Para quem acha que vai haver regras universais de regulação mundial enquanto houver capitalismo, vou ler o aforismo do List, da economia nacional alemã, que explicou que éramos todos iguais, mas nem todos tão iguais: “As regras válidas para as grandes potências não são válidas para os Estados pouco dotados de vocação para exercer o poder mundial”. Leia-se: todos, menos eles. E diz ainda: “Quero que a Inglaterra respeite o padrão monetário alemão; não estou disposto a deixar que a moeda alemã se submeta à libra. Se querem brigar, vamos brigar ‘là-bas’, por exemplo, no Brasil”. Ele diz textualmente: “por exemplo, no Brasil”. E, como devem-se lembrar, aqui brigaram. Só que perderam várias vezes: perderam para os ingleses, perderam para os americanos... A cada vez que os povos alemães se metem a sebo aqui - e se metem a sebo periodicamente, por causa da antiga colonização alemã -, levam uma porrada, sempre que há uma crise mundial, porque alguém encampa e, depois, distribui. O Vargas os encampou e distribuiu para os paulistas e para os mineiros. Várias casas inglesas foram dadas para os mineiros, em compensação pela ajuda que uma ilustre figura mineira da oligarquia deu ao Vargas para romper o pacto com São Paulo.

Essa também é a história de Minas, convém lembrar. É um dos famosos, a família está toda viva. Não vou citar o nome porque é muito desagradável, até porque foi uma figura importante na cultura, no patrimônio histórico, enfim, é uma das ilustres figuras de Minas, que fez um negócio com Vargas e rompeu com São Paulo. São Paulo ficou sozinho contra Minas, Rio Grande do Sul e o Nordeste: lá se foi o pacto hegemônico de Governadores às favas.

Hegemonia, lá fora, tem como contrapartida liberal: aqui dentro, aqui está. Qual é o Estado que é aqui dentro hegemônico, como contrapartida do liberalismo internacional? São Paulo, claro. Eu adoro os paulistas, mas também, paciência, “aquilo” é um povo infeliz. Inventaram de ser hegemônicos, cresceram na acumulação de capital no café, e aí ocorre a migração; cresce a acumulação na indústria, resultado: migração. Em resumo, são hegemônicos. Quem é propriamente paulista? Não sabemos, não é verdade? Porque tem italianos, turcos, japoneses, nordestinos, tem de procurar a dedo quem é o tal paulista de 400 anos que sobrou. O Delfim Netto não é, o Serra não é, o Fernando Henrique nasceu no Rio de Janeiro, que era, como vocês lembram, a Capital da República. Onde, aliás, os mineiros faziam política. O Espírito Santo era para ir à praia, mas política era no Rio de Janeiro. Essa era a diferença.

Quem governou sabiamente, com o único Governo democrático nacional-desenvolvimentista, foi Juscelino Kubitschek. Então, vejam se vocês inventam outro, porque já está bem na hora. Eu quero o meu, que é nordestino, morando em São Paulo, mas vocês queiram lá o que quiserem, não tenho nada a ver com isso. Eu quero o meu “proleta”, porque quero um governo popular. Nem todo mundo aqui está obrigado a querer um governo popular, pode querer outra vez um governo da elite e vai se “ferrar” de novo, porque são todos muito bonzinhos, mas não costumam fazer nada pelo povo. Nesse particular, nem o Juscelino fez.


O Juscelino deixou empacada no Congresso, onde tinha a maioria, a reforma agrária. Ele fez a reforma agrária? Não. Então, está com a oligarquia. Fez o quê? O desenvolvimento, fez Brasília, construiu o País, integrou o mercado nacional. Fez deste um país industrial, fez uma política externa independente. Então é um grande Presidente, um estadista. Como Vargas também é um estadista, mas o Vargas ainda deu uma legislação trabalhista, embora na ditadura, cuidou de algumas coisas. Juscelino não fez nada em matéria social. A Previdência não se deve a ele; a saúde pública - ele era médico - não se deve a ele, está claro; a educação não se deve a ele, e ele era filho de professora. O sistema público de direitos universais, sociais, o tal estado do bem-estar conquistado com a guerra mundial, porque foi no pós-guerra que virou universal a idéia dos direitos sociais. Aliás, a idéia dos direitos civis e políticos surgiu no pós-guerra. Antes da Segunda Guerra as mulheres não tinham direito a voto.

O meu problema é que eu era muito menina quando peguei a Guerra Civil da Espanha, o fascismo, a guerra mundial, o horror do nazismo, o holocausto e a bomba de Hiroshima. Mas, quando eu tinha 15 anos, isso terminou, e eu peguei 30 anos em que o mundo estava bem, quem não estava bem era Portugal. Como não estava bem, mudei-me para cá. Cheguei e Getúlio se matou logo em seguida. Eu pensei: “Rapaz, errei, o Brasil é um imenso Portugal, descobri isso antes do Chico Buarque. E ainda é”.

Agora é luso-americano, mas o “americanaiado”, porque o americano que é bom, dos direitos, das instituições, isso ainda não temos. E não é que não temos, porque derrubamos uma ditadura e fizemos um pacto constitucional que é um brilho. A Constituição de 1988 é um brilho. Estava hoje falando isso com a Sandra Starling: o sistema judiciário, o sistema jurídico, todos os direitos são belíssimos, os sociais inclusive; há fonte de receita, tem tudo. Sabe o que não conseguimos resolver naquela constituinte? Eu vi porque o Covas era o líder do meu partido, o PMDB: a reforma agrária saiu pior do que o Estatuto da Terra e o dos Militares, a coisa da Previdência saiu melhor, mas o sistema bancário ficou por regular, até hoje. Hoje já não precisa regular nada, porque o Fernando Henrique Cardoso mandou desregular tudo, está vendendo tudo. Não sobrarão senão dois Bancos. Minas não tem Banco nenhum. Qual Banco vocês tem? Nenhum. Exatamente. A última gracinha devo ao Joãozinho Heraldo, meu brilhante aluno, então marxista, enquanto aluno - um chato de galocha. Porque briguei com todos os marxistas de Minas, mas todos ficaram firmes, menos o Joãozinho Heraldo, que deu no que deu, aquela coisa. Pois é, vendeu, mal e porcamente, ainda por cima. Isso é que chateia - vender mal. Ora, para um Estado cujo capital bancário é originário deste Estado, nem a reforma agrária sai - um pouco por culpa das elites de Minas, não só, mas também as de São Paulo, as do Nordeste e do Sul. Então, não saiu. Banco que é bom, também não saiu a regulação. E a reforma tributária que é boa, o que deu o bode? A pactuação federativa não servia à Federação. Por quê? Porque não havia nenhum acordo entre o Nordeste, São Paulo, Minas Gerais e o Sul. E continua não havendo nenhum acordo. Quer dizer, apesar de termos como cláusula pétrea que a Federação é inviolável, violamos a Federação todos os dias. Nós, vírgula, eles, porque não violo nada, evidentemente. Respeito todas as unidades. Então, esse é um problema que ficou pendente.

Ficaram pendentes: a Federação, que está como sabem; a reforma tributária, que não vai a lugar algum, pelo suposto; a reforma bancária, que não só não vai a lugar nenhum, como não sobrará nenhum Banco para reformar daqui a pouco; e a questão da terra, que é a reforma agrária. Está claro?

Acham que um país candidato a Nação, não a potência, não tem que resolver a sua agenda agrária, agenda bancária, agenda tributária? Mas como não tem? Pois, se não tem um sistema tributário justo, e ainda por cima não reparte legal para os Estados e municípios, a União inventa impostos a toda hora e arrecada para ela, para quê? Para pagar juros aos banqueiros internacionais e nacionais - mas de nacional não têm mais nada. O sistema bancário e de crédito foi à falência. O público e o privado foram vendidos aos estrangeiros, e vamos virar uma nação? Mas como assim? Para termos uma Nação, precisamos de território, povo, língua comum. Isso temos. Isso é o começo de uma Nação. Isso é o fundamento que me dá ânimo. Falamos português, embora alguns falam em inglês - mas isso é problema deles; aliás, a elite tem o direito de falar muitas línguas, também falo várias. Sou contra a elite, mas sou da elite. Ou sou povo, por acaso? Sou povo nada. Aqui não tem povo nenhum. Ou tem? Aqui só tem classe média, só tem universitários, portanto somos elite. Sou contra elite, espero que vocês também. No nosso caso, essa é a nossa luta interna.

Mesmo quando fui Deputada e era representante do povo, tirando uma meia dúzia de estivadores do cais do porto, meia dúzia de prostitutas, meia dúzia de garçons, manicures, etc, que votaram em mim, e votaram porque se identificavam com a minha fúria, o resto foi a classe média que votou em mim, é claro. Havia de ser quem? O povo? O povo, como digo, são os chamados marginais críticos sociais. Olha quem mencionei - estivadores do cais do porto, prostitutas, garçons, choferes de táxi -, aqueles que sabem como estão inseridos na sociedade, do que se trata. Não foi o povo pobre das favelas que votou em mim. Nem sabem da minha existência. É óbvio que, quando assistem televisão, vêem o Ratinho, ou coisa parecida. Não vão escutar Maria da Conceição Tavares falar de economia. Por mais que seja tão divertida, não chego a ser tão divertida quanto o Ratinho, a Tiazinha ou coisa parecida.

Portanto, os sistemas imperais não duram. A “pax” britânica durou l00 anos. A “pax” americana começou em 1947, 1948, e estamos quase em 2000. Ela está com cerca de 50 anos. No meu ponto de vista, não chega aos 100. O que significa que vocês, que são jovens, vão ver o fim da “pax” americana. Quem não vai ver sou eu, que, aliás, sendo do primeiro império, originário, estou sempre semicolonial, onde quer que esteja. Antes era semicolonial da Inglaterra, porque estava lá; depois, passei a ser semicolonial dos Estados Unidos; é o meu destino. Mas tenho lutado onde posso, no Chile, na América Latina inteira, pela nossa autonomia e pela nossa liberdade. Está de pé, até prova em contrário, o sonho de Bolívar. De boas bênçãos, o pobre do Venezuelano, que ganhou, depois, uma tentativa frustrada e desagradável. E o golpe ganhou livremente. Acabaram com o Estado venezuelano. E ele ganhou.


Gostaria que virássemos antes de acabar de vez com o Estado brasileiro. É muito chato acabar com o Estado, porque, depois, para refazer, dá um trabalho danado.

O que tenho para agregar a vocês: dos países periféricos, não somos tigres, porque não fomos convidados a participar do progresso tecnológico, porque não estávamos na fronteira do império inimigo. Os senhores não se iludam com o milagre alemão, o milagre japonês, o milagre coreano, não sei quantos milagres. Eles estavam na fronteira dos impérios inimigos: do império russo, do império chinês. Agora que já não estão na fronteira, o tratamento muda. Só que a Alemanha é uma potência desde o século XIX. Com a Alemanha, os americanos conseguiram fazer algo que é típico da “pax” americana e não é da “pax” britânica. Os ex-derrotados da guerra, os sócios econômicos da tríade não têm armas. A Alemanha e o Japão não podem brigar com os Estados Unidos. São as duas grandes potências tecnológicas que se equiparam aos Estados Unidos. Não podem brigar, não têm armas. Mas a Itália tem. E pode fazer o quê? Nada, digo eu. Temos umas “arminhas”. Para fazer o quê? Não sei muito bem.

O poder militar americano é, desta vez, ao contrário das outras, incontrastável. Mas também não estão falidos. Não financiam guerra nenhuma. Até a Guerra do Golfo, que foi uma guerra eletrônica, quem pagou a conta foram os japoneses. Aí, é uma chatice, quer dizer, os japoneses não podem se armar, porque naquele território quem manda são os americanos, do ponto de vista militar diplomático. Então, ali precisa ser cabeça-de-ponte, porque botaram a China para virar tigre. Se a China, aquele mamute, resolveu virar tigre - e não de papel -, porque não tem muita vocação para isso, é mais para dragão, se, em vez de dragão, virar tigre, vai ser uma chatice monumental. Então, não podem se armar, salvo por delegação americana.

A Rússia tem armas nucleares, sim, que vende no contrabando. As armas atômicas russas foram vendidas para o mundo inteiro. Para o Paquistão, a Índia, a China. Só não compramos, porque temos um pacto de não-armamento nuclear. Não somos candidatos a potência, portanto, se sairmos dessa enrascada, não vai ser como no Estado Novo, de Vargas, ou como no de Geisel, pelo enfrentamento que pega uma brecha dos impérios, pega uma brecha de mudança de guarda. Diz assim: “Com licença, sou candidato a potência regional, não me encham, vou fazer o que quiser. Mando com autoritarismo o que for necessário, vou botar essa coisa para funcionar”. Não pode ser.

Os nossos militares estão tão danados quanto eu. Tenho falado também nas escolas de guerra. Estão danados por causa da Amazônia, porque, aí, sim, estão nos comendo. Já nos levaram 1 dos 14 subsistemas amazônicos, 1 e 1/2 já levaram. Aí, é demais. Ou não? O Calha Norte não anda. O sistema do SIVAN foi uma roubalheira. E eles entregaram. Querem converter o Exército em polícia da droga. Imaginem o Exército brasileiro convertido em polícia da droga, como aconteceu com o da Colômbia. Põe-se o Exército a combater a droga, corrompe-se o Exército, acaba-se com ele. Aí, sim, vira uma pândega, pois, se metade da polícia já está corrompida, só nos faltava agora corromper as Forças Armadas. É melhor meter uma bala na cabeça de uma vez, porque não há possibilidade de não ter Forças Armadas. É outra conversa.

As Forças Armadas são inúteis, porque agora é a paz mundial. Qual paz mundial? Não vejo paz mundial alguma. Há 15 guerras em Kosovo, todas locais. É uma maluquice esse troço, mas não é essa a questão. A questão é o estatuto legal democrático das Forças Armadas.

O nosso problema - e acho que hoje eles têm consciência - é que deram um golpe, não resolveram a reforma agrária que estava no Estatuto da Terra, do Castelo Branco, não deram educação de base e acabaram sendo janízaros dos milionários paulistas. Aí, também, é uma chatice, ou não? E de todos os “piranhas” locais. Vocês também não acharam graça. Mas o Geisel conduziu com mão de ferro as negociações com os Estados Unidos, rompeu o pacto militar, mandou para Angola, mandou Embaixadores para a China, negociou com o Japão e com a Alemanha. Não foi uma vez aos Estados Unidos. Foi ao Japão, à Alemanha, mandava a diplomacia mais pesada para as áreas de tensão e achou, porque o Golbery também achava, e todo o mundo achava, em 1970, que os Estados Unidos estavam decadentes, porque tinham perdido a Guerra do Vietnã, porque, se derrotado na Ásia inteira, e, na verdade, o dólar estava desvalorizando-se e já não era a moeda mundial. Estava disputando com o iene e com o marco.

Logo nós repetindo Vargas, que pegava o triângulo das grandes potências, no Sul, no ABC, na Argentina, no Brasil e no Chile, sonho de Vargas, somos, no MERCOSUL, uma potência. Era essa a idéia. Por isso ele se pacificou com a Argentina. E continua o sonho do MERCOSUL até agora. Pequeno detalhe: o dançarino de tango que é Presidente da Argentina adora relações carnais com os Estados Unidos e pediu entrada para a OTAN, ao que lhe foi respondido (...)

Não ser argentino é uma alegria, ou não? Um maluco de um Presidente que pede ingresso na OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte, para ter como resposta de um General inglês qualquer, que está lá, supostamente, comandando as tropas: “que eu saiba, o Atlântico Sul não é o Atlântico Norte”. Essa foi a resposta. Isso não parece piada, parece maluquice, ou não?

É o que digo, temos um Presidente do Banco Central que é uma vergonha, mas os argentinos têm um Presidente que é outra vergonha, e eles o elegeram duas vezes. É uma vergonha total. Não quero livrar a cara do Fernando Henrique, estou dizendo que não precisamos ficar tão humilhados, porque é um horror, se começarmos a nos comparar, ainda não sou a Colômbia, ainda não sou a Argentina, ainda não sou a África, que está acabando, ainda não sou a Rússia, que está melhor. Mas podia ser a Índia, podia ser a China, podia até ser os Estados Unidos do Brasil do futuro.

Podia e ainda posso. A questão é como fazê-lo. Não é como candidato a potência, porque nós não temos fôlego tecnológico, financeiro, militar para enfrentar os sete grandes, que são sete desde que começou o sistema imperial, há mais de 100 anos. Está claro, ou não? Pode ser que no final do século XXI. Mas aí eu estarei morta, e vocês também e já não me interessa. O final do século XXI é “science fiction”.

Estou discutindo o começo do século XXI, o amanhecer do século XXI. Posso dizer e digo de pleno direito: sou uma nação com território unificado há mais de 100 anos. Está claro. E bote anos nisso. Uma nação independente.

É excêntrica, não pertenço ao centro, graças a Deus. Portanto, não levo uma (...), que é uma chatice. Ademais, irrelevante, para o jogo geopolítico americano. Irrelevante, meus jovens, que nós vamos ser poder. Deus nos acuda. Somos irrelevantes.


Hoje o jogo se deslocou para o Pacífico. O problema dos Estados Unidos é na Ásia. Vamos ver como ele faz a “pax” na Ásia, entre três inimigos históricos, milenares, a saber: a China, o Japãozinho aguerrido e a Coréia.

O que ele tem que resolver é, nem mais, nem menos, como se arbitra o conflito entre a China e a Coréia, para não falar da Índia e do Paquistão, que estão armados até os dentes, menos o Japão, que é plataforma de vôo para qualquer lugar. Está claro? Mas o pau será na Ásia ou na Europa, dependendo do que acontecer com os russos. Se for, é outra vez em cima da Alemanha, é histórico. Vira e mexe, as potências movem; a Inglaterra mexia, e a Alemanha entrava na de enfrentar a Rússia. Por mais que sejam hoje países de bandidos, estão armados, atomicamente, até os dentes. Vocês imaginem um bando de bandidos com armas atômicas enfrentando a Alemanha, o país civilizado, porém mal unificado, porque os outros alemães acham que são de segunda classe. Reunificar a Alemanha, sim, mas há alemães e alemães.

Ademais, ainda há os turcos, ademais há outra vez os cabeças-de-bagre, outra vez o nazismo. É “um saco” ser alemão. Não quero ser alemã, mas nem roxa. É uma desgraça ser alemão. Mas eles produzem os gênios da música, os gênios do pensamento. Eu sei, jegues produzem (...) Produzem civilização? Produzem. São um povo organizado e ordeiro? São. Mas, periodicamente, por causa do espaço em que estão colocados e que querem aumentar, sempre querem dominar a Europa, desde Napoleão, são eles que querem isso, não dá certo. A vocação imperial não dá certo para os povos do império.

Não quero mais ter império. Quero que os impérios terminem, no que diz respeito ao meu povo. Quero ser uma grande nação pacífica, fora desse jogo, quero estar no jogo da civilização da língua portuguesa, que é uma grande língua, já ganhamos um Prêmio Nobel, estou contentinha. Gunter Grass também ganhou, mas estava tristinho, porque fez um romance que é um tambor, é a coisa do nazismo. Ele não consegue, vai morrer com pesadelos sobre o nazismo. Até hoje tenho pesadelos com a abertura dos campos de concentração que vi no cinema, quando era menina. O caso é o seguinte: não queremos nem campos de concentração nem sistema carcerário americano - os EUA são um país de carcerários, há um milhão de pessoas presas, trabalhando em regime de trabalho escravo. Não quero mais FUNABEM, não quero essas coisas.

Agora, temos uma longa trajetória, temos tamanho, recursos naturais, recursos humanos, jeito de fazer as coisas, capacidade negociadora treinada pela herança secular, e quero mais dizer aos senhores o seguinte: quem apoquenta hoje o Brasil não são os atrasados. Um projeto nacional brasileiro não passa, no momento, por atacar os atrasados. Aquele homenzinho da rural, aquele Caiado, tiramos de letra. Enfim, tiro o Caiado de letra. Não tiro de letra é a elite moderna, os banqueiros. O que não tiro de letra são os aliados do Consenso de Washington. Não tiro de letra esse. O que não tiro de letra é a elite bem pensante que foi progressista na juventude, cor-de-rosa na juventude, alguns até vermelhos, e virou amarela, de amarelidão que só falta apodrecer. Isso é o que não dá. É a elite da “blue face”, típico da elite cosmopolita brasileira. Então, os cosmopolitas, os apátridas, os que acham que o seu povo pode...

Há pobreza; então, façamos um fundozinho para ver se tira os 10 milhões de mendigos da condição de mendigos para a condição de miseráveis. Grande programa. Programaço como projeto nacional. Há 10 milhões de mendigos. Já havia uns 5 milhões quando cheguei. Tira e bota na linha da miséria, que é um salário, porque estão abaixo de meio salário mínimo. Então, colocando todos com salário mínimo, fica tudo bem. Mas como fica tudo bem com um salário mínimo de R$130,00?

Os “caras” ganham R$100.000.000.000,00 por ano, à custa das tetas do Estado brasileiro, que não tem um tostão para fazer saúde, educação, etc. Qual é, gente? Temos que pegar o touro pelos cornos.

Estamos entregando o País, pois estamos entregando o sistema de crédito, os Bancos, endividando-nos. Esse cavalheiro que está aí herdou uma dívida pública de R$60.000.000.000,00, já que o Collor “deu o cano” na antiga, e uma dívida externa privada de 60. Mas, hoje, tem mais de 500 bilhões de dívida pública interna e mais de 200 bilhões de passivos externos. Beleza pura, não? E ainda acha que fez um grande governo. Não sei para quem.

Aliás, sei por quê. Porque, no ano de 1995, mandou para o espaço a agricultura brasileira, e a cesta básica dos alimentos caiu verticalmente. A agricultura perdeu 25% de renda. Jogou 1.500.000 camponeses na rua, os quais formam a base dos sem-terra, e, então, os trabalhadores rurais passaram, à custa da sua miséria, do seu desemprego, uma cesta básica baratinha para os trabalhadores urbanos comprarem. Como, naquele momento, também subiu o valor do salário mínimo, aconteceu o auge da popularidade dele.

Eu, representando a esquerda tradicional clássica, e o Delfim Netto, a direita econômica clássica, de um lado para o outro, ficamos olhando aquilo no Congresso. “Que desgraça, hein, Maria?”, disse para mim. “Que desgraça, hein, Delfim? Nunca julguei que esses meninos junto dos quais andei ‘metendo-lhe o pau’ quando era Ministro, fossem ser muito piores do que você”. “Não, Maria, não fui tão ruim assim”. “Foi ruim, sim, mas, pelo menos, você trabalhava a favor do capital nacional, dos banqueiros nacionais, dos empresários paulistas. Ao contrário, esse ‘cara’ está vendendo os interesses dos que o elegeram. É um grande traidor, porque não apenas trai o povo, como também os capitalistas nacionais que o apoiaram”. É fantástico. Diria que, em matéria de recorde, é um recorde. Vai para o “Guiness Book” esse belíssimo cosmopolita, elegante, sábio, inteligente, homem do mundo, Presidente que os maus fados e o povo brasileiro elegeram enganados.

Só o Lula me disse, quando perdeu em 1994: “Não estou triste. O Fernando Henrique é nosso”. Disse-lhe: “Lula, acho que você está pensando no Fernando Henrique do ABC, naquele que foi lá para apoiar as greves. Aquele que andou fazendo campanha, que andou por aí, nos comícios, já não é o mesmo”. “Você acha mesmo?”. “Claro que acho. Não só acho, como você também já verá”. E vimos logo, rapidamente.

Mas tem desejos, saúde mental de preferência, antes que exploda o coração dele, o que não quero. Quero que, ao se agravar a crise, como está se agravando, ele dê uma de Macunaíma e resolva: “Com licença. Tudo muito bem, meus senhores. Já paguei todas as contas possíveis e imagináveis. Já mandei mais de US$300.000.000.000,00 para os senhores. Agora, chega. Não entrego mais nada. Vamos começar tudo de novo”.


Ele pode ser obrigado a fazer isso. Tomara, porque nos poupará uma longa e dura transição até chegarmos a 2002. Três anos assim é uma chatice muito grande, é sufocante. Pode ser que, no meio, a crise se agrave; que as eleições municipais mostrem uma derrota pesada nas cidades; que todos os Governadores comecem a se juntar e a pressionar, porque, realmente, está demais; que não seja só o de Minas.

O próprio Governador de São Paulo, finalmente, já está azedo. A última brincadeira foi o BANESPA. Não só lhe tiraram o BANESPA, como também descobriu que tem que pagar um bilhão e tanto de imposto de renda, quando o BANESPA já é do Banco Central faz mais de não sei quantos anos. Ele respondeu irritado: “Que o Banco Central pague”. Mas se esqueceu de que o Presidente do Banco Central não é propriamente brasileiro e não vai pagar nada de imposto. Então, é complicado.

Quero lhes dizer o seguinte, para terminar, porque já me alonguei. Ninguém me deu relógio, e não sei há quanto tempo estou falando:

1 - Não existe regulação global possível do sistema financeiro internacional. Estamos indo para uma crise financeira internacional das proporções da crise de 1930. Leiam o “Economist” desta semana, que informou: a curva da Bolsa de Nova Iorque está exatamente no mesmo ponto em que estava em 1929, antes do “crash”.

2 - As crises são todas contaminadas. Então, começa uma crise no México, do México passa para a Europa, depois passa para a Ásia, da Ásia passa para o Brasil, do Brasil volta para cima e termina em Nova Iorque, que é o centro. Então, não está muito fácil. E porque não está fácil, o FMI fez (...), está um pouco complicado. Parece que não deu muito certo. Aliás, existe tanta pobreza no mundo que precisamos fazer alguma coisa. Sabe o que querem? Querem um fundo para a pobreza, para administrarem e conseguirem recursos para salvar os banqueiros deles, que também não estão muito bem, obrigado, em várias áreas do mundo. Isso é o que querem. Juro que não é paranóia. Eu os conheço. Só pode ser isso que querem. Querem um imposto Tobyn para eles. Aprenderam com o Brasil, porque somos moderníssimos. Já não estamos cobrando a CPMF? A CPMF é o imposto Tobyn. No entanto, o Congresso votou a CPMF, achando que era para a saúde, porque o Ministro da Saúde convenceu a todos, a mim inclusive. Só não votei a favor porque o Lula me deu um esporro, dizendo-me: “Conceição, agora, não. Você é do meu partido”. Disse-lhe: “Mas é um bom imposto, é para a saúde, o Ministro é um bom sujeito, a saúde está um horror”. Eu e o pobre do nosso companheiro médico. E rachou a Bancada. Deu um murro na mesa, dizendo: “Está terminada a discussão. Está decidido pela Executiva, a votação é nula”. Somente um votou a favor, que é o nosso médico. Como é médico, não há quem o agüente, vota sempre a favor do Governo nas questões da saúde, porque deseja salvá-la. Todos fizemos voto em separado, mas eu queria votar a favor, porque era a favor da saúde. Era o próprio Tobyn. Entenderam? O Governo Fernando Henrique inventou o imposto Tobyn e o aplicou. Era para os pobres o raio do imposto. São R$10.000.000.000,00 ou mais. Não era para os pobres coisa nenhuma, era para pagar juros aos banqueiros. Portanto, economista não serve. O Lula olhou para mim e disse-me: “Conceição, não dê uma de economista estúpida. Não é para os pobres”. Disse-lhe: “Mas como, se ele está prometendo?”. O Lula respondeu-me: “Você mesma diz que o Fernando Henrique não tem palavra, mas agora acredita na palavra dele? O Ministro vai demitir-se”. Não deu outra. Era para pagar os banqueiros. Gostaria de dizer que respeitava muito o Dr. Ulysses, mas, às vezes, não o obedecia. No caso do Lula, nessas questões, tudo que disser, obedeço bonitinho, porque, apesar de ser inteligente, um gênio, intelectual, mais velha, ainda me engano. Eu não ia votar uma porcaria de uma CPMF, achando que era para os pobres?

O Fundo Monetário está propondo o mesmo, um fundo para a pobreza, para administrarem para os banqueiros deles. Isso levou o Malan, um diplomata, a ter um ataque e dizer: “Mas o Fundo Monetário não tem instrumentos?”. Ele sabe muito bem o que está por trás disso. Nunca vi o Malan perder as estribeiras, nem mesmo quando meti o dedo na cara dele. Ele ficou todo vermelhinho, mas não perdeu as estribeiras. E perdeu. Como é que o Malan, que é candidato a Diretor do Fundo Monetário, dá uma patada no Fundo? E a palerma da imprensa brasileira publica: Esse Malan está à direita do Fundo Monetário. Coitado. Não estava à direita, estava de brasileiro. Como Ministro da Fazenda, deve ter pensado: lá vem mais uma trolha. A imprensa disse até que o neoliberalismo havia acabado. Acabou coisa nenhuma. O neoliberalismo só acaba quando tiver regulação do mercado de capitais ou controle cambial nacional. Enquanto isso, não acaba. Como parar a tese da liberalização? Acabou? Como vamos nos regular ainda mais? Acabou? Como é que a Rodada do Milênio, que será no ano que vem, irá pedir a liberalização completa das telecomunicações, liberalização completa de tudo que já demos? E mais: da informática, das leis de patentes, de tudo. Isso é o que irão pedir na Rodada do Milênio, menos os chineses, que não estão dispostos a dar; eventualmente os franceses, que não estão dispostos a dar. Os franceses não dão, mas pediram que déssemos, porque estão interessados na informática, estão interessados em entrar na Globo. Vamos entregar a Globo ao Bill Gates, usando o dinheiro do fundo dos trabalhadores, a poupança dos trabalhadores, que é de R$20.000.000.000,00 por ano. E vão emprestar R$400.000.000,00 para a família Marinho, para o Dr. Marinho vender para o Bill Gates e ficar com o dinheiro?

E ninguém diz nada, nem mesmo a CUT está prestando atenção nisso. Se fosse contar o que tenho visto no último ano, não terminaria de falar, teria um infarto. Aliás, cada vez que ouço uma notícia dessas, ameaço ter um infarto. Temos 100 bilhões de poupança interna forçada, dos trabalhadores, usada para quê? Para entregar as nossas estatais aos “piranhas” internacionais. Vou emprestar US$400.000.000,00, dinheiro dos trabalhadores, não é dos banqueiros, para o Dr. Roberto Marinho vender para o Bill Gates, o maior “piranha” mundial da informação. É o próprio homem global, o da Internet, aquele que montou em Pequim uma fábrica de “software”, porque acredita na capacidade dos chineses e porque sabe que para dominá-los não vai ser com ópio, pois hoje ópio não dá mais para dominar os chineses. Então, quem é que investiu pesado em tecnologia na China? O Bill Gates. Claro, ele dorme de touca. Ah, quer dizer que a Globo está meio falida, com US$2.000.000,00 de dívida externa, que não pode pagar. Não é o caso da família, a família vai bem, obrigada. A família tem um patrimônio pessoal muito bom, mas a empresa vai mal. A quem vamos vender? Ao Bill Gates. Ora, pode uma porcaria dessas? Vendem telecomunicações, televisão, rádio, Banco, depois querem ser uma Nação? Nação de quê?


Portanto, meus senhores, os senhores irão lutar o resto de suas vidas, se for preciso, para que sejamos uma nação e para que a aliança nacional popular democrática acabe com os 500 anos da história do Brasil e comece uma história nova. Esse é o compromisso que vocês têm de me prestar, de coração, para que não morra tão infeliz por ser brasileira. (- Palmas.)