MARIA BEATRIZ COSTA PEREIRA, Professora e Coordenadora do Movimento "Viva e Deixe Viver"
Discurso
Legislatura 17ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 15/10/2011
Página 138, Coluna 3
Evento Fórum Técnico: "Segurança nas Escolas: por uma cultura de paz".
Assunto EDUCAÇÃO. SEGURANÇA PÚBLICA.
Observação No decorrer do seu pronunciamento, procede-se à exibição de "slides".
76ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 17ª LEGISLATURA, EM 4/10/2011
Palavras da Sra. Maria Beatriz Costa Pereira
Boa tarde! Os senhores não podem imaginar a emoção que estou sentindo de estar aqui, hoje, pois é um trabalho de 12 anos só com esse projeto – aliás, um trabalho solitário na minha parte, porque, quando chego à escola, ele se multiplica. Na verdade, o que me habilita a estar aqui são os meus 37 anos de experiência nas escolas. Sou pedagoga formada pela UFMG. Durante todos esses anos, trabalhei em escolas públicas difíceis, localizadas em bairros pobres como Parque São João e Ressaca, em Contagem, e, no final da minha experiência e carreira, numa escola particular de ensino médio na região do Alípio de Melo.
Então, a minha experiência é grande em relação à escola, à criança, ao jovem. Mas o divisor de águas que me fez pensar mais ainda numa coisa com que sempre me preocupei, que é o ser humano, foi algo que aconteceu na minha vida, e alguns de vocês me acompanharam. Foi em 1999, quando minha filha, médica, Dra. Flávia Costa Pereira, indo para o Hospital Odilon Behrens num domingo, às 6h15min, bateu o carro e dois dias depois faleceu. Nesse momento é que o ser humano realmente é testado na sua capacidade de enfrentar os fatos. Hoje sei que é conhecido com um nome chique, “resiliência”, em que você se curva igual a um bambu, mas volta. E, do fundo daquele poço, eu tinha de encontrar um motivo para viver, para voltar a ser feliz.
Como educadora à época, trabalhando com adolescentes, eu pensei: gente, na escola, todas as vezes em que acontece alguma coisa muito triste e difícil com nossos alunos, sempre os levamos a pensar que toda situação tem lado positivo e lado negativo. E qual será o lado negativo dessa história? E fui percebendo, pela comoção da população à época, por uma jovem médica perder a vida por causa da embriaguez de outro motorista, então pensei que isso não poderia ficar daquela forma. Então comecei, naquele dia, a pensar sobre um movimento. Daí surgiu o Viva e Deixe Viver. Na verdade, ele surgiu de uma música de que minha madrinha falou quando eu disse a ela que estava montando um movimento e pensando no seu nome, e ela disse: “Olhe, Pe. Zezinho tem uma música que fala assim: 'Diante de ti ponho a vida e ponho a morte, mas tens de tentar escolher. Se escolhes matar, também morrerás; se escolhes viver, também viverás; então vive e deixa viver'”. Foi daí que surgiu o Viva e Deixe Viver. Aliás, eu soube recentemente que há uma ONG em São Paulo com esse nome. Lá é ONG, o meu é movimento. Outro dia brincaram na comissão: “Movimento de uma só”. Lá eles contam histórias para as crianças nos hospitais, uma tarefa lindíssima. O meu movimento, o que foi? Vamos ver, vou distrair vocês um pouquinho. O último vídeo apresentado foi excelente para justificar. Então, vamos ver se vou sensibilizar vocês com a apresentação.
Gostaria que ligassem a música. Eu ouvi essa música dezenas, centenas de vezes, porque eu queria fazer alguma coisa com os alunos da escola. Primeiro, era a minha escola, e essa música de Marcus Viana, este mineiro maravilhoso, trouxe a mim a ideia de um projeto em que o ser humano estivesse no centro. Não importa a idade, porque hoje esse projeto está tanto nas creches como nos asilos. O ser humano necessita constantemente de ser amado, de ser visto, de ser olhado com amor, com carinho. Hoje, tantas vezes eu tive a felicidade de, nesta mesa, ouvir pessoas falando: “Cuidado, procure ver, procure enxergar, veja aquele aluno que está na sua frente. Olhe-o com amor. Não deixe que a sua dificuldade cresça com ele”. Essa música tem dois nomes: quando orquestrada, chama-se “Tema da Vida” e, quando cantada, chama-se “Neomágica”. Daí, ao escutar essa música, foram surgindo estes anéis que estão na gravura, porque eu precisava trabalhar esse ser humano para chegar à sua riqueza, representada ali pela cor amarela, que é o âmago do ser humano, os valores morais tão bem falados aqui, hoje. São valores, são virtudes do ser humano que fazem com que ele se torne um ser humano mais humano.
Meu tempo está acabando, e a Dra. Míriam já falou que professor fala demais. Pessoal, esse foi o primeiro projeto. Vocês o verão na tela. Esse trabalho é voluntário. Sou muito grata a Deus por estar aqui, por ter a oportunidade de divulgar para todas as regiões de Minas Gerais que existe algo bem simples, uma pequena possibilidade de ajuda para vocês. Vimos hoje que temos de dar as mãos, mas já existe alguma coisa bem palpável e concreta. Professor tem mania de ser muito imediatista. Ele diz: “Vocês falaram isto e aquilo, mas o que tem de concreto?”. Logo o “site” vai aparecer, e vocês poderão abri-lo e ver que temos 10 projetos prontos para serem usados.
O nome do projeto é Viva e Deixe Viver. A cada ano fui desenvolvendo uma temática diferente com base naquela primeira perspectiva que vocês viram ali, com o objetivo de desenvolver, de despertar o autoconhecimento. Quando uma pessoa se conhece sabe das suas dificuldades e qualidades e começa a aprender a lidar com isso. Na escola em que eu trabalhava vivenciei, por quatro anos, o efeito desse projeto na sala de aula. Lá o aplicávamos uma vez ao mês, mas os professores tinham uma fala específica. Ah, falei nos professores. Vou às escolas por solicitação do Supervisor ou do Diretor. Não cobro nada por isso. É um trabalho voluntário. Só peço que me levem e tragam para casa. Muitas vezes estou na Citrolândia, na Serra e em tantas escolas no meio de ambientes difíceis e, se chego com alguém da escola, posso não ser estranhada. E, nessa minha experiência de ida e vinda, vejo que o grupo que, em um primeiro momento, está mais precisando trabalhar consigo mesmo, que mais precisa autoconhecer-se, valorizar suas qualidades e despertar sua sensibilidade é o dos professores. Aliás, uma vez, em uma escola de Contagem, ao final da minha fala, uma professora disse: “Beatriz, você falou que temos de gostar dos nossos alunos, mas como vou gostar deles se não gosto nem de mim?”. Ela foi completamente sincera.
Então, esse projeto está aí à disposição de vocês. Podem acessá-lo e verão que comecei com as virtudes.
É importante esclarecer que não se trata de um projeto religioso. Com minha experiência em escolas, eu sabia que não poderia privilegiar nenhuma tradição religiosa porque assim eu estaria excluindo alunos da sala de aula. Então, fui buscar minha inspiração no livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, do Sponville, e descobri que aquele amarelo que vimos há pouco, aquele ouro, a riqueza do ser humano está nas virtudes, que o transformam em uma pessoa com um lidar mais solidário, amoroso e equilibrado, ciente de que tem de aprender e modificar muitas coisas, mas tem uma vida pela frente.
Então, “Virtudes do Ser Humano” começa sempre com histórias, crônicas e músicas. Vocês devem ter gostado da música que coloquei aqui. Nas escolas, testo os professores perguntando se se arrepiaram ao ouvir uma música. Sempre há uma turma que diz “não”, ao que respondo que sua sensibilidade vai mal; precisamos pôr violinos na sala de aula! Sabem por quê? As pessoas vão sofrendo e vão se colocando em redomas de vida: “Aconteceu com ele, mas não foi comigo”. Peguei-me perguntando isso no dia seguinte ao acidente da minha filha: por que aconteceu comigo? Graças a Deus, não fiquei nem 5 minutos nessa indagação. Em primeiro lugar, porque não saberia a resposta. Em segundo, porque poderia ser com a filha do meu irmão, do meu vizinho, do meu amigo ou, de preferência, de alguém que eu não conhecesse. Gente, a violência está em todos os lugares, e uma das propostas desse projeto é aprender a ser feliz apesar das dificuldades por que você estiver passando. A ideia é fortalecer os nossos meninos, porque a vida não está nem é fácil.
Assim, vocês verão no projeto: “Aprendendo a Conviver” e “Aprendendo a Ser Feliz”, sempre iniciando com histórias e depois abrindo para o diálogo. Não foi o que pediram? Diálogo, tempo para cada um se expressar e falar das dificuldades que tem para conviver e amar! “Amar Se Aprende Amando” - gente, por meio desse projeto, estamos ensinando nas salas de aula os meninos a amar! Nossos meninos estão de tal forma arredios que, quando chegamos perto de um deles para abraçá-lo, ele se arrepia como um gato: o que é isso, professora? Ou, como dizem na gíria, “me tira”. Ou seja, não quero amar porque já estou muito decepcionado com o amor. Assim, temos de mostrar a eles que o que vale é o que fazemos, não, o que recebemos em troca; que o importante na vida é fazermos a nossa parte.
Vocês verão no projeto “Encantados pela Natureza” que, ao trabalharmos o amor das pessoas, falamos, por exemplo, na valorização do ipê amarelo. Fiz uma palestra em um lote em frente a uma escola em Neves - no Bairro Florença, se não me engano -, onde havia um ipê amarelo florido. Perguntei aos professores se haviam dado aula para os meninos ali. “Onde, Beatriz?” Respondi: debaixo do ipê amarelo. Vocês mostraram aos meninos a beleza que é olharmos um ipê amarelo de baixo para cima? “O quê? Tem ipê lá?” Ou seja, não estão vendo. E esse amor pela natureza é muito importante. Não estamos pedindo crianças mais ecológicas? Esse amor pelo ipê é isso. Vendo o projeto, vocês vão dizer que a Beatriz enlouqueceu, porque lá peço que admirem a gota de orvalho em uma grama, um capim. Vocês vão dizer que a Beatriz pirou. Pirei, mesmo. Sou uma pessoa sonhadora e acho que, no dia em que o educador deixar de sonhar, está na hora de sair da escola e abrir um carrinho de pipoca ou de sanduíche, porque ele é responsável pela formação desses meninos. Disse o mesmo, em Ponte Nova, para os estudantes que se formavam na licenciatura de Português: “Vocês não sabem que professor ganha mal? Vocês estão a fim de amar o filho dos outros? Porque, se não estiverem a fim, então vão vender roupa, que dá muito mais dinheiro, ou vender pipoca e sanduíche com carrinho. Formandos, saibam que a função do educador não é função, é missão divina”.
Aí vem o projeto “Despertando o 'Homem Bom' Que Existe entre Nós”, que trabalha a solidariedade começando por nós. Nesse projeto, faremos uma faxina com esses meninos. Vocês dirão: “Beatriz, você enlouqueceu? Faxina com meninos de 7, 8 anos?”. Verão que há um projeto dos jovens, dos adultos e das crianças. Responderei que vou, sim, mas sabem por quê? Conversando com a minha netinha de 3 anos, às vezes ela me fala: “Vó, estou com muita raiva daquele meu coleguinha”. Ou seja, desde pequenininhos já estão crescendo dentro dessas crianças sentimentos que não são bons e que não deveriam estar sentindo.
Depois vem o projeto “Aprendendo a Perdoar”. Este, então, quando chego na escola, falo o seguinte: “Professores, daremos atividades aqui, contaremos histórias, cantaremos músicas e mostraremos a estes meninos o quanto é importante perdoar o pai, perdoar a mãe e perdoar o colega”. Eles dirão: “Mas é impossível perdoar. Isso é coisa de Deus”. Digo-lhes: “Não. Perdoar não é fácil, mas é possível”. Didaticamente provo, por meio de todos os encontros, que é possível.
Por fim, o projeto deste ano de 2011: “As Mãos Que Oferecem Flores Ficam Sempre Perfumadas”. Nesse projeto, trabalho o coração que vê, a caridade e tento trabalhar crianças e jovens para o trabalho voluntário. Ver o outro, chegar no outro sem que esse outro chegue até você, sem que ele lhe peça, mas, sim, porque o seu coração viu e sentiu que ele precisava de ajuda.
Para o ano que vem, já estou montando um projeto, mas quem quiser me mandar sugestões, agradeço, pois levo um ano selecionando as histórias dele. Afinal, conheço muito bem nossos alunos, e, se eu puser histórias bregas, eles ficarão zoando com os professores. Duvido. Apliquem alguma história desse projeto na sala de aula para verem se várias crianças ficarão muito sensibilizadas e se você, professor, até irá chorar por causa daquilo que será trabalhado. Todos terão oportunidade de falar de suas dores, de suas angústias e dos seus medos, mas também perceberão: “Puxa, professora, eu consigo perdoar”.
“Convivendo em Família” é o que estou planejando para o ano que vem. Vamos dialogar com esses meninos, porque, se eles não conseguirem agora, como filhos, iluminar as suas casas com algumas luzes de perdão, de concordância, de tolerância e de humildade para aceitarem alguma coisa, não faz mal. No entanto, um dia eles serão mãe e pai, e aí coloco a minha esperança e meu sonho de que teremos famílias ninhos e que de lá sairão crianças prontas para viverem a vida aqui fora, neste mundo tão violento.
Peço a Deus que ilumine cada cabeça aqui presente e que muitas das medidas que este fórum trouxer sejam além da parte de todos – de polícia, de limites, etc. – e possam ajudar essas crianças em suas dificuldades, em suas emoções e em seus sentimentos. Muito obrigada.
Rapidamente gostaria de dizer que estarei aqui todos os dias, até quinta-feira, participando com vocês. O “site” está lá para quem quiser maiores detalhes. Contem comigo. Estou à disposição de vocês. Obrigada.
- No decorrer de seu pronunciamento, procede-se à exibição de “slides” e à apresentação de música.
O Sr. Presidente - Agradeço a belíssima palestra da Profa. Maria Beatriz Costa Pereira. Quem conhece o trabalho da Profa. Beatriz sabe que ele faz a diferença em todo local. O Parque São João é um exemplo disso. A comunidade de lá tem profundo carinho, e esse exemplo da Beatriz é fundamental. Ela é alguém que perdeu uma filha e procura preencher o vazio que há em seu coração - natural, quando se perde um ente querido - cuidando do outro. O ser humano sempre depende do outro, e cuidar do outro é, sem dúvida nenhuma, a melhor forma de construir uma cultura de paz. Belíssima palestra, Beatriz.