MARESSA MIRANDA, Diretora do Escritório de Direitos Humanos da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social - SEDESE. Coordenadora dos Trabalhos.
Discurso
Dá início à fase de debates. Enecerramento do evento.
Reunião
33ª reunião ESPECIAL
Legislatura 16ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 12/09/2009
Página 48, Coluna 4
Observação Participantes dos debates: Betinho Duarte, Deputado João Leite, Deputado Carlin Moura, Edson Luís de Almeida Teles, Andrey Borges de Mendonça, Ricardo Henrique, Francisco de Assis Alves, Leonardo Péricles.
Legislatura 16ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 12/09/2009
Página 48, Coluna 4
Observação Participantes dos debates: Betinho Duarte, Deputado João Leite, Deputado Carlin Moura, Edson Luís de Almeida Teles, Andrey Borges de Mendonça, Ricardo Henrique, Francisco de Assis Alves, Leonardo Péricles.
33ª REUNIÃO ESPECIAL DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª
LEGISLATURA, EM 28/8/2009
Palavras da Sra. Maressa Miranda
Debates
A Sra. Coordenadora - Primeiro vou ler o “e-mail” do Eduardo
Moraleida, que chegou aqui no início do evento: “Boa tarde; o tema
é bastante pertinente, uma vez que, em Minas Gerais, atualmente se
tortura por outros meios, além do já tradicional pau de arara.
Tortura-se impondo o medo aos movimentos sociais organizados e às
diversas categorias do funcionalismo público que enfrentam a Tropa
de Choque nas ruas, como ocorreu semana passada; tortura-se quando
não se cumpre a Lei Federal nº 11.738, de 2008, que estabeleceu o
piso do professor; tortura-se quando o Estado não cumpre os 12%
destinados à saúde; tortura-se quando a mídia é censurada ou é
conivente - AI5 mineiro? -; enfim, tortura-se. Mas vamos à
pergunta: Na Argentina, vários militares foram condenados por seus
crimes durante a chamada Guerra Suja. O que tem sido feito no
Brasil para que a anistia de fato venha a tornar-se ampla, geral e
irrestrita, além, é óbvio, do atual evento na Assembleia?”.
As perguntas serão respondidas em bloco. Inicialmente, com a
palavra, o Sr. Betinho Duarte, para formulação de pergunta.
O Sr. Betinho Duarte - Boa tarde a todos. Sra. Maressa, gostaria
de pedir um pouco de tolerância em relação a minha fala, quanto a
um tempo maior. O Carlinhos, como qualquer político, sabe que 3
minutos só dão para informar nosso nome e alguma coisa mais. Faço
esse pedido até porque eu tinha médico hoje, às 15h30min. Fiz um
ultrassom na semana passada, em virtude de um caso um pouco grave,
e levaria o resultado a esse médico. Nem tive tempo para desmarcar
a consulta. Por isso, solicito um pouco de tolerância.
Quero elogiar o Andrey e o Edson. Até agora, pelo menos,
desabafamos. Somos sobreviventes da luta contra a ditadura
militar. Estamos desabafando desde o dia 4/8, com as comemorações
e as manifestações. Hoje, aqui e agora, com os mais sofridos, como
o Edson, tivemos uma aula, o que é importante. Como a pesquisa bem
demonstrou, a grande maioria do povo brasileiro não sabe que houve
ditadura neste país nem o que é anistia. Em nossos debates havia
pessoas com menos de 30 ou 40 anos, sendo que a ditadura já tem 45
anos. Quem tem menos de 50 anos dificilmente sabe dessa história.
Elogio os Srs. Andrey e Edson por suas explanações brilhantes.
Estão de parabéns.
Quero referir-me à greve de fome do Movimento Feminino pela
Anistia em Minas Gerais, representado pela Sra. Helena Greco. Eu,
como Presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia, apoiei
firmemente essa greve de fome. Fomos, juntamente com a Bizoca e
outras pessoas, ao Rio de Janeiro apoiar companheiros que fizeram
greve de fome, saudosos alguns. O José Roberto Resende Alves, que
era de Belo Horizonte, já faleceu, assim como o Jimi e outros.
Faço esse registro.
Hoje é o Dia da Anistia, e queria prestar uma homenagem a todas
as mulheres brasileiras. Suzana, vocês podem dizer que estou
fazendo um machismo ao contrário. Não é isso, quero prestar
homenagem às mulheres brasileiras, que começaram o movimento pela
anistia. Foram elas que levantaram essa bandeira. Acredito que, se
não fossem elas, talvez ainda estivéssemos vivendo em tempos de
ditadura. As mulheres são diferentes de nós, homens. Quando acerto
- e, de vez em quando, o faço -, costumo dizer que tive intuição
feminina. Foram as mulheres que saíram atrás de seus parentes. As
mães saíram à procura de seus filhos; as esposas, de seus maridos.
Não foi o caso do meu pai, mas ouvi vários homens dizerem o
seguinte: “Ele entrou, que se vire”. As mães diziam: “Eu vou atrás
de meu filho”. Quando estive preso no Dops, falaram para eu não
comer a comida dali, porque estava envenenada. Todo dia minha mãe
levava marmita para mim.
O meu pai acompanhava minha mãe, mas ia calado. Minha mãe ia
todos os dias. Em Linhares, os presos políticos eram visitados
todos os sábados por suas mães: D. Ondina; D. Dina, mãe do
Fernando Pimentel; Ângela Pezutti e vários outras. Aquele momento
era esperadíssimo, até pela mãe do Fernando, que faleceu
recentemente, a D. Dina. Deputado João Leite, ela fazia coisas
deliciosas, e todo o mundo lá atrás das grades ficava esperando a
D. Dina, com suas guloseimas. Os presos políticos ficavam felizes
da vida. Então, as mulheres brasileiras é que levantaram e
honraram essa bandeira.
Este dia, dia 28, esta salva de palmas, este reconhecimento e
este merecimento é para as mulheres. Não conheço nenhuma mãe que
tem coragem de desamparar ou abandonar seus filhos. Bizoca, ontem
queria ter feito uma pergunta à irmã da Valquíria; parece-me que a
mãe dela já morreu. A Valquíria foi assassinada no Araguaia, e
tenho certeza absoluta de que sua mãe, até a data em que faleceu,
ainda esperava que a filha voltasse. As mães esperam os seus
filhos voltarem. Isso me deixa muito emocionado. Então, as nossas
homenagens às mulheres brasileiras.
Deputado João Leite, quero abordar outro ponto que pensei ter
superado, mas infelizmente não consegui. Assim, talvez eu tenha de
fazer análise ou qualquer outra coisa. Quando eu fazia alguma
reunião, lamentava com os presentes a ausência de outras pessoas.
Suzana, achei que havia superado essa situação, que, para mim, era
um desrespeito com as pessoas que estavam presentes. Quero fazer
um lamento agora, já que estou revelando que não superei isso.
Estou lendo aqui o caderno da Assembleia Legislativa e lamento que
parte da Bancada do PT tenha marcado uma reunião com o Ministro da
Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial
exatamente neste horário. Temos aqui a informação de que a
Comissão de Participação Popular discute o Plano de Igualdade
Racial com o Ministro que esteve aqui, no Plenário, e já foi
nominado por V. Exa. Esse requerimento foi feito pela Deputada
Maria Tereza Lara e pelos Deputados André Quintão, Almir Paraca e
Carlos Gomes. Deputado João Leite, como se sabe, o ano tem 365
dias. Então, pergunto: Será que não havia outro dia para
convidarem o Ministro para vir aqui? Hoje é dia 28!
Deputado João Leite, fico também perplexo porque a Assembleia
Legislativa possui 77 Deputados, mas compareceram aqui, até agora,
apenas o Deputado André Quintão, que abriu o ciclo de debates, o
Deputado Durval Ângelo, é claro, já que seu gabinete se envolveu
completamente neste evento, V. Exa. e o Deputado Carlin Moura. A
Deputada Cecília passou por aqui. E os outros Deputados? Aliás,
fiquei sabendo que ontem um Deputado protestou contra a realização
deste evento nesta Casa. Lamento isso porque a presença deles
seria importante neste maravilhoso debate.
O Sr. Presidente - Betinho Duarte, se me permite. A Comissão de
Participação Popular, da qual eu e o Deputado Carlin Moura somos
membros, está realizando agora esse encontro com o Ministro. Hoje,
pela manhã, a referida Comissão foi à Fafich, realizar uma reunião
extraordinária. Na próxima segunda-feira, haverá outra reunião
extraordinária. Há grande demanda para a Comissão de Participação
Popular, e deve ser assim mesmo.
Quando o Presidente de uma comissão tem de apreciar e votar
requerimentos, procura votá-los nos dias em que não houver
Plenário ou outras comissões, já que participamos de mais de uma
comissão na Assembleia Legislativa. Hoje mesmo há comissões que
estão viajando para fazer audiência pública.
Tenho certeza de que o Presidente da Comissão de Participação
Popular, o Deputado André Quintão, gostaria de estar aqui, assim
como outros Deputados que também estão envolvidos com os trabalhos
da Assembleia. Eu e o Deputado Carlin Moura estamos aqui e o
Deputado André Quintão está lá, presidindo a sua reunião, mas
tenho certeza de que não há, por parte dos Deputados, essa questão
da prioridade. O que existe é uma agenda da Assembleia, que nos
obriga a isso. Eu só gostaria de dar essas informações.
O Deputado Carlin Moura - Sem querer polemizar, existe uma
importante frente parlamentar de promoção da igualdade racial, que
tem uma ampla participação da sociedade civil. Aliás, essa frente
está muito mobilizada, até em função da recente Conferência
Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Além disso, coincidiu o
fato de hoje, em Belo Horizonte, pela manhã, haver uma agenda do
Ministro da Promoção da Igualdade Racial. O Ministro foi convidado
a pedido dessa frente, numa infeliz coincidência, porque esse
também é um tema de fundamental importância.
O segmento afro-brasileiro talvez seja a principal vítima dessas
zonas de não direito, herança maldita desse sistema que vem de
longos anos. Penso que essa é uma informação importante.
O Sr. Betinho Duarte - Tudo bem. Como eu falei, o que sinto faz
parte da dificuldade que tenho de superar, por isso levantei essa
questão, mas acredito que ainda terei algum tempo de vida e,
provavelmente, irei superá-la.
Estamos falando do direito à memória, e recebi a informação do
Edson, nosso convidado especial, de que o assassino, o bandido
Curió, está depondo hoje em Brasília e, pasmem, em segredo de
justiça. Queremos saber a verdade, mas o Curió, que assassinou no
Araguaia dezenas de pessoas, até cortando suas mãos e cabeça, está
depondo em segredo de justiça.
O Ministro Nelson Jobim está dizendo que a questão da anistia foi
um grande acordo, mas só se foi um acordo com ele, porque só ele
fez acordo com os torturadores. Nós, que estamos aqui presentes,
nunca fizemos acordo nenhum com nenhum torturador, bandido ou
assassino. E agora, Deputado João Leite, ele está depondo em
segredo de justiça. Que segredo de justiça é esse? Queremos a
verdade, mas, provavelmente, são versões que irão vazar.
Procuramos a verdade, e é só a verdade que interessa.
O terceiro ponto que me preocupa muito diz respeito ao recurso
feito ao STF sobre a questão da punição aos torturadores, que está
nas mãos do Ministro Gilmar Mendes. Todo o mundo conhece o
Ministro Gilmar Mendes; e o que podemos esperar desse Ministro
Gilmar Mendes? Eu, pelo menos, não espero nada, ou melhor, espero
muita coisa: as palhaçadas e as trapaças que ele vem fazendo ao
longo dos anos. Devemos ficar vigilantes, porque essa questão está
sendo julgada pelo Ministro.
Vamos à pergunta, porque eu já me estendi. Obrigado, Deputado
João Leite, pela paciência.
O Sr. Presidente - Paciente é a coordenadora. Gostaria de
ressaltar a presença da Deputada Cecília Ferramenta.
O Sr. Betinho Duarte - Correto. Ela acaba de chegar, mas já
esteve aqui conosco. A minha pergunta é sobre a questão da punição
aos torturadores. Tenho aqui a relação dos torturadores mineiros,
que gostaria de ler para os senhores: Aécio Flávio Silveira
Coutinho, Ariovaldo da Hora, Cláudio Guimarães, Davy Hazan,
Dolabela, Valdir Teixeira Goes, Marcelo Paixão de Araújo, que,
graças a Deus, Deputado João Leite, já morreu, deve estar lá no
inferno, provavelmente revezando-se com o demônio: ora um tortura,
ora o outro. A pessoa que me prendeu é Thacir Menezes Sia. Por
outro lado, tenho aqui a relação daqueles que estavam na reunião e
não só aprovaram como também assinaram o AI-5, que foi o golpe no
golpe. O AI-5 foi a ordem para exterminar os opositores da
ditadura militar. Na verdade, eles já vinham exterminando, mas ele
sacramentou a decisão - tenho até documentos que já li e não lerei
novamente - de exterminar os opositores, ou seja, assassinar
todos. Estavam presentes 10 Oficiais-Generais nessa reunião do AI-
5: Augusto Hamam Rademaker, Ministro da Marinha; Aurélio de Lira
Tavares, Ministro do Exército. Estou ficando com a boca seca. Se o
cerimonial puder me trazer um copo de água - porque não consigo
falar quando fico emocionado, Deputado João Leite. Obrigado.
Continuando: Márcio de Souza Mello, Ministro da Aeronáutica;
Afonso Albuquerque Lima, Ministro do Interior; Emílio Garrastazu
Médici, que já estava fazendo escola, porque era Chefe do SNI;
Alte. Adalberto de Barros Nunes, Chefe do Estado-Maior da Armada;
Gen. Adalberto Pereira dos Santos, Chefe do Estado-Maior do
Exército; Gen. Orlando Geisel, que é o irmão - o Ernesto foi o
ditador, mas o Orlando deve ter auxiliado o irmão; Ten.-Brig.
Carlos Alberto Huet Sampaio, Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica;
e Gen. Jayme Portella, Chefe da Casa Militar. Eram três oficiais
da reserva: Mário David Andreazza, construtor da Ponte Rio-Niterói
- depois, até podemos falar sobre como foi construída essa ponte:
falam que hoje existe corrupção, Deputado João Leite, mas, naquela
época, a corrupção era muitas vezes maior; havia, entretanto,
censura à imprensa, e ninguém denunciava -; Jarbas Passarinho,
naquela época Ministro do Trabalho e da Previdência Social. Trouxe
um recorte de jornal para mostrar: ele escreve em todos os jornais
do Brasil. No maior jornal de Minas Gerais, ele escreve na página
“Opinião”, como se fosse um grande democrata. Porém, ele votou e
assinou o AI-5. Continuando: José Costa Cavalcanti, Ministro das
Minas e Energia; Pedro Aleixo, que estava lá, mas parece-me que
ele, na verdade, não votou, não é isso? Que eu saiba, ele foi até
contra, parece-me que ele se absteve. Não sei, mas, no final...
O Sr. Edson Luís de Almeida Teles - Ele assinou.
O Sr. Betinho Duarte - Ele assinou. No final havia um voto dele,
Deputado João Leite, porque, entre ser contra e assinar, o que
vale é a assinatura, não é isso? Continuando: José Magalhães, que,
à época, era Ministro das Relações Exteriores; Antônio Delfim
Neto, que hoje, dizem, está assessorando a equipe econômica do
Lula - ele estava lá, votou e assinou -; Leonel Miranda, Ministro
da Saúde; Tarso Dutra, Ministro da Educação; Hélio Beltrão,
Ministro do Planejamento; Carlos de Simas, Ministro das
Comunicações; Rondon Pacheco, Chefe da Casa Civil; e Luís Antônio
Gama e Silva, Ministro da Justiça.
Falei dos bagrinhos, dos bandidos, dos assassinos, dos
torturadores de Minas Gerais. Pergunto à Mesa: esses que assinaram
o AI-5, caso a punição venha, serão punidos? É essa a pergunta que
quero fazer à Mesa.
Esses, como o bandido Fleury e o Cb. Anselmo, cujo caso relatei
hoje cedo, sujaram as mãos, João Leite; têm as mãos sujas de
sangue. Como se vê na pág. 109 do livro que está à venda ali fora,
o Cb. Anselmo era casado com a paraguaia Soledad. Na verdade, ele
entregou e torturou a própria esposa, que estava grávida dele, e
ela foi encontrada, toda deformada, dentro de um barril, ao lado
do feto. Quer dizer, ele assassinou a esposa e o filho, já que o
feto estava no fundo do barril. Então, a minha pergunta é se, além
dos bagrinhos, dos casinhos, esses que sujaram suas mãos serão
punidos.
A Sra. Coordenadora - Obrigada, Betinho, pela participação. Antes
de ler as outras perguntas e facultar a palavra aos demais
participantes, poderíamos responder às duas perguntas que foram
feitas - a primeira, enviada por “e-mail”, sobre o que tem sido
feito no Brasil para a real anistia, ampla e irrestrita; a
segunda, posta pelo Betinho, sobre a responsabilização dessas
pessoas que continuam na ativa.
O Sr. Andrey Borges de Mendonça - Em relação ao que já foi feito,
sempre que converso com a Eugênia Fávero e o Marlon, colegas em
São Paulo, eles me dizem que ainda há muito a se fazer. Realmente,
ao menos no âmbito do Ministério Público Federal, ainda vislumbro
muitas medidas a serem tomadas. Mas algumas ações já foram
propostas.
No âmbito penal, essas tentativas, infelizmente, ainda não foram
adiante por alguns motivos, entre eles o entendimento dos próprios
colegas de que a punição não seria mais possível. Infelizmente, no
caso do Vladimir Herzog, ele foi representado para que um colega
Procurador da República de São Paulo denunciasse, mas ele entendeu
que não seria mais possível e pediu o arquivamento do feito. Fato
i que há a independência funcional. Mas ainda há muita coisa a ser
feita no âmbito penal, especialmente em relação ao Araguaia, até
quanto à prescrição - acho que a decisão do Supremo vai facilitar
essas medidas.
Quanto às ações que o Ministério Público Federal apresentou, foi
proposta uma primeira ação contra as pessoas que comandavam o DOI-
Codi em 1970 - o Cel. Brilhante Ustra e o Aldir Maciel -, tentando
responsabilizá-los civilmente pelos crimes, para que perdessem os
cargos e fossem condenados a pagar indenização. Depois, o
Ministério Público começou a propor ações individuais sobre as
mortes, também no âmbito civil. Propôs uma ação contra as pessoas
que mataram Manoel Fiel Filho, mas infelizmente a Juíza, em uma
decisão de meia página, extinguiu o processo, também por questões
formais. Estou referindo-me à esfera do Ministério Público; no
âmbito das famílias, acho mais adequado que o Edson se manifeste.
Mas muito ainda precisa ser feito. Em Uruguaiana, há um inquérito
policial, no âmbito da Polícia Federal, para apurar-se uma das
condutas da Operação Condor. Esse inquérito está em tramitação na
Polícia Federal do Rio Grande do Sul, mas ainda não há ação penal
nem, infelizmente, condenação dessas pessoas.
Sobre as considerações do Betinho, também me parece necessária a
punição dos que eram coordenadores dessas ações, das pessoas
realmente graúdas, digamos. O problema é que temos um devido
processo legal, em que se exigem provas. A situação é difícil,
porque sabemos que eles tinham conhecimento do que acontecia, mas
às vezes não temos uma prova documental ou testemunha que o
confirme e ainda não temos acesso aos arquivos para que isso fique
claro. Esse me parece o maior problema. Mas, se surgirem provas de
que as ordens partiram deles ou de que eles tinham consciência das
ordens e nada fizeram, parece-me que é possível a
responsabilização e que os que estão vivos devem ser
responsabilizados no âmbito penal.
O Sr. Betinho Duarte - Deputado João Leite, hoje de manhã, citei
uma passagem do livro de Elio Gaspari:
“- Pegaram alguns?, perguntou Geisel.
- Pegamos, pegamos. Foram pegos quatro argentinos e três
chilenos, respondeu Pedrozo.
- E não liquidaram, não?
- Ah, já, há muito tempo. É o problema, não é? Tem elemento que
não adianta deixar vivo, aprontando. Infelizmente, é o tipo da
guerra suja em que, se não se lutar com as mesmas armas deles, se
perde. Eles não têm o mínimo de escrúpulo.
- É, o que tem que fazer é que tem que nessa hora agir com muita
inteligência, para não ficar vestígio nessa coisa, falou Geisel”.
Está aqui.
O Sr. Andrey Borges de Mendonça - O único problema em relação ao
Geisel é que ele já morreu. Em relação aos demais, se houver
provas documentais, é possível e necessária essa punição.
O Sr. Edson Luís de Almeida Teles - Começaria pela questão em
debate, a dos bagrinhos e bagrões, de quem poderia ser processado.
Está havendo em São Paulo um evento sobre os 30 anos da anistia,
no qual o Sr. Peter Kornbluh, um norte-americano estudioso dos
arquivos da CIA, nos Estados Unidos, mostrou uma carta do governo
brasileiro que passou pela Operação Condor, dos países da América
do Sul, de repressão aos opositores. A carta é do começo dos anos
70 e se refere a uma reunião entre Médici, Orlando Geisel, Gal.
Bandeira e outro oficial de cujo nome não me recordo, na qual
decidem que, a partir de então, não podia mais haver mortos, só
desaparecidos. Isso está em um documento encontrado em Washington,
nos arquivos da CIA. Ou seja, vergonhosamente, o Brasil não está
tomando nenhuma atitude para punir os de Belo Horizonte, muito
menos os que coordenaram essas ações.
Retomando a primeira questão, que chegou por “e-mail”, além
dessas iniciativas do Ministério Público, há algumas que partem
das famílias, que são as ações civis declaratórias, que pedem a
declaração de responsabilidade do Estado pelos crimes. A primeira
ação desse tipo ocorreu durante a ditadura, da Clarice Herzog,
sobre o assassinato de Vladimir Herzog, por cujo crime o Estado
foi declarado responsável.
Como parte da família Almeida Teles, entramos com um processo que
exigia a declaração do Estado brasileiro, por parte da Justiça, de
ter sido o Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, Comandante do DOI-
Codi de São Paulo, o torturador da família no começo dos anos 70.
Foi a primeira ação que pedia não a responsabilização do Estado,
mas a responsabilização de um sujeito. Alguém manda as pessoas
torturarem, alguém faz essa tortura. Entramos com essa ação em
2005, ela foi aceita pelo Tribunal de Justiça em 2006, e, em 2007,
saiu a sentença final, que condenou o Cel. Ustra como torturador
da família nos anos 70. Uma das suas alegações para que o processo
não prosseguisse foi não em relação à acusação em si, mas de que
estava apenas recebendo ordens. De certa forma, na própria defesa
ele já assume a responsabilidade. Ele não disse “eu não fiz isso”,
ainda que tenha alegado isso na mídia várias vezes. Na alegação
judicial, ele apelou ao ordenamento jurídico que diz que ele era
um militar e estava preso a uma hierarquia e que só recebeu e
cumpriu ordens.
Se começarmos a pegar esses que torturaram em Belo Horizonte, um
Curió, não só para ouvi-lo, mas para processá-lo, chegaremos aos
Generais que deram essas ordens. Mais do que isso: se o Brasil não
tiver vergonha na cara e não fizer isso, eles podem ser presos em
viagens ao exterior. Assim aconteceu com Pinochet e com Fujimori.
Aposto que senhores como Curió morrem de medo de sair do Brasil,
porque este é o país da impunidade, mas outros países não lhes
garantem isso.
Também gostaria de lembrar-lhes e lhes pediria a maior atenção a
uma questão. Nos meses e dias seguintes a esta comemoração,
aparecerá na imprensa o caso do Araguaia. Em 1982, os familiares
dos desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, que ocorreu entre 1972
e 1974, no Sul do Pará, na região do Rio Araguaia, entraram com um
processo exigindo da Justiça a verdade sobre as circunstâncias da
morte e desaparecimento dos seus familiares e a localização dos
restos mortais. A Justiça brasileira já é lenta. Nos casos de
direito à verdade sobre os crimes da ditadura, é muito lenta, como
eu já disse sobre a transição brasileira. A sentença final sobre
esse caso saiu só em julho de 2007, sem possibilidade de recursos.
Foi dado à União o prazo de 120 dias para a execução da sentença.
Até o começo de 2008, era para esses familiares estarem com a
verdade histórica sobre os fatos e os restos mortais dos seus
parentes. Isso não é nada impossível, porque já viraram corpos sem
vida, pois algum militar os matou. O próprio Curió já confessou
que matavam e decapitavam essas pessoas, e que elas foram jogadas
em alguns lugares específicos na época da guerrilha. Depois, houve
uma operação-limpeza que retirou esses corpos e os levou para
outros lugares, para que, em democracia, não se soubesse o que o
Exército brasileiro tinha feito no Sul do Pará.
A operação-limpeza desses crimes foi cometida por mãos humanas.
Essas pessoas eram Soldados, Oficiais de baixa e média patente.
Eles têm idade suficiente para hoje estarem aqui como qualquer um
de nós, falando e gozando de boa saúde; bastaria a Justiça
brasileira convocá-los. Essas foram ações coordenadas pelo
Exército brasileiro, portanto todas estão documentadas, e é
possível exigir essa localização.
Estamos em 2009, e, até abril deste ano, nada havia sido feito
para a execução dessa sentença. Acontece que os familiares,
autores dessa ação, recorreram à OEA, da qual o Brasil faz parte e
é signatário dos seus tratados. A mesma Organização, que derrubou
a Lei da Anistia no Peru e colocou limites à Lei de Autoanistia no
Chile, acatou o pedido dos familiares para que esse caso fosse
julgado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA,
porque o Estado brasileiro não cumpria o que havia sido
determinado por seus tribunais. Ou seja, nacionalmente, quando se
esgotam as possibilidades, pode-se recorrer a uma corte
internacional, e foi isso que esses familiares fizeram.
O Brasil virou réu. Ele é réu nesse caso de graves violações aos
direitos humanos. Isso aconteceu em março deste ano. Não por
coincidência, mas por motivos óbvios - pela abertura desse
processo na OEA -, o Estado brasileiro resolveu executar a
sentença de 2007, que era para ter sido cumprida até o começo de
2008, só um mês depois de aberto o processo na OEA. Montaram uma
comissão do Poder Executivo para fazer as buscas na região do
Araguaia.
E, vocês, pasmem! A quem eles entregaram a coordenação dessa
comissão? Vocês imaginam? Entregaram-na a um General do Exército
brasileiro, exatamente àquela parte que entra como réu no
processo, ou seja, que é diretamente interessada nos resultados
dessas buscas. Não estou dizendo aqui que os militares não
poderiam participar disso. Mais que isso, eles deveriam pedir
desculpas pelo que fizeram, e colocar toda a sua infraestrutura
para achar esses corpos, mesmo porque são eles que têm esses
arquivos. Na medida em que as Forças Armadas brasileiras nunca
pediram desculpas, ao contrário, é recorrente o seu discurso de
que o que fizeram foi muito benfeito e que repetiriam, sem
problemas, se preciso fosse. É um absurdo total que seja entregue
a um General o comando dessas buscas. Diga-se de passagem, esse
General, quando tomou posse na 23ª Brigada, que comanda e que é
sediada em Marabá, local da guerrilha do Araguaia, quartel que
comandou a repressão à referida guerrilha, este mesmo General, no
ano passado - não foi em 1960, 1970, 1980 -, rasgou elogios à
ditadura militar e à ação dos militares de caçar, matar e prender
subversivos, segundo ele. Portanto é a esse General que o Estado
brasileiro entregou as buscas da verdade sobre o caso. O problema
do Estado brasileiro é que esse caso está na OEA, e, se o Brasil
for condenado, provavelmente a primeira sentença de condenação
será: a sua lei de anistia, Brasil, não vale; os seus torturadores
devem ser julgados e, se não o fizerem, serão considerados
criminosos em qualquer parte do mundo. Mais que isso, qualquer
intenção do Estado brasileiro de entrar, por exemplo, no Grupo dos
20, no Grupo dos 10, ou qualquer um desses grupos internacionais,
ou no Conselho de Segurança da ONU, pode ser barrada, se o Brasil
for condenado por graves violações aos direitos humanos.
Em minha primeira fala, referia-me àquela herança que recebemos
da ditadura. Vejam que ela se mantém até quando se mascara uma
tentativa, uma possibilidade de execução do direito à verdade. Não
poderia deixar de citar o porquê de tudo isso. Por que esse Estado
Democrático, governado pela esquerda brasileira, aquela que era a
nossa esperança de se obter essa verdade histórica, parte para
esse tipo de ação? Há um evento ocorrido há 30 anos, e que se
repete hoje, o qual marca muito essa herança. Como eram esses atos
institucionais? Como eram os atos da ditadura? Uma de suas
características era ser secreto. Criavam artigos para a lei
brasileira que eram secretos, tão secretos quanto o foram os atos
secretos do Presidente do Senado. E quem era o Presidente do
partido do governo quando foi votada essa Lei da Anistia, proposta
pelo Gen. Figueiredo? José Sarney; o mesmo responsável pelos atos
secretos de hoje, no Senado brasileiro. Ou seja, não basta o
direito à verdade, e é a isso que precisamos chegar: não basta. E
é o que a OEA mostrará ao Estado brasileiro, caso não faça nada.
Nós precisamos punir os responsáveis por esses crimes e
necessitamos reformar as nossas instituições.
A Sra. Coordenadora - Lerei mais duas perguntas. A primeira é do
Ricardo Henrique para o Andrey: “Tive um irmão que foi preso por
desacato a autoridade em agosto de 1980, e até hoje não
reapareceu. Com certeza foi morto. Esse crime já prescreveu?”. A
segunda pergunta é da Vanda, dirigida à Mesa: “Atualmente, até que
ponto os militares, especificamente, exercem censura aos
familiares e vítimas da ditadura? É de maneira incisiva, direta?”.
O Sr. Andrey Borges de Mendonça - Meus pêsames ao Ricardo
Henrique, pelo irmão. Certamente o crime de desaparecimento do seu
irmão não está prescrito, Ricardo, porque essa decisão do Supremo,
que mencionei, foi tomada há menos de um mês. E diz-se que nessas
hipóteses em que há desaparecimento, enquanto o corpo não
reaparecer, não se inicia a contagem do prazo prescricional para o
crime. Só quando o corpo aparece é que começa a contar o prazo
prescricional, que, no caso do homicídio, são 20 anos, e há também
a conduta do sequestro. Então, a conduta do desaparecimento do seu
irmão não está prescrita. Nesse caso, como é posterior à Lei de
Anistia, não há que se falar em aplicação dessa lei, embora o
Superior Tribunal Militar a tenha aplicado de maneira totalmente
equivocada. Eles aplicaram a Lei da Anistia para fatos que
ocorreram após essa lei, como no caso do Riocentro, o que era
totalmente equivocado. Vê-se aí como há uma distorção dessa lei.
Aliás, em relação à extradição do Maj. Cordeiro para a Argentina,
que expus para vocês, um dos Ministros do Supremo negou a
extradição sob o argumento de que aquele fato praticado na
Argentina teria sido abarcado pela Lei de Anistia. Vejam o
absurdo: além de aplicarem a Lei de Anistia no Brasil, queriam
aplicar também extraterritorialmente, assegurando assim a
impunidade em todo o mundo. Aí se vê como a Lei de Anistia é
deturpada. Certamente os interesses que estão por trás é que levam
a esse tipo de interpretação equivocada.
Então, Ricardo, o que sugiro em relação ao seu irmão - não sei se
há uma apuração - é que você faça uma representação. Todo cidadão
tem direito de fazer representação aos órgãos públicos. O
Ministério Público Federal pode receber essa representação e tomar
as providências cabíveis, caso entenda dessa forma. A competência
é federal, pois, nesse caso, a atuação era do Exército, que
coordenava essa atuação repressiva. Em razão disso, o nosso
entendimento é que a competência seja federal. Sugiro, então, não
apenas ao Ricardo, mas a todos aqueles que têm algum parente
desaparecido ou provas relacionadas à época da ditadura, que são
testemunhas, que tiverem interesse, que compareçam ao Ministério
Público ou poderão entrar em contato pelo “e-mail”
andreyborges@yahoo.com.br, que darei maiores esclarecimentos.
Os interessados também podem procurar o Ministério Público
Federal da sua cidade. Posso fazer esse encaminhamento formal.
Em relação à pergunta sobre a força que os militares exercem
sobre as famílias, o Edson tem mais gabarito para respondê-la, mas
posso afirmar que, ao contrário do que muitos pensam, os militares
têm muita força. Alguns pensam até que não teriam força para tomar
o poder. O Edson mencionou muito bem o artigo da Constituição que
dá uma margem. Se levantarmos a cabeça para a América Central,
identificaremos o que está acontecendo em Honduras, país que
passou por um regime ditatorial e sofreu um golpe.
Uma das medidas da transição é justamente evitar a repetição. Por
isso, é importante que as pessoas não estejam na ativa. Os
militares devem ser expurgados dos órgãos públicos.
Estamos falando das vítimas. De modo geral, os militares ainda
têm poder nos bastidores. Tanto é verdade que há uma convenção da
OEA que trata dos desaparecidos forçados e diz expressamente que,
nesses casos, o crime é imprescritível, o que significa que a
prescrição só começa a contar quando o corpo aparece. O
ordenamento nacional estabelece isso, e o Supremo decidiu nesse
sentido. Mas havia certa divergência quanto a essa decisão,
justamente por pressão dos militares. Não sou eu quem diz isso,
mas o Belisário dos Santos Júnior, ex-Secretário do governo de São
Paulo. Ele diz que esse tratado de desaparecimento dos forçados
não foi incorporado até hoje, embora o Brasil o tenha assinado em
âmbito internacional, em virtude da pressão dos militares.
O Sr. Edson Luís de Almeida Teles - De certa forma, já falei
sobre esse excessivo poder que os militares ainda detêm sob a
democracia. Parece que a pergunta se relaciona também à censura.
Retomaria uma outra questão porque é muito importante que fique
clara: uma das maiores censuras dos militares à democracia
brasileira é a não abertura dos seus arquivos. Alguns arquivos de
Dops estaduais foram abertos, com deferências, pois, às vezes,
apenas os familiares, as pessoas diretamente citadas ou os
pesquisadores tiveram acesso às informações. Recentemente, o
arquivo do CNI foi entregue à Biblioteca Nacional, salvo engano,
do Rio de Janeiro. Um Ministro citou que, a partir de então, os
arquivos da ditadura haviam sido abertos. Essa não é a absoluta
verdade. Ainda não foram abertos os arquivos das Forças Armadas.
Há alegações na mídia de que não existem arquivos, que os
militares não anotaram as ações criminosas e de guerra, como no
Araguaia, ou simplesmente eliminaram, queimaram os arquivos. Isso
parece uma grande falsidade, assim como querem falsear a história
do Brasil.
Imaginem uma instituição tão hierarquizada como a militar, na
qual você não tem como passar uma ordem de um segmento a outro se
não for por escrito, se não estiver registrada, se não houver um
modo claro, ainda que codificado por militares, de transmissão
dessas ordens. Então esses arquivos existem. Foram queimados na
transição, assim como podem ter limpado o Araguaia em relação aos
restos mortais? Pode ser, porém a Constituição Brasileira diz que,
além desses arquivos terem de ser públicos, aquele que por algum
motivo provocar danos a eles estará incorrendo em crime. Então, se
algum militar está assumindo que queimou arquivos, cabe ao
Ministério Público, ao próprio Estado brasileiro processá-lo,
porque é crime queimar arquivos do Estado. De qualquer forma, não
acredito nessa versão. Vemos o Curió aparecendo com vários
arquivos militares da época da guerrilha. Esses arquivos estão aí.
Podem não estar mais naquele arquivo metálico, dentro do quartel,
na salinha do Comandante, mas eles existem, e essa é a maior
censura que os militares ainda fazem à sociedade brasileira.
A Sra. Coordenadora - Agora vou abrir a palavra às perguntas
orais das três últimas participações que temos aqui. Primeiro, o
Deputado Carlin Moura, depois, o Francisco e o Leonardo Péricles.
O Deputado Carlin Moura - Primeiramente gostaria de destacar que
a composição da Mesa hoje, especialmente dos dois debatedores, o
Dr. Andrey e o Sr. Edson, é a junção de um movimento de mão dupla,
convencer o mundo jurídico de alguns princípios e a própria
sociedade. É fundamental deixar claro, e de forma pedagógica, que
a anistia é para a pessoa que cometeu crime político, e não para o
agente público do Estado que praticou ato que lesa direito humano,
que tortura. A tortura não é crime político, é crime contra a
humanidade. É muito importante que a sociedade, como um todo,
compreenda isso. Só assim vamos consolidar uma visão no mundo
jurídico. Todos os tratados internacionais que dizem respeito à
anistia - a Declaração Universal dos Direitos do Homem, o Tratado
de Nuremberg, o de Roma - sempre tiveram essa visão. O Brasil
criou essa questão da alta anistia.
Uma segunda coisa é o direito à memória, o direito à verdade,
fundamental para se consolidar a democracia. O Brasil está vivendo
sua redemocratização, o maior período ininterrupto de vida
democrática. Temos 21 anos de redemocratização, o que ainda é
recente. Então é preciso garantir que o direito à verdade e o
direito à memória sejam exercidos, porque sem isso não se constrói
uma democracia. Não se pode trabalhar democracia com tabus. A
democracia não admite tabus. Imaginem vocês, seus familiares, os
militantes de partidos políticos... Sou militante de um partido
político, com muita honra, sou militante do PCdoB. Tenho como
referência essa juventude que um dia largou tudo para lutar no
Araguaia. Tenho o direito de saber o que levou ao assassinato, à
tortura, à barbárie contra esses jovens, contra essas pessoas que
acreditaram num país melhor, que lutaram contra um regime
opressor. É fundamental que a sociedade brasileira compreenda
isso, pois só assim teremos o mundo jurídico assimilando essa
visão.
Quero direcionar minha pergunta ao Dr. Andrey, com o objetivo de
apertar um pouco mais as instituições Ministério Público Federal e
Procuradoria da República. Sei que o senhor não está aqui para
representar essa instituição, mas, ao ouvir a fala do Edson,
percebemos muito claramente que hoje a sociedade civil está um
passo à frente do ponto de vista da defesa desses direitos. Temos
a atuação da comissão dos familiares. Parece que deram um passo
bem mais à frente. Quero referir-me a dois aspectos emergenciais,
mas não menos importantes. O primeiro diz respeito à abertura dos
arquivos, e o segundo ao direito de encontrar os corpos,
especialmente no Araguaia, onde acredito haver maior número de
pessoas não identificadas. O que a Procuradoria da República tem
feito em relação a esse aspecto? Sei que o Dr. Andrey é um
estudioso do assunto, mas gostaria de saber essas informações do
ponto de vista institucional. No mais, quero dizer que esse
seminário realizado pela Comissão de Direitos Humanos é
fundamental, pois dá uma grande contribuição à nossa verdadeira
democracia, que só será consolidada com o amplo direito à verdade,
à memória e ao combate aos tabus estabelecidos nos últimos anos.
O Sr. Francisco de Assis Alves - Boa tarde a todos. Cumprimento a
Mesa na pessoa do Deputado João Leite. Tinha muitas coisas a
falar, mas já fui muito contemplado aqui hoje. Sou anistiado. Fui
preso político de 1969 a 1971. Estamos resgatando o que aconteceu
com a nossa favela na Av. Raja Gabaglia, onde está o quartel do
Exército, o Departamento de Polícia Federal e o Clube do Exército.
Tudo ocorreu ali. Sairá um pouquinho dessa história no jornal de
esquerda “A Verdade”. Sou militante de esquerda desde os 16 anos.
Gostaria de deixar um pedido aos Deputados Carlin Moura e João
Leite. Precisaremos de pelo menos 200 exemplares desse jornal para
levarmos para as famílias que viveram ali e que ainda têm alguns
parentes vivos. O objetivo é que eles possam ler um pouquinho
dessa história, que foi editada pela Fafich. Eles começaram em
1967, mas não puderam terminá-la. Essa história conta 99% do que
passamos ali, cercados. Vivemos ali como num campo de
concentração.
Deixo um pedido registrado: precisaremos de 200 exemplares a
R$1,00 cada. Como nós, anistiados, nunca temos emprego em Belo
Horizonte, também não temos dinheiro para comprar esse jornal.
Quero saber se posso voltar aqui no mês que vem, quando saírem os
exemplares. Quando o Deputado João Leite foi candidato a Prefeito,
tive o privilégio de ser candidato a Vereador. Pelo fato de ter
sido um preso político, não pude concorrer à eleição. Ou seja,
concorri “sub judice”. Estou protestando aqui, mas isso já passou.
Não fiz uma campanha, mas, ainda assim, tive 1.414 votos. Agradeço
a todos a oportunidade.
O Sr. Leonardo Péricles - Boa tarde a todos os componentes da
Mesa e aos demais presentes. Já falei pela manhã. Sou Diretor da
União Nacional dos Estudantes - UNE - e militante do Partido
Comunista Revolucionário.
Saúdo os representantes da Mesa por suas exposições que serviram
para elucidar vários fatos e pontos importantes para nós. Antes de
fazer a pergunta, gostaria de fazer algumas considerações. A
primeira diz respeito à importância de, ao falarmos em ditadura,
ressaltarmos o motivo de ela ter surgido, pois há muitas pessoas
que não sabem.
A ditadura veio para impedir o avanço dos movimentos sociais
organizados, impedir que a luta revolucionária que estava em curso
no nosso Brasil desde a década de 50 até início da década de 60
revertesse o rumo que o Brasil sempre teve nos 500 anos de
exploração aqui. Ou seja, que o povo assumisse o poder.
Efetivamente, foi para garantir que os grandes monopólios, que a
grande burguesia, que os ricos deste país continuassem dominando e
explorando, como fazem até hoje. É importante ressaltar isso.
Houve ditadura por causa disso, ela foi articulada pelas grandes
burguesias para impedir o avanço da luta do povo brasileiro.
A outra coisa é a importância de como ela foi derrotada. Isso
também é fundamental. Efetivamente, sou capaz de questionar o que
aconteceria se não tivesse havido a luta armada, tamanha a sua
importância, pois os companheiros que participaram, que foram
mostrados no vídeo, têm muito orgulho de falar sobre isso. Aliás,
essa luta armada em que vários camaradas foram eliminados deu
condições para mudança da correlação de forças. Então, a luta
armada dos anos 60 e 70 foi determinante para que, no final dos
anos 70, o povo começasse a se rearticular e conseguisse derrotar
a ditadura nas ruas. Isso porque, embora o Geisel e outros
falassem que haveria uma abertura gradual, quem derrotou a
ditadura foi o povo, nas ruas. Foram milhões de pessoas, em
manifestações, na luta, para poder derrubar a ditadura militar. A
reconstrução da própria entidade de que participo tomou parte, com
10 mil estudantes, debaixo da ditadura militar, em Salvador, mesmo
sem a ditadura permitir. Houve movimentos de várias entidades,
greves dos trabalhadores. A ditadura não permitia, mas aconteceram
movimentos, e a ditadura foi derrubada. Creio que também é
importante ressaltar isso.
Outra coisa é quanto ao esquecimento, que foi apresentado.
Acredito que o esquecimento não é natural. Ele é imposto,
principalmente pelos grandes meios de comunicação. E sem
maniqueísmo. Efetivamente isso acontece, é organizado para que as
pessoas não tenham memória. Por que não se ensina quem foram esses
grandes camaradas, apresentando-os nos “banners” nas escolas?
Deveriam ensinar a história de cada um. Os estudantes deveriam ter
acesso e saber quem foram essas pessoas. Todas as praças, ruas, em
todos os lugares desse Brasil deveria haver fotos, imagens desses
companheiros, para que ninguém esqueça isso que aconteceu em nosso
país. Porém, isso é organizado para não acontencer. E ainda, em
relação à memória, é importante ressaltar que a ditadura militar
não foi só essa de 1964. Não, houve outras. Também o Estado Novo,
recentemente. Em termos de história, houve o Estado Novo, houve
tortura, houve prisão, houve perseguição ao movimento de esquerda
e também ao povo brasileiro, efetivamente. Quando os companheiros
falam sobre nome de ruas, vale lembrar nome de escolas, de
torturador, o que é impressionante. Não só de torturadores da
ditadura militar de 1964, mas também do Estado Novo. Lembro-me de
que vi uma escola cujo nome era Filinto Müller, em São Paulo.
Aliás, os estudantes estavam-se organizando para mudar o nome da
escola. Não faz sentido uma escola, um espaço do saber, ter o nome
de torturador, de ditador.
Para finalizar, em relação à memória, importante também é a
questão da impunidade. Esse fator organizado fez com que a
impunidade continuasse. Creio que essa impunidade no nosso país
alimenta, dá as condições para que hoje continuemos tendo tortura,
prisões e mortes de pessoas, organizadas pelo Estado brasileiro. E
isso é, efetivamente, uma violência contra os pobres, contra os
trabalhadores. Agora a minha pergunta à Mesa. Efetivamente o povo,
por intermédio dessas mobilizações, conseguiu gerar as condições
para que tivéssemos um Presidente operário, o Lula, e um governo
aparentemente de esquerda. Pelo menos foi eleito com essa posição.
Ficamos estarrecidos porque cada posição do governo é contrária,
muitas vezes, ao que historicamente se defendeu. E nesse campo da
ditadura é importante ressaltar que muito pouco foi feito para
mudar. Queria que os companheiros comentassem qual a justificativa
que o governo dá para não abrir os arquivos, porque, se os
militares não querem abrir, o problema é deles, mas o Presidente
da República, de um partido que pelo menos diz que é comprometido
com os trabalhadores, tem a responsabilidade de resolver esse
problema e não resolve. Peço aos companheiros que comentem um
pouco sobre isso. Muito obrigado.
A Sra. Coordenadora - Obrigada, Leonardo. Passaremos primeiro
então para o Andrey, que responderá as perguntas para o Deputado
Carlin Moura e para o Leonardo.
O Sr. Andrey Borges de Mendonça - Quero agradecer as perguntas.
Em relação ao Deputado Carlin Moura, questiono também a
participação do Ministério Público. Questiono e dou a mão à
palmatória de que ainda muito pouco se fez. Estamos ainda
engatinhando nesse processo, mas, como sou otimista por natureza,
vejo o lado positivo: a atuação veio tarde, demorou, mas, junto às
famílias e a comissão dos desaparecidos, teve um lado muito
positivo, que foi trazer o debate e ajudar que ele seja trazido à
tona. Por esse aspecto, parece-me que a atuação do Ministério
Público foi importante. Mas sei que, para falar ao vento - já
dizia o Pe. Vieira -, bastam palavras, mas, para falar ao coração,
são necessárias obras. Concordo que temos de fazer muitas coisas e
confesso que há pouco tempo entrei nessa luta. E entrei pela
atuação de alguns colegas que me incentivaram, que me tocaram, e
penso que o primeiro passo é instigar não só o Ministério Público
e os outros colegas, mas também a sociedade sobre a importância do
passado. Por isso, sempre começo dizendo que esse não é um assunto
do passado e jamais será. Essa segmentação, essa discussão deve
ser amadurecida. Estamos em um processo e - tenho convicção, já
disse que sou otimista - chegaremos a um momento em que atuaremos.
De maneira mais pontual, o que poderia dizer em relação à
abertura de arquivos é que o Procurador-Geral da República - e de
certa forma toco aqui na questão do Leonardo - entrou com uma ação
direta de inconstitucionalidade contra a Lei nº 11.111, salvo
engano, que é a lei dos arquivos, a última do governo Lula, que
prorroga indefinidamente os arquivos ultrassecretos e diz que uma
comissão pode prorrogar por mais 30 anos, que depois pode
prorrogar por mais 30 anos, e assim vai, ou seja, como eu disse,
aquele horizonte que, quanto mais caminhamos, mais distante fica.
Então, foi proposta uma Adin contra essa lei porque, além do
argumento de fato, que também não me convence, de que foram
destruídos, há o argumento de que esses arquivos seriam
importantes para a segurança nacional e para a defesa da ordem
jurídica. São argumentos tão genéricos quanto perigosos.
Em relação ao encontro de corpos, confesso que não sei se o
Ministério Público atuou da Guerrilha do Araguaia. Nas buscas,
creio que não houve participação. Mas, ao menos da vala de Perus,
o Ministério Público teve uma participação: foi encontrado um
cemitério clandestino em São Paulo há alguns anos e lá foram
identificados os corpos de algumas pessoas. E até hoje estão
tentando identificar, tanto que houve um espanhol identificado
recentemente - o Edson certamente saberá dizer melhor. E por que
cito esse espanhol? Para fazer um gancho com o que o Edson estava
dizendo: que, se o Brasil negar-se, ao final, a apurar essa
responsabilidade, temos a via da Justiça universal, que foi a
mesma Justiça que apurou a conduta do Pinochet. Se o Brasil,
eventualmente, não apurar, pelo menos podemos, especialmente com
esse caso desse espanhol, levá-lo às cortes da Espanha e pedir que
eles expeçam uma ordem de prisão contra os eventuais responsáveis,
de forma que ao menos fiquem presos dentro de seu próprio país.
Com relação à pergunta do Sr. Leonardo, é difícil encontrar uma
justificativa para o governo não ter feito mais, já que
esperávamos mais. O governo fez um livro, que não sei se é
conhecido por todos: “O Direito à Memória e à Verdade”, da
Secretaria Especial de Direitos Humanos. Quem tiver interesse pode
entrar no “site”. Esse livro não é completo, mas conta a história
e as circunstâncias da morte e do desaparecimento político de
pessoas envolvidas. Esse passo foi importante, mas me parece que a
atuação parou por aí. Voltamos a alguns fatores já levantados: a
influência dos militares; o fato de talvez o poder público não
querer se indispor com esses militares, que ainda têm muito poder;
e o risco, talvez, da tese da via de mão dupla, que sempre é
levantada. Falam sobre os argumentos dos torturadores. A Profa.
Cláudia Perroni registra a tese dos dois demônios. Dizem que todos
- os resistentes e os militares - estavam errados; ou não se pune
ninguém ou, se for aplicada punição, que se punam os dois lados.
Para mim, essa lógica é equivocada. Quem praticou crime contra a
humanidade foram só os agentes públicos. Eles usaram o Estado para
uma perseguição sistemática. Eventualmente, se houve abusos - não
entrarei nesse mérito -, por parte de alguém da resistência, esse
teria de ser punido, caso se caracterizasse o crime, embora o
crime hoje já estivesse prescrito por não ter sido contra a
humanidade. Não podem ser colocadas num mesmo patamar as pessoas
que se encontravam resistentes ao sistema, que estavam lutando, a
princípio, de maneira pacífica, tendo sido posteriormente levadas
às armas, com aqueles que eram agentes do Estado e torturaram,
mataram e desapareceram com pessoas. Eles não estão no mesmo
patamar. Por que estou dizendo isso? Especialmente em razão da
candidata ao Planalto para o próximo ano. É público que ela já
participou de assaltos. Como ela participava dos movimentos,
talvez o governo tenha medo dessa ideia de se punirem os dois
lados, pois poderia haver desgaste. Não sei qual a impressão do
Edson, mas me parece que essa é a justificativa - na verdade, nem
há justificativa.
Tratarei de mais uma questão que não sei se foi proposta pelo
Leonardo. Participei da reunião da manhã como ouvinte, quando
foram expostas muitas questões importantes. Esqueci-me de falar
sobre a necessidade de nos questionarmos sobre se a participação
foi apenas militar. A ditadura foi somente militar? É muito cômodo
para a sociedade civil, que aparentemente não se envolveu nos
crimes, falar em ditadura militar e afirmar que não tem nada a ver
com ela. Essa não é a verdade. Há provas de que empresas
participavam ativamente do financiamento de atividades,
especialmente à época da Operação Bandeirantes - Oban. A Ultragaz
é uma dessas empresas, não a única. Muitos bancos financiavam
operações da Oban. Alguns empresários sádicos até presenciavam
torturas no DOI-Codi. Temos realmente de questionar se a ditadura
foi apenas militar ou se foi civil e militar. Só os militares
deverão ser responsabilizados? As empresas não deveriam ser
punidas, mesmo que apenas com a divulgação de seus nomes? Deveriam
ser publicados os nomes das empresas que financiaram a tortura,
para que a sociedade pudesse exercer seu legítimo direito de
boicote, o que, no Brasil, é pouco utilizado. Sabendo que o banco
tal financiou a ditadura, as pessoas conscientes estimulariam seu
boicote. Esse instrumento infelizmente é pouco utilizado no País,
embora seja muito útil. Esses empresários, que não são bobos,
sabem da responsabilidade de sua participação e não têm interesse
algum em que a verdade seja desvendada. Há interesses econômicos
por trás disso. Muito obrigado.
O Sr. Betinho Duarte - Maressa, um aparte de meio segundo, apenas
para reforçar uma questão que ele abordou.
Carlin, na verdade, quando você questiona sobre o que o
Ministério Público fez, eu tenho um documento aqui, a “Revista da
Anistia”, que me foi entregue no Rio de Janeiro, sábado passado,
quando lá estive. Aliás, trata-se de uma revista fantástica. Temos
aqui uma solicitação do Ministério Público Federal, da
Procuradoria da República em São Paulo, feita em 4/7/2008, ao
Centro Internacional para a Justiça Transicional de um parecer
técnico sobre a natureza dos crimes de lesa-humanidade, a
imprescritibilidade de alguns delitos e a proibição de anistias. E
o parecer é exatamente esse que estamos afirmando aqui agora. O
crime de lesa-humanidade é imprescritível. Então existe uma
iniciativa do Ministério Público e uma resposta oficial do Centro
Internacional para a Justiça Transicional. Trata-se de um
documento importantíssimo, muito valioso, para a gente punir os
torturadores brasileiros. Muito obrigado.
O Sr. Edson Luís de Almeida Teles - Quanto à questão do Deputado
Carlin, foram ditas algumas iniciativas do Ministério Público,
mas, assim como funcionam as outras instituições - e a Assembleia
Legislativa também provavelmente -, nós temos um sujeito que age
dentro dela. Nós, familiares, temos presenciado, no Ministério
Público, que há alguns Procuradores que estão, efetiva e
honestamente, abertos à aplicação do direito à memória e à
justiça. Não é apenas ao direito à memória, mas também ao direito
à justiça. Eles têm trabalhado conosco nesse sentido e têm
trabalhado também por conta própria. Nas vezes em que estivemos na
região do Araguaia em busca de informações, nós, familiares,
tivemos a companhia deles. Foram presenças fundamentais. Em 2001,
quando estive lá, fomos ameaçados por ex-guias do Exército da
época da guerrilha. Até aquele ano, o Exército brasileiro ainda
pagava cesta básica mensal para essas pessoas. O Exército
brasileiro tinha uma casa secreta, clandestina, paga com dinheiro
público, onde eles faziam esses pagamentos de bolsa e conversavam
com as pessoas. Enfim, era onde eles coordenavam essa pressão na
região do Araguaia. Quem foi que entrou lá com aquilo que a lei
lhe permite e desfez esse absurdo? O Ministério Público. Ao mesmo
tempo que há esse tipo de iniciativa, também existem pessoas no
Ministério Público - e penso que talvez seja a maioria ou uma
parte considerável - que não querem mexer com isso. Acredito
também que há Procuradores, como o Marlon e a Dra. Eugênia, que
recebem pressão dessas pessoas. O Deputado, como político, sabe
bem sobre isso, que se trata de uma relação política, eles estão
no meio desse embate político. Especificamente quanto ao caso das
buscas do Araguaia, nós, familiares, exigimos do Estado brasileiro
que, ao invés de colocar um General no comando dessas buscas, seja
colocado o Ministério Público. Se tem alguma instituição na
Constituição Brasileira que tenha autonomia garantida pelas leis e
pelo Estado, essa é o Ministério Público. Ele tem um grande papel
a exercer, se a sociedade brasileira montar no Brasil uma comissão
de verdade. Eu acho que o Ministério deveria estar presente,
porque ele tanto tem essa proteção da lei, como também tem o
recurso do Estado e uma autonomia em relação a ele. Não é à toa
que, pelo que me parece, a resposta do Estado brasileiro foi não
colocar o Ministério Público nessa comissão de busca, porque eles
têm um compromisso com a transparência muito maior. A pergunta que
diz por que um governo de esquerda não abre arquivos e outras
medidas mais é muito difícil de responder. Você, como militante de
um partido, deveria jogar essa questão para o seu partido, para
que ele nos ajude a encontrar uma resposta para isso. O Deputado
Carlin Moura, que é de um partido de esquerda, também está ao lado
deste governo federal e, ao lado de vocês, pode nos ajudar a dar
essa resposta, que eu não tenho. O que tenho, como experiência de
famílias de mortos e desaparecidos, é que, assim como no
Ministério Público, há pessoas que estão engajadas nessa luta e há
pessoas que não, sejam elas de esquerda ou não.
O Sr. Leonardo - Tenho uma opinião importante sobre o porquê de o
governo não fazer. Ele não faz porque está comprometido mais com
os interesses desses que até financiaram isso. Não é à toa que
existem pessoas como o Sarney e outros que foram da ditadura e que
são apoiados pelo governo. Além disso, o discurso do Presidente
Lula, defendendo o Sr. Sarney, é ridículo.
A minha pergunta foi: qual a justificativa que hoje o governo dá
a vocês para não abrir os arquivos? Digo isso porque, em cada
lugar, eles falam uma coisa. Existem pessoas sérias e
comprometidas no governo, que defendem e vêm fazendo um trabalho
muito bom, como é o caso do Ministro Paulo Vanucci, com várias
posturas importantes, mas também existem os outros. Fato é que em
cada lugar eles dão uma justificativa. Há uma justificativa
concreta que eles dão a vocês para não abrir os arquivos da
ditadura? Essa é a pergunta.
O Sr. Edson Luís de Almeida Teles - Especificamente em relação
aos arquivos, as justificativas não são dadas aos familiares. Na
verdade, elas são dadas de um modo geral a toda a sociedade por
via da mídia. Por vezes os familiares se encontram com
representantes do Estado, mas a justificativa principal, quer
dizer, aquela que vem como argumento nessas leis e decretos do
Estado brasileiro, é a questão da segurança nacional. Há
informações nesses arquivos que poderiam colocar em jogo a
estabilidade da democracia. Parece-me que o que está em discussão
e em debate e que deve ser levado à reflexão é sobre qual
democracia estamos falando. Você, Leonardo, eu, Edson, e você,
Estado brasileiro, Presidente, Ministros e todos nós. A sociedade
brasileira precisa se debruçar sobre essa questão, porque se for
uma democracia baseada em atos autoritários, de fato, desvendar os
crimes da ditadura se torna perigoso, podendo causar uma
instabilidade para o País. Entretanto, se for uma democracia que
tenha por base valores éticos, de respeito aos direitos das
pessoas, ao direito à verdade e à justiça, por exemplo, é
fundamental que se abram esses arquivos. A justificativa que
aparece na mídia é justamente essa questão da segurança nacional,
mas ela está relacionada à qual democracia queremos para o nosso
país?
Recentemente estive num debate com um membro do Centro de Justiça
Transicional e o Marlon, Procurador da República, e um advogado
levantou a questão de que, para se aplicar o direito à verdade e à
justiça no Brasil, é preciso que a opinião pública e a mídia
apoiem essas iniciativas. Assim, gostaria de alertá-los sobre
esses valores éticos dos quais falei, que não estão em negociação.
Você negocia os seus valores éticos, isto é, você barganha, diz ou
pensa quando reflete sobre eles, nas vantagens que terá se agir
contra ou de acordo com eles? Não se trata de saber qual é a
vantagem que o Brasil tem em aplicar o direito à verdade. É um
assunto que pode ser tratado; trouxe aqui uma questão. Vantagem
não é só uma terapia para os familiares, é um aprofundamento do
sistema democrático. Mas o direito à verdade e à justiça deve ser
aplicado, independentemente de qualquer cálculo racional e
matemático para as instituições políticas. É um direito de cada
cidadão. E tem mais: tudo o que tem aparecido hoje, essa história
toda de luta, o Instituto Helena Greco, todas essas pessoas
envolvidas, como o Betinho e a Suzana, são conhecidas e estão na
mídia hoje, mas, na maior parte do tempo, estiveram entre poucos e
tomando iniciativas sem apoio algum da mídia, da opinião pública.
Durante a ditadura, essas pessoas foram atrás de seus familiares
desaparecidos, presos ou já mortos, com o Estado brasileiro
ditatorial em cima delas. Quando se faz a opção por uma luta que
tem valores éticos bem claros, não se faz a conta da vantagem, de
quanto ganhamos com isso, de quantas vezes isso aparecerá no
jornal amanhã; fazemos isso porque é justo. É preciso que esteja
bem claro na cabeça de cada um de nós, é importante transmitirmos
isso, porque não se trata de obter privilégios, ganhos, como, às
vezes, aparece na mídia.
A Sra. Coordenadora - Obrigada. Essas foram as últimas
participações da plateia. Gostaria de encerrar a minha
participação, agradecendo aos nossos expositores, ao Edson, ao
Andrey, ao Deputado João Leite, que preside esta Mesa, e a todos
vocês. Para encerrar esse ciclo de debates, quero fazer um
agradecimento especial à Bizoca e ao Deputado Durval Ângelo. De
certa forma o Instituto Helena Greco, a Assembleia e o Escritório
de Direitos Humanos iniciaram esse movimento para que acontecesse
esse momento de reflexão dos 30 anos de Anistia, com a agregação
de parceiros. Foi muito válido esse momento para refletirmos se
realmente é essa a anistia que queremos - certamente que não -, se
deixaremos dessa forma uma lei que não nos satisfaz ou que não nos
satisfez.
Deixo aqui uma reflexão do George Orwell, escritor inglês -
certamente vários o conhecem. Em seu livro sobre o Grande Irmão,
“1984”, existe uma frase que ilustra bem esse debate que fizemos:
“Quem controla o passado controla o presente e quem controla o
presente controla o futuro”. Se queremos realmente uma ruptura
como a que foi feita no passado, precisamos tomar as rédeas a fim
de construirmos outro futuro. Gostaria de encerrar agora. Passo a
palavra ao Deputado João Leite. Muito obrigada a todos.
O Sr. Presidente - Obrigado. Quero agradecer muito à Maressa
Miranda, que coordenou essa Mesa com tanta competência, dando-me a
oportunidade de ouvir as apresentações, especialmente o que trouxe
para nós o Procurador Andrey, a quem agradeço muito. Agradeço
também pela oportunidade de ouvir o Edson Luís de Almeida Teles,
que nos trouxe o sentimento das famílias, que é um sentimento
importante, vivo, da perda, do desaparecimento. Essas coisas não
têm como prescrever mesmo. A perda, o desaparecimento de alguém é
algo que marca muito. Esse momento foi muito rico e mostrou-nos a
nossa responsabilidade neste momento do nosso país. Agradeço muito
a presença de todos.