KARIN LILIAN STROBEL, Pedagoga. Professora especializada em educação de LIBRAS do CRESA do Paraná PR.
Discurso
Legislatura 14ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 17/01/2002
Página 22, Coluna 2
Evento Ciclo de debates: "A Educação que nós, surdos, queremos".
Assunto EDUCAÇÃO. DIREITOS HUMANOS. PESSOA COM DEFICIÊNCIA.
164ª REUNIÃO ESPECIAL DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª LEGISLATURA, EM 10/12/2001
Palavras da Sra. Karin Lilian Strobel
Boa-tarde. Quem é professor ouvinte de surdos? Quem é surdo? Há muitos surdos. Isso é muito bom! O meu tema é a identidade e a cultura surda. O que seria uma cultura surda? Ela existe? Cada um tem uma consciência e uma identidade. Como essa cultura surda está inserida nessa diversidade? Darei um exemplo. Ouvimos falar que o surdo tem uma cultura diferente da do ouvinte, porque é mais visual. O ouvinte tem uma cultura menos visual. O surdo usa mais a espacialidade e a sua acuidade visual. Não é apenas o surdo que tem uma cultura própria. Há a cultura de uma família alemã, por exemplo, que se difere do grupo em que está inserida. Há a cultura religiosa e a cultura do negro. A sociedade é composta por grupos menores, como, por exemplo, os soldados, que estão inseridos em um grupo composto por outros soldados. Assim, conversam sobre os mesmos assuntos e têm os mesmos interesses. Falam sobre armas, sobre bombas e sobre escaladas. Há a cultura dos civis, que estranham a conversa dos soldados por falarem tanto sobre armas e se sentirem bem.
Aí temos um bom exemplo de uma cultura menor inserida em uma maior. Muitos ouvintes não conhecem a cultura do surdo, pois a sociedade é ouvinte. Mas o surdo se sente honrado em estar inserido nesse grupo menor, com sua cultura própria. Ele precisa participar de um grupo minoritário, identificando-se com esse grupo, para construir sua própria cultura e, conseqüentemente, sua identidade. Por exemplo, eu sou mulher e me identifico com as mulheres; sou profissional e identifico-me com os profissionais de minha área; sou católica e identifico-me com minha Igreja; sou de uma cultura alemã e, ainda, surda, identificando-me com a cultura surda.
Cada pessoa precisa desenvolver sua identidade, e a identidade do surdo é muito importante. Ela se dá através do aprendizado da linguagem de sinais e do convívio com iguais. Se a pessoa não tem identidade, não tem língua, é impossível integrar-se em uma sociedade maior. O surdo que aprende a língua de sinais e que freqüenta associações, escolas, enfim, a comunidade dos surdos, irá desenvolver opiniões mais seguras, será mais ativo e construirá uma identidade surda.
Essa situação é muito diferente da vivida por um surdo que não tem acesso à língua de sinais, não discute política, e não tem opinião própria. O surdo que tem esse acesso tem maior segurança e auto-estima, por isso é muito importante que as crianças surdas convivam com iguais. Elas precisam de modelos adultos, para com eles se identificarem. A maioria das famílias com crianças surdas são ouvintes e não estão preparadas para conhecer a cultura surda e a língua de sinais. É fundamental que elas se aproximem dessa comunidade, para conhecê-la e, através do conhecimento, auxiliar as crianças a acessar a língua de sinais e a comunidade dos surdos, para que possam formar sua identidade.
Aquela pessoa que não se sente pertencente nem ao grupo dos surdos nem ao de ouvintes está na corda bamba. É muito bom nos identificarmos com o surdo e dizermos “Eu sou surdo”. Aquele que não tem acesso à língua de sinais provavelmente não se identificará nem com o ouvinte nem com o surdo, pois não participa de nenhum dos dois grupos e se sente, todo o tempo, discriminado. Ele não tem amigos e, com certeza, sofre muito.
Se o surdo não tem acesso a este modelo, torna-se inseguro, não se aceita, tem vergonha de sua língua, de sua voz e dos erros de português que comete, o que faz com que sua auto-estima caia muito, causando um grande transtorno psicológico. É muito difícil que essa pessoa consiga estar inserida na sociedade de ouvintes, portanto, estará sempre no prejuízo.
Farei um resumo da minha vida apenas para ilustrar. Nasci ouvinte e, devido a uma gripe muito forte e ao uso contínuo de antibióticos, perdi a audição, com três meses. Sou surda profunda, não escuto nada. Quando tinha dois anos, minha mãe, muito preocupada com minha escolaridade, encontrou uma única escola no Paraná que atendia aos surdos, onde ela me colocou. Era uma escola oralista onde os professores nos ensinavam a falar como se ensina a criança ouvinte a falar. Mas sou surda profunda e tinha que treinar como a professora ensinava o aluno ouvinte. Não tinha identidade surda, não me identificava com aquele modelo e, assim, não tinha comunicação. Falava muito bem, mas como se fosse um papagaio. Tinha uma voz perfeita e era sempre elogiada por isso, mas não sabia responder a nenhuma pergunta. Eu não tinha comunicação, tinha apenas voz e oralidade. Era revoltada por ser surda e por apenas saber copiar o que me mandavam falar. Vivia um conflito interior muito grande. Tinha vergonha da língua de sinais, porque sempre a criticavam diante de mim. Não tinha amigos. Vivia isolada, sempre questionando: “por que Deus me fez surda?”, “qual será o meu futuro?”. Minha mãe, muito preocupada, achou que talvez fosse muito importante que eu participasse da comunidade surda. Quando tinha 15 anos, levou-me à associação.
Cheguei e vi várias pessoas usando a língua de sinais, que eu não conhecia. Fiquei emocionada porque pessoas iguais a mim falavam. Eu, aliás, fui muito bem oralizada. Mas, por meio da língua de sinais, comecei a compreender tudo que se falava, comecei a ter opinião política, participar de política, comecei a ter minha própria opinião.
Por isso luto muito por que as crianças tenham acesso a essa língua de sinais. Como primeira língua, é muito importante que essa identidade seja construída no tempo certo, para que, depois venham a falar muito bem, venham a escrever muito bem, mas precisam primeiro da língua de sinais.
Vou mostrar-lhes algumas etapas, alguns esclarecimentos a respeito da cultura e da identidade surda. Vocês estão me enxergando? Não estou enxergando ninguém.
As pessoas precisam conhecer como é uma pessoa surda. Elas precisam aprender a história da comunidade surda, precisam saber sobre as associações e os movimentos que os representam. Existem personalidades surdas muito famosas. Isso é importante porque temos uma abertura maior para que nos conheçam. É preciso trazer pessoas adultas para o convívio dessas crianças. Por exemplo, babás surdas para crianças surdas, amigos surdos para conviver com crianças surdas. Esse convívio com o surdo é muito importante, para que o surdo não se sinta diferente.
Às vezes, ele vai a um restaurante, chama o garçom, que fica apavorado: “Como vou atendê-lo?”. Mas podemos escrever e conseguimos nos comunicar. O importante é termos uma proximidade com essas pessoas, conviver com associações, freqüentar seminários, congressos, ter acesso à religião. É importante que se contratem professores surdos e qualificados. Existem muitos profissionais que têm uma experiência muito boa com a comunidade surda, que podem acrescentar bastante ao convívio com essas crianças e adolescentes. É importante que o surdo participe de culturas artísticas, para mostrar a sua própria cultura, a fim de que conheçam um pouco mais do seu trabalho e percebam que ele tem essa habilidade profissional muito desenvolvida. Isso tem de aparecer, porque faz parte da cultura. É importante que se publique obras sobre os surdos. Vocês conhecem o livro “Vôo da Gaivota”? É de autoria de uma surda que escreveu a sua biografia. Existe um outro de autoria de um russo, de cujo nome me esqueci, que fala também de sua vida. É importante divulgarmos isso.
Precisamos também acompanhar o desenvolvimento tecnológico. Hoje, temos o TDD, o celular que passa mensagem, a campainha adaptada, a “baby sitter”, o despertador com vibração, o “close caption”, a versão legendada, a babá eletrônica que emite luz intermitente. É muito importante tudo isso, porque faz parte da cultura dos surdos, que precisa ser divulgada e usada. Para se conhecer a cultura surda, é preciso aprender e experimentar a língua dos sinais. Muito obrigada.
O Sr. Presidente - Gostaria de comunicar à comunidade surda de Minas Gerais que tramita nesta Casa o Projeto de Lei nº 1.163/2000, do Deputado Geraldo Rezende, nosso colega do PMDB, que assegura às pessoas surdas o direito de serem atendidas nas repartições públicas estaduais por meio da LIBRAS e dá outras providências. Esse projeto já passou por todas as comissões temáticas da Casa e está pronto para ser incluído na ordem do dia para votação neste Plenário brevemente. É uma lei que deverá facilitar a comunicação da comunidade de deficientes auditivos de Minas Gerais.