KABENGELE MUNANGA, Professor da Universidade do Estado de São Paupo - USP.
Discurso
Discursa sobre o tema do evento.
Reunião
171ª reunião ESPECIAL
Legislatura 14ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 15/06/2002
Página 32, Coluna 2
Evento Ciclo de Debates: "Políticas Públicas, Cotas para a População Negra".
Assunto DIREITOS HUMANOS. NEGRO
Observação Participantes dos debates: Ricardo Alvares, Kleber Alves Machado, Rosa Margarida de Carvalho Rocha, Tita.
Legislatura 14ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 15/06/2002
Página 32, Coluna 2
Evento Ciclo de Debates: "Políticas Públicas, Cotas para a População Negra".
Assunto DIREITOS HUMANOS. NEGRO
Observação Participantes dos debates: Ricardo Alvares, Kleber Alves Machado, Rosa Margarida de Carvalho Rocha, Tita.
171ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 13/5/2002
Palavras do Sr. Kabengele Munanga
Bom dia a todos. Exmo. Sr. Deputado Paulo Piau, Exmo. Sr. Prof.
Aluísio Pimenta, representantes da comunidade negra, senhoras e
senhores, caros colegas e amigos, todos na sala sabem que vim de
muito longe, de um continente chamado África, mas que, no entanto,
não é tão longe do Brasil, uma vez que está presente dentro do
País. Vivo aqui há 27 anos, como pesquisador. Considero-me
brasileiro, pela naturalização e por minha posição e envolvimento
com os problemas do Brasil, principalmente os da comunidade negra.
Não é novidade hoje o seguinte fato: vozes eloqüentes, estudos
acadêmicos, pesquisas quantitativas recentes realizadas por
institutos nacionais respeitados, como o IBGE e o IPEA, não deixam
dúvida sobre a gravidade da exclusão do negro na sociedade
brasileira. E essa exclusão não pode ser debitada apenas aos
fatores econômicos ou classistas, como querem a direita e a
esquerda. Sem dúvida, esses fatores existem, mas, antes deles, vem
o racismo à brasileira, que alguns consideram erroneamente como
resíduo perverso de três séculos de escravidão.
O racismo na sociedade brasileira contemporânea não é mais um
resíduo da escravidão, pois trata-se de algo que se incorporou à
cultura das elites e que se enraizou profunda e maleficamente no
tecido social. As retóricas exclusivamente ideológicas da direita
e da esquerda cometem o erro de ignorar a diferença como elemento
fundamental na estruturação e classificação dos problemas, tidos
apenas como de mercado e de classes, em uma sociedade onde o
racismo, embora não institucionalizado, existe de fato na cultura,
no tecido social e nos comportamentos políticos.
Para combater esse racismo e, conseqüentemente, reduzir a
exclusão do negro na sociedade, não bastam discursos apaixonados.
É necessária a implementação de políticas especiais e pontuais, ou
seja, de políticas de ação afirmativa, de ação positiva ou, como
preferem outros, políticas de discriminação positiva ou políticas
compensatórias.
Ao formular a inevitável indagação “o que fazer?” ou “como fazer
para implementar as políticas de ação afirmativa em benefício do
negro no Brasil?”, a primeira diretriz a tomar é definir o foco da
questão, ou seja, identificar corretamente as medidas capazes de
mudar o quadro de exclusão e, em seguida, estabelecer prioridades
a partir das demandas dos próprios negros, através de suas
lideranças.
A discriminação e a conseqüente exclusão se manifestam em
diversos campos ou setores da vida nacional - educação, mercado de
trabalho, saúde, mídia, cultura, lazer, etc. -, campos esses em
que podemos, a partir de um diagnóstico, definir focos,
prioridades e uma pauta mínima, sem os quais ficaremos presos às
generalidades e às intenções generosas.
Falando de prioridade, cabe dizer que os problemas enfrentados
pela população negra estão umbilicalmente ligados às suas
dificuldades no campo educacional. Criou-se, a esse respeito, um
círculo perverso e vicioso: o negro não pode estudar nas boas
escolas porque ganha pouco e ganha pouco porque não pode estudar;
porém sabemos também que o desenvolvimento econômico não responde
a tudo, pois o negro quer, além da mobilidade econômica, um
reconhecimento e uma cidadania, que, persistindo o racismo, não
vingaram entre nós. Daí, suas reivindicações em torno da
identidade coletiva e da introdução do multiculturalismo no ensino
formal.
Todos os cidadãos precisam de educação no sentido amplo da
palavra, pois é pelo processo educativo integrado no projeto de um
país que se forma um verdadeiro cidadão, consciente de seus
deveres e direitos. É pelo processo educativo, no sentido restrito
da formação escolar através de diversas áreas de conhecimento, que
se formam cidadãos e indivíduos capazes de assumir
responsabilidades no sistema produtivo, nos postos de comando e em
todas as esferas organizacionais do País.
Observa-se que a inserção do negro no sistema educativo
brasileiro de modo generalizado é problemático: problemático
porque ele é pouco representado nesse sistema, e, quando o é, sua
situação só é possível pelo fato de o sistema ser fundamentado
numa visão eurocêntrica, que não contempla a sua história, a sua
cultura e a sua existência humana; problemático porque o livro
didático, que é o melhor instrumento pedagógico, é repleto de
preconceitos; problemático porque os educadores, mediadores
responsáveis por sua educação e formação, são ainda, em sua
maioria, vítimas da educação preconceituosa, eurocêntrica, na qual
foram socializados e formados; por conseqüência, não têm preparo
para lidar com as questões de diversidades e de preconceitos na
sala de aula; problemático porque as relações entre educadores e
educandos, entre alunos negros e alunos brancos, são também
atravessadas pelos preconceitos étnicos ou raciais.
Somados, todos esses problemas constituem pressões psicológicas
que acabam, consciente ou inconscientemente, por eliminar os
alunos negros do sistema do ensino fundamental. As estatísticas
falam por si.
Os poucos negros que, depois dessa seleção artificial, ingressam
no ensino médio ou no 2º grau chegam a ele carregando, em seus
ombros, o peso do saldo negativo do ensino fundamental, entre
outros, os desníveis na formação e as incertezas sobre suas
capacidades, já que lhes ensinaram que são inferiores aos brancos.
Os poucos que, por passe de milagre, conseguem terminar o 2º grau
e pretendem ingressar no ensino superior, universitário, enfrentam
um outro obstáculo no vestibular, considerando a sua fraca
capacidade de competitividade em relação à maioria dos alunos
brancos, formados nas melhores escolas ou cursinhos privados.
Como corrigir esse quadro injusto para que os negros possam
igualmente ingressar em todos os níveis do sistema de ensino
brasileiro sem sofrer exclusão aparentemente econômica, mas que,
no fundo, é de origem étnica ou racial? É essa a questão
fundamental que deveria, em nível nacional, provocar um grande
debate, que desembocaria na elaboração de um projeto nacional
integrado.
É nesse contexto histórico que surgiram as discussões
malcomeçadas sobre a chamada ação afirmativa e o
multiculturalismo, apontados como possíveis caminhos para lutar
contra a exclusão do negro no sistema educativo nacional.
Não faltam as críticas sobre as políticas de ação afirmativa.
Aliás, numa sociedade democrática, não há consenso. Essas críticas
construtivas têm que existir, porque é por meio delas que podemos
realmente construir um país e inventar propostas sólidas.
Alguns dizem, nessas críticas, que é difícil definir quem é o
negro no Brasil, por causa do alto grau de mestiçagem. Daí a
dificuldade de aplicar políticas de ação afirmativa.
Outros dizem que os aspectos morfológicos, como a cor da pele, o
aspecto do cabelo e outros traços podem, hoje, ser inteiramente
modificados, como o fez Michael Jackson. Então, é difícil saber
quem é negro no Brasil.
Podemos recorrer ao estudo da genealogia, mas outros dizem que
recorrer ao exame de árvore genealógica seria fazer ressurgir, no
Brasil, o horror das leis de Nuremberg, inspiradas nas teorias de
Alfred Rosemberg, o ideólogo do regime nazista que quis definir,
com uma precisão científica, apoiando-se em estudo de várias
gerações, os que eram judeus e os que não o eram.
Outros perguntam qual o motivo dessas cotas, se, misteriosamente,
não são também destinadas aos índios e seus descendentes, cujos
direitos foram igualmente violados durante séculos, além de serem
despojados de seus imensos territórios.
A política de cotas raciais poderia prejudicar a imagem
profissional dos funcionários, estudantes e artistas negros, pois
serão sempre acusados de ter entrado por uma porta diferente. Ou
seja, no momento das grandes concorrências, as cotas poderiam
perigosamente estimular os preconceitos. Pior ainda, sob pretexto
de favorecer materialmente uma população desfavorecida, essa
política pode prejudicar os valores mais respeitáveis, isto é, o
orgulho e a dignidade.
Os que condenam as políticas de ação afirmativa ou as cotas que
favorecem a integração dos afro-descendentes utilizam, de modo
especulativo, argumentos fracos, pois acabam por pregar o “status
quo”, ao silenciar intencionalmente as estatísticas que comprovam
a exclusão social do negro. Querem remeter a solução do problema a
um futuro longínquo, imaginando, sem dúvida, que medidas
macroeconômicas poderiam, miraculosamente, reduzir a pobreza e a
exclusão social. E, nesse impasse, os negros só teriam uma saída:
ficar calados e resignados a sua vida precária.
Os responsáveis por recursos humanos nas empresas privadas vão
dizer que os negros não são formados e não são competentes. Mas,
por que, então, não recorrer às diferentes ferramentas de educação
e qualificação para melhorar seu nível de formação e estudo? É uma
prática corrente no seio das empresas. Por que não fazer isso para
os negros?
Os responsáveis pelas universidades públicas dizem que o ingresso
de negros pelas cotas pode levar a uma degradação do nível de seus
ensinamentos, porque eles não têm as mesmas aquisições culturais
dos alunos brancos. Mas acredito que, mais do que qualquer outra
instituição, as universidades são capazes de remediar as lacunas
dos estudantes oriundos das escolas públicas, através de propostas
de uma formação cultural complementar. Elas sabem que podem fazer
isso; têm competência para isso.
A questão fundamental colocada em relação ao estudante negro,
respondendo ao jornalista que me entrevistou, não é a cota, mas,
sim, seu ingresso e permanência na universidade pública. Se o
Brasil, na sua genialidade racista, encontrar alternativas que não
passem pelas cotas, para não cometer injustiças com os alunos
brancos pobres, o que é uma crítica sensata, ótimo! Mas que as
coloquem na mesa de discussão, perante a sociedade e a opinião
nacional, mostrando que são melhores que as propostas de cotas.
Mas dizer simplesmente que implantar cotas é uma injustiça, sem
propor alternativas, em curto, médio e longo prazo, é uma maneira
de fugir de uma questão vital para a população negra e para o
próprio futuro do País. É uma maneira, segundo meu ponto de vista,
de reiterar o mito de democracia racial, embora ela já esteja
desmitificada.