JOSÉ GREGÓRIO., Ministro de Estado da Justiça no período de 2000 a 2002. Secretário Especial de Direitos Humanos. Presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos da Prefeitura do Município de São Paulo - SP.
Discurso
Comenta o tema do 2º painel: "Direitos fundamentais, grupos vulneráveis e
violência".
Reunião
25ª reunião ESPECIAL
Legislatura 16ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 04/09/2010
Página 115, Coluna 1
Evento Fórum Técnico: "Segurança Pública: Drogas, Criminalidade e Violência".
Assunto SEGURANÇA PÚBLICA. DROGA.
Legislatura 16ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 04/09/2010
Página 115, Coluna 1
Evento Fórum Técnico: "Segurança Pública: Drogas, Criminalidade e Violência".
Assunto SEGURANÇA PÚBLICA. DROGA.
25ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª
LEGISLATURA, EM 12/8/2010
Palavras do Sr. José Gregori
Preliminarmente, manifesto a imensa honra que sinto por estar
nesta Assembleia. Esta não é a primeira vez, já vim aqui outras
vezes e sei o quanto aqueles que acreditam nos direitos humanos
devem a Minas Gerais e aos Deputados desta Casa do povo, que se
interessam por esse tema. Mais uma vez agradeço por terem se
lembrado do meu nome. Gentilmente o Deputado João Leite me
convidou. Larguei tudo porque penso que Minas produz resultados
nessa área. Nada aqui cai no vazio da indiferença. Foi assim
sempre, através dos séculos, e continua sendo. Sou um homem dos
direitos humanos e, como tal, vejo tudo por esse prisma. Por um
lado, só tenho motivos de ser otimista porque, afinal de contas,
contemplando a história dos direitos humanos, verificamos que
durante os séculos ela ajudou, ela impulsionou, ela pôs a
humanidade para a frente, no sentido civilizatório, no sentido de
fugir das cavernas de onde proviemos. É difícil imaginar esta Casa
democrática funcionando com representantes do povo, uma Assembleia
como esta, onde estão mulheres, em que estão homens procedentes de
todas as classes, de todos os setores, e não saber que tudo isso
que vivemos nesta manhã, aqui em Minas Gerais, é também produto da
luta dos direitos humanos, impulsionou a identificação da pessoa
como portadora da dignidade humana e, como tal, credora de certos
direitos que não podem faltar para que se corporifique essa ideia
de dignidade humana. Portanto, o homem deixou de ser um ser
biológico e passou a ser um ente capaz de uma identidade, em
grande parte por causa dos direitos humanos. Não haveria a
libertação dos escravos, em nenhum lugar do mundo, se não fossem
os direitos humanos. Não haveria a emancipação da mulher, cada vez
mais próxima de uma posição digna, embora ainda falte um tanto
para isso, se não fossem os direitos humanos. Não haveria proteção
para as crianças, nem para a terceira idade, nem para o
estrangeiro, nem para o trabalhador, se não fossem os direitos
humanos. Portanto, contemplar a realidade hoje é contemplar o
quanto os direitos humanos têm contribuído no sentido da
humanização, no sentido da civilização, no sentido da conciliação
do ser humano com seus valores mais sagrados e fundamentais. Quem
adere à minha visão dos direitos humanos não pode deixar de ser
otimista e de registrar o quanto os direitos humanos avançaram.
Para não ir longe, há alguns anos não teria sido possível uma
reunião como esta. Se esta Assembleia estivesse funcionando,
estaria funcionando por favor dos donos do Poder, que decidiriam,
mais ou menos, o que deveríamos ou não falar aqui, dentro dos
muros dos quartéis. Assim era o Brasil. Assim como muitas pessoas
que estão aqui neste Plenário, também vivemos essa realidade.
Felizmente, outras pessoas só ouviram falar dessa época, porque
hoje o Brasil é diferente. Para que houvesse essa diferença,
acreditem, os direitos humanos contribuíram muito. Houve um
momento em que a bandeira dos direitos humanos era o que tínhamos
para lutar pela volta da democracia e pelo término do arbítrio.
Portanto, nesta Casa, em que as coisas germinam, fiz questão de
fazer essa profissão de crença e de confiança nos direitos
humanos. Mas, exatamente em nome desses direitos humanos, é
preciso lembrar que ainda falta muito em nosso país para nos
darmos ao luxo de dizer que já atingimos um patamar satisfatório.
As injustiças ainda são muito grandes; as desigualdades, sem
conta; e a violência, muito grande. Sei que há muitos
especialistas que estudam a natureza e o caráter da evolução
brasileira, mas, infelizmente, concluo que o Brasil ainda é um
país violento. Canudos e a Revolta da Chibata nos mostram isso.
Com certeza, o jornal de hoje - quando for lido por todos os meus
amigos e amigas quando voltarem para casa - também registra fatos
demonstrativos de que somos um país violento. Diante disso, não
podemos nos satisfazer com os avanços e as vitórias que os
direitos humanos obtiveram neste país, mas devemos continuar a
utilizá-los porque é um grande instrumento, insubstituível em
muitos aspectos, para, exatamente, combatermos a violência e
repormos uma série de valores que, de certa maneira, estão sendo
agredidos diariamente no nosso país. Quero aproveitar o tempo que
me resta para dizer que, com os meus cabelos brancos e com a minha
vivência nesse campo, acho que uma das tarefas mais urgentes num
encontro como este, sobretudo em Minas Gerais, é refletir como
colocamos os direitos humanos, a mensagem dos direitos humanos, os
valores dos direitos humanos naquele espaço estruturante,
acolhedor e formativo em que colocamos a semente e ela dá os
primeiros sinais de vida: o espaço doméstico. Nós, da minha
geração, cometemos um pecado, ou seja, não valorizamos a questão
doméstica, espaço em que vivenciamos as relações com aqueles que
nos deram vida, com filhos e parentes, porque julgávamos ser esse
um tema superficial diante de nossos sonhos de revolução social,
de mudança das estruturas, de modificação de todas as coisas.
Demos, então, um grande apoio a tais mudanças, tudo era o social.
Muitos pagaram caro por isso. Foram além e caíram na ilusão de
pensar que tudo é no Estado, tudo é pelo Estado, tudo é com o
Estado: fora do Estado não existe salvação.
Diante de tudo o que vivi, de tudo o que a minha geração sofreu e
de tudo o que aprendeu - foi capaz de colaborar na retomada
democrática do País, como podemos verificar na liberdade
manifestada neste encontro realizado em Minas Gerais -, chamo a
atenção para algo importante: devemos enfatizar novamente o espaço
inicial, o primeiro elo da corrente, ou seja, a família, palavra
pouco usada ultimamente. Não importa a sua constituição, estou
falando daquele núcleo que gera outro ser. Devemos dar atenção a
esses momentos estruturantes. Dando lugar à criatividade,
saberemos como promover a conscientização sobre direitos humanos
nesse núcleo inicial.
Estamos recebendo contribuições valiosíssimas sobre drogas.
Constatamos o grande conhecimento que o Sapori e o Laranjeira têm
sobre o "crack". Devemos saber lidar com esse grave problema.
Existe uma fase anterior ao uso do "crack", ou seja, aquela fase
em que a pessoa não foi tomada pelo vício. Como chegam as
influências de entidades ligadas a direitos humanos nesse espaço
em que as pessoas recebem as primeiras noções sobre várias
questões? Em primeiro lugar, é necessário devolver o tema às
cogitações, aos pensamentos, às reflexões de entidades de direitos
humanos, de luta pela segurança, de luta contra a violência.
Devemos saber agir nesse núcleo central, na família, sobretudo nas
famílias que geraram filhos. É importantíssimo refletirmos sobre
se determinadas ações serão positivas ou negativas ao
funcionamento desse núcleo. Em São Paulo, na Comissão de Direitos
Humanos, estamos criando unidades de conscientização doméstica.
Estas devem ter assistentes sociais, sociólogos, preparados para
influir na formação e na mediação dos conflitos desse núcleo
estruturante, que é o ponto a partir do qual vamos definir a
figura que vamos ocupar na sociedade. Há muito tempo, quando se
falava desse tema, nós, que fomos de uma geração pouco ideológica,
dizíamos que isso era coisa da direita. Quem se interessava pela
família era a direita. A esquerda tratava da revolução social.
Estamos vendo, diante desses problemas, como é importante
restaurar a ideia de que há um ponto insubstituível a que o Estado
não chegou, a que a Justiça não chegou, a que polícia não deve
chegar, que é a família. Essas pessoas devem ter recebido algum
tipo de influxo da maternidade, da paternidade, que devem ser
responsáveis. Isso vai influir na conformação de toda a sociedade
brasileira.
Fica o meu registro de apoio a uma reflexão que está sendo feita
aqui, pessoalmente e na condição de Presidente da Comissão de
Direitos Humanos de São Paulo. A partir de um encontro como este,
que não percamos de vista, entre todas as outras medidas que
deverão ser tomadas, que, se não aplicarmos os direitos humanos na
base, onde nasce a vida, poucos resultados colheremos. Muito
obrigado.
A Sra. Presidente - Dr. José Gregori, não resisto ao desejo de lhe
dizer da importância da sua fala. O nosso Presidente, Deputado
João Leite, resolveu sentar-se a sua frente para ouvi-lo, para
aproveitar suas valiosas palavras. A nossa Comissão, ao viajar por
todo o Estado de Minas Gerais, ouviu Juízes e autoridades sobre o
que foi falado pelo senhor. Pensávamos que eram tão importantes
que não se dignariam de debater sobre isso. Essas pessoas
reforçaram o que o senhor diz aqui. Valeu a pena o senhor vir de
São Paulo, de tão longe, para falar sobre algo tão simples. Pela
simplicidade, talvez tenha sido uma das intervenções mais
importantes. Devemos voltar às origens para cuidar das famílias.
Não resisti ao desejo de manifestar isso. Penso que o nosso
Presidente, esta Casa e as pessoas presentes gostariam de falar
também sobre isso. Depois do debate, as pessoas terão oportunidade
de mostrar como valorizar nossa origem e voltar a ela. Agradeço
sua presença.