JOSÉ DO CARMO NEVES, Assessor de Desenvolvimento Florestal Sustentável do Instituto Estadual de Florestas - IEF.
Discurso
Comenta o tema do evento.
Reunião
24ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 30/06/2004
Página 30, Coluna 3
Evento Fórum Técnico: "Cerrado Mineiro: Desafios e Perspectivas".
Assunto DESENVOLVIMENTO REGIONAL. MEIO AMBIENTE.
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 30/06/2004
Página 30, Coluna 3
Evento Fórum Técnico: "Cerrado Mineiro: Desafios e Perspectivas".
Assunto DESENVOLVIMENTO REGIONAL. MEIO AMBIENTE.
24ª REUNIÃO ESPECIAL DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 14/6/2004
Palavras do Sr. José do Carmo Neves
Deputado Wanderley Ávila, Presidente da Mesa; Deputado Ricardo
Duarte, autor do requerimento que deu origem a este evento;
Ministro Alysson Paulinelli, na pessoa de quem cumprimento os
demais membros da Mesa; instituições governamentais e não
governamentais presentes; Srs. Deputados; representantes da
agricultura mineira; senhores e senhoras, cabe-me justificar a
ausência do Prof. Célio Valle. Deve ter havido um motivo muito
justo para ele não ter comparecido a esta reunião, pois sei do seu
conhecimento e da sua valorização do cerrado mineiro. Peço
desculpas a vocês, pois, na última hora, neste recinto e hoje pela
manhã, fui convocado para substituí-lo. Parabenizo, mais uma vez,
a Assembléia Legislativa pela realização deste fórum técnico. Sou
testemunha de diversos eventos coordenados por ela, principalmente
relacionados aos aspectos econômicos e ambientais.
Depois das importantes informações trazidas pelos preletores, o
que eu trouxesse seria repetitivo. Não gostaria de que isso
acontecesse. Começarei pelo objetivo desse fórum técnico, que acho
de uma racionalidade e oportunidade insubstituíveis: “`Cerrado
mineiro: desafios e perspectivas´. Objetivo: levantar subsídios a
respeito do cerrado mineiro, visando ao aperfeiçoamento das
políticas públicas - ações legislativas e executivas - para o
setor. Tais políticas devem orientar-se pela sustentabilidade, que
pressupõe a conciliação das atividades econômicas com a
preservação do meio ambiente e com o interesse social”.
Esse objetivo não pode acabar nesse fórum técnico, que deve ser o
começo de um compromisso e de ações de órgãos governamentais e não
governamentais, coordenados pela Assembléia, para buscar a solução
econômica, ambiental e social para o cerrado.
Acredito piamente na força do mineiro, nas suas instituições, nas
suas infra-estruturas, no conhecimento dos pesquisadores, dos
extensionistas, dos professores e dos estudiosos. Neste momento,
paramos e refletimos sobre a importância do cerrado, conforme o
bioma grandioso que a natureza nos deu. Temos o compromisso de
utilizá-lo com inteligência, racionalidade e sabedoria.
Falarei sobre ações do IEF no cerrado mineiro. Como os senhores
sabem, o IEF é o órgão responsável pela política florestal em
Minas. Na região do cerrado, segundo as possibilidades de recursos
humanos, financeiros e materiais, o IEF vem desenvolvendo um
trabalho extraordinário no controle do desmatamento, dos incêndios
florestais e nos programas de floresta de produção e floresta de
proteção. Muitos conhecem o IEF apenas como órgão fiscalizador,
mas é dele também esse papel importantíssimo de formação de
florestas de produção e de proteção.
Outro engano é dizer que o IEF só se preocupa com eucalipto.
Temos um programa executado em todo o Estado, Programa Fazendeiro
Florestal, que nasceu em Minas e hoje é modelo de reflorestamento
para as nações em desenvolvimento, aplicado pela FAO. Nesse
programa, trabalhamos com florestas com eucalipto e com florestas
nativas. A opção é do produtor rural, e não do IEF. O eucalipto,
por suas qualidades excepcionais, é o mais desejado pelos
produtores rurais.
Na floresta de proteção, trabalhamos com as matas ciliares, as
florestas de recarga hídrica, e na recuperação de áreas
degradadas. Repito, isso é feito segundo as possibilidades
concedidas ao IEF de recursos humanos, financeiros e materiais.
Mas a base de todo o nosso trabalho é a educação ambiental. Nesse
ponto, quero cumprimentar a Profa. Maria Luíza, pelo êxito da
educação formal. Na Secretaria de Meio Ambiente, no IGAM, na FEAM
e no IEF, nossa ação primordial está atualmente voltada para a
educação ambiental.
Já estamos iniciando os trabalhos no projeto de revitalização do
rio São Francisco, com a proteção de matas ciliares, matas de
recarga hídrica e a recuperação de área degradadas. Também estamos
trabalhando com esses projetos nas bacias dos rios das Velhas e
Araçuaí e, esporadicamente, em propriedades rurais de modo geral.
Em breve, daremos início, por meio de um programa que abrange
Minas e outros dez Estados da Federação, ao Plano de Ação Nacional
de Combate à Desertificação, em que o cerrado será uma das
prioridades.
Não vou repetir o que foi dito, com tanta sabedoria, conhecimento
e experiência, pelos que me antecederam, conhecimento e
experiência. Terei a coragem de expor uma preocupação pessoal
sobre o cerrado, que apenas tenho em mente - não passei para o
papel. Antes, quero dizer que iniciei minhas atividades na ACAR,
hoje EMATER, em um município do cerrado, onde aprendi muito.
Depois, na própria EMATER, no IEF, em visitas técnicas,
supervisões, encontros e cursos, pude ampliar os meus
conhecimentos sobre o cerrado. E minha preocupação é fruto de tudo
isso. O cerrado precisa ter um programa racional de
desenvolvimento sustentável, baseado nos geradores de benefícios
econômicos, ambientais e sociais.
Isso está apenas em minha mente, mas terei a coragem de mencionar
quatro aspectos que julgo prioritários. Em primeiro lugar, o
cerrado pode comportar, com racionalidade, uma atividade
agrossilvopastoril em uma agricultura “tecnificada” tanto no
aspecto econômico quanto no social. Ou seja, o cerrado pode
promover perfeitamente a sua agricultura “tecnificada” de renda e
produção, possibilidade esta que o Ministro Alysson aqui
demonstrou com muita sabedoria. Ao lado disso, é preciso
desenvolver o programa de agricultura familiar. Não há necessidade
de desmembrar essas duas atividades, que podem ser muito bem
implantadas e sustentadas no cerrado. Então, a primeira prioridade
seria o desenvolvimento da agricultura agrossilvopastoril
“tecnificada” e da agricultura familiar.
Outra prioridade seria a proteção da biodiversidade, comportando
as nossas unidades de conservação, e o nosso cerrado é rico e
propício a todas essas atividades. Aí, seria o aspecto ambiental
do aproveitamento racional do cerrado.
A outra prioridade seria a elaboração de uma legislação ambiental
que realmente estabelecesse, com fundamento, com motivação, com
apoio e estímulo, um programa de desenvolvimento sustentável do
cerrado. Deveria ser uma legislação objetiva, clara e realista
para o cerrado mineiro, abrangendo, repito, os aspectos
econômicos, sociais e ambientais.
Finalmente, a educação ambiental. Nada disso acontecerá, dentro
do que o cerrado pode nos oferecer, se não realizarmos um trabalho
básico de educação ambiental, principalmente junto aos produtores
rurais. Abordaremos emprego, renda e melhoria do meio ambiente.
No aspecto econômico estão a poupança dos produtores rurais, com
suas atividades agrossilvopastoris e a valorização de suas
propriedades. No ambiental, a proteção do solo, da água e das
matas nativas. Segundo pesquisas, o hectare de eucalipto no
cerrado protege 6ha de matas nativas. O aspecto social inclui
emprego, associativismo e fixação do homem no campo.
Isso é o que pensamos e conhecemos sobre o cerrado. Apelo a esta
Casa e às instituições governamentais e não governamentais que
proponham a valorização do cerrado, dando-lhe um programa claro,
objetivo e realista, de acordo com sua vocação. É um desafio. Mas
é compatível com os mineiros, detentores de conhecimentos
técnicos, além da capacidade de adaptação e improvisação dos
produtores rurais. Esse programa é necessário, porque estamos
discutindo e ouvindo muitas heresias de extremos, que apenas nos
preocupam e desagradam. O cerrado é um bioma que poderá enriquecer
os mineiros.
Faço justiça ao ex-Ministro Alysson Paulinelli: além de pioneiro
do uso racional do cerrado, foi responsável pela criação da
EPAMIG, na época em que esteve à frente da Secretaria de
Agricultura. Criou a EMBRAPA durante sua gestão como Ministro da
Agricultura e também incentivou o enriquecimento e a ampliação dos
serviços de extensão rural.
Acredito no cerrado. Vamos trabalhar para que ele seja usado com
racionalidade, a fim de trazer riquezas para aquele povo tão
sofrido, que merece melhores condições de vida. Muito obrigado.