JOSÉ CARLOS REIS, Professor de História da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG.
Discurso
Comenta o tema: "A Formação do Brasil-Nação".
Reunião
119ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 08/04/2000
Página 23, Coluna 1
Evento Ciclo de Debates: Repensando o Brasil 500 Anos Depois.
Assunto CALENDÁRIO.
Observação Participantes dos debates: Lauro Mendes Antos, Elizabeth Spechit.
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 08/04/2000
Página 23, Coluna 1
Evento Ciclo de Debates: Repensando o Brasil 500 Anos Depois.
Assunto CALENDÁRIO.
Observação Participantes dos debates: Lauro Mendes Antos, Elizabeth Spechit.
119ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 16/3/2000
Palavras do Sr. José Carlos Reis
Boa tarde. Preparei um texto cujo título é: “Duas Versões sobre a
Formação do Brasil Nação: A Extrema Direita versus Democracia
Radical. Vou, na verdade, relembrar algumas teses sobre o Brasil.
Talvez não cheguemos até a democracia radical, por falta de tempo,
mas tentaremos.
O problema que se propõe ao debate é: como se deu a formação do
Brasil Nação? Não há resposta única, fechada, sistemática para
essa questão. Essa história pode ser relatada de muitas formas. O
Brasil é um país vasto e complexo, contraditório e extremamente
dinâmico, o que impede que se possa ter uma representação
consensual, homogênea, estável da sua identidade nacional. Quem
somos, o que fomos e o que queremos ser? O que significa a
afirmação “sou brasileiro”? Qual é o “conteúdo empírico” dessa
emoção? A resposta depende do sujeito histórico que toma a
palavra. Pode-se pensar o Brasil de múltiplos modos, e todos
sustentáveis por uma argumentação coerente e reconhecível. Existem
versões do Brasil de origem senhorial, burguesa, proletária,
classe média, camponesa, sem-terra, paulista, mineira, nordestina,
sulista, negra, indígena, feminina, imigrante, migrante, caipira,
urbana, suburbana, litorânea, sertaneja, oficial, marginal,
militar, civil etc. A maioria delas ainda não formulada,
silenciosa. Mas cada um desses personagens sente-se brasileiro de
um modo particular e conta essa sua experiência de forma
diferenciada. Quem são os “heróis” da história brasileira? Quais
são os grandes eventos, as datas mais fortes? Em que direção o
Brasil se encaminha? Que juízo de valor elaborar sobre as
experiência brasileiras? A resposta revelará a identidade social e
histórica de quem toma a palavra.
Há representações da identidade brasileira que são hegemônicas,
há idéias do Brasil que são dominantes, mas revelam apenas a força
do sujeito que as articula. Não falam de uma identidade brasileira
em si, de uma brasilidade enquanto tal, essencial. Quando se
discutem as identidades nacionais do Brasil têm-se “discursos”,
“representações”, que emergem de sujeitos brasileiros particulares
e que pretendem valer para todos os brasileiros. Esses discursos e
representações usam a história dita científica para legitimar seus
interesses e paixões. Imaginário, mitologia e reabertura de
arquivos confundem-se. Seria possível produzir um discurso sobre o
Brasil desapaixonado, científico, verdadeiro? Dificilmente. É por
isso que todas as representações do Brasil são relevantes, pois,
juntas, revelam uma idéia do Brasil complexa, poliédrica; uma
idéia composta de idéias, de projetos, um polígono de múltiplas
faces ao mesmo tempo opostas e interligadas em uma mesma figura.
Pensar o Brasil como um todo é “pôr junto”, confrontadas,
contrastadas, as múltiplas representações que os diversos sujeitos
históricos produziram para se localizarem na trajetória brasileira
e escolherem uma direção para a construção do seu futuro.
A identidade histórica não é constituída pelo congelamento do
passado, por uma homogeneidade artificial. A identidade histórica
é construída em cada presente, em uma relação de recepção e recusa
de passados e de abertura e fechamento aos futuros.
Escolhemos duas versões da formação da identidade nacional
brasileira para abordar aqui: a das elites imperiais, considerada
aqui como de “extrema direita”, articulada pelo botânico-viajante
alemão Karl Ph. Von Martius e pelo maior historiador do século
XIX, Francisco Adolfo de Varnhagen; e a do homem médio urbano,
considerada aqui como “democrata radical”, formulada por um dos
maiores historiadores do século XX, Sérgio Buarque de Holanda. Não
sabemos se essa terminologia acima ainda é aceitável, mas a
usaremos apenas como “expressões” que permitam diferenciar as duas
versões do Brasil. Em todo caso, poderemos discuti-la. Nós as
escolhemos por representarem visões diametralmente opostas do
Brasil, que tornam visível essa impossibilidade de se referir a
uma identidade brasileira homogênea, fechada, estável. Há inúmeras
outras perspectivas sobre o Brasil, tantas quantos podem ser os
matizes das combinações das cores.
A versão da “extrema direita”: Karl Ph. Von Martius e Varnhagen:
felizmente, o Brasil é uma nação neoportuguesa. Francisco de
Varnhagen (1816-1878) é considerado o “Heródoto brasileiro”, o
fundador da história do Brasil. Foi na década de 50 do sec. XIX
que surgiu a obra de história do Brasil Independente mais
completa, documentada e com posições políticas explícitas: a
“História Geral do Brasil”. Essa obra foi possível porque o
processo da independência política consolidou-se por volta de
1850. E foi no interior desse processo histórico que surgiu a
outra condição favorável ao surgimento da obra de Varnhagen: a
institucionalização da pesquisa histórica no Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro - IHGB. A independência política consolidada
e as lutas internas geradas por ela reprimidas, o Brasil possuía
um perfil do qual ainda não tomara conhecimento. Varnhagen
desenhará o perfil do Brasil Independente, oferecerá à nova nação
uma imagem do seu passado e um futuro. Aqui já se percebe a união
indissolúvel entre situação histórica, interesses e emoções de um
grupo determinado e a pesquisa científica. O IHGB tinha como
missão elaborar “cientificamente” o perfil da nação brasileira e,
ao mesmo tempo, formular os interesses e as paixões do grupo que o
criou e financiou. O Imperador foi o protetor de Varnhagen e do
IHGB, oferecendo-lhes os recursos para a sua missão.
O pensamento histórico brasileiro iniciou-se sob uma dupla
inspiração: institucionalmente, o IHGB imitava o Institut
Historique de Paris e compartilhava com os franceses alguns
valores revolucionários; mas a pesquisa histórica mais influente e
que também fez história esteve sob inspiração alemã: Karl Ph. Von
Martius teve uma repercussão enorme sobre o pensamento histórico e
político brasileiro, e Varnhagen, teuto-brasileiro, consolidou
essa influência. Houve tensões entre o IHGB francófilo e os
historiadores germanófilos. A diferença aparecia sobretudo na
visão do indígena e nos métodos para aculturá-lo. O IHGB era
romântico, rousseauniano, tinha uma visão idílica do nosso bom
selvagem e propunha métodos brandos para trazê-lo à fé cristã. Von
Martius e Varnhagen propunham métodos duros para dominá-los e
tinham uma visão cética sobre a possibilidade de sua integração na
civilização. Essa segunda visão do indígena, a alemã, vai se
impor, e os métodos duros que propunha legitimará as práticas dos
colonizadores.
O jovem Imperador precisava muito da história e dos
historiadores. Ele precisava da história para legitimar-se no
poder. O Brasil independente precisava dos historiadores para se
“representar”, construir uma idéia de si, uma identidade que lhe
permitisse agir, tomar a história em suas mãos. Era preciso
formular um projeto para a jovem nação. O que o Brasil foi e
queria se tornar? Para responder a essa questão, o IHGB, em 1840,
estabeleceu um prêmio para quem elaborasse o melhor plano para a
escrita da história do Brasil. O texto premiado foi o do botânico
e viajante alemão Karl Ph. Von Martius. Na sua monografia
intitulada “Como se Deve Escrever a História do Brasil”, publicada
na “Revista do IHGB”, em 1845, Von Martius definiu as linhas-
mestras de um projeto histórico capaz de garantir uma identidade
nacional ao Brasil. Surgiu a primeira interpretação do Brasil-
Nação, ultraconservadora e elitista, que entranhou profundamente
na população brasileira. Von Martius lançou os alicerces do mito
da democracia racial brasileira. Para ele, a identidade brasileira
deveria ser buscada no que mais singulariza o Brasil: a mescla de
raças.
Para Martius, apesar de insistir sobre “mescla de raças” e
“democracia racial”, no essencial, a história do Brasil será a
história de um ramo dos portugueses, pois o português foi o
conquistador e senhor, ele deu as garantias morais e físicas ao
Brasil. O português foi o inventor e motor essencial do Brasil. O
historiador deverá mostrar fundamentalmente a vida portuguesa no
Brasil.
Quanto às demais raças, o historiador “filantrópico, humano e
cristão” não poderá deixar de abordá-las e defendê-las. Para ele,
se o português é a raça mais importante, as raças etiópica e
indígena reagiram positivamente. Mas, na verdade, em sua visão,
percebe-se um grande desdém pela presença e pela contribuição
desses grupos ao Brasil-Nação. Diz defender a mescla de raças, mas
lamenta a miscigenação e considera geneticamente o mestiço
inferior e doente, incapaz de fazer história. Até dará alguma
atenção aos indígenas. Quanto ao negro, será breve, oferecendo
poucos dados e propondo algumas poucas questões. A questão
principal, quanto ao negro, segundo ele, seria esta: o Brasil
teria tido um desenvolvimento diferente sem a introdução dos
negros escravos? Ao historiador caberia responder se teria sido
para melhor ou para pior... Essa pergunta atormentará os
historiadores brasileiros, que darão a ela uma resposta positiva,
isto é, “foi pior”, até a edição de “Casa Grande & Senzala”, em
1933.
Além de enfatizar a mescla de raças, embora privilegiando a raça
branca, outro aspecto que, segundo Von Martius, o historiador do
Brasil deverá insistir será o da unidade brasileira. A história do
Brasil deverá ser centralizada no Imperador. Apesar da variedade
de usos e costumes, dos climas, das atividades econômicas, das
raças e da extensão territorial, o historiador deverá enfatizar a
unidade. À diferença, deverá dar tratamento comum. Como a extensão
territorial dificulta essa unificação, propõe que se façam
histórias regionais, que garantam uma direção à centralização. Seu
texto deverá ser patriótico, despertando o amor ao Brasil. Em sua
defesa do Brasil unido, monárquico, cristão, o historiador
precisará lutar contra a desconfiança entre as províncias, contra
a fragmentação do território e a agitação republicana.
Sob influência franco-alemã, o pensamento histórico brasileiro
começou racista, autoritariíssimo, violento e excludente. A terra
do Brasil era legitimamente portuguesa, e a ação portuguesa,
oficial ou particular, era justa e civilizadora. Os
“descobridores” a conquistaram e eram seus legítimos donos. Não
importa se o Brasil se tornara um enorme “campo de concentração”
de negros e indígenas. Não importa se os negros eram submetidos em
sua África e escravizados em uma terra estrangeira; não importa se
os indígenas morriam ao simples contato com o branco. Tudo isso
fazia parte do plano da Providência, era uma “astúcia de Deus”,
que fazia o bem por linhas tortas. O que importa não é o custo,
mas o resultado da ação portuguesa: a integração do Brasil na
civilização ocidental, a revelação da verdadeira fé a esses
pagãos, a implantação da ordem real, da lei, a preservação da
unidade territorial. Esses objetivos legitimavam qualquer
violência. O Brasil não poderia continuar excluído da civilização
ocidental, e a missão portuguesa era levá-lo ao seio da
Providência. Aqueles habitantes do Brasil que comprometessem a sua
integração na cultura européia deveriam ser excluídos ou
eliminados. E esses habitantes constituíam mais da metade da
população brasileira. Nessa versão da nossa identidade, a própria
população brasileira comprometia o Brasil-Nação. A Nação
brasileira se restringia ao Estado e aos poucos brancos das
elites. Estas tinham até “nojo” do mestiço, não queriam
compartilhar com ele a identidade brasileira e foram cruéis em sua
exclusão.
Varnhagen, em sua “História Geral do Brasil”, fortalecerá esse
projeto de um Brasil português e para os portugueses. Sobre os
indígenas, será explícito: ou faziam a primeira comunhão, pegavam
na enxada, aceitavam a autoridade do rei e iam para a escola
religiosa ou sua extinção seria inevitável e legítima. Ou se
esqueciam de que eram indígenas ou mereceriam o extermínio. A
jovem Nação não poderia ter, em seu seio, selvagens. Aqueles
homens exóticos, Varnhagen os descreverá sem afeição. Era, segundo
ele, uma gente pouco numerosa, nômade, que vivia em cabildas e
morava em aldeias transitórias. Violentos, bárbaros, sem amor à
Pátria, com os laços de família muito frouxos. Eram falsos e
infiéis, inconstantes, ingratos, desconfiados, impiedosos,
despudorados, imorais, insensíveis, indecorosos. Eram friamente
brutais. Diante dos estudos que fez, se surpreendia que houvesse
ainda poetas e filósofos que viam o estado selvagem como feliz. Os
indígenas passam por privações, fome, não têm lei, religião, vivem
na selvageria e ferocidade. As leis tornam feliz o homem que se
sujeita a elas. O Direito, a Justiça e a Razão são melhores que o
instinto, o apetite e o capricho. O selvagem não tinha nada a
oferecer para a melhoria da situação da humanidade.
Felizmente, a Providência Divina fez com que o cristianismo
viesse dar fim a tão triste e depravado estado. Essas gentes
errantes desfrutavam, sem a paz e a cultura do espírito, do fértil
solo do Brasil. Esse é o passado do Brasil, que deverá ser
esquecido ou que não deverá influenciar na construção do futuro da
Nação brasileira. Deverá até ser preservado como antimodelo, isto
é, como modelo daquilo que o Brasil não quer ser.
Aliás, os capítulos dedicados ao indígena na “História Geral do
Brasil” teriam esta função: mostrar que o futuro do Brasil não
poderia ter nesse passado a sua raiz. O presente-futuro do Brasil
se assentaria em um outro passado, naquele que veio do exterior
para pôr fim a essa barbárie e selvageria interiores. Com a
chegada do Cristianismo, do Rei, da Lei, da Razão, da Paz, da
Cultura, da Civilização, com a chegada dos europeus a este
território, o Brasil surgiu e integrou-se no seio da Providência.
Quanto aos negros, Varnhagen dedicará a eles poucas páginas. Para
ele, os traficantes negreiros fizeram grande mal ao Brasil,
entulhando as suas cidades e engenhos de negreiras. A colonização
africana teve uma grande entrada no Brasil, o que o obrigava a
consagrar algumas linhas a essa gente. Mas fazia votos de que um
dia as cores de tal modo se combinassem que desaparecessem
totalmente do novo povo as características da origem africana e a
acusação da procedência escrava de um dos troncos da população
brasileira. Considera que a escravidão no Brasil foi mais suave
que em outro país da América. Ao passar tais gentes ao Brasil,
como escravos, na verdade melhoraram de sorte. A escravidão é
injusta, mas, mesmo assim, melhoraram de sorte ao entrarem em
contato com gente mais polida, com a civilização e o cristianismo.
Por causa desse encontro, os negros da América são melhores que os
africanos. Distinguem-se pela sua força física, seu gênio alegre
para suportar a sua sorte, pela sua capacidade de trabalho. Com o
seu canto sempre melodioso e afinado, embora monótono, disfarçavam
as maiores penas. Entretanto, fizeram mal ao Brasil, com os seus
costumes pervertidos, seus hábitos indecorosos. Escravos, viviam
alheios à ternura da família, tinham o coração endurecido. Sem os
negros, o Brasil teria sido muito melhor! Foi um erro a
colonização africana do Brasil. Se quisessem ser incluídos na
Nação, que se tornassem brancos na pele e no espírito! Afinal,
podia a jovem Nação se identificar e incluir derrotados,
escravizados e negros?
Mas, se a colonização portuguesa salvou o Brasil, como Varnhagen
justificaria a Independência? Para ele, felizmente, a idéia de
independência foi levada adiante pela própria família real! A
Independência do Brasil foi muito estranha: não foi feita contra a
família real, mas pela própria família real portuguesa! É uma
situação tão curiosa e inesperada que só a história pode fazer
compreendê-la. Foi um Príncipe português que liderou o processo de
emancipação política do Brasil, lutando contra os seus próprios
súditos portugueses, por outro povo, outro país, outro projeto de
nação! A essa independência, Varnhagen não se opõe. Sua fidelidade
é ao Rei, à Monarquia, que garantem a unidade, o cristianismo.
Divisão e separação, só se for entre Reis, os únicos qualificados
para o governo. A um Príncipe português, o Brasil deve a liderança
da sua independência, e ao seu filho o Brasil deve a consolidação
da sua unidade. O patriotismo caboclo, fonte do nacionalismo
atual, considera-o prejudicial ao Brasil.
Enfim, Varnhagen defende a presença portuguesa no Brasil, faz o
elogio da colonização portuguesa, é compreensivo com os seus erros
e despotismo. A Independência não foi prejudicial porque garantiu
a continuação do Brasil colonial no nacional: um Brasil português.
A Independência não interrompeu o passado, melhorou-o. O Brasil
continuava português, imperial e independente! A Nação brasileira
seria planejada e construída pelo Estado Imperial, autoridade
indiscutível, absoluta. A Independência não foi problemática
porque o Estado não foi comprometido: continuava nas mãos da
dinastia de Bragança. O Estado brasileiro seguirá o modelo do
Estado português. A unidade deverá ser preservada a qualquer
custo. O Estado será o centro da nação gigantesca: assegurará a
ordem, a lei, a religião, a unidade. Continuará a ação
civilizadora da Europa branca. A uniformidade cultural e a unidade
nacional se fizeram com repressões sangrentas. Mas, para ele,
legítimas!
Era essa a história que o Brasil recém-independente precisava? Ou
era a que as elites brasileiras, os descendentes dos
“descobridores”, dos conquistadores, precisavam para levarem
adiante a “sua” nova nação, em meados do séc. XIX? Essa história
realizava um “elogio do Brasil luso-brasileiro”, dos seus heróis
portugueses do passado, expressando confiança incondicional em
seus descendentes. Essa história não falava de tensões,
separações, contradições, exclusões, conflitos, rebeliões,
insatisfações, pois uma história assim levaria o Brasil à guerra
civil e à fragmentação; isto é, abortaria o Brasil, que lutava
para se constituir como poderosa nação, como outro Portugal. Essa
história legitima a repressão a toda expressão espontaneamente
brasileira. Varnhagen será o formulador dessa história e se
tornará o primeiro grande “inventor do Brasil”, aquele que guiará
os conservadores de todos os matizes, que querem um Brasil branco,
cristão, unido, sem conflitos, ocidentalizado, controlado sem
contestação pelas elites instaladas no Estado e que se tornaria
uma potência mundial, um império colonial, outro (o mesmo)
Portugal.
Essa é a versão da extrema direita do Brasil. O Estado-Nação
brasileiro. Se der tempo, mencionarei a versão “democrática
radical”.
Meu tempo está esgotado. Não vamos ler sobre a democracia, vamos
fazer a democracia.
Se vocês acompanharam a versão da extrema direita sobre o Brasil,
devem estar com vontade de reagir. Há uma reação muito bem
formulada por Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, e
eu procuro me estender sobre essa argumentação democrática. Vocês
podem ler o texto depois, quando for publicado, mas, ao invés de
ouvir, podemos debater essa visão de extrema direita do Brasil. É
melhor a sua reação do que a reação de Sérgio Buarque de Holanda.