Pronunciamentos

JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA, Presidente da República em exercício.

Discurso

Transcurso do 150º aniversário de emancipação do Município de Ubá.
Reunião 24ª reunião ESPECIAL
Legislatura 16ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 12/07/2007
Página 45, Coluna 2
Assunto CALENDÁRIO. ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL.
Proposições citadas RQS 905 de 2007

24ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª LEGISLATURA, EM 5/7/2007


Palavras do Vice Presidente José Alencar



Senhoras e senhores, não sei se deveria falar, porque as coisas melhoraram muito depois que a Nádia falou, e vieram a Célia e a Celma. Todos levantaram. Foi uma beleza. O pior é que a Nádia me procurou agora e disse assim: “O cerimonial não quer me deixar falar”.

Pensei que era o Cerimonial da Assembléia Legislativa. Depois, ela me explicou que era o meu cerimonial. Eu disse: “Nem sabia que tinha cerimonial meu aqui, de maneira que não tenho culpa nenhuma. Você vai falar. Se for por mim, você vai falar”. E vocês vejam como foi uma beleza a fala dela. E ela ainda encorajou as outras duas moças de Ubá, esse colosso que é a Celma e a Célia Mazzei.

Então, é um prazer muito grande. É claro que ouvimos vários discursos, e as pessoas já estão cansadas. O meu discurso é curto, mesmo porque há um ensinamento de um intelectual mineiro, escritor, chamado Luís de Paula Ferreira, que também foi Deputado Federal. Ele ensina que os discursos devem ser como os vestidos das mulheres: nem tão curtos que escandalizem; nem tão longos que entristeçam.

Quero cumprimentar o nosso caríssimo e eminente amigo Alberto Pinto Coelho, ilustre Presidente da Assembléia Legislativa de Minas, na pessoa de quem cumprimento todos os Deputados e Deputadas presentes; o Secretário Danilo de Castro; o Deputado Roberto Carvalho, responsável por esta festa; o Prefeito em exercício Ronaldo Vasconcellos; o Prefeito de Ubá Dirceu dos Santos Ribeiro; nosso Valadão, ilustre Presidente da Câmara Municipal de Ubá; Exmo. Desembargador José Altivo Brandão Teixeira; meu grande amigo Fernando Antônio Fagundes Reis, Procurador Adjunto e representante do Dr. Jarbas Soares Júnior, Procurador-Geral do Ministério Público de Minas Gerais - vejam que cumprimento o Nando com cuidado, porque foi ele quem me ajudou no discurso -; Saulo Levindo Coelho, ilustre Provedor da Santa Casa; Nádia Micherif, representando as mulheres; parlamentares aqui presentes; senhoras e senhores, despertam em todos nós, brasileiros de Minas, ubaenses natos, naturalizados e honorários, a honra e o indeclinável dever de registrar o sesquicentenário da emancipação político-administrativa de Ubá, não só para revisitar o fato histórico de sua rica e frutífera evolução institucional mas principalmente para nos juntarmos a um compromisso de alma: o de continuar a celebrar e divulgar esse torrão mineiro, que, ao longo dos seus 150 anos, pratica em todos os dias de sua história o ofício do bem-querer, intitulado, por isso e com justiça, como Ubá, Cidade Carinho.

Em sua clareza e identidade, unindo a tradição à renovação do compromisso, essa verdade adquire um significado especial, porque é proclamada em sessão solene de nossa augusta Assembléia Legislativa, cativa libertária dos sonhos, da saga e do sangue dos mineiros, morada definitiva dos nossos mais acariciados valores e cidadela iluminada dos nossos destinos.

Nesse templo de devoção comum, traduz-se uma homenagem dos mineiros aos irmãos ubaenses, que, com certeza, exprimem sua gratidão e seu contentamento a todos os senhores e senhoras, Deputados e Deputadas, por este instante de reconhecimento cívico, legitimador da nossa memória coletiva, um sentimento afetivo vinculado à lembrança e à própria identidade diante dos desafios que a história a todos reserva. Solenidade como esta, impregnada de simbolismo, tem o significado de realçar e expressar a coesão do homem, ser de reminiscência e de sensibilidade, com o tempo, que tudo releva e projeta.

Assim, para a emboscada da boa amizade, esse gesto fraternal do Deputado Roberto Carvalho de me indicar como orador oficial desta sessão especial, por ele requerida e presidida pelo eminente Deputado Alberto Pinto Coelho, ilustre Presidente desta Casa, permite-me, em deferência que tanto agradeço, traçar sem preciosismo social os pontos de identidade e de referência que plasmaram a personalidade coletiva do povo ubaense, ao longo desses 150 anos em que, de antemão, sobressai o trato do trabalho, da cultura, da boa convivência e da solidariedade.

É do historiador Caio Prado Júnior a afirmação: “Todo povo tem sua evolução vista, a distância, num certo sentido”. Este se percebe não nos pormenores da sua história, mas no conjunto dos fatos e acontecimentos que constituem num largo período de tempo. Desde seu batismo, desde sua hora criadora, positivada na Lei nº 806, de 3/7/1857, que a elevou à condição de cidade, Ubá, terra ancestral dos índios coroados e puris, em sua narrativa rica e vigorosa, constitui uma experiência de comunidade renovada, que aspira mais do que espera, abre caminhos e caminha. Seriam necessárias muitas páginas para descrever sua evolução histórica, seu cotidiano e sua memória. Cabe, portanto, registrar que o seu crescimento econômico, seu desenvolvimento social e seu inabalável compromisso com a consolidação da atividade política da República sempre exigiram, sob a devoção do Rosário de São Januário, um esforço inaudito de suas gerações, um talento e a inteligência de suas lideranças, a demonstrarem, sem alarido dos exibicionismos e na ação paciente de seus dias, que, sem o trabalho, a vida não se representa nem tem sentido.

Na plenitude do tempo e no seu passado longínquo, Antônio Januário Carneiro da Silva, em 1815, doou uma porção de terras para fundar um povoado, passando pela cultura do café e do fumo até alcançar os dias de hoje, notabilizados por uma economia urbana e industrial mais bem diversificada, onde se destaca que, na condição de grande pólo moveleiro do País, Ubá teve em seu desenvolvimento socioeconômico sua principal tarefa e seu melhor instrumento. Apurada em sua evolução histórica, transformou-se de vila em uma comunidade política forte, expressiva, plural, dinâmica e acolhedora, sem favor algum e sem exageros e um dos principais endereços de Minas no Brasil. Ubá é um dos principais endereços de Minas no Brasil.

Isso me fez lembrar de uma ocasião em que pagava a conta de um hotel da Rede Mandarim, em Hong Kong. Em cima do balcão havia um folheto. Enquanto esperava, folheei-o. Na primeira página, começava a descrição dos países do mundo. Do Brasil, falava-se somente de São Paulo e do Rio de Janeiro. E davam o código do telefone. Para entrar no Brasil, o código era 55 11, São Paulo, e 55 21, Rio de Janeiro. Chamei o gerente e lhe disse: “I’am from Brazil. There are important cities in my country”. Ele me trouxe um papel para que eu anotasse. Anotei 055 32, Ubá. Paguei a conta e saí do hotel. Passado algum tempo, chegando de viagem, no Aeroporto da Pampulha, encontrei-me com o Galeno, meu colega. Fizemos juntos um curso na Escola Superior de Guerra. Ele estava com muitas malas. Eu lhe falei: “Galeno, que bagagem enorme”. E ele me respondeu: ”José Alencar, estou voltando da Ásia”.

“Você estava na Ásia? Na China ou no Japão?”. Ele disse que estava em Cingapura. Contou que era Presidente da Associação Cristã de Moços e que lá houve uma grande solenidade. Disse que lá é uma cidade-Estado, onde não pisamos num chiclete porque é proibido fabricar e mascar chiclete. Disse que é uma cidade linda, que é uma maravilha e uma riqueza. Disse que ficaram hospedados num hotel da cadeia Mandarim e que, entre as cidades importantes do mundo, há três no Brasil. Eu perguntei se era verdade e se eram somente três. Ele disse que sim e perguntou-me quais eram essas cidades. Eu arrisquei dizendo que deveriam ser São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Ele disse que não era, e que me daria mais 10 chances. Eu fui falando. Eu já sabia, mas fui falando. Ele disse: “José Alencar, é Ubá. A terceira cidade mais importante do Brasil é Ubá”.

Eu comecei a ficar preocupado: se eu for à Ásia novamente e alguém me disser que Ubá não é a terceira maior cidade do Brasil, eu direi: eu disse que era uma das mais importantes cidades do Brasil e uma das maiores. E, de fato, é uma das maiores. Temos 5.500 Municípios, e Ubá está entre os maiores. É a mais importante porque aqui, por exemplo, quando vocês sabem que há um brasileiro nos restaurantes, executam a “Aquarela do Brasil”, que é de Ubá, porque é do Ary Barroso. Então, tenho uma resposta para dar. E isso aconteceu. Então, digo que Ubá é um dos principais endereços de Minas no Brasil.

Em todas as suas épocas, reuniram-se em torno de seu estilo cotidiano as melhores qualidades humanas e cívicas, formando-se uma verdadeira concepção ubaense de vida, forjada nos valores da sobriedade de sentimento, da simplicidade, da retidão, do recato afetivo e da disposição prática para o trabalho, sob o signo da boa esperança. É uma fábrica de amizades. Sentimentos livres e consciências abertas que transcendem ao tempo, possuindo uma história copiosa de exemplos que se oferecem a Minas e ao Brasil, bem como ao aplauso das gerações vindouras. Entendia o grande sociólogo Gilberto Freire que não é possível penetrar nas sutilezas do ambiente sociopolítico sem a atenção ao lugar do cotidiano, do indivíduo na configuração de uma dada comunidade.

Nesse sentido, como fidelidade aos ideais fundamentais de Ubá, mas sem pretender fazer o inventário de todos os seus mais ilustres filhos - naturais e adotivos -, como deixar de invocar nesta oportunidade, tal qual em uma prece, uma convergência de alguns ilustríssimos nomes que, cada um a seu modo, conformam-lhe o perfil e realçam-lhe os atributos de seus feitos e de sua condição: Antônio Januário Carneiro Filho; Dr. Fecas; Cel. Júlio Soares Brandão; Presidente Raul Soares de Moura; Senador Levindo Coelho; Cesário Alvim; Governador Ozanan Coelho; Phillipe Balbi; Eduardo Levindo Coelho; grande compositor Ary Barroso; Guará, nosso grande esportista; o imortal Antônio Olinto. Também podemos citar o Honório Carneiro, a Celma e a Célia, as duas Mazzei, a Nádia Micherif, o Marum Alexander, que nos brinda com esse maravilhoso coral. Ele está do mesmo jeito, não envelhece. Quero cumprimentar o neto do Lincoln Costa, que deve estar presente, fundador da Itatiaia, a maior fábrica na sua especialidade no Brasil, que está em Ubá, o Nelson Ned, o Mauro Mendonça, o Campomizzi Filho e o Sebastião José Barreto.

Quero cumprimentar também três importantes Vereadores de Ubá. Um deles foi Prefeito e Deputado, Narciso Michelli, e os outros: Nicolino De Filippo e Xavier Pereira. Eram três Vereadores aguerridos. Numa ocasião, eles brigavam tanto em oposição ao De Filippo, que foi um excelente Prefeito de Ubá, homem de bem.

Ligaram lá para casa, à noite, eu estava jantando, por volta das 20h30min, e disseram-me que o De Filippo estava cercado na Prefeitura. O povo estava na Praça São Januário. Você se lembra disso, Honório?

O povo estava bravo, porque queríamos levar água para a cidade. Naquele tempo, era a Comag. Queríamos levar água tratada. A água lá vinha do Miragaia, era uma água santa. O povo acreditava que aquela água não precisava de tratamento. Era um absurdo falar em tratamento da água, porque iam cobrar a água em Ubá. Mas o Prof. De Filippo, que era o Prefeito, junto a nós, da Associação Comercial, lutávamos para levar a água. E os nossos companheiros Narciso Michelli, Nicolino De Filippo e Xavier Pereira eram do PSD, do mesmo partido. Mas eles não queriam isso de forma alguma, porque acreditavam que a água da Miragaia era santa e seria um desapreço a essa água. E consideraram o Prefeito um louco. E o povo foi para a Praça São Januário.

Mas o povo de Ubá é um povo pacato, tranqüilo, pacífico. Chamaram-me, e fui. Vou entrar lá. A Prefeitura tem duas grandes portas. Abri-as até no canto, porque havia um camarada que estava tomando conta. Quando falei meu nome, ele abriu as duas portas. Eu disse: “O que vocês estão querendo fazer?”. Eles responderam que não queriam fazer nada. Então vi que não fariam nada. Subi lá e vi que estava o Sr. Rafael De Filippo, pai dele. Descemos, atravessamos no meio do povo, que veio atrás, vaiando, até chegarmos à casa do De Filippo, e voltamos pelo mesmo caminho. Nada aconteceu conosco. Lá não havia vandalismo, como nunca houve, e não há lugar para a violência. Ubá é uma cidade extraordinária também nesse sentido.

Ao falar de Nicolino De Filippo, Narciso Michelli e Xavier Pereira, lembrei-me desse episódio, e muitos amigos antigos que aqui estão poderão lembrar-se dessa ocasião.

Quero citar aqui o José Francisco Parma. Foi ele quem iniciou todo o trabalho de indústria em Ubá. Todos eram moveleiros, mas só faziam móveis por encomenda. Esse trabalho se iniciou com o apoio da Associação Comercial, no tempo em que o Sebastião José Barreto era Presidente. Orientamos o trabalho, e eles confeccionaram um folheto com as fotografias dos móveis que cada um produzia.

Mas aquilo tudo foi resumido. Por exemplo, alguns só faziam cama de solteiro, outros só mesa de centro. Não havia economia de escala para que colocassem vendedores viajantes para vender os móveis. Então, chamou-se o gerente do Banco do Brasil e combinaram. Naquele tempo havia o limite de alçada e ele disse: “Olha, as duplicatas deles até o meu limite de alçada, desconta todas”.

Arranjamos um vendedor que vendeu para as 10 fábricas, ele era vendedor das 10 fábricas e levava aquele cartaz com cada uma delas. O talão de pedidos era separado por fábrica. E aquilo deu economia de escala para que eles começassem. O precursor de tudo aquilo foi José Francisco Parma. Ele merece uma homenagem nossa porque hoje Ubá é líder na indústria de móveis no Brasil. Isso é uma coisa importantíssima.

Todos, em gratificação de sentidos, protagonistas de uma modulação entre a vontade invencível de servir e progredir, e a bem-sucedida história de Ubá, que faz forma e informa a consciência e a identidade de seus filhos. Seu povo é força propulsora é ritmado e não se cansa de seus dias, pois agente de uma ação permanente do engenho humano, tendo os olhos voltados para o horizonte que nos mostra a estrada, mas levando em conta que não existe um lugar onde o horizonte se acabe - é bonito esse tópico, eu não soube ler direito, é de autoria do Nando.

A construção cotidiana e renovada desta rica trajetória evolutiva em seus valores dominantes - essa Ubá de várias vezes e vozes - é o desafio caprichoso que se coloca nos padrões da civilidade democrática perante sua gente e suas principais lideranças. É que Ubá continua, em suas virtudes e vicissitudes, em sua dominação interior, como existência de luta e exigência de solidariedade. Ubá, filha de seu tempo. De ontem, de hoje, de sempre. Ubá vive. Viva Ubá! Muito obrigado.