JOÃO PEDRO STÉDILE, Coordenador Nacional do Fórum Social Mundial. Coordenador Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do MST.
Discurso
Comenta o tema: "Globalização, Neoliberalismo e Financeirização do
Capital."
Reunião
143ª reunião ESPECIAL
Legislatura 14ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/09/2001
Página 16, Coluna 4
Evento Fórum Técnico: "Minas por um outro mundo."
Assunto DESENVOLVIMENTO SOCIAL. INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS.
Observação Participantes dos debates: Evaristo Garcia Mattos, Edinaldimar Barbosa, Hélcio Queiroz Braga, Jesiane Aguilar Barbosa Bueno, Uarcanã, Paulo Oliveira Cruz.
Legislatura 14ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/09/2001
Página 16, Coluna 4
Evento Fórum Técnico: "Minas por um outro mundo."
Assunto DESENVOLVIMENTO SOCIAL. INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS.
Observação Participantes dos debates: Evaristo Garcia Mattos, Edinaldimar Barbosa, Hélcio Queiroz Braga, Jesiane Aguilar Barbosa Bueno, Uarcanã, Paulo Oliveira Cruz.
143ª REUNIÃO ESPECIAL DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 30/8/2001
Palavras do Sr. João Pedro Stédile
Bom-dia, companheiros e companheiras! Agradeço enormemente o
convite para o fórum mineiro e cumprimento a Assembléia, na pessoa
do Deputado Luiz Tadeu Leite, por este debate. Queria cumprimentar
os companheiros da iniciativa mineira de realizar este debate nos
marcos da preparação do Fórum Social Mundial. Mais do que um
evento, o Fórum Social Mundial quer ser um processo de debate na
sociedade, para que as pessoas tenham oportunidade de entender o
grave momento por que a humanidade está passando na atual
conjuntura internacional.
Lamentavelmente, a Dirlene fez essa deferência em me convidar e
me fez apelar para os manuais, porque a minha especialidade não é
capital internacional. A minha especialidade é falar mal do
Fernando Henrique e, obviamente, falar bem da reforma agrária. Vou
correr o risco de ser “manualesco” e pedi licença ao Antônio de
Paula, grande professor de economia política, para ser um dos
primeiros, para que a minha fala servisse como uma espécie de
introdução, e depois o César e o professor atenderiam às
expectativas de vocês. E espero que vocês tenham tempo suficiente
para provocar o Embaixador Samuel Pinheiro a falar mal da ALCA.
A título de introdução, gostaria de comentar com os companheiros
que vivemos uma nova fase na humanidade, pela qual nunca havíamos
passado antes, embora o processo de globalização de mercadorias e
de intercâmbios comercial e cultural exista há centenas de anos.
Mas a novidade da conjuntura atual é que o capital passou a
dominar as nações do mundo na sua forma mais perversa, que é a da
especulação financeira. Queria que fizessem comigo uma viagem
histórica, para entender porque chegamos aqui. À medida que o
capitalismo se foi implantando na humanidade, tivemos um primeiro
período, que, grosso modo, foi de 1500 a 1900. Durante esses 400
anos, a forma principal de o capitalismo acumular riquezas e
explorar os trabalhadores e os pobres foi através da apropriação
das matérias-primas existentes no Terceiro Mundo e da produção
agrícola. Como a base da riqueza era apropriar-se da matéria-prima
existente na natureza e da produção agrícola, evidentemente
tiveram de controlar os territórios, o que era fundamental. Para
isso, usaram, como regime político de dominação, o colonialismo,
mantendo os povos do Sul sob o seu domínio político e militar.
Essa forma de dominação entrou em crise, os povos rebelaram-se, e
vivemos, no final do século XIX, a luta pela libertação nacional,
sobretudo na América Latina e na Ásia, surgindo as nações
independentes. Nesse processo de surgimento das nações
independentes, o capital muda de forma de espoliação e passa a
acumular riqueza, oferecendo recursos para a implantação da infra-
estrutura básica das nações independentes. Foi assim que, no
Primeiro Mundo, sobrava capital industrial e vieram ao Terceiro
Mundo implantar estradas, portos, energia elétrica, enfim, a
estrutura básica. Isso ocorreu entre o final do século XIX até
1930. A crise do capitalismo, na década de 30, redimensionou a
forma de espoliação e, sobretudo, houve uma mudança drástica no
Primeiro Mundo, com a ascensão da ideologia socialista e da
capacidade de seus operários proporem um novo modo de produção,
que representou o surgimento de muitas rebeliões populares e,
inclusive, a primeira revolução operária e camponesa, a Revolução
Russa. Isso alterou os mecanismos de espoliação, forçando o
capital a, de novo, mudar sua forma de dominação porque, no
Primeiro Mundo, esse movimento vigoroso e socialista dos operários
conquistou enormes direitos sociais e elevou o nível de salários
no Primeiro Mundo de forma a diminuir a taxa de lucro, o que é a
contraposição lógica. A partir da década de 30, os capitalistas do
Primeiro Mundo vieram para o Terceiro Mundo, agora em busca de mão-
de-obra barata para contraporem-se ao pungente movimento operário
que, no Primeiro Mundo, havia elevado os salários. De 1930 para
cá, os capitalistas vieram nos explorar, em busca de mão-de-obra
barata, e produziram, em nossos países, a chamada industrialização
dependente de seu capital. Evidentemente, não tinham nenhum
interesse idealista em nos ajudar a nos desenvolvermos. Seu único
objetivo era manter as taxas de lucro em nível internacional sobre
a base da exploração da nossa mão-de-obra, com salários
miseráveis, como o é até hoje. O salário da Volkswagen, de São
Bernardo, é dez vezes menor que o salário médio pago em Hamburgo.
Bem, esse modo de exploração começou entrar em crise na Segunda
Guerra Mundial, com muitas revoltas no Terceiro Mundo. E com o
aceno dos Estados Unidos - como centro hegemônico desse capital
industrial -, esse país se aproveitou da vitória militar na
Segunda Guerra Mundial e, prevendo que não manteria esse processo
da exploração da mão-de-obra por muito tempo, impôs às nações
derrotadas o dólar como base de transação comercial, ao contrário
da proposta de Keynes, que era Ministro das Finanças na
Inglaterra, que propunha uma moeda internacional. Os Estados
Unidos se anteciparam e, percebendo que a moeda poderia ser uma
forma de explorar os países, chamaram para uma conferência em
Bretton Woods e, antes de terminar a guerra, já impuseram as
condições de que depois da guerra o dólar seria a moeda
predominante nos intercâmbios comerciais. Com isso, já se
antecipavam para criar formas de espoliação de nossos países.
Esse processo foi se avançando, e, na década de 80, tivemos uma
grande crise do capitalismo e da industrialização. A crise veio
casada, como disse o Prof. Samuel, com uma revolução tecnológica,
que seria a terceira na era moderna, que foram as descobertas
feitas na área da biotecnologia, de química fina, da
microeletrônica, que resultaram na informática.
Esses conhecimentos científicos, essas descobertas que se
transformaram numa verdadeira revolução tecnológica, aceleram de
maneira estupenda a produtividade do trabalho e a possibilidade de
produzir mercadorias com maior rapidez e menor número de
trabalhadores.
Vou dar um exemplo que está afeto a nós na agricultura. Até à
década de 80, todos os pneus eram feitos com o látex das
seringueiras naturais. Imaginem o tempo que leva uma seringueira
para começar a produzir: 15 anos! E depois cada árvore produz uma
latinha por dia. Ou seja, leva três anos para fornecer matéria-
prima para um pneu. Esse era o processo natural na indústria
automobilística. Agora, com a química fina, fazem pneus com
materiais químicos e na Pirelli, em São Paulo, 2.500 pneus por
dia, sem nenhuma gota de látex natural. Isso é uma revolução na
forma de produzir pneus e mercadoria em geral. Isso afetou
novamente as relações com o Terceiro Mundo.
Então, os grandes capitalistas e as multinacionais já não
precisaram das fábricas do Terceiro Mundo para manterem suas taxas
de lucro e passaram a ter uma elevada taxa de lucro nos seus
países de origem, sobre a base da revolução tecnológica e do
aumento da produtividade no trabalho. Isso aconteceu a ponto de lá
mesmo despedirem milhares de operários sem diminuir a produção. Ao
contrário, a produção aumenta.
No ano passado, sobraram, no mercado internacional, 3 milhões de
veículos, por falta de compradores. E a mão-de-obra dos operários
na indústria automobilística vem diminuindo 30% ao ano.
Com isso, da década 80 para cá, não interessa sequer aos
capitalistas do Primeiro Mundo a nossa mão-de-obra. E o processo
de espoliação de nosso país passou a se dar pelo capital
financeiro, porque essa revolução tecnológica e as altas taxas de
lucro que eles começaram a obter, não puderam ser aplicadas em
novas fábricas como o eram no período anterior. Agora, há limites
de demanda no mercado. Só porque sobra dinheiro na Volkswagen,
eles não podem fazer fábrica de veículos uma atrás da outra. É
limitado o poder aquisitivo da população. Mas sobra o dinheiro do
lucro. Então o que as grandes empresas fizeram com seus lucros?
Começaram a aplicar no mercado financeiro. E há hoje no mundo,
segundo dizem, US$30.000.000.000.000,00 de capital circulante em
forma monetária, que anda igual andorinha procurando lavouras,
para se locupletarem.
Então, da década de 90 para cá, mais do que políticas
neoliberais, o que está em curso no Terceiro Mundo é um novo
modelo de acumulação do capital, que subordinou todas as economias
do Terceiro Mundo - as que aceitaram, evidentemente, com raras
exceções, como o Irã, a Índia, a China - ao capital financeiro.
A forma principal desse capital financeiro se realiza já não é na
produção. Realiza-se basicamente de três formas. Primeiro,
emprestando dinheiro aos Governos, às empresas e aos Bancos, sem
se interessar se é para investimento produtivo ou não. O que mais
interessa no empréstimo é a taxa de juros. Por isso nos impuseram
taxas de juros aviltantes, para poder remunerar rapidamente esse
capital. Enquanto o Primeiro Mundo segue a lei de Marx e de
Keynes; que a taxa de juros tem de ser sempre abaixo da taxa de
lucro, senão quem que toma empréstimo no Banco não consegue pagar,
aqui, no Terceiro Mundo, impuseram-nos taxas de juros que não têm
nada que ver com nossa taxa média de lucro. Enquanto hoje, no
mercado internacional, se praticam taxas de juros que variam de
0,2%, em Tóquio, a 5%, nos Estados Unidos, impõem-nos 19% ao ano
no Brasil. Embora o número 19 pareça pequeno, em nível
internacional representa um lucro quatro vezes maior do que o
mesmo capitalista pode obter aplicando num banco norte-americano.
Os países do Terceiro Mundo viraram um negócio da china. Nunca
ganharam tanto dinheiro com as taxas de juros como agora. O
resultado é que a dívida externa passou a ter um processo de
crescimento estrondoso.
Vivemos falando mal dos militares, que endividaram o País na
década de 70, que construíram a Transamazônica. Quando o Gen.
Geisel passou o Governo para Figueiredo, época em que o modelo da
industrialização já estava em crise, a dívida externa era de
US$5.000.000.000,00. E estávamos apavorados. Fernando Henrique,
sozinho, pulou de uma dívida externa de US$120.000.000.000,00 para
US$280.000.000.000,00. Em cinco anos, Fernando Henrique endividou-
se mais do que em 450 anos de Brasil, tal o processo de
especulação.
O segundo mecanismo de especulação foi a dívida interna. Como a
taxa de juros aqui é muito alta, o capital internacional dá-se ao
luxo de emprestar para um Banco brasileiro, que empresta para o
Governo brasileiro, para a dívida interna. O Governo brasileiro
paga em real, mas, depois, o Banco credor transfere para seu
parceiro no exterior. A ponto de hoje o Governo brasileiro
devolver para os Bancos - essa agiotagem internacional que se
revelou - R$74.000.000.000,00, 67% de toda a receita tributária
deste País, de todo o dinheiro que recolhem em Imposto de Renda,
em IPI, etc.
O terceiro mecanismo de espoliação é a desnacionalização de
nossas empresas. O dono da Vale do Rio Doce não é este testa-de-
ferro do Benjamin Steinbruck. Esse é um burguês lúmpen brasileiro.
O verdadeiro dono da Vale do Rio Doce é o National Bank de Nova
Iorque. Duvido que seu Presidente saiba em que parte do planeta
fica a mina de Paraopeba, o que, nem Fernando Henrique, metido a
sabido, sabe. Dou esse exemplo porque os Bancos operam por
computador; compram as ações das empresas mais lucrativas sem ter
noção do processo produtivo, porque querem apenas o lucro.
Escolhem no mercado as empresas mais lucrativas, vão à bolsa de
valores e compram as ações. Ações nada mais são que um papelzinho
que não vale nada - tipo um diploma do Cruzeiro. Se rasgarmos, não
perdemos nada. Mas ação é um documento jurídico que diz que ao
portador se lhe dá o direito de repartir o lucro. E o que querem
da Vale do Rio Doce nem é o minério. É o lucro.
Nesse processo, foram desnacionalizadas no Brasil não só
estatais, mas 650 grandes empresas brasileiras foram compradas na
bolsa de valores por esse capital “golondrina”, que anda à procura
de formas de exploração.
Vou dar um exemplo de quanto isso representa para os
estrangeiros. O grupo espanhol que comprou a TELESP opera em 40
países do mundo. Seu lucro no ano passado foi de
US$700.000.000,00. Disso, US$500.000.000,00 foram remetidos pela
ex-TELESP de São Paulo, ou seja, o povo paulista transferiu para o
bem-estar dos espanhóis US$500.000.000,00 em um ano, por meio de
tarifas de telefone e de todo um mecanismo de que ninguém se dá
conta. Esses são os novos mecanismos de espoliação do capital
financeiro. Essas são as verdadeiras formas de o imperialismo se
manifestar na sociedade.
Há pouco tempo, em nome do Movimento, fui visitar o Prof. Celso
Furtado, que é um dos grandes pensadores do Brasil e que,
infelizmente, está esquecido. A televisão brasileira fala de tudo:
Sasha, Xuxa, seqüestro de Fulano, afogamento de Beltrano, menos
dos nossos pensadores, que são os que refletem sobre a estrutura
da sociedade. Por isso, algum dia, teremos de fazer um servicinho
na televisão brasileira, tal o mal que está causando ao nosso
povo. (- Palmas.) A Globo - vou olhar para a câmera, para ficar
bem enquadrado - é o cabaré da burguesia. (- Palmas.)
Referi-me ao Prof. Celso Furtado, para usar um exemplo
emblemático que ele nos deu na manhã do domingo ensolarado de
nossa visita. Por cálculos que fez, consultando livros de história
econômica e analisando quantidades de ouro e prata registradas nas
aduanas e enviadas para o exterior no auge da exploração colonial,
que durou 250 anos, concluiu que Portugal e Inglaterra levaram,
principalmente das Minas Gerais, US$1.400.000.000,00 no valor
atual. Todo mundo fica enfurecido com os portugueses, mas não
sabem que hoje o Brasil, por esse novo mecanismo de espoliação
financeira, transfere ao Primeiro Mundo US$50.000.000.000,00 ao
ano, na forma de juros da dívida externa, de “royalties”, de
transferência de lucro e de outras tantas taxas de serviço. Isso
equivale a US$1.000.000.000,00 por semana. Ou seja, a burguesia
brasileira, pelo Governo de Fernando Henrique, está entregando
hoje, numa semana, o que os portugueses não conseguiram em 250
anos. Isso é o que a espoliação atual do capital financeiro produz
sobre a nossa sociedade.