IGNÁCIO HERNANDEZ, Líder dos trabalhadores metalúrgicos em 68/69 no Município de Contagem.
Discurso
Comenta o tema: "Testemunhos da resistência".
Reunião
17ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/04/2004
Página 35, Coluna 4
Evento Ciclo de Debates: "Resistir Sempre - 64 Nunca Mais".
Assunto HOMENAGEM. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. DIREITOS HUMANOS. ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. TRABALHO.
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/04/2004
Página 35, Coluna 4
Evento Ciclo de Debates: "Resistir Sempre - 64 Nunca Mais".
Assunto HOMENAGEM. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. DIREITOS HUMANOS. ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. TRABALHO.
17ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 31/3/2004
Palavras do Sr. Ignácio Hernandez
Amigas, amigos nossos, principalmente as amigas e os amigos da
liberdade, da justiça, de uma sociedade nova. Minha amiga, D.
Helena, estamos aqui novamente. Faz 30 anos que nos encontramos.
Lembro-me muito bem, na escadaria da Igreja São José, da senhora,
da Adélia, da polícia chegando, e de outra companheira, grávida,
que não sei quem era. Mas sei muito bem que a D. Helena falou que,
tendo em vista ser velha, mulher, e a outra, grávida, a polícia
não faria nada conosco. Na mesma hora, estourou uma bomba de gás
lacrimogêneo no peito de D. Helena, e as três mulheres saíram
correndo.
Companheiros jovens - os mais velhos conhecem muito bem toda a
nossa história -, é bom saber que os anos da ditadura foram, por
um lado, de angústia, de tristeza. Tínhamos carro da polícia
vigiando toda noite a nossa casa. De vez em quando, um
desconhecido batia à porta, querendo saber o que estava
acontecendo, e revistava a nossa casa. Isso trazia angústia, mas,
ao mesmo tempo, foram anos de grande esperança e felicidade. Nunca
vi tanta solidariedade, união, desinteresse e amor entre as
pessoas!
D. Helena é o símbolo de muitas mulheres e homens. Quando alguém
era preso à meia-noite, à 1 hora da madrugada, corriam para as
portas dos DOPS, brigavam com os militares e conseguiam o que
queriam. A D. Helena e outras mulheres chegavam às portas do DOPS
e mandavam cobertores para os operários e professores presos.
Naquela época, todos fumavam, mas hoje largaram o cigarro. A D.
Helena mandava pacotes de cigarros para dentro do DOPS, porém não
chegavam. Esse talvez tenha sido o único aspecto em que não foi
vitoriosa. Havia angústia, alegria e solidariedade. Tomara que
isso volte! Hoje não há tanta solidariedade.
Fui metalúrgico durante muitos anos. O movimento operário
respondia à ditadura na forma em que se impunha. Em 1964, Riani,
Dazinho, Bambirra e outros trabalhadores foram presos, o que fez
com que o movimento ficasse desarticulado. Quando não se pode
resistir, pode-se sobreviver. Os metalúrgicos da MANNESMANN, da
Belgo Mineira e de dezenas de fábricas sobreviveram e começaram a
levantar a cabeça a partir de 1967. Uniram-se e fizeram em
Contagem as primeiras greves. Talvez os mais novos não saibam, mas
os mais velhos sabem que as primeiras greves no período da
ditadura militar foram feitas na cidade industrial de Contagem.
Orgulhamo-nos muito disso, pois foi o primeiro golpe, que eles,
talvez, nem sentiram. Mas foi o primeiro contra a ditadura
militar. Os companheiros Ênio Seabra, Mário Bento, Mário Bigode e
outros sofreram com o desemprego gerado pela ditadura. Os
metalúrgicos de Contagem têm uma histórica fantástica de
sobrevivência, de resistência, de acúmulo de forças e de
conquistas. Em 1979, D. Helena, muitas vezes, visitou metalúrgicos
na prisão. Hoje a greve é uma coisa corriqueira, mas não o era.
Dava morte, cadeia e gerava desemprego. Os metalúrgicos de
Contagem fizeram uma greve de dez dias e conseguiram aumento de
salário. Entretanto, a greve não objetivava dinheiro, mas
liberdade, autonomia sindical, gritar nas ruas e nas portas da
fábricas: “Abaixo a ditadura!”. A greve era política. Sempre foi e
sempre será.
No fim da semana passada, há três ou quatro dias, estive com
Dazinho, que está tetraplégico, e disse-lhe que falaria aqui na
Assembléia. Pediu-me então que dissesse aqui que a resistência tem
de continuar. Não estamos vivendo uma ditadura específica, mas
vivemos embaixo de uma ditadura global da economia, do dinheiro,
do capitalismo que sufoca o Brasil, com essa dívida externa
imensa, da qual temos falado durante 30 anos. Ela continua e temos
de resistir firmes contra toda forma de autoritarismo. Temos de
ressuscitar a convicção de que a sociedade se transforma de baixo
para cima e de que, com a união dos trabalhadores, dos estudantes,
das donas de casa e da mulher mineira, poderemos ajudar Lula a
transformar o Brasil, já que, sozinho, não transformará coisa
alguma, nem ele, nem seu Governo. Nós, da sociedade, temos de
fazer a transformação; entretanto essa sociedade está, cada vez
mais, desarticulada e fraca. Não existem associações que resistam,
combatam e até chamem a atenção do Governo. Nós, do PT, somos
livres para levantar a voz e gritar se estamos tristes ou alegres,
se gostamos ou não da situação, mas de forma organizada, para que
o Brasil seja aquele sonho que todos queremos: o país da
liberdade, do desenvolvimento, da riqueza e, sobretudo, da
solidariedade. Muito obrigado.