HELOÍSA GRECO, Professora Doutora do Departamento de História do Centro Universitário de Belo Horizonte - UNI-BH. Coordenadora do movimento "Tortura Nunca Mais".
Discurso
Discursa sobre o tema: "Representação e participação da sociedade".
Reunião
41ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 27/08/2005
Página 34, Coluna 4
Evento Ciclo de debates "Poder Legislativo Mineiro e Sociedade - 170 Anos".
Assunto CALENDÁRIO. (ALMG). LEGISLATIVO.
Legislatura 15ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 27/08/2005
Página 34, Coluna 4
Evento Ciclo de debates "Poder Legislativo Mineiro e Sociedade - 170 Anos".
Assunto CALENDÁRIO. (ALMG). LEGISLATIVO.
41ª REUNIÃO ESPECIAL DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 22/8/2005
Palavras da Sra. Heloísa Greco
Boa tarde a todos. Agradeço o convite na pessoa do Deputado Dalmo
Ribeiro Silva. Agradeço a presença e a atenção de todos, em
particular das minhas turmas do UNI-BH aqui presentes, sobretudo a
do 4º período, que está participando desde cedo.
É com muito alegria e com muita honra que divido esse espaço com
colegas tão queridos e tão ilustres, alguns dos quais conheço há
algumas décadas. Destaco, também, que é sempre bom participar de
uma mesa que tem maioria feminina, sobretudo no espaço
parlamentar, que é eminentemente masculino ainda.
Preparei um texto para essa minha intervenção. Segui-lo-ei à
risca para não ultrapassar os 20min regulamentares e também para
não perder o fio da meada.
Nosso objeto de discussão nesta Mesa é a representação e
participação da sociedade no processo legislativo, questão que
traz na sua essência o debate do que se entende por democracia,
representação e cidadania. O que está em pauta, afinal, é o
próprio conceito de política e a problematização do seu exercício
no espaço instituído. Nos 20 minutos de explanação que me
couberam, certamente não conseguirei aprofundar - ou mesmo
tangenciar - essa discussão, que é forçosamente também de caráter
teórico e conceitual. Vou procurar, então, articular alguns
questionamentos e problematizar algumas questões de fundo
relacionadas ao que pode ser chamado de dialética instituido-
instituinte. Trocando em miúdos: como tem sido realizado o que
Chico de Oliveira chama de amplificação da política no espaço
parlamentar - historicamente comprometido com privilégios e
interesses de classe e com a legitimação do poder instituído - a
partir da pressão da sociedade civil organizada, cujo papel é o de
promover a invasão e forçar a entrada em pauta de projetos e
discursos diferentes daqueles que são hegemônicos, embora nem
sempre necessariamente contrários a eles.
Como a minha militância política, nas últimas três décadas, tem-
se dado nessa frente que é tão importante e, ao mesmo tempo, tão
espezinhada e mal-compreendida, que é a luta pelos direitos
humanos e a relação que tenho estabelecido com o legislativo
estadual passa sistematicamente pelo acompanhamento dos trabalhos
da combativa Comissão de Direitos Humanos desta Casa, serão estas
as minhas referências para o desenvolvimento da discussão
proposta.
Vou procurar abordar dois blocos de questões: aquelas que
caracterizam a amplificação da política promovida pelos movimentos
sociais na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, e a
problematização dos limites conjunturais e estruturais deste
espaço e os obstáculos interpostos ao aprofundamento da tal
amplificação da política. Antes de entrar na discussão, no
entanto, é preciso tocar no assunto. Essa terrível crise política
que estamos vivendo constitui fator complicador, mas talvez também
possa funcionar como emulação para o enfrentamento do debate. Está
em vigor uma crise que, como diz Roberto Kurz, é muito mais que a
mera corrupção tradicional. Trata-se da institucionalização das
leis do gangsterismo e do cinismo político, da consolidação da
cultura da impunidade e do aviltamento do exercício da política.
E, o que é pior, inaugura-se novo tipo de patrimonialismo, que é,
talvez, o mais odioso de todos. E olhem que o Brasil tem uma
tradição de longa duração do patrimonialismo. Esse novo
patrimonialismo é caracterizado pela apropriação indébita e
privatização de projeto construído coletivamente, seguidas da sua
mais brutal deformação, a ponto de não restar sequer a imagem do
que fora o sonho de uma possibilidade de alternativa política de
transformação da realidade. Essa crise é sistêmica e estrutural,
não episódica ou conjuntural, e o epicentro dela é exatamente o
parlamento. Ela vem sendo construída historicamente, a partir de
práticas muito determinadas e bem datadas.
Em todo caso, apesar de tudo, a dialética atua a nosso favor: se
essa lambança tem sido construída historicamente, ela pode muito
bem vir a ser desconstruída também historicamente, o que, a meu
ver, só se dará a partir do instituinte, do protagonismo dos
movimento sociais, da refundação do espaço público, da refundação
das esquerdas, da recuperação da cidade enquanto “locus” do
exercício da dignidade da política e da construção da cidadania,
da substituição do espaço da mídia pelo espaço da ágora. É nesta
perspectiva que pretendo fazer a discussão proposta. Senão
vejamos:
Segundo Hannah Arendt, a história da modernidade tem sido a
história da destruição continuada do espaço público. Pois bem, a
chamada pós-modernidade levou esse processo às máximas
conseqüências, e aqui no Brasil a situação talvez seja ainda mais
grave. O País é o campeoníssimo mundial em desigualdade social (em
constante disputa pelo pódio com Serra Leoa) - não há como
escaparmos incólumes de tamanha iniqüidade. A exclusão estrutural
e seus parceiros inseparáveis - a mais brutal opressão econômica e
o exercício da violência institucional explícita - seriam a
própria razão de ser da nacionalidade brasileira - uma
nacionalidade sem cidadania (Henrique Samet), forjada em nome da
manutenção dos interesses privados da classe dominante.
As instituições políticas constituiriam, assim, apenas fachada
para tais interesses, e o Estado cumpriria o seu papel histórico
como instrumento de violência e coerção explícitas e simbólicas.
Os vinte e um longos anos de ditadura militar e os igualmente
longos 20 anos de ainda transição controlada e sem ruptura parecem
ter consolidado esse quadro, apesar de inegáveis avanços políticos
e institucionais na superação das iniqüidades sociais apontadas,
que certamente devem ser levados em conta.
Mas o fato é que, no final das contas, as chamadas classes
subalternas aqui no Brasil são subalternas mesmo, como lembra
Marilena Chauí: `A sociedade brasileira conheceu a cidadania
através da figura esdrúxula do senhor-cidadão escravocrata, metido
a aristocrata e latifundiário´.
Nesse quadro, a cidadania foi forjada como privilégio de classe e
se manteve como tal, como se fora objeto de concessão regulada da
classe dominante às demais classes sociais.
Na mesma linha, os indivíduos são divididos em duas grandes
categorias: a dos superiores competentes e a dos inferiores
incompetentes. Só os primeiros teriam capacidade para articular
discurso coerente e participar das decisões sobre os negócios do
mundo comum no espaço exclusivo designado para tal: o espaço do
instituído. Aos outros cabe delegar o exercício da política aos
superiores competentes e votar periodicamente para garantir a
reprodução do sistema. É a famosa síndrome do `cada macaco no seu
galho´, de cunho nitidamente neoplatônico.
Essa lógica perversa - que é a lógica do sistema - é rompida, ou
melhor, subvertida, quando aqueles que são considerados inferiores
incompetentes se assumem enquanto sujeitos - da história e de
direitos - e se reivindicam capazes de articular um discurso
coerente para, através de palavras e atos, governar seus próprios
assuntos, o que significa participar também das decisões sobre os
negócios do mundo comum - é este, afinal, o sentido da democracia.
Trata-se da recuperação de conceito clássico de cidadania -
podemos remontar a Aristóteles: "cidadão é aquele que participa do
ato de governar e de ser governado" (Política - Livro 111). Essa
subversão se realiza também quando o discurso do dissenso se
impõe, afrontando mais um axioma do sistema: o de que é o
consenso, e não o dissenso, o elemento fundante da política; logo
o dissenso deve ser demonizado e criminalizado.
Quando esse movimento - ou esse comportamento, para usar o termo
técnico - baseado na participação direta e no dissenso,
comportamento que é eminentemente instituinte, invade e ocupa o
espaço do Legislativo (eminentemente instituído), realiza-se a
amplificação da política. Essa não é a regra, é uma exceção quase
escandalosa: para ser realizada tem de haver a interrupção da
ordem natural das coisas, baseada na separação radical entre
governantes e governados, na criminalização do dissenso, das
contradições e dos conflitos - e até na denegação da luta de
classes: no chamado Estado de Direito, afinal, todos são providos
de direitos naturais e são iguais perante a lei. É um absurdo que
num país campeão de desigualdade social a discussão sobre luta de
classe tem sido marginalizada e demonizada.
A amplificação da política, no entanto, não se dá de maneira
linear ou sem contradições - não se trata de coisa dada ou
definitiva: deve ser permanentemente inventada ou reinventada e é
determinada pelas injunções da correlação de forças e do nível de
pressão e organização da sociedade. Isso vale também para os
espaços que se fundaram sob o signo da participação popular e da
imposição do dissenso e que já consolidaram esta tradição - como é
o caso da Comissão de Direitos Humanos da Aslemg.
A luta pelos direitos humanos, em nossa cidade e em nosso Estado,
deu grande salto quantitativo e qualitativo com a criação da
Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas
Gerais, há pouco mais de dez anos - 1994-2005.
O avanço mais significativo desta Comissão foi o fato de ter
conseguido imprimir à sua dinâmica a radicalidade peculiar à luta
pelos direitos humanos na esfera instituinte, muitas vezes em
condições absolutamente adversas, enfrentando obstáculos
burocráticos institucionais quase intransponíveis. Tornou-se o
espaço por excelência de denúncia e combate intransigentes à
violência policial e à instituição tortura, o qual se tornou
referência para todos quantos são vítimas destes crimes e também
daqueles que lutam contra eles.
A Comissão tem construído repertório teórico e político que
reflete firmeza de princípios e clareza conceitual ao entender a
luta pelos direitos humanos no seu caráter estrutural e
instituinte, inclusive na perspectiva do direito à memória e da
exigência da verdade enquanto dimensões básicas da cidadania - é
esta Comissão que tem tratado do contencioso da ditadura militar
aqui na Assembléia.
Além disso, tem implementado, na prática, sólida combinação de
iniciativa política e firmeza, o que tem se mostrado eficaz no
enfrentamento de autoridades constituídas e no combate a inimigos
poderosos. Tudo isso só foi possível a partir da organicidade
instituído-instituinte, marca registrada da Comissão de Direitos
Humanos da Assembléia.
Existem, no entanto, contradições reais e limites concretos à sua
atuação na perspectiva do aprofundamento da amplificação da
política. Vou me limitar a enumerar três ou quatro dos mais
importantes, para não ultrapassar o tempo regulamentar que me foi
concedido: 1 - risco permanente de naturalização das graves
violações dos direitos humanos, das quais o Brasil também se
coloca como um dos grandes campeões mundiais. O sistema, afinal,
como diria Foucault, tem capacidade para absorver e enquadrar suas
próprias contradições. A operacionalização institucional desse
comportamento seria uma prática mitigada, que não disputaria
hegemonia, mas procuraria implementar medidas de menor dano. Algo
do tipo: já que é impossível erradicar a tortura no Brasil, pois
não há condições políticas e jurídicas para o enfrentamento da
questão da desmilitarização da polícia e do desmantelamento do
aparelho repressivo com a devida nomeação, responsabilização e
punição dos torturadores e do Estado do qual são agentes - o que
só é possível como exceção, não como regra -, o objetivo passa a
ser apenas o esforço para debelar ou diminuir o número dessas
violações, que são consideradas internacionalmente crimes de lesa-
humanidade. Nesse caso, perde-se de vista que se trata de questão
conjuntural e passa-se a abordá-la de forma atomizada e molecular;
2 - risco também permanente de capitulação ao canto de sereia da
mídia e à absorção acrítica do emocionalismo característico do
senso comum. O quadro absolutamente assustador da escalada da
violência urbana provoca grande ansiedade de se ver livre de
qualquer coisa que se aproxime do estigma do esquerdismo e do
radicalismo, o que pode levar à perda da substância crítica
necessária ao enfrentamento da situação de barbárie que estamos
vivendo; 3 - a defesa intransigente dos direitos humanos não
constitui o menor apelo eleitoral, podendo até ser considerada
espanta-votos, já que compreende também embate a ser travado com o
senso comum, que normalmente é cortejado pelos parlamentares,
sobretudo em ano eleitoral: são raríssimos aqueles que mantêm a
coerência e a radicalidade do discurso o tempo todo, de peito
aberto; 4 - devido à situação de dissolução do espaço público e de
desmobilização e despolitização dos movimentos sociais existe
também o risco permanente de subalternidade, reboquismo e
incapacidade de iniciativa política destes, sendo que estes
aspectos são diretamente proporcionais ao protagonismo e
desenvoltura dos parlamentares nos espaços de atuação e instâncias
de decisão do legislativo, combinação que pode se mostrar
contraproducente do ponto de vista de avanços reais da prática
política.
Enfim, se os limites do espaço institucional estão dados, é
preciso ampliá-los. Afinal de contas, eles foram criados por uma
classe cujo objetivo exclusivo é a manutenção dos próprios
privilégios ou a reprodução do sistema. Não cabe a nós incorporar
passivamente esses códigos. A sustentação deve ser buscada na
formulação de mecanismos de controle e contra-poder”.
O controle mais eficaz é aquele exercido diretamente pelos
cidadãos organizados, o único capaz de propor a transformação do
exercício do poder ou do exercício da política, como a Fátima
observou.
Peço licença para concluir, citando um texto famoso do grande
Ítalo Calvino, no livro “As Cidades Invisíveis”, que sintetiza bem
o espírito desta discussão e da atual conjuntura. (- Lê:)
“O inferno dos vivos não é algo que será. Se existe, é aquele que
já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que
formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A
primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e
tornar-se parte deste, até o ponto de deixar de percebê-lo. A
segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas:
tentar saber reconhecer quem e o quê, no meio do inferno, não é
inferno, preservá-lo e abrir espaço.” Muito obrigada.