GILSE COSENZA, Presa política e militante durante a Ditadura Militar.
Discurso
Comenta o tema: "Testemunhos da resistência".
Reunião
17ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/04/2004
Página 36, Coluna 1
Evento Ciclo de Debates: "Resistir Sempre - 64 Nunca Mais".
Assunto HOMENAGEM. DIREITOS HUMANOS. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. ADMINISTRAÇÃO FEDERAL.
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/04/2004
Página 36, Coluna 1
Evento Ciclo de Debates: "Resistir Sempre - 64 Nunca Mais".
Assunto HOMENAGEM. DIREITOS HUMANOS. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. ADMINISTRAÇÃO FEDERAL.
17ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 31/3/2004
Palavras da Sra. Gilse Cosenza
Saúdo todos os que estão na Mesa e na plenária. Que testemunho
daremos em 10 minutos? A lição histórica dos direitos humanos e a
história dos países se constróem com a luta dos povos. Nenhum
avanço se dá sem a força motriz: os povos, os trabalhadores, os
jovens, as mulheres organizadas em luta. Esse é o sentido de
testemunho.
Inicialmente, gostaria de abarcar todas as mulheres que
participaram da resistência à ditadura. Na década de 60, o lugar
da mulher ainda era muito marcado em termos de submissão ao pai,
evitando coisas que eram de homem: a universidade - em 1964
formaram-se apenas 18% de mulheres -; evitar falar de política,
porque não era assunto de mulher, dar um jeito de casar logo para
não ficar para tia, e ser submissa ao marido eternamente. Nessa
situação, é com muito orgulho que digo que as mulheres mineiras,
brasileiras, jovens e de outras idades, tiveram a coragem de
romper não só com o enfrentamento do arbítrio, como qualquer outro
brasileiro do sexo forte, mas também com os preconceitos relativos
ao papel da mulher. Tiveram coragem de ir para a rua falar de
política e enfrentar os algozes, aqueles que tinham o direito de
vida e de morte e que nos diziam como me disseram na tortura - que
o sexo frágil não poderia, em hipótese alguma, ter a coragem de
levantar o nariz - como eu fazia - para enfrentar o poder de cada
um. Mas as mulheres brasileiras foram guerrilheiras urbanas e
rurais, foram clandestinas. Foram essas mulheres, como a grande D.
Helena, que lutaram por todos nós em nome das mães, das irmãs e
das esposas de todos os brasileiros que estavam nas mãos do
arbítrio. Aqui reverencio a D. Helena como um exemplo dessa mulher
brasileira, e todas as outras companheiras, as que resistiram e as
que foram assassinadas.
Queria também fazer uma homenagem a uma colega de cadeia, a
Carmela Pesuti, outra mãe que estava comigo na cadeia. No primeiro
Dia das Mães após nossa ida para Linhares, os colegas masculinos
de cadeia subornaram um guarda e nós duas tivemos a emoção de
receber, cada uma, um buquê de rosas vermelhas, dedicado às duas
mães revolucionárias pelos presos políticos.
Gostaria também de tentar abarcar o que significou a resistência
da juventude, que, na história da humanidade, é aval de qualquer
transformação. Nós, jovens estudantes à época, de repente nos
vimos insatisfeitos com aquele mundo onde havia tanto progresso, o
homem indo à lua, avião supersônico, progresso da ciência. Tudo
acontecendo, e 2/3 da humanidade passando fome. O povo não tinha
terra para plantar, não tinha moradia, não tinha acesso à
educação. Nós, jovens, dissemos: esse mundo não nos serve.
Queremos viver em um outro mundo, um mundo de liberdade, de
igualdade, de socialismo e de soberania nacional. E essa juventude
da nossa época, colocada, de repente, diante daquele arbítrio
horroroso, não teve dúvidas: respondemos, diante da história
brasileira, que a juventude brasileira não estaria abaixo da
juventude que fez as revoluções por meio da história da
humanidade. E a juventude brasileira largou os livros da escola e
foi para a rua dizer: somos jovens, mas somos construtores deste
País.
Gostaria também de tentar abarcar os trabalhadores urbanos e
rurais, porque, também nessa trajetória, acabei vivendo o papel da
operária têxtil e da trabalhadora rural sem terra. Como mulher e
como trabalhadora, pude ver como foi que esses trabalhadores
lutaram contra o arrocho salarial, pela dignidade dos
trabalhadores; dos trabalhadores rurais que lutaram, como ainda
hoje, pela posse da terra. Tive o orgulho de ser uma operária e
uma trabalhadora rural levantando a bandeira que, mesmo estando em
outra condição hoje, é minha, nossa e de todo o povo brasileiro, o
direito dos trabalhadores urbanos e rurais.
Quero falar daqueles mais de 20 mil brasileiros e brasileiras
colocados na situação bestial da prisão política e da tortura,
desse retrocesso civilizatório, desse retrocesso histórico, em
termos de humanidade, que significou o golpe militar e 21 anos de
terror.
Lembro a coragem e os desafios enfrentados pelos que se viam
absolutamente indefesos. Dependurados nus no pau-de-arara, levavam
choque elétrico. Lá dentro, no terreno do inimigo, os mais de 20
mil homens e mulheres brasileiros souberam erguer-se, mesmo
arriscando suas vidas. Disseram aos torturadores que preferiam
morrer a viver como traidores sem dignidade. Como sobrevivente,
rendo homenagem a esses companheiros e aos que deram a vida por
essa causa.
Faço um chamamento aos homens e às mulheres, especialmente à
juventude. Se o processo da construção da história do Brasil, pela
força da luta do povo organizado, teve um momento marcante, em 500
anos, no período da ditadura, hoje vive também esse momento. A
bandeira da liberdade, da conquista da soberania deste País, dos
direitos sociais, continua tremulando nas mãos dos que, com 60
anos, não a arriaram. Não conseguiremos nada se não dermos as mãos
às tantas gerações que continuarão essa luta.
Precisamos permanecer alerta. Outro dia, assistindo a um programa
partidário, pensei terem meus neurônios virado mingau. Será que
voltei ao início da década de 64? Avisavam ao povo que hoje os sem-
terras invadem as terras diante de um Governo conivente. Amanhã
invadirão prédios públicos, depois, suas casas. São os comunistas,
que, naquela época, comiam criancinhas, queimavam igrejas, matavam
padres. Prepararam ideologicamente o povo brasileiro, os
trabalhadores e as mulheres para irem às ruas de terço na mão,
para apoiar o golpe militar, intoxicados por uma preparação de
mídia. Isso não aconteceu apenas naquela época.
Atualmente, percebo na mídia uma tentativa de desestabilizar o
processo democrático. Cabe a nós, que temos 60 anos, que não
podemos arriar a bandeira, e às outras gerações dizer que a
juventude que morreu no Araguaia está presente aqui, nos partidos
de todas as categorias, nos partidos de luta, nas religiões e dirá
que não aceitaremos a ditadura e nenhum retrocesso. Estaremos,
diante da vitória histórica do Governo Lula, disputando para que
as forças da mudança sejam vitoriosas e para que o movimento
popular organizado seja capaz, de braços erguidos, de reivindicar,
exigir, propor, criticar e dar as mãos para um Governo que tem
forças populares. Assim, não se perderá no retrocesso, na
capitulação nem se tornará incapaz de realizar mudanças.
Nossa missão é mais complexa. Antigamente exigia-se muita coragem
física, e hoje não estamos ameaçados de tortura. Atualmente
precisamos ser mais capazes, inteligentes e fortalecer os
movimentos sindical, estudantil, de mulheres, de negros e
comunitário, e a força do povo nas ruas deverá ser a alavanca para
dizermos: “Não estacionamos na ditadura e não admitiremos que o
Brasil o faça”. As gerações, passadas e atuais, têm um sonho que
se tornará realidade: um Brasil soberano, independente, cada vez
mais democrático, com direitos sociais, igualitários, salariais,
com direito ao trabalho, à educação, à moradia, à cultura, ao
esporte, enfim, com direito de ser feliz. Construiremos esse
Brasil.
Se não vir, em vida, esse Brasil, tenho certeza de que os meus
netos e os dos outros brasileiros verão; um Brasil democrático,
independente, socialista, onde o povo tenha o direito de ser
feliz, de viver como gente, enfim, o Brasil dos nossos sonhos. Os
companheiros da Comissão de Anistiados acabam de colocar uma faixa
pedindo indenização aos torturados. Em nome de todos os
anistiados, que reclamam o resgate histórico e democrático do
reconhecimento do Estado terrorista, quero dizer que aqueles que
lutaram merecem, no mínimo, o reconhecimento como lutadores e uma
indenização simbólica. Faço mais uma cobrança ao Governo do
Estado, que hoje autorizou o reinício do pagamento de 36
indenizações, fruto da nossa luta. Isso não basta! Queremos,
amanhã já, resposta do Governo quanto ao cronograma de pagamento
dos mais de 800 torturados no Estado, que merecem o reconhecimento
de todos, além da indenização de R$30.000,00, porque nem esse
valor, nem R$30.000.000,00 pagam nem apagam o absurdo bestial da
tortura que fizeram com todos nós. Essa é uma homenagem aos meus
companheiros anistiados. Muito obrigada.