ENI CARAJÁ FILHO, Gerente de Apoio ao Conselho de Saúde da Secretaria Municipal de Betim. Presidente do Comitê Popular Pró-Participação na Constituinte.
Discurso
Transcurso do 20º aniversário de promulgação da Constituição Estadual.
Reunião
39ª reunião ESPECIAL
Legislatura 16ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 30/09/2009
Página 48, Coluna 4
Evento Ciclo de debates: "Constituição e Democracia - 20 anos da Constituição Estadual".
Assunto CONSTITUIÇÃO ESTADUAL. CALENDÁRIO.
Normas citadas CON de 1989
Legislatura 16ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 30/09/2009
Página 48, Coluna 4
Evento Ciclo de debates: "Constituição e Democracia - 20 anos da Constituição Estadual".
Assunto CONSTITUIÇÃO ESTADUAL. CALENDÁRIO.
Normas citadas CON de 1989
39ª REUNIÃO ESPECIAL DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª
LEGISLATURA, EM 21/9/2009
Palavras do Sr. Eni Carajá Filho
Boa-tarde a todos os parlamentares presentes nesta Casa, aos
constituintes, aos atuais parlamentares, aos trabalhadores da
Assembleia Legislativa, aos visitantes. É com muita honra que, em
nome da sociedade que estava organizada naquele tempo e que
participou de um processo muito rico de mobilização social, estou
aqui a convite da Assembleia Legislativa. Esta foto do telão é
daqueles que lutam hoje também para verem resgatados o direito e a
dignidade das pessoas do Movimento de Reintegração das Pessoas
Atingidas pela Hanseníase - Mohan -, do qual faço parte. Temos
conquistado, em nível federal, legislações para reparação de danos
em relação ao processo de submissão à internação compulsória no
Brasil, na década de 30.
Hoje há a Lei nº 1.520, que foi uma conquista social no governo
Lula. Essas pessoas de Betim também fazem parte de uma luta
nacional para garantir dignidade. E, nesta Casa, em 2005,
conseguimos resolver a situação dos trabalhadores bolsistas de
laborterapia da Fhemig. Trata-se de um artigo inscrito por esta
Casa no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias nº 33. É
com muita honra que estamos aqui. O nosso lema, naquele tempo, era
“Constituinte sem povo não cria nada de novo”. Muitas pessoas
ficavam incentivadas em participar dos processos de debates, das
organizações de reuniões para debater o que se queria para a
Constituição Estadual, uma vez que havia um processo que veio das
Constituições Federal e Estadual e, posteriormente, de algumas
leis orgânicas municipais. Então o lema era “Constituinte sem povo
não cria nada de novo”.
Percebemos que, com a ascensão das lutas populares, na década de
70, não havia mais jeito: ou se mudava a cultura de legislações
feitas por intermédio de decreto-lei e de atos institucionais, ou
se fazia um processo verdadeiro de democracia. Foi possível
perceber isso a partir da abertura política. Percebeu-se também
que os movimentos sociais, que estavam amordaçados, passaram a
lutar pelos direitos. Essas movimentações chegaram ao ápice em
1984, no movimento das Diretas Já. Em Belo Horizonte, houve
grandes atos. Mas houve frustração em relação aos políticos na
queda do processo das eleições diretas. No modelo de escolher o
Presidente da República por meio do colégio eleitoral, houve
diferença de 22 votos, e 113 Deputados Federais ausentaram-se do
plenário para não votar. Ou seja, a emenda Dante de Oliveira foi
derrotada, mas a esperança do povo brasileiro não foi.
O Congresso Nacional, naquele período constituinte, foi eleito
por intermédio de grande chamada de apoio ao Plano Cruzado. O
Plano Cruzado conseguiu, de fato, eleger grande bancada, em sua
maioria do PMDB e do PFL. Havia muitos Deputados desses dois
partidos - 84% da bancada federal - empenhados em buscar soluções
para os graves e grandes problemas sociais que existiam naquele
período. Por isso mesmo esse Congresso Constituinte convocado
procurou se equilibrar. Na prática, o Plano Cruzado trouxe
governabilidade maior para o Presidente José Sarney, mas
percebemos que essa governabilidade tinha de ser discutida também
com a população.
Naquele período, havia a hiperinflação, que chegava a 350% ao
ano, e houve muitos movimentos contra a carestia a partir de 1979.
O período de 1985 foi o ápice de grandes convulsões sociais no Rio
de Janeiro, em São Paulo e em outras Capitais; e os descontentes
foram chamados para serem fiscais do Presidente Sarney. Mesmo
assim aquele período foi marcado por eleições milionárias, ou
seja, quem tinha dinheiro financiou, e muito, as campanhas
eleitorais. As mobilizações passaram a ocorrer na Praça Sete, em
Belo Horizonte, onde os grupos se reuniam para conversar; na Boca
Maldita, no Paraná; na Praça da Sé, em São Paulo; na Candelária,
no Rio de Janeiro, lugares onde se buscou desenvolver processos de
participação popular para a Constituição Federal, o que culminou
também nos 20 anos da Constituição Estadual. As emendas populares
federais, iniciadas a partir de um momento de pressão, alcançaram
12 milhões de assinaturas legais. No entanto, se não houvesse a
inscrição do título de eleitor, as assinaturas nada valiam.
Aqui, em Minas Gerais, houve um processo rico também: o Comitê
Popular Federal transformou-se na Associação do Comitê Popular na
Constituinte Mineira. Tivemos mais de 10 mil propostas, das quais
grande parcela originou-se dentro do Comitê Popular na
Constituinte, porque era uma associação civil criada para assumir
o papel do Comitê Pró-Participação Popular na Constituinte
Federal. Algumas entidades passaram as emendas populares
diretamente à Assembleia, e outras via Comitê. Todavia grande
parcela das pessoas que as passaram via Assembleia eram
participantes também do Comitê. Na prática, a estratégia era que a
entidade pudesse ter visibilidade e participação, como a Fetaemg,
que participou muito do nosso Comitê. Então, inúmeras emendas
foram conquistas sociais.
O rompimento com os resquícios da ditadura militar. O que
acontecia? Em nome de manter a ordem, arvorou-se o poder
constituinte. Então, o governo Sarney convocou a Assembleia
Constituinte, mas convocou também o Congresso. E, então, as
atividades da Constituinte combinavam com o processo legislativo
comum, o que deu origem a muitas dificuldades. Naquele tempo, já
brigávamos contra a ocorrência conjunta do Congresso Constituinte
e do Congresso normal. Gostaríamos que fosse feita uma
Constituinte soberana, democrática, aberta, e que houvesse tempo,
de fato, para se fazer o debate.
Minas não se omitiu nesse processo, e buscamos o apoio de outros
Estados. Tivemos de buscar a garantia, a condição de existência de
comitês populares no interior de Minas Gerais para que tudo não
ficasse centrado somente em Belo Horizonte. Várias pessoas vinham
à rodoviária de Belo Horizonte buscar emenda e voltar
imediatamente para a cidade do interior a fim de coletar as
assinaturas.
Os debates que ocorreram no centrão da Constituinte Federal
praticamente tiveram um cunho de posterioridade. Tivemos aqui,
nesta Assembleia Legislativa, muitos embates com ruralistas, com o
interesse do mercado. Portanto, para realizarmos essa discussão,
tínhamos de convencer os Deputados a fazer essa costura política.
Por exemplo, o Dr. Carlos Torezani, advogado, que agora está na
Fetaemg, tentou o tempo todo trazer o debate da reforma agrária.
Como foi derrotado em nível federal, aqui o debate não passou,
depois é que surgiu, entre outros, o Instituto de Terras do Estado
de Minas Gerais - Iter. Imaginávamos que, naquele período de
efervescência do movimento social, seria importantíssimo Minas
Gerais dispor de uma política de reforma agrária. Ao se proceder à
promulgação da Constituição Federal, entendíamos que ela não era
uma unanimidade. Naquele período, muitos Deputados Federais não
queriam sequer assiná-la, porque muitas questões relacionadas ao
movimento social, às emendas populares, às reivindicações sociais,
foram sepultadas, não foram atendidas, ou seja, a vontade popular
não foi, de maneira alguma, discutida. Além disso, o processo de
mobilização para a tradução desta Constituição Federal aqui em
Minas foi a criação do Comitê. Tenho de referenciar aqui uma
pessoa, o Carlos Morais, trabalhador da Secretaria de Estado da
Saúde, que foi o primeiro coordenador do Comitê Nacional em Minas.
Depois que se passou o processo de coleta de assinaturas, ele me
chamou para uma reunião e disse: “Não posso mais continuar”. Na
época, realizamos uma grande assembleia, e fui eleito para o
comitê da Constituinte mineira. Esse comitê não tinha recursos
financeiros, mas havia movimento. Tínhamos a CUT-MG, e o Carlos
Calazans e outros fizeram uma grande movimentação nesta
Assembleia. Tivemos o Sind-UTE, a Sosp; o companheiro Renato
Barros hoje é do Sind-Saúde. Tivemos o sindicato da Fhemig.
A articulação do solo urbano mexeu muito com a arquitetura e a
movimentação urbana. Tivemos o Movimento Popular da Mulher, com a
Bebela, a Jô Moraes e a Fátima de Oliveira. Tivemos também a
Federação das Associações de Deficientes de Minas Gerais - Fademg.
Na época, não havia acessibilidade para a Simone Albuquerque subir
aqui à tribuna do Plenário, e hoje, 20 anos depois, continua não
tendo. Tivemos o apoio do Morhan, do Movimento Popular da Mulher,
da Frente da Criança e do Adolescente.
Em cada artigo da Constituição Federal e da Estadual, tivemos
pessoas que fizeram essa movimentação, como as do Centro de
Documentação Elói Ferreira da Silva - Cedefes. Tivemos também aqui
o Sintel, o Fitel, a Coordenação Sindical dos Trabalhadores do
Serviço Público, os movimentos sociais. Aqui em Minas não havia
conselho estadual de saúde. Tínhamos o Conselhão, entidades que
queriam ter um conselho um dia. Depois de promulgada a
Constituição Federal é que o Governador decretou o Conselho
Estadual de Saúde, que ainda funciona por decreto. Naquele período
tivemos uma série de movimentos sociais que tinham base e intenção
de participar.
Quanto aos principais problemas que tínhamos naquele tempo, um
deles é que vários Deputados Estaduais eleitos tinham pavor em
ouvir falar em participação popular. Para tudo usavam os
seguranças da Casa, sem dialogar com as lideranças dos movimentos
sociais. Muitas vezes a gente se reunia lá fora porque não havia
como entrar aqui.
Havia discussões sendo promovidas de maneira secreta, por via de
acordos, impedindo que a sociedade contribuísse com o
aperfeiçoamento do texto a ser submetido a votação. Havia excesso
de emendas aglutinadoras aos textos apresentados pela população.
Havia muito papel, que carregávamos debaixo do braço para ler à
noite, para, no dia seguinte, de manhã cedo, chegarmos com a
proposta. Aqui votava-se assim: “Quem estiver de acordo permaneça
como se encontra”. Naquela época, às vezes tínhamos problema na
votação porque não entendíamos o processo.
Em relação ao critério de número legal de assinaturas, havia
muitas assinaturas por emendas. Na realidade, a intenção era
sepultar qualquer tipo de necessidade social. Mesmo assim, com a
emenda dos deficientes, por exemplo, nós conseguimos mais de 50
mil assinaturas. Naquele período, foi uma festa aqui neste
Plenário.
Desmerecimento de algumas categorias que tinham pequeno poder de
mobilização. Havia reuniões noturnas intermináveis para afugentar
a população do debate. Havia reunião de manhã, de tarde, de noite,
e às vezes até de madrugada. A população vinha de manhã e não
conseguia vir à tarde. Quando ia ver, já haviam votado o texto que
ela queria debater.
Naquele período se discutia também o “impeachment” do Governador.
Havia muita movimentação por fora em relação ao “impeachment” do
Governador da época. Tão logo esse Governador promulgou a
Constituição Estadual, ele mesmo solicitou arguição de
inconstitucionalidade. Um absurdo. Foi ao arrepio desta Casa,
porque foi pedida a inconstitucionalidade de vários artigos que
foram debatidos exaustivamente pelos Deputados. Sem consultar o
movimento social, o Governador entrou com essa arguição
diretamente no STF.
Existem pontos importantes. O primeiro deles é a união e o
fortalecimento dos movimentos sociais, em prol de seus direitos. O
segundo é a existência de um jornal - não sei se os Deputados se
lembram dele - chamado “Boca do Trombone”, em que colocávamos
fotos de Deputados e textos, esclarecendo o processo constituinte.
Esse jornal, aliás, ajudou as pessoas a entenderem um pouco a
linguagem legislativa desta Casa.
Depois veio a emenda dos deficientes, da qual eu já falei e que
teve muitas assinaturas. Pelas atividades, o Deputado Luiz Vicente
Calicchio, a Deputada Sandra Starling, o Deputado Nilmário Miranda
e uma série de Deputados da Bancada do PT recebiam o chamado
“jetom”. Quem trabalhava a mais recebia esse “jetom”. Foi aí que a
Bancada do PT, junto ao Deputado Vicente Calicchio, doou ao Comitê
da Constituinte todos os recursos provenientes de “jetom”, que
fizeram o nosso movimento de pressão na Assembleia Legislativa,
para garantir melhorias nos textos.
Como exemplos das conquistas de números, artigos e projetos,
conforme já falei, está o caso dos pacientes de hanseníase. Vários
Deputados contribuíram com esse processo: Sandra Starling,
Nilmário Miranda, Jorge Hannas, Luiz Vicente Calicchio, Maria José
Haueisen Freire, que está aqui presente, nossa grande amiga e
Prefeita de Teófilo Otôni. O Deputado Nelinho, jogador de futebol,
naquele tempo também fez uma boa parceria conosco, porque, na
verdade, precisávamos de pessoas para dialogar com outros
Deputados. Da mesma forma, os Deputados Bonifácio Mourão, Elmiro
Nascimento, Chico Ferramenta, Agostinho Valente, Raul Messias,
Anderson Adauto, José Militão, Luís Gambogi, Maria Elvira, João
Pedro Gustin e outros também nos ajudaram, de uma forma ou de
outra, nos temas em que tinham domínio. A Deputada Sandra
Starling, por exemplo, dominava a área da ciência e tecnologia, e
outros parlamentares dominavam outros temas.
No movimento social, gostaria de mencionar Renato Barros; Carlos
Calazans; Paulo César Funghi; Bebela; Jô Moraes; Wellington, da
Fitee; Carlos Torezani, que hoje é advogado em Confins; Ângela
Tuta; Márcio Ferreira e uma série de outras pessoas que passaram
pelo movimento naquele período, como lideranças de alguma
atividade, e que, de fato, ajudaram muito. O ex-Deputado João
Batista de Oliveira também foi um dos que nos ajudou muito. Hoje
ele é o Secretário de Direitos Humanos no Estado.
Por fim, esse Comitê foi secretariado pela Soraia e pela Mônica,
que estão na Prefeitura de Belo Horizonte; pelo jornalista do
Comitê, Paulo Mourão, que é cantor de viola; e pelo Presidente do
Comitê, que sou eu.
A gestão da Associação do Comitê Popular na Constituinte era
democrática e colegiada, e tudo o que fazíamos era de comum
acordo. Daquela experiência ficou para nós uma lição, olhando hoje
a página 70 do caderno, em que pude me ver novinho. Muitas coisas
que fizemos naquele período nos ajudaram bastante, mas ainda quero
deixar um último recado para a sociedade e para este Plenário. A
Constituição Estadual é um patrimônio do povo mineiro e, por ser
um patrimônio, não pode sofrer tantas emendas desnecessárias como
vem sofrendo. Por último, a Constituição Estadual tem algo muito
importante, o cheiro de democracia, por isso mesmo não combina com
o Choque de Gestão. Muito obrigado; espero ter contribuído com o
debate de vocês.