DEPUTADO GETÚLIO NEIVA (PMDB)
Discurso
Informa recebimento da Medalha "Teófilo Otôni".
Reunião
115ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 16ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 11/12/2007
Página 62, Coluna 4
Assunto HOMENAGEM.
Aparteante DOMINGOS SÁVIO.
Legislatura 16ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 11/12/2007
Página 62, Coluna 4
Assunto HOMENAGEM.
Aparteante DOMINGOS SÁVIO.
115ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª
LEGISLATURA, EM 27/11/2007
Palavras do Deputado Getúlio Neiva
O Deputado Getúlio Neiva - Sr. Presidente, Srs. Deputados, Sras.
Deputadas, caros telespectadores, hoje, orgulhosamente, ostento no
meu peito uma medalha que considero a mais importante de toda a
minha vida pública, a medalha Teófilo Otôni, comenda criada por
esta Casa e pelo governo de Minas Gerais com o objetivo de
ressaltar a figura histórica de Teófilo Benedito Otôni. Um homem
desconhecido da história pátria, no entanto se trata do 2º
brasileiro mais importante, comparado talvez a Tiradentes.
Teófilo Otôni está para a República assim como Tiradentes está
para a independência. A luta de toda a sua vida na pequena cidade
do Serro, onde hoje, pela manhã, o Prefeito, o Presidente da
Assembléia e membros do governo fizeram a comemoração do
bicentenário do seu nascimento, não é conhecida dos estudantes
brasileiros; nem mesmo os historiadores tomam conhecimento de sua
importância histórica. Em verdade, era um homem que, durante toda
a sua vida, enfrentou e desafiou o Imperador Pedro I, o Imperador
Pedro II, liderou a Revolta Liberal, fez os seus entendimentos com
o Regente Feijó. Trabalhou de forma dedicada, detalhada, trabalhou
o tempo todo para buscar a liberdade e, sobretudo, estabelecer a
República no Brasil na época do Império.
Teófilo Otôni tem duas fases em sua vida, e isso é interessante.
Se, como brasileiro e político, Vereador, Deputado provincial,
Senador do império, ele se compara, na luta liberal, da revolução
liberal, que ele liderou, a Tiradentes, na luta pela
independência; por outro lado, podemos compará-lo, e até com
alguma vantagem, ao Visconde de Mauá, pelas obras realizadas da
primeira rodovia de penetração, da primeira ferrovia do território
brasileiro, uma companhia de navegação, um sistema intermodal de
transportes, que incluía o navio Peruíbe, que saía do porto do Rio
de Janeiro até o porto de Santa Clara, no litoral da Bahia, hoje
cidade de Mucuri, subindo pelas águas do Rio Mucuri com transporte
fluvial e chegando, por estradas de rodagem, às margens do Rio
Todos os Santos, onde edificou uma cidade que ele chamou de “a
minha Filadélfia”.
Em 1853, um cidadão nascido em Serro, que criou o primeiro jornal
de circulação nacional do Estado de Minas Gerais, “O Sentinela do
Serro”; que influía na imprensa do Rio de janeiro na época; que se
destacou como político; que não se dobrava ao Imperador; que nunca
participou da cerimônia do beija-mão do Imperador; que o
desafiava; e que pegou em armas e, em Santa Luzia, foi preso pelo
Duque de Caxias, a mando do Imperador, e recolhido ao cárcere em
Ouro Preto durante um ano e meio.
De modo altaneiro, recusou advogado, fez sua própria defesa e foi
absolvido. Partiu, então, para a segunda fase de sua vida,
continuando a luta pela implantação da República. Entretanto, um
outro projeto apareceu: criar a Companhia de Navegação do Rio
Mucuri e ali implantar uma colônia diferenciada do Estado
escravocrata brasileiro, não aceitando, em nenhuma hipótese, que
escravos nem índios trabalhassem sem remuneração. E trouxe colonos
suíços, belgas, alemães, holandeses e também chineses, na época da
construção da Rodovia Santa Clara.
É um nome importante, uma história importante. No dia em que
cheguei a esta Casa, distribuí a cada Deputado o livro “O
revolucionário Ottoni”, de nosso conterrâneo Gonzaga de Carvalho,
para que todos pudessem sentir quem era a figura extraordinária de
Teófilo Benedito Otôni, criador de nossa terra, de nossa cidade de
origem.
Hoje, Sr. Presidente, Srs. Deputados, Sras. Deputadas, tive a
felicidade de estar na praça principal, juntamente com Luiz Leal,
um dos homenageados, ex-Prefeito e ex-Deputado Federal de nossa
cidade, que recebeu também a Comenda Teófilo Otôni. E, naquela
praça, há um busto de Teófilo Otôni, que, em 1976, o ex-Prefeito
de Teófilo Otôni, Luiz Leal, colocou na cidade de Serro, como uma
homenagem da terra filha para a terra mãe.
Foi um momento de emoção, alegria e contentamento, mas,
sobretudo, Srs. Deputados, Sras. Deputadas, caros espectadores, um
momento de respeito à história do Brasil, um momento de fazer um
preito de gratidão a um homem que entregou sua vida e que morreu
pobre, com sua companhia fracassada, graças à perseguição do
Império - a sua empresa de navegação, a sua empresa de
colonização, os seus empórios de comercialização, todos entraram
em decadência e falência devido à perseguição do Império. A doença
se abateu sobre ele - a cólera, febres maláricas e similares das
regiões inóspitas do Mucuri.
Este é o momento, Sr. Presidente, Srs. Deputados, Sras.
Deputadas, de prestar homenagem àquele que, no passado,
ousadamente, partiu para a selva inóspita do Vale do Mucuri, a fim
de dar ao Brasil a primeira estrada de penetração de seu
território. Foi a primeira estrada de rodagem, a primeira estrada
de terra, mas, sobretudo, ele deu o maior dos exemplos: fazer a
colonização livre em um país escravocrata; organizar uma companhia
intermodal em uma região completamente esquecida das Minas Gerais,
na tentativa de ligar Minas Novas a Serro, Serro a Teófilo Otôni,
atendendo a regiões pobres e carentes como o Vale do Mucuri e o
Vale do Jequitinhonha.
Hoje, com muita alegria, na cidade de Serro, debaixo de uma chuva
torrencial maravilhosa - chovia torrencialmente na cidade de
Serro, para a nossa felicidade, embora não estivesse chovendo em
Montes Claros -, comemoramos o bicentenário do nascimento de
Theophilo Benedicto Ottoni. Foi uma comemoração dupla: o
bicentenário e a chuva que caía de forma abundante em parte do
Vale do Jequitinhonha.
Foram momentos de emoção, Sr. Presidente, momentos de alegria. E
chegamos aqui e deparamos com companheiros Deputados fazendo seus
pronunciamentos. O Deputado Paulo Guedes ressaltou a questão da
latrina em que se transformou o Rio São Francisco. Logo depois,
nosso Líder, Deputado Domingos Sávio, falou na latrina democrática
em que está se transformando a América, com as manifestações
ditatoriais da Venezuela e da Bolívia, na tentativa de impor
regimes autoritários para dominar novamente esses países que, até
a década de 60, eram dominados por caudilhos, por ditaduras.
Esse panorama inteiro nos leva a refletir se não seria
interessante reescrever a história do Brasil e buscar os bons
exemplos de Ottoni, de sua luta liberal. Ele procurava em Thomas
Jefferson o exemplo da Filadélfia, para implantar em Minas Gerais
a Nova Filadélfia, que se transformou na Teófilo Otôni de hoje.
São homens idealistas, que enxergam o Brasil de forma diferenciada
e consideram possível continuar o trabalho de construção de uma
Pátria livre, tranqüila, operosa, e não uma Pátria bitolada, que é
proibida de crescer - é proibido deixar o Brasil crescer.
O Brasil não pode crescer mais de 4%. Se passar de 4%, haverá
“apagão” aéreo, “apagão” rodoviário, “apagão” hidroviário,
“apagão” nos portos, vai apagar energia elétrica, vai apagar tudo.
O Brasil está planejado para não crescer mais de 4%. Os jornais,
as revistas, as emissoras de televisão mostram de forma clara que
o “apagão” na área de eletricidade para 2010 já está quase que
acertado. Estamos sentindo o “apagão” dos portos porque temos que
pagar por espaços que não existem. Na área dos aeroportos temos o
problema de comparar passagem que não existe e na área portuária
estamos comprando espaços que não existem em navios. O Brasil está
em uma situação complicada, Deputado Domingos Sávio. Tem razão. A
nossa América, infelizmente, pode ser chamada, como V. Exa. disse,
de América “latrina”, em razão da forma enojada como se pretende
estabelecer movimentos antidemocráticos, ditatoriais próximos a
nós. Temos que nos cuidar em relação a isso.
E deve ser estudado o parâmetro que fiz, da latrina em que se
transformou o Rio São Francisco, com base em informações do
companheiro Paulo Guedes, que reclama dos esgotos lançados. Esta é
uma Casa de discussão, onde se tem de buscar aprofundar assuntos e
discutir aquilo que às vezes as pessoas não dão muita importância.
Mas nossa América precisa ser cuidada. Por isso estou dando aqui
um exemplo e misturando os assuntos. Estou dando o exemplo de
Theophilo Ottoni, que dedicou a vida inteira à luta pela
democracia, pela liberdade, criando uma cidade no meio do mato,
chamando-a de Nova Filadélfia em homenagem a Thomas Jefferson, e à
constituição libertária dos Estados Unidos da América.
O Deputado Domingos Sávio (em aparte) - Deputado, quero apenas
cumprimentar V. Exa. pela Medalha Theophilo Ottoni, pela
iniciativa de trazer para o conhecimento da geração atual e das
gerações futuras e até mesmo para nos brindar com sua competência
essas informações, mas, acima de tudo, sabendo associá-las, com
muita propriedade, com os tempos atuais. É curioso que às vezes as
pessoas não se apercebem do risco que estamos correndo. Vejo de
forma muito preocupante o seguinte: não podemos prescindir da
absoluta liberdade de imprensa. Talvez o primeiro dos prenúncios
das ditaduras é quando começa a ocorrer, como ocorreu na
Venezuela, o fechamento de um canal de televisão pelo Hugo Chaves,
a invasão de veículos de comunicação, mas, por outro lado, é
assustador, não só por parte da imprensa, mas por parte, às vezes,
daqueles que não querem fazer uma reflexão mais séria sobre a
política, como tendem a jogar na vala comum os representantes
públicos, como tendem a partir para a banalização, falando que
Deputados e Vereadores são uma espécie de classe de segunda
categoria. Eles não sabem a angústia que passamos no dia-a-dia.
Esses dias vi alguém fazendo uma reportagem absurda, somando
todos os gastos da Assembléia e dividindo pelo número de Deputados
e dizendo que os Deputados trabalham 12 dias por mês. Falam sem
ter o menor respeito pelas pessoas. Pode ser que algum Deputado
trabalhe 12 dias por mês, eu não ousaria falar isso porque tenho
visto o empenho de todos. Nenhum Juiz, Promotor, nenhum
profissional liberal tem que fazer uma espécie de vestibular de
quatro em quatro anos como o Deputado. Depois de quatro anos o
Deputado tem que ir a sua cidade para ver se a turma está gostando
ou não do trabalho dele. A minha votação e a de V. Exa. mais que
dobrou porque nós trabalhamos.
Não faço esse comentário para chamar louros para a Assembléia ou
para os políticos, mas para dizer o seguinte: se existe uma âncora
para a democracia, essa âncora é o Parlamento.
Na Venezuela, o parlamento é de mentira; na Bolívia, ele foi
abandonado, fecharam-se no quartel nesta semana e votaram uma
Constituição, pela qual o Evo Morales pode perpetuar-se no poder,
pela qual a propriedade privada pode ser invadida e tomada. Talvez
seja preciso que alguns brasileiros que estão fazendo de conta de
que a democracia é algo que não tem importância, como se ela já
tivesse sido consolidada e fosse um bem eterno, acordem para o que
está acontecendo na América Latina. E nós, parlamentares, temos de
ficar atentos, ser guardiões da democracia, exercer com dignidade
o nosso mandato, combater a corrupção, ser muito perseverantes no
exercício da nossa atividade, trabalhando 24 horas por dia, se
necessário for, e até sonhar com a democracia, para sermos dignos
da “Medalha Theophilo Ottoni”, como V. Exa. Parabéns!
O Deputado Getúlio Neiva - Obrigado, Deputado Domingos Sávio.
Agradeço a Deus por termos, no Parlamento, pessoas íntegras, que
têm idéias libertárias tão fortes, como V. Exa., que conhece
profundamente a realidade brasileira e da América Latina e nos
brinda com discursos importantes. Gostaríamos de vê-lo até em
outros degraus da política de Minas e do Brasil, se Deus quiser.
Sr. Presidente, para encerrar meu pronunciamento, gostaria de
relacionar os nomes dos que foram agraciados hoje com a “Medalha
Theophilo Ottoni”. Tivemos a felicidade de receber juntos 39
pessoas: eu; o Deputado Federal Ademir Camilo, representante
majoritário de Teófilo Otôni; o Deputado Alberto Pinto Coelho,
Presidente da Assembléia e co-autor do projeto de lei; Aécio
Ferreira da Cunha, pai do atual Governador e Deputado, sete vezes,
por Teófilo Otôni, majoritário, estadual e federal; Assusete
Dumont Reis Magalhães, Presidente do Tribunal Regional Federal, 1ª
Região, filha da cidade do Serro; Procurador Jarbas Soares Júnior,
com quem tenho minhas diferenças, mas não posso deixar de prestar
as homenagens, em nome do Serro e de Teófilo Otôni, especialmente;
Virgílio Guimarães, Deputado Federal do PT, partido meu adversário
em Teófilo Otôni, mas que tem feito um excelente trabalho em
defesa de Minas Gerais; Guilherme Simões Neves, Prefeito Municipal
do Serro, que nos ajudou na festa de comemoração do bicentenário
de nascimento; Maria José Haueisen Freire, Prefeita de Teófilo
Otôni, minha adversária e até inimiga política, mas fizemos
questão de incluí-la entre os homenageados; Ângelo Oswaldo,
Prefeito de Ouro Preto, um companheiro lutador do Vale do
Jequitinhonha; Danilo de Castro, Secretário de Estado e mais
votado em Medina, minha cidade natal no Vale do Jequitinhonha;
Maria Eleonora Barroso Santiago, Secretária de Estado; Elbe
Brandão, Secretária de Estado; Alencar da Silveira Jr., Deputado
Estadual; José Monteiro da Cunha Magalhães, ex-Prefeito do Serro;
Paulo de Fátima Simões, Presidente da Câmara Municipal do Serro;
Luiz Gonzaga Soares Leal, ex-Prefeito de Teófilo Otôni e ex-
Deputado Federal, majoritário, o homem que criou a Caravana da
Esperança e mudou a política de Teófilo Otôni; José Murilo de
Carvalho, escritor; Nilo Meira Filho, administrador; Fernando
Miranda Gonçalves, Diretor Regional da ECT, que patrocinou toda a
comemoração do bicentenário em Teófilo Otôni; Maria Coeli Simões
Pires, Secretária de Estado, que é da cidade do Serro; Júlio
Arnold Laender, nosso conterrâneo de Teófilo Otôni, que foi
Prefeito de Belo Horizonte; Kemil Kumaira, sete vezes Deputado e
Presidente da Assembléia Legislativa de Minas Gerais; João Barbosa
de Lucena, economista; Maria Lúcia Clementino Nunes, empresária;
Délson de Miranda Tolentino, administrador; José Silva Soares,
engenheiro agrônomo, Diretor da Emater, que nos ajudou com o
programa de pólos agrícolas; Affonso Ávila, poeta; Meirele São
Geraldo dos Santos Souza, professora; Laís Ottoni Barbosa
Ferreira, escritora e bisneta de Theophilo Benedicto Ottoni, em
nome da família; José de Miranda Murta; José Aparecido de
Oliveira, ex-Embaixador; Oswaldo França Júnior, “in memoriam”;
José Maria Magalhães, “in memoriam”; e Maria Eremita de Souza, “in
memoriam”.
Essas foram as homenagens prestadas na cidade do Serro pelo Sr.
Prefeito e pelo governo do Estado de Minas Gerais. Aproveitamos,
Sr. Presidente, para agradecer e também mostrar a Minas Gerais que
Teófilo Otôni não é maior nem melhor que nenhuma das cidades
mineiras, mas é diferente. Muito obrigado.