CÉLIO MURILO DE CARVALHO VALLE, Diretor de Pesca e Biodiversidade do Instituto Estadual de Florestas - IEF.
Discurso
Comenta a importância da criação e implantação de unidades de conservação
e da colaboração dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Reunião
42ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 02/12/2006
Página 34, Coluna 1
Evento Ciclo de debates: "Regularização Fundiária das Unidades de Conservação do Estado de Minas Gerais".
Assunto MEIO AMBIENTE.
Legislatura 15ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 02/12/2006
Página 34, Coluna 1
Evento Ciclo de debates: "Regularização Fundiária das Unidades de Conservação do Estado de Minas Gerais".
Assunto MEIO AMBIENTE.
42ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 23/11/2006
Palavras do Sr. Célio Murilo de Carvalho Valle
Deputado Laudelino Augusto, fiquei muito comovido quando o senhor
citou o seu pai, a quem fez uma homenagem. Espero que cada um de
nós conte para os nossos filhos e para os nossos netos que este
foi o dia em que o Estado de Minas Gerais reconheceu o valor dos
animais e das plantas; reconheceu que vivemos por eles e por causa
deles. Hoje almoçamos e jantamos, agora estamos respirando, porque
a terra nos permite. É extremamente importante reconhecer que a
essência da terra são os animais e as plantas. Neste sistema
capitalista, se não ponho dinheiro em alguma coisa, é porque não
acredito no que estou fazendo. Se bebo cerveja e no meu orçamento
não há dinheiro para cerveja, ou tenho dinheiro para a cerveja, ou
estou roubando a cerveja - o que provavelmente não é o caso -, ou
estou mentindo. O meu orçamento é que diz onde está meu coração.
Prova disso é que, quando estamos noivos, apaixonados, vivemos
comprando presentes para a noiva, gastando dinheiro com ela. Se
acreditamos que a natureza é importante, temos de resolver o
problema da propriedade da terra, dos bichos e das plantas.
Ficamos muito impressionados com o movimento dos homens sem terra.
Sinto-me um pouco porta-voz dos bichos e das pessoas que ainda não
nasceram, na luta pela terra, porque os animais e as plantas que
Deus fez estavam aqui, antes de nós. Ficamos impressionados,
porque expulsamos os índios, pegamos os escravos, fizemos uma
série de coisas. E ninguém fica impressionado por estarmos
roubando o espaço vital dos animais e das plantas, dos quais
dependemos. Unidade de conservação é exatamente isso. Imaginem uma
enorme malha com seus nós. Vivemos nas partes abertas entre os
nós. As nossas roças, as nossas coisas estão ali. Os nós dessa
rede que nos sustenta são as unidades de conservação, a terra para
os animais e para as plantas, para a natureza. Isso não é só
místico ou poético, é esperteza humana.
O boi, cuja carne comemos, em forma de um belo bife, ou a
galinha, um dia eram bichos do mato. Há 9.000 ou 10.000 anos, os
antepassados dos agricultores, o homem que não sabia ler nem
escrever, conseguiram transformar esses bichos do mato na riqueza
que temos hoje. Muitos dos senhores não estariam aqui agora;
estariam mortos, se não existisse a penicilina, descoberta há
quase 80 anos, um fungo ao qual ninguém atribuía importância. A
natureza é uma riqueza tão importante que é no mínimo burrice não
guardar espaço para ela. Não vou entrar em detalhes nesta reunião,
mas gostaria de deixar bem claro que é preciso conservar a
natureza, no que o nosso atual governo está interessado. O nosso
Secretário é um grande lutador. Precisamos conservá-la. Não
podemos tirar das pessoas pobres, e acabou. Não é assim. Todo o
mundo respeita a natureza, os parques, os animais e as plantas, se
a propriedade for sua. Acho injustiça tirarmos as pessoas do lugar
em favor dos animais e das plantas. Eles são animais também. Para
onde vão? É importante ter recurso para fazermos justiça. Eles vão
sair daqui e vão para um lugar melhor, mas é preciso que as
pessoas acreditem nisso. E são as pessoas que decidem. Nós, pobres
mortais, só trabalhamos, não temos muito poder de decisão. Podemos
fazer barulho. A Dra. Dalce pode fazer a maior confusão, xingar,
gritar, reclamar, mas, na realidade, a decisão vem do governo. E
quem é governo? Nunca podemos esquecer-nos de que são os três
Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. São os responsáveis
por qualquer coisa errada que tivermos aqui. E eles têm de nos
ajudar a consertar esses erros. Acho que conseguiremos isso.
Deputado, a nossa reunião, hoje, talvez seja histórica. Espero
que todos os anos tenhamos a verba determinada por esta
Assembléia. Não sei como funciona todo esse mecanismo. Sou meio
ignorante. Estou muito mais preocupado com a vida que com certas
coisas da confusão humana. Mas é necessário que isso ocorra. Vejo
isso muito claramente. Também sou proprietário rural, mas não
preciso ter guarda no limite da minha terra com a do meu vizinho.
Ele reconhece o meu limite, e eu reconheço o dele. Nós nos
respeitamos, porque tenho o documento da minha terra e ele tem o
dele. Então, nós nos entendemos. Enquanto uma unidade de
conservação for um invasor para as pessoas que estão no seu
entorno, será impossível nos defender, mesmo que chamemos o nosso
amigo Tonhão - gerente de uma unidade e que falará para nós hoje -
, porque o direito de propriedade não foi resolvido. E só se
resolve direito de propriedade comprando e pagando corretamente o
que deve ser pago. Ou fazemos isso, ou não teremos solução.
Queria projetar rapidamente algumas coisas. Gostaria de trazer
todos os bichos e plantas a este Plenário. É uma pena não poderem
vir até aqui. Aliás, seria perigoso, porque, se viessem,
poderíamos matá-los, fazer mal a eles. Queria que pudessem falar
neste Plenário, mas, infelizmente, são como os que não nasceram.
Trata-se do famoso direito difuso. Não podem falar, nem os que
nasceram podem defender-se. Gostaria que as pessoas da cidade não
se esquecessem de que a natureza não é enfeite. Quando lutamos por
uma borboleta, uma flor ou um passarinho, não estamos brincando
com coisas sem importância! É a nossa vida que está em questão!
Então, a sociedade tem de investir nisso. Ficamos muito
preocupados com segurança, educação, mas esquecemo-nos de que a
base de tudo é a fauna, a flora e a terra. De nada adianta todo o
dinheiro do mundo, se o solo está degradado. Se não houver flora e
fauna, não viveremos mais. De que adianta ter tudo? Os senhores
almoçaram hoje e esqueceram que tudo aquilo veio da terra, da
natureza. Há muitos anos, alguém transformou a alface, uma planta
do mato sem importância, na alface do agricultor. Alguém
transformou uma vaca, um bicho do mato, caçado e que mal produzia
um litro de leite, em uma enorme holandesa, capaz de produzir de
30 a 40 litros de leite. A nossa ciência não criou isso! Isso vem
da natureza! E esquecemo-nos de que a história não acabou. A
evolução humana continua! Quem disse que a capivara, por exemplo,
que está no mato, um dia não será importantíssima para a pecuária
moderna? Ninguém pode me dizer isso. Tenho direito de destruir
essa forma viva? Não, seremos bandidos se fizermos isso. Talvez
essa seja a angústia de alguém que pensa um pouco mais
historicamente, que pensa na evolução das coisas. Ainda não
sabemos para que serve cada planta do mato - usamos a palavra
mato, mas, na realidade, é uma falta de respeito. Será que tenho
direito de destruí-la? Tenho de achar uma solução. E a proteção de
grandes áreas é a solução. Os países civilizados fazem isso. É bom
lembrar que há 30 milhões de formas vivas. Isso é biodiversidade.
Costumo brincar dizendo que, se Noé quisesse salvar todos os
bichos da Terra, teria de pôr na arca 60 milhões deles. Não sei se
a arca comportaria tudo isso, mas essa era a quantidade que ele
teria de colocar nela. Considerando-se que ele pegaria um casal de
cada animal, teria de pôr na arca 60 milhões. Às vezes, não
pensamos nisso.
Recebemos uma educação errada. Existem 300 mil espécies
diferentes de mosquitos. No entanto, se eu lhes perguntar quantos
mosquitos existem, somente os ruins serão lembrados, ou seja, o da
dengue, o da malária, o pernilongo, etc. Não pensamos nos outros,
que polinizam as flores, alimentam os peixes que comemos, a
exemplo do surubim. Existem 600 espécies diferentes de morcegos,
porém, só pensamos nos que podem transmitir a raiva. Na minha
opinião, uma comunidade culta, como a que aqui se encontra, tem
grande responsabilidade. Talvez, o homem do campo saiba mais que
nós.
Gostaria de mostrar alguns dados extremamente simples. Observem
essa tabela. Tudo o que eu disse é muito importante. Tudo o que
estamos fazendo explica-se pelo que falei. Vejamos a ferramenta
necessária para se fazer isso. Aqui temos o custo de regularização
fundiária de Unidade de Conservação Estadual do grupo de proteção
integral. São os parques, as áreas protegidas, as reservas
biológicas. Na segunda coluna, temos os nomes dos tipos de
unidades. Amanhã, discutiremos um pouco mais essa questão. No
Estado de Minas Gerais, há um total de 375.000ha protegidos. Vejam
que interessante! Ficamos admirados, pois é muita terra. Ora, se
possuímos 300m2 na cidade, entendemos que 375.000ha é muito. Sabem
qual é a lâmina d´água das hidrelétricas? Em Minas Gerais, são
727.000ha. Pensamos: Será que as plantas e os animais, dos quais
dependemos, não têm o direito à paz nessas terras? Só para
lembrar, uma onça, por exemplo, precisa de 50.000m2 para viver. No
Parque do Rio Doce, que tem 33.000ha, calcula-se que não existam
mais de 10 animais. Ademais, o animal que sair dali receberá
tiros, porque vai para fazendas onde se criam bois ou cavalos.
Um país civilizado tem de pensar nas preciosidades que possui,
sob pena de passar a viver em um mundo - fico triste, quando penso
nessa possibilidade - semelhante ao da história do Tio Patinhas,
que tinha duas moedas nos olhos. Então, tudo o que ele via era
dinheiro. Se crio bois - e não possuo uma boa cultura -, quero que
o mundo transforme-se em capim e em Nelore. O resto que se dane!
De acordo com essa visão, qualquer ser estranho que apareça vai
atrapalhar.
Entretanto, o mundo não é assim! Por isso temos tantos problemas,
tantas pragas e tanta injustiça. O mundo é muito mais bonito,
muito mais diverso.
Vejam outro dado interessante. Temos de curtir um pouco o quadro.
Vejamos o tamanho do Estado, em hectares. Quanto está tecnicamente
sendo usado para a agricultura? Como é interessante! E ainda dizem
que as Unidades de Conservação atrapalham a agricultura. Outro
dia, ouvi o Presidente da República dizer que vai destravar o
progresso, visto que o meio ambiente o está travando. Para mim,
usar a palavra “travar” foi a pior coisa do mundo. O meio ambiente
não trava nada.
Vejamos: agricultura e pastagem, 37.800.000ha; reflorestamento,
1.000.000ha; Unidades de Conservação, trezentos e poucos mil. Será
que o valor referente às Unidades de Conservação está
atrapalhando? Claro que não! Os parques não ocupam nem sequer a
metade do espaço. São trezentos e tantos mil. Não sou contra a
produção de madeira, sei que isso é muito importante.
A produção agrícola é de 38.000.000ha. Um detalhe importante é
que as nossas Unidades de Conservação estão nas piores terras do
nosso Estado. Por quê? Porque as boas terras já acabaram, já estão
ocupadas. A Mata Atlântica já acabou. Onde era bom para se
cultivar, cultivamos. Não estou reclamando. Vocês devem ter
observado as figuras que apresentaram o Parque do Itacolomi. Onde
estamos expondo os parques? O que sobra para os bichos? São os
altos de montanhas que não têm mais terra fértil, mas produzem
água; por isso mesmo, essas áreas são utilíssimas para nós.
O que se está pedindo é muito pouco. Olha que interessante! Para
resolver os problemas fundiários das unidades que temos, ou seja,
20% - não vamos ser pessimistas, mas já temos parques belíssimos
bem administrados -, é preciso manter a paz entre o homem e a
natureza: o vizinho deve reconhecer o limite do animal, da planta.
Como fazendeiro, reconheço o limite do outro, e o outro reconhece
o meu.
Vamos gastar muito pouco. Vamos gastar R$416.000.000,00. Não é
preciso que seja de uma vez. Se todo ano a Assembléia - o nosso
Governador certamente irá apoiar isso - colocar um recurso
determinado, carimbado, e nós, Dalce, da sociedade civil,
cobrarmos a aplicação correta desse dinheiro, se os nossos
advogados, Juízes e os homens da lei fizerem uma lei inteligente,
que nos permita comprar corretamente essas terras, com justiça,
harmonia, de modo que o sujeito que saiu, saia amigo da área, o
problema irá se resolver. Temos experiências - o nosso amigo
Tonhão vai mostrar isso amanhã - de que quando essas coisas são
bem feitas, todos ganham: nós e quem ainda vai nascer.
Vejam que não é tão difícil assim. Tenho um dos dados mais
impressionantes. Ganhamos muito pouco, então levamos susto com
esses números, pois achamos que é muito. Quem ganha um salário
pequeno e ouve falar em R$418.000.000,00, nem sabe o que é isso.
No orçamento de um Estado isso não é nada. Irapé gastou
R$1.000.000.000,00. Depois vocês fazem a diferença da conta. Acho
muito importante fazer essas comparações. Não estou dizendo que
não tem de existir Irapé, agricultura, eucalipto, nada disso.
Temos de viver. Todo bicho muda o ambiente. O joão-de-barro, por
exemplo, pega o barro e o transforma na casa dele. Assim, ele muda
o ambiente. Mudar o ambiente não está errado, mas, sim, o jeito de
fazê-lo. Errada é a burrice humana de fazer certas coisas.
Vejam que interessante! Depois façam a conta. Estava conversando
com o Leomar, e a informação é tecnicamente segura. Um quilômetro
de estrada no Pró-Acesso, estradas simples, custa R$300.000,00;
10km, R$3.000.000,00; 100km, R$30.000.000,00. Se dispusermos, para
resolver o problema fundiário, todo ano, de R$40.000.000,00 do
Orçamento - os recursos deverão ser usados somente para esse fim,
deverão ser carimbados e cobrados pelos ambientalistas - para
pagar corretamente a propriedade, não estaremos gastando mais do
que 100km estrada. Não estou contando estradas que têm pontes
complicadas, estradas mais largas, que são muito mais caras. Será
que a natureza e os nossos filhos, Deputado, não mereceriam que
separássemos um pouquinho de dinheiro do nosso Orçamento?
Isso não é poesia, não somos um bando de doidos. Quero ser
abençoado pelo meu neto pelo que fiz por ele, porque hoje, quando
me assento à beira do meu córrego da fazenda, tenho a tentação de
amaldiçoar o meu avô. Ele estragou a beirada do córrego, e estou
tendo um trabalho enorme para consertar. Fico pensando que quero
que o meu filho um dia sente-se aqui e me abençoe.
Meu avô talvez não tenha culpa. Não acredito que tenha sido por
ignorância, porque ele era esperto. Gostaria de levar essa
mensagem. Posteriormente, poderei distribuir esses quadros para
quem quiser, apenas melhorarei alguns de seus aspectos.
Falo em nome dos bichos e das plantas, que não têm voz, e dos
nossos filhos que não nasceram. Isso não é poesia, mas algo sério.
Que façamos isso todos os anos como algo sagrado, mais sagrado que
o dízimo que damos para a Igreja. Há Estados com diversos
problemas para serem resolvidos. Portanto, não se trata de fazer
tudo de uma vez, dedicando-se exclusivamente a isso,
independentemente de qualquer coisa. Com isso não se paga salário,
não se compra carro nem computador. Isso será importante para os
bichos, para as plantas e para os proprietários das terras, que
terão uma visão de futuro.
É muito bonito quando se consegue realocar alguém, o que não é
impossível, mesmo que ele fique um pouco triste pelo fato de seu
avô e seu pai também terem nascido no lugar. Quando encontramos
alguém que conseguiu fazer isso, constatamos que fica orgulhoso de
continuar a viver bem e de ter uma terra para as gerações que vêm
depois. A coisa mais importante pela qual os ambientalistas podem
lutar é pela oportunidade de cobrar do Estado. Acredito que,
quanto ao Estado, deve se começar cobrando aqui e, posteriormente,
nas reuniões com o Governador, que nos recebe muito bem. Em vez de
cobrar 200 coisas do Governador, devemos cobrar uma pela
biodiversidade. Todo ano, precisamos de pelo menos R$40.000.000,00
para dar a terra para os bichos, para as plantas e para os nossos
filhos que ainda não nasceram. Isso é o que me impressiona. Não
podemos entregar-lhes uma terra arrasada. Não temos esse direito.
Ontem, caminhei 3.000km no Norte de Minas - que é lindo -, na
garupa de um jipinho. Fui ao Parque do Grão-Mogol e subi a serra.
É possível resolver os problemas, se houver dinheiro. Com
recursos, tudo se resolve, sendo possível realocar as pessoas.
Subi ao alto da serra, a um lugar que tem um cacto, uma planta
linda. Se eu estivesse com a fotografia aqui, mostraria a vocês.
Trata-se de uma planta aparentemente inútil, mas que só existe
nesse lugar, numa área não maior que esta sala.
Será que temos direito de deixar essa forma de vida desaparecer?
Será que não seremos criminosos, se fizermos isso? O parque está
sendo construído para proteger essas formas de vida. Na Serra do
Cabral, há centenas de diferentes sempre-vivas. Será que temos
direito de deixar que elas desapareçam? Claro que não, assim como
não podemos deixar o homem desaparecer. Todavia, ele não tem de
viver pobre, miserável. Ele tem de sair de lá melhorado. Aí, sim,
gostará. O homem da cidade precisa entender isso.
As coisas são mais caras porque têm esse custo. Não sou
economista, mas há muitas pessoas que entendem desse assunto. Para
conseguirmos fazer isso, dependemos da organização do país. Era
isso o que tinha a transmitir. Esta reunião trata da regularização
fundiária, e não podemos perder o fio da meada, pois queremos
encontrar uma solução. Peço à Dra. Dalce que marque uma entrevista
com o Governador, para fazermos cobranças. Apesar de ser membro do
Estado, Diretor do IEF, continuo sendo um ambientalista
apaixonado. E é assim que deve ser. Sou aposentado, o que
significa que não preciso fazer o que estou fazendo, pois posso
viver sossegado. Gostaria de que cada um levantasse essa bandeira.
Devemos conseguir recursos anualmente, como uma rotina.
Os nossos parques são muito bem-conduzidos, mas é preciso que
fique claro que alguns estão abertos ao turismo. Acho que o parque
é para a conservação da biodiversidade, essa é a essência da
coisa. Mas há o outro lado, o do encantamento. A biodiversidade
não é só útil, é bonita, colorida, tem formas diferentes, não é
essa coisa dura, retilínea. É importante que as pessoas visitem os
parques. Nos Estados Unidos, cada cidadão americano visita um
parque uma vez por ano e paga tudo lá. Certa ocasião, houve uma
greve dos diversos órgãos de governo dos Estados Unidos, e o
Presidente da República disse que todos poderiam fazer greve, que
ninguém iria reclamar, mas, se o Serviço Nacional de Parques
fizesse greve, haveria uma revolução no país, porque aí ninguém
poderia visitar seus parques. É isso que temos de criar no Brasil.
Falamos tanto que a Pátria tem mais vida, que nossos bosques têm
mais flores, que gostamos do Brasil, mas jogamos lixo nas ruas,
tratamos mal nossa natureza. Que nacionalismo barato é esse? Será
que é só para brigar com os outros? Será que é a bandeira? A
bandeira não é nada, é só um pano, ela significa o País.
Deputado Laudelino Augusto, o meu desejo é que desta reunião saia
alguma coisa concreta. Se isso acontecer, garanto que a legislação
aprovada na época em que o Dr. José Carlos era Ministro do Snuc
conseguirá segurar o resto. Mas essa base de desapropriação só
sairá bem, com substância, se for colocada no Orçamento do Estado,
e não pode ser contingenciada. Também não adianta colocar o
dinheiro lá, e não usá-lo nem neste ano nem no ano seguinte.
Peço aos presentes que participem sempre dessa luta. Muitas
vezes, as pessoas me perguntam o que podem fazer pelo meio
ambiente. Respondo que podem fazer duas coisas: visitarem, com
muito carinho, os nossos parques que estão abertos, para ver como
a natureza é bonita, e lutarem todos os anos por essa causa,
perguntando ao governo e aos nossos políticos se destinaram
dinheiro para os parques, assim como cobramos para a saúde, para a
segurança e para as coisas que nos interessam. Não sei se vocês
repararam, mas, na última campanha eleitoral, ninguém falou
seriamente do meio ambiente. Falaram do lixo e das privadas, para
não sujar os rios. Não ouvi ninguém falando da fauna, da flora.
Parece que têm vergonha de falar isso, que é coisa de criança.
Acho que, quando o homem deixa de ser criança, está condenado à
morte, já chegou à velhice. Falo isso como um velho de 73 anos. O
pai do nosso Deputado, com oitenta e poucos anos, ainda continua
trabalhando. Como amanhã técnicos muito competentes irão falar,
esperamos que este seminário seja um marco histórico, que, a
partir dele, consigamos dar a volta por cima e, sem atrapalhar,
sem travar o desenvolvimento, possamos cuidar das flores e dos
animais. Não podermos ter vergonha de ir ao Jardim Zoológico
admirar os animais e as plantas, porque, além de serem bonitos,
evoluímos com eles. Se eles acabarem, acabamos com eles. Se as
plantas desaparecerem, o mundo desaparece.
Vivemos numa casquinha, numa grande bola. Hoje temos dois
problemas, que interessantemente estão ligados aos parques. O
aquecimento do mundo é um problema. Todos estão preocupados com
isso. De onde isso advém? Do desequilíbrio da fotossíntese.
Estamos retirando do fundo da terra o CO2 guardado pela floresta
que há milhões de anos limpa a nossa atmosfera. Por meio dos
nossos carros, estamos jogando isso novamente na atmosfera, além
de cortar e queimar as florestas. Somos ligados às plantas e aos
bichos de maneira física. O que é hoje o meu corpo certamente um
dia foi carne de boi, leite de vaca, milho, capim; o que hoje é
carne um dia foi capim. Aprendemos isso nas cadeias alimentares
quando prestamos vestibular, mas talvez nenhum professor tenha
mostrado a sua profundidade. A carne que como, já foi capim.
Quando morrermos, viraremos flores e capim, e novamente tudo se
iniciará. Por isso os egípcios adoravam o Sol e um bichinho muito
especial, que era o escaravelho. Quando éramos meninos,
conhecíamos esse escaravelho como rola-bosta. Quem é do interior
já deve ter visto esse bichinho que fura um buraco perto da bosta
do boi e enterra; põe um ovinho em cima e aí nasce um novo
escaravelho. Aliás, os egípcios o adoravam como um deus, porque,
da coisa em decomposição, nascia a vida. É nisso que devemos
pensar. A biodiversidade é isso.
Este Plenário está repleto de pessoas diferentes. Imaginem se
fôssemos xérox uns dos outros? Que coisa mais triste todo o mundo
igual! Tudo igual enjoa, mesmo que fosse o artista mais bonito.
Somos diferentes no tamanho, na cor, no sexo, na maneira de ser,
no cabelo. Se a genética faz isso conosco, imaginem com a
natureza! Isso é importante. O que aconteceria, se não
morrêssemos? O mundo estaria péssimo, cheio de dinossauros, e não
estaríamos aqui. Se Napoleão não tivesse morrido? Que coisa mais
triste! Como ele, todos nós morreremos e outros ficarão em nosso
lugar. Temos a responsabilidade de deixar o mundo com esta
mensagem: melhor para quem vem depois.
Neste momento, gostaríamos que todos pensassem em não fazer só
poesia, mas em lutar para conseguir dinheiro para as plantas e os
bichos. Não sou MST de gente, mas sim de coisa muito mais
importante, que é o ambiente no qual as pessoas sobreviverão. Sou
muito mais a favor das pessoas do que contra, pois, sem ar, terra,
bicho, planta, borboleta, marimbondo, nada existiria. Portanto,
sem terra e sem tudo isso, não existe ninguém. Defendo a natureza
antes do homem como condição de sua sobrevivência. Logo, gostaria
que o Estado fizesse reverter o dinheiro que pagamos dos nossos
impostos no que acreditamos ser para a nossa sobrevivência.
Desculpem-me da emoção. Deputado Laudelino Augusto, sinto-me muito
feliz. Assisto muito à TV Assembléia, mas nunca me imaginei aqui,
nesta parafernália, falando para os Deputados. Aliás, não estranho
falar para os meus amigos ambientalistas, mas sim para os
Deputados numa Assembléia Legislativa. Portanto, hoje, senti-me
verdadeiro cidadão, por poder falar o que sinto em nossa Casa do
povo, que é muito bonita e que, aliás, precisa continuar assim. O
povo merece tudo que aqui está. Muito obrigado.
- No decorrer de seu pronunciamento, procede-se à exibição de
“slides”.