CARLOS EDUARDO MAZZETTO SILVA, Professor do Curso de Geografia e Análise Ambiental do Centro Universitário de Belo Horizonte - UNI-BH.
Discurso
Comenta o tema: "O Eucalipto e as Questões Sociais."
Reunião
15ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 09/06/2004
Página 28, Coluna 4
Evento Ciclo de Debates: Eucalipto.
Assunto MEIO AMBIENTE.
Observação Participantes dos debates: José Luís Ciotola Guimarães, Miryam T. Silva Belo, Sheila Ricoy, Sebastião Vicente Filho, Carlos Mercês de Oliveira, Antônio Geraldo Valverde.
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 09/06/2004
Página 28, Coluna 4
Evento Ciclo de Debates: Eucalipto.
Assunto MEIO AMBIENTE.
Observação Participantes dos debates: José Luís Ciotola Guimarães, Miryam T. Silva Belo, Sheila Ricoy, Sebastião Vicente Filho, Carlos Mercês de Oliveira, Antônio Geraldo Valverde.
15ª REUNIÃO ESPECIAL DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 24/5/2004
Palavras do Sr. Carlos Eduardo Mazzetto Silva
Boa-tarde. É um prazer estar nesta Casa participando de debate
democrático sobre a monocultura do eucalipto, abordando o seu
plantio, as indústrias siderúrgica e de celulose, enfim, todo esse
complexo integrado que faz parte das economias mineira e
brasileira. Seus aspectos econômicos, ambientais e sociais devem
ser discutidos de maneira integrada. Parabenizo a Assembléia pela
realização deste evento. Infelizmente, não tivemos um espaço como
este para discutir o tema na década de 70, época em que as
monoculturas invadiram especialmente o cerrado mineiro.
- Procede-se à apresentação de transparências.
No capítulo intitulado “Problemática Socioambiental da Cultura do
Eucalipto”, procurei não separar o social do ambiental, porque
essas coisas não se separam, já que a questão ambiental é social.
Dependemos dos recursos naturais para termos qualidade de vida e
sustentabilidade e para mantermos funcionando a sociedade e a
economia, que depende desses recursos. Portanto, não é possível
afastar esses dois aspectos. É uma relação sociedade-natureza no
âmbito da construção de modelo de desenvolvimento. Também não
chamarei eucalipto de floresta, porque isso é um grande equívoco
do ponto de vista ecológico. A ecologia não pode ser tratada como
cosmética. A questão ambiental veio para ser tratada com
seriedade. Floresta não é uma fisionomia nem um amontoado de
árvores iguais, mas um ecossistema complexo, heterogêneo e
biodiverso, onde vivem microorganismos, insetos, plantas e
pessoas. Todas as florestas do mundo se desenvolveram com
populações vivendo nelas e para elas, nos cerrados, nas caatingas
ou em quaisquer outras tipologias de vegetação.
Sou agrônomo e geógrafo. Formei-me em Agronomia em Viçosa no ano
de 1984. Fiz mestrado em Geografia, faço doutorado nessa mesma
área e dou aulas no curso de Geografia e Análise Ambiental do UNI-
BH. Desde minha passagem pela agronomia, venho optando pela linha
da agroecologia do espaço rural. Trabalhei no Norte de Minas por
oito anos, na implantação do Centro de Agricultura Alternativa.
Desenvolvemos projetos vinculados aos camponeses da região, à
promoção da agricultura familiar e da agroecologia, e presenciamos
o desastre socioambiental provocado pela expansão da derrubada do
cerrado para fazer carvão e alimentar siderúrgicas mineiras, e a
sua posterior substituição pela cultura do eucalipto. Algumas
ocorreram na década de 70 e outras na de 80. No final da década de
80 e no início da de 90, tivemos o auge da produção de carvão, em
que vários caminhões carregados desse produto circulavam entre
Sete Lagoas e a região Norte do Estado.
Na minha dissertação de mestrado, em que enfoquei desenvolvimento
e sustentabilidade no cerrado, dediquei pequeno espaço ao
eucalipto. Recentemente, durante minha passagem pela Diretoria de
Desenvolvimento Rural Sustentável do ITER, procurei implementar
processo de recuperação das terras públicas que foram arrendadas
na década de 70 para implementação de projetos sustentáveis junto
com as comunidades rurais.
Talvez estejamos, pela primeira vez, discutindo a questão
democraticamente em um fórum oficial como este.
Existe hoje uma resistência social por parte de populações que se
identificam como atingidas pela monocultura do eucalipto. Isso
existe porque as pessoas querem se intitular assim, porque
resolveram se fazer de vítimas? Não, mas porque existem situações
concretas que levaram essas pessoas a tomar esse tipo de posição.
Ninguém está inventando nada. Uma das questões que geraram essa
resistência à monocultura do eucalipto foi o desenvolvimentismo
autoritário da década de 70 que, com base numa produtividade cega
e autoritária, passou o trator por cima de populações e
ecossistemas, que é o que vamos ver a seguir. Vou mostrar algumas
fotos de regiões onde esse impacto foi operado.
Hoje, temos que aproveitar a democracia para discutir o
desenvolvimento que queremos. Não há só um caminho, mas uma série
de opções que a sociedade tem que fazer. É para isso que fazemos
esses debates. Não temos que ser plantadores de monocultura de
eucalipto a vida inteira. Isso não está escrito em nenhum livro.
Temos diversas opções sociais, econômicas e ecológicas para
trilhar o caminho, não sei se desse desenvolvimento que os
americanos querem nos vender, ou de outro desenvolvimento que
incorpore as pessoas e os ecossistemas. Aí, o papel do cientista
passa por uma questão ética, social, ecológica e humana, que é o
desafio de reorientar a sociedade para o caminho da
sustentabilidade. Daí também a impossibilidade de se separar a
questão social da ambiental.
Essa questão ética passa, infelizmente, por dados muito
objetivos. No mundo, temos 1.200.000.000,00 de pessoas vivendo com
menos de US$1,00 por dia, 50 milhões de pessoas nesse estágio de
pobreza no Brasil, 30 milhões passando fome e, ao mesmo tempo,
abundância de desperdício de alimentos. A produção de grãos do
Brasil, calculada para mais de 120.000.000t, daria para fornecer
2kg de grãos para cada família brasileira.
E por que há tanta gente passando fome? Isso é muito estranho. O
problema não está na técnica ou na produção, mas na política, na
questão da distribuição, no modelo. O modo de produção pode ser
concentrador ou distributivo. Não temos primeiro o modo de
produção para depois concentrar ou distribuir; cada modo de
produção já carrega em si o fato de ser concentrador ou
distributivo. Esse é um dos problemas da monocultura, o fato de
carregar em si uma lógica concentradora. Podemos desenvolver com
base no latifúndio ou com base na agricultura familiar. Um é
concentrador, e o outro é distributivo. Podemos desenvolver com
base em grandes corporações transacionais ou com base em pequenas
e médias empresas brasileiras. Um é concentrador, o outro é
distributivo. O distributivo ou concentrador já está no modo de
produção que a sociedade escolhe. A globalização atual radicaliza
a concentração da renda no planeta. Todos os dados de concentração
da terra e da renda estão piorando no período de globalização.
Nesse sentido, o crescimento do agronegócio exportador contribui
para o crescimento das favelas, a violência e o caos urbano. O
agronegócio, ao contrário dessa ideologia que a mídia está
querendo nos mostrar - no sentido de que está salvando a pátria,
desde 1500, no Brasil -, é o responsável pela exclusão, pela
violência e, mais recentemente, pela expulsão de 40 milhões de
pessoas do campo, pelo crescimento das favelas, pela violência nas
cidades, por esse caos urbano que vivemos hoje. Na verdade, o
agronegócio é um dos grandes causadores dessa situação social que
vivemos hoje. O problema não é produzir, mas construir um estilo
de desenvolvimento em que os modelos produtivos sejam
simultaneamente geradores de trabalho e riqueza, democráticos e
distributivos, sustentáveis e adaptados às diferentes condições
ecológicas. Hoje ocorre o contrário: as medidas ambientais e
sociais mitigadoras, compensatórias do caráter impactante dos
grandes projetos de desenvolvimento. Hoje, o próprio licenciamento
ambiental é uma ferramenta. Não vou dizer que não é útil, mas
trabalha com as questões dadas. Os projetos vão acontecer, vide
Irapé: com todos os problemas de impacto ambiental, sem cumprir
condicionantes, foi aprovado no COPAM.
É preciso haver compensação e mitigação, e não mudar o modelo e
procurar outro caminho. Segundo a Profa. Andrea, a adequação
ambiental é o paradigma da UFMG. Se o ambiente tornar-se insumo-
suporte, a população local não será o sujeito, mas a favorecida,
como os favorecidos pela barragem ou pela monocultura. Portanto os
projetos vêm de cima para baixo, e se adaptam soluções ambientais
para minorar o impacto.
Outro paradigma seria a sustentabilidade, e não o desenvolvimento
sustentável. Os projetos deveriam ser adequados às realidades
socioambientais, resultantes da participação e do protagonismo das
populações locais, da valorização dos ecossistemas e dos respeitos
aos seus limites. Nesse caso, a população torna-se o sujeito, e o
ambiente, o portador de processos ecológicos, cuja manutenção deve
ser a base das atividades econômicas, pois só assim poderão gerar
qualidade de vida duradoura. Primeiramente, baseando-se na
realidade da população e da natureza, os projetos deverão oferecer
qualidade de vida duradoura àquela região, diferentemente do
processo atual, no qual os setores econômicos, providos de
propostas prontas, implementam seus projetos a partir do
licenciamento ambiental, concedido pelas empresas, e a natureza é
insumo, e não portadora de processos ecológicos próprios.
O problema não é a planta, o eucalipto, mas o modelo da
monocultura concentradora, geradora de impactos associados ao
modelo exportador de matéria-prima barata, à qual se agregará um
valor ainda menor. E cabe a nós fazer o serviço sujo do impacto,
da grande “plantation” e das indústrias poluidoras. O problema
socioambiental tem suas causas em várias questões, como a
concessão das terras públicas e o arrendamento a preços
irrisórios, oriundos da privatização das chapadas pela RURALMINAS
na década de 70, o que ocasionou a perda das terras de uso comum
das comunidades rurais; a perda da biodiversidade, objeto do
extrativismo e da solta de gado; a contaminação, a erosão dos
solos, o assoreamento dos cursos de água e, cientificamente
comprovado, o desequilíbrio hidrológico nas regiões do cerrado e
nas chapadas; a desestruturação da agricultura familiar; os
problemas trabalhistas; a falta de política de gestão territorial
e fundiária no Estado, pois, à medida que setores do Governo, como
o ITER, recuperam terras e as arrenda às reflorestadoras, estas as
compram indiscriminadamente no vale do Mucuri. Talvez daqui a 10,
20 ou 30 anos, discutiremos os impactos ambientais, a exclusão
social, a concentração de terra e todas as mazelas que as
monoculturas de eucalipto causarão nesse vale, já que, no Brasil,
não há política de regulação fundiária das terras, como na França,
que conta com a Sociedade de Ordenamento Fundiário, onde o mercado
de terras não é livre, e a terra é a principal riqueza do País.
Hoje uma pessoa pode comprar um ou dois municípios. Isso é
permitido no Brasil. A Aracruz possui 230.000ha no Brasil. A
Veracel comprou 150.000ha no Sul da Bahia. Isso é normal
acontecer.
Citarei alguns depoimentos recolhidos pela equipe do ITER, que
fez uma pesquisa de campo.
O Sr. Júlio, da comunidade de Lagoa Vermelha: “Monocultura do
eucalipto, que tomou conta da chapada, provocou grande impacto na
água, além de invadir e tomar terra dos pequenos. A firma tomou
terra das famílias que antes podiam soltar o gado na chapada. Hoje
a situação é dramática, acabou com a água e o veneno usado no
eucalipto atinge a saúde das pessoas e matou muito gado dos
pequenos”.
Sr. Nivaldo, Presidente da Associação da comunidade de Tatu, de
Rio Pardo de Minas: “Isso aqui era um carrascão enorme, dava cada
pauzão dessa artura! Ninguém plantava não, mas a terra é
produtiva. Nós só tirava madeira, não tinha roça, não tinha nada.
Só o carrascão, nele soltava gado. A água, tinha lugar que não
podia nem passar de tanta água. Hoje está tudo seco aí. Ninguém
plantava nada de tanta água”.
Sr. Antônio, morador da comunidade de Tatu, de Rio Pardo de
Minas: “O eucalipto tomou conta da chapada, e o que era fartura
aqui em baixo foi desaparecendo. Lá na chapada acabou com as
plantas nativas, com as nascentes de água e com a lenha. Aqui em
baixo, acabaram os pomares, por causa da falta de água”.
Sr. Quintino, morador de Tatu, de Rio Pardo de Minas: “Tinha
araticum, pequi, mangaba, cagaita, plantas medicinais. O rebanho,
todo mundo criava solto. Era tudo em comum. O gado dava cria lá na
chapada, e nós sabia o que era de cada um. Agora no eucalipto ele
não entra. Não tem água, a chapada secou. Até os bichos acabou
tudo, num tem nem pássaro”.
D. Adelina, moradora de Barra do Rio Preto, de Rio Pardo de
Minas: “Tô com 51 anos, moro aqui a vida toda, nunca saí daqui,
nem meu pai e minha mãe. Nós foi nascido e criado aqui. Tem esta
firma aí, mas nós nunca participô de nada. Chegô e pegô e num deu
satisfaçã de nada. Cabô cum tudo o que nós tinha aí acabô tudo.
Tanto pequizeiral que tinha, mangaba, cabô cum tudo. E agora, como
se diz o caso, o calipto é só pra lenha, madeira mesmo nada. Pegô
um terrão minha fia! Só ficô um pedacico de terra aqui. No mais
tomaram tudo! Minha filha do céu. Naquele tempo o povo num se
ligava. Como se diz o caso, ficarum quietinho, num pode fazer
nada! Deixaram só uma tirinha pra nós morá, entre o Rio Preto e a
estrada.
A água como se diz o caso, depois que esta firma entrou, baixou
muito. Meu Deus! Aqui tinha muita água. A enxurrada das áreas
desmatadas foi cubrindo nossas terra, as nascente. Tá tudo seco.
Se eu quero água tem que manter cisterna ou caixa d´água. A água
corrente que eu tinha aqui, num tem mais”.
Há dezenas de outros depoimentos. Infelizmente são tidos pela
ciência como não-científicos. O povo não sabe. Então, vamos à
ciência. Os dados são irrefutáveis no livro “Impacto Ambiental da
Monocultura do Eucalipto”, do Prof. Walter de Paula Lima,
pesquisador da USP, que é favorável à monocultura. Ele pesquisou e
comparou a dinâmica hidrológica do cerrado, da monocultura do
eucalipto e do pinus em Grão-Mogol, no Alto Jequitinhonha. A taxa
de transpiração do cerrado: 2,5mm nas águas e 1,5mm na seca; do
eucalipto 6mm. Transpira três vezes mais que o cerrado, que ainda
economiza transpiração na seca. Biomassa: cerrado, 36m3 por
hectare; eucalipto 366m3. Dez vezes mais biomassa que o cerrado.
Não bastasse, pesquisou-se a drenagem, ou seja, o que irá para o
lençol. No cerrado, irá 556mm; na monocultura de eucalipto, 326mm.
A monocultura do eucalipto rouba 41% da drenagem da água, que,
nas chapadas do cerrado... Pela manhã, o meu colega de Viçosa
disse que somente fala o que tem certeza. Ele se equivocou, porque
o importante no cerrado não é 50m em volta da nascente nem a área
de preservação permanente, mas as áreas de recarga, que são as
chapadas. Topo de morro somente se encontra na Mata Atlântica. No
cerrado, o topo são as chapadas.
Mostrarei algumas fotos, porque o tempo é curto. Há a fisionomia
de Rio Pardo de Minas, onde observamos os vales contornados de
chapadas. Os agricultores ficaram encurralados nos vales. As
chapadas são as áreas de recarga tomadas pelo eucalipto que
comprometeram a bacia que se encontra lá em baixo. Quer dizer, a
área de lavoura dos camponeses por 30 anos foi de arroz e,
atualmente, é de mandioca, que é o que agüenta a seca.
Antigamente, plantava-se arroz porque a várzea ficava encharcada.
E, ainda, há as chapadas de eucalipto; os carreadores que são
ruas de erosão e assoreamento dos cursos de água; as enormes
erosões dentro das monoculturas; o aspecto de desertificação após
o corte; outra erosão; a regeneração do cerrado; os camponeses
encurralados no vale; o povo da região; o eucalipto quase na porta
da casa do camponês, que ficou com 200m de largura de terra entre
o rio e a estrada; o retorno do pequi - dizemos que há eucalipto
somente em área desmatada, mas é importante dizer que onde ele
degenerou, o cerrado, a vida e a água estão ressurgindo, e a mina
de água voltando a brotar.
Não me estenderei para não ser maçante. Podemos discutir sobre o
aproveitamento do cerrado em modelos muito mais sustentáveis ou,
na verdade, sustentáveis em contraposição à monocultura. Há as
ameaças, que são o novo discurso do seqüestro de carbono; a
captura da questão ambiental para desculpar os países ricos de
poluírem e promoverem mais monocultura nos chamados países em
desenvolvimento - isso é um engano, porque, na verdade, somos
periferia do capitalismo -; transformar a fotossíntese em
mercadoria; o plano nacional de florestas que possui um forte
“lobby” das corporações a fim de aumentar para 11 milhões; o
terrorismo do apagão florestal; e a ideologia do agronegócio.
Finalmente, há essa foto que simboliza a resistência do cerrado e
do povo do cerrado, e mostra a vida ressurgindo onde o eucalipto
já degenerou, abrindo novas possibilidades. Muito obrigado.