Pronunciamentos

BETINHO DUARTE (PMDB), Presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte.

Discurso

Comenta o tema do evento.
Reunião 4ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/04/2004
Página 31, Coluna 2
Evento Ciclo de Debates: "Resistir Sempre - 64 Nunca Mais".
Assunto ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. DIREITOS HUMANOS.
Observação Paticipantes dos debates: Carla Dias Lopes da Cruz, Thalita Oliveira, Uallysson Gama da Silva, Sara.

4ª REUNIÃO ESPECIAL DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª LEGISLATURA, EM 31/3/2004 Palavras do Vereador Betinho Duarte Bom-dia a todos, não vou mencionar as autoridades presentes porque o cerimonial já o fez e o tempo é curto. Em primeiro lugar, quero elogiar a Assembléia Legislativa pela participação efetiva nesse evento, Ditadura Nunca Mais. É um dos poucos parlamentos que, efetivamente, tomou essa decisão e está empenhado em resgatar uma história. Sou sobrevivente da luta contra a ditadura militar e estou vendo aqui vários sobreviventes que, na verdade, foram poucos. Estou vendo a Suzana, o José Maria Rabelo, a Jô Moraes, o Durval, o Reitor Aluísio Pimenta, o companheiro Hélio Bicudo, a Bizoca dos bons tempos pela luta pela anistia, a Cristina, o Jorge Nahas, a Gilse, o José Alberto e estou vendo uma juventude que não tinha nascido ainda. Uma boa parcela dos que estão aqui não tinha nem 20 anos. É importante que vocês conheçam a história, porque há uma frase que diz que quem esquece o passado está condenado a repeti- lo. E ditadura nunca mais. Escrevi um discurso, mas não vou lê-lo, porque a emoção fala mais alto e quero falar do fundo do meu coração. Vou sintetizar isso, Suzana, em quatro sentimentos: tristeza, indignação, exemplo e esperança. Por que tristeza, José Maria Rabelo? Porque tivemos companheiros torturados, perseguidos, presos, assassinados, e muitos ainda estão desaparecidos. Na Câmara, hoje à noite, vamos homenagear 135 pessoas. Esse número não quer dizer que 135 morreram durante a ditadura militar, alguns faleceram posteriormente. Temos de resgatar esses nomes, essa história, homenageá-los. Hoje é um dia de tristeza, de indignação, porque, na verdade, poucos movimentos e instituições tentam resgatar essa história. Jô Moraes, José Maria, Mauri Torres, Durval Ângelo, Hélio Bicudo, estão querendo passar uma borracha nessa história, mas ela tem de ser relembrada, vivida, vivenciada. Ela não pode ser esquecida, em respeito àqueles que foram assassinados, em respeito às gerações que vão construir a democracia verdadeira deste País. Estamos passando o bastão. Depende de todos construir essa democracia. Manifesto minha indignação. Não podemos nos esquecer, pois sangue foi derramado. Por isso mesmo, não podemos nos esquecer dos mártires, das pessoas que sacrificaram suas vidas. Quero falar de exemplos: além desses 136 mineiros, vou citar um exemplo histórico. No Brasil, autoridades que deveriam dar exemplo tiraram o time, dizendo que poderia haver uma guerra civil. Você sabe que isso aconteceu, José Maria, pois fomos imolados, aniquilados. Enquanto estávamos com bodoques, com bolinhas de gude para derrubar a cavalaria da Polícia Militar e do Exército, eles vieram com tanques. Houve, sim, guerra civil, mas alguns saíram do País para evitá-la. José Maria, você esteve no Chile. Estou lendo um livro muito interessante sobre como os Estados Unidos derrubaram Allende e como influíram no golpe militar do Brasil, montando esquemas de tortura. O Élio Gáspari, nesse domingo, soltou informações preciosas sobre isso. Havia uma escola de tortura. Um francês, torturador na Argélia, veio para o Brasil dar aula de tortura. Do Chile, vieram várias pessoas para aprendê-la. Vários presentes foram cobaias da tortura. Você se lembra disso, Jorge Nahas? Você deve ter vivido isso, pois foi um dos torturados. Allende serve como exemplo. Ele era Presidente constituído do Chile e resistiu. O Palácio La Moneda foi bombardeado, mas ele resistiu. Essa foi a única vez que ele perdeu a paciência. Aliás, José Maria, esse livro conta que colocaram um avião à disposição dele e de toda a sua família, mas ele o rejeitou dizendo bravamente: “Resistirei e sacrificarei a minha vida em prol da liberdade.” Ao deixarem o Palácio, o último da fila olhou para trás e viu Allende suicidando- se com uma metralhadora. Ele deu a vida em nome de seu povo, enquanto outros, no Brasil, disseram não à guerra civil, mas tomaram um avião e partiram. Por isso o cito como um exemplo, além dos que morreram. Do sangue dessas pessoas assassinadas germinaram sementes, por isso estamos hoje aqui. Há pouco tempo, a nossa geração não tinha nenhuma esperança de ver uma sociedade justa, democrática e pacífica. Mas, hoje, vejo isso com bons olhos, não apenas para os nossos filhos e netos. Continuarei lutando, mas cabe a vocês, jovens, construir uma sociedade em que todos tenham emprego, salário justo e educação e saúde gratuitas. É isso o que queremos e sonhamos. Mas o principal é que todos tenham direito a um prato de comida. Não é aceitável que, num País tão rico como o nosso, mais de 40 milhões de pessoas estejam passando fome. Imaginem um pai de família sair de casa e deixar seus filhos passando fome! Existe tortura pior que essa? Finalizando, aqueles que acham que estamos numa democracia consolidada pensem e reflitam sobre isso. Daí a importância desse seminário, desse resgate, porque, na verdade, a democracia ainda não está consolidada, e os abutres, os assassinos, os picaretas e os safados, que torturaram e mataram, estão de plantão, já que o aparato repressivo não foi desmantelado. Os latifundiários e as multinacionais estão à espera de uma oportunidade. Assim, para quem acha que não há possibilidade da volta desse passado, pergunto a vocês, José Maria, Jorge, Cristina, Dario e Biel: e se o Brasil romper com o FMI e parar de pagar a dívida externa, o que acontecerá? Entre 1930 e 1990, pagamos o valor correspondente a 33.000t de ouro para amortizar a dívida externa. Em 20 anos de governo militar, o Brasil remeteu divisas equivalentes a 60% do total de ouro calculado num período de seis décadas. Juntos, vamos dar as mãos e construir a sociedade com que minha geração sonhava. Isso é possível, tenho certeza de que todos, de mãos dadas, construiremos essa democracia, custe o que custar. Deputado Mauri Torres, em homenagem à Assembléia Legislativa, doarei o quadro do símbolo do movimento Ditadura Nunca Mais. O arquiteto Oscar Niemeyer o projetou e doou a Belo Horizonte para ser construído na Pampulha, mas ainda não conseguimos fazê-lo. Tenho esperança de conseguirmos com esse movimento. O símbolo se chama Arco da Maldade e mostra uma lança atravessando o corpo de uma pessoa. Posteriormente, gostaria que o cerimonial lesse as palavras de Niemeyer ao movimento Tortura Nunca Mais, pois, com coragem, verdade e sentimento, traduziu aquela época. Pelo exemplo, pela dedicação e pela competência, deixo este presente para os Deputados Estaduais.