ANA AMÉLIA CAMARANO, Coordenadora da Área de População e Família do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada-IPEA.
Discurso
Comenta o tema: "O idoso no Brasil de hoje e a previdência e assistência
social e saúde".
Reunião
207ª reunião ESPECIAL
Legislatura 14ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 05/10/2002
Página 26, Coluna 1
Evento Ciclo de debates: "As demandas de um Brasil que envelhece".
Assunto PREVIDÊNCIA SOCIAL. SAÚDE PÚBLICA. IDOSO.
Legislatura 14ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 05/10/2002
Página 26, Coluna 1
Evento Ciclo de debates: "As demandas de um Brasil que envelhece".
Assunto PREVIDÊNCIA SOCIAL. SAÚDE PÚBLICA. IDOSO.
207ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 27/8/2002
Palavras da Sra. Ana Amélia Camarano
Bom dia. Em primeiro lugar, quero agradecer o convite para
participar deste ciclo de debates, a fim de discutir os resultados
dos nossos trabalhos de pesquisa com pessoas que estão lidando com
o idoso.
O envelhecimento populacional, hoje, é uma tendência universal.
Ele acontece tanto nos países desenvolvidos quanto nos países em
desenvolvimento. Não há dúvida quanto a isso.
A primeira pergunta que trago é: O que é isso? Como percebemos
essa questão? Sou demógrafa e, como tal, nosso primeiro indicador
é a pirâmide etária. Vemos aqui a distribuição da população por
idade, em 1940 e em 2000. A linha cheia é a população em 1940.
Essa linha pontilhada, que está encurtando, é a população em 2000.
O que aconteceu do final dos anos 60 para cá? A fecundidade caiu,
e estão nascendo cada vez menos crianças. Éramos um país de
jovens, porque nossa natalidade era muito alta. A nossa pirâmide
tinha uma base muito larga. De 1960 para cá, a fecundidade caiu,
cada vez nascem menos crianças, ou seja, entram menos crianças na
nossa pirâmide. Nossa pirâmide tem de somar 100. À medida que
entram menos crianças na nossa população, essa base diminui. Se
ela diminui aqui, terá de aumentar em algum lugar. Ela vai
aumentando porque a população jovem vai ficando adulta. Na
verdade, hoje somos uma população de meia-idade. Não somos uma
população idosa ainda. As altas taxas de natalidade ocorreram nas
décadas de 50 e 60. A nossa população tem de 40 a 60 anos. Em
breve, seremos uma população idosa. Isso nada mais é do que uma
mudança nas bases, nos pesos da população. E relativo. Talvez mais
ou tão importante quanto isso tenha sido a queda da mortalidade,
que vem ocorrendo desde a Segunda Guerra, principalmente a
mortalidade infantil. Essa queda atingiu vários grupos etários e
hoje a grande queda se dá na população maior de 60 anos. Temos
hoje um peso maior de população com mais de 60 anos. Estou falando
em 60 anos, porque essa é a definição usada pela Política Nacional
do Idoso. Então, temos essa população vivendo mais tempo, graças
ao desenvolvimento da tecnologia médica e ao maior acesso a ela.
Basta falar que ponte de safena, há 15 anos, só era feita em São
Paulo, no Hospital do Zerbini. Essa cirurgia não era feita em
pessoas acima de 60 anos. Hoje qualquer cidade de porte médio da
rede SUS faz ponte de safena em pessoas com até 80, 84 anos. As
pessoas não só estão vivendo mais, como estão vivendo em melhores
condições de saúde. Para mim, a maior conquista social do século
XX foi a queda da mortalidade. É claro que isso coloca uma série
de desafios para o Estado, para a família, para a sociedade,
porque há uma mudança. Se pensarmos que, no começo do século XX, a
esperança de vida era em torno de 30 anos, dificilmente um pai
conheceria seu neto. Hoje, no final do século XX, com uma
expectativa de vida de 65 anos, facilmente quatro gerações da
mesma família estarão convivendo. Mas isso nos coloca uma série de
desafios que têm trazido problemas. Vou ler rapidamente o que é
isso, como se está enxergando a questão do envelhecimento. É uma
conquista social, uma carga? O que é isso? O Banco Mundial tem uma
grande preocupação com essa questão. (- Lê:)
“O mundo está se aproximando de uma crise de envelhecimento. Como
a esperança de vida aumenta e as taxas de natalidade diminuem, a
proporção da população idosa está se expandindo rapidamente,
aumentando o peso econômico sobre a população jovem.”
Essa é uma visão de carga, de peso. Vamos à visão da CIA, nos
Estados Unidos. (- Lê:)
“As tendências demográficas globais terão conseqüências muito
importantes para os elementos-chaves dos poderes nacional,
econômico, militar e político, dentro de uma comunidade global
ampla.”
Visão de uma agência da CIA do Pentágono. (- Lê:)
“Nas próximas três décadas, o Japão, a Europa Ocidental e os
Estados Unidos experimentarão transições demográficas sem
precedentes, caracterizadas por uma combinação perigosa de
população idosa crescente e um crescimento negativo da força de
trabalho.”
Há um segmento de demógrafos que consideram isso um problema. Tal
visão é oriunda do começo do sistema capitalista, em que a
população era dividida em produtiva, a que trabalha, e a
dependente. A população idosa é vista como dependente. Mais
recentemente, uma série de organizações têm tido outra visão: “A
maioria das pessoas idosas é uma fonte viva de recursos,
contribuindo para o bem-estar das suas famílias e comunidades”.
Essa visão é de uma ONG inglesa, a “Help Age”. Temos de pensar que
não é uma coisa nem outra. Estamos falando de um segmento que é
bastante heterogêneo. O que podemos considerar como população
idosa? Primeiro, o que é o envelhecimento? O envelhecimento pode
ser um processo biológico, de perda de capacidade, de autonomia, e
pode ser um processo de perda de papéis sociais. O indivíduo
aposenta-se, perde sua inserção na sociedade. Mas o mais
importante é que estamos falando de um segmento que está na sua
última fase da vida, cuja experiência é complexa e bastante
heterogênea. A fragilidade e a conseqüente dependência são foco de
preocupação, preocupação essa que está na agenda da Assembléia,
porque está estreitamente associada à independência tanto assim é,
que a população idosa é um grupo considerado vulnerável e alvo de
políticas sociais específicas. Haja vista a política nacional do
idoso. A perda da independência pode vir da ausência de
capacidades básicas: problemas físicos ou mentais congênitos, que
nada têm a ver com a idade, ou problemas adquiridos ao longo da
vida. Nesse caso, a idade costuma contribuir.
Restrições externas também podem ocasionar a dependência ou a
perda de papéis sociais e biológicos para o velho. Uma delas é a
aposentadoria compulsória. No Brasil, há a aposentadoria
compulsória aos 70 anos. Com a melhoria das condições de saúde,
consideramos que seja um pouco cedo. No entanto, existe, porque há
predisposição por parte dos empregadores de não contratarem
pessoas acima de certa idade. Consideram sua produtividade menor.
Isso é ranço do capitalismo, que enxerga a população apenas como
força de trabalho. Até na Alemanha é assim. Na Conferência
Internacional do Envelhecimento, em abril, foi dito que os
empresários alemães fazem restrição em adiar a idade da
aposentadoria compulsória, que, nesse país, é aos 73 anos.
Como são os idosos brasileiros? Entre os homens, 42% trabalham;
entre as mulheres, 12%. A aposentadoria em nosso País não funciona
como mecanismo que retira o aposentado do mercado de trabalho.
Nossa legislação permite que ele volte a trabalhar e continue
recebendo a aposentadoria do mesmo jeito. Não há punição.
Há proporção relativamente elevada de idosos trabalhando. O fato
de o número de aposentados ter crescido na década de 90 não afetou
sua participação no mercado de trabalho.
Do ponto de vista de saúde, em 1998, aproximadamente 82% dos
nossos idosos reportaram ter boa saúde. Hoje, já não falamos em
saúde como ausência de doença. Saúde significa autonomia,
capacidade de desenvolver, sem a ajuda de terceiros, as atividades
do cotidiano.
Dificuldade de se alimentar sozinho ocorre para 15% dos nossos
idosos; de caminhar mais de 100m, para 25%; e mais de 1km, para
50%. Esses dados, embora aproximados, demonstram a heterogeneidade
do segmento.
Outra variável diz respeito à família. Apenas 9% dos idosos
brasileiros vivem em casa de parentes. Mais ou menos 91% são
chefes de família ou cônjuges, ou seja, não são dependentes da
família.
Renda é também um fator que caracteriza a dependência dos idosos.
Graças à universalização da seguridade social, reduziu-se, de 1991
a 1999, o número de famílias com idosos sem nenhum rendimento no
Brasil. Esse índice caiu de 25% para 13%. Os idosos estão mais bem-
posicionados em relação ao restante da população brasileira: são
menos pobres que a maioria das famílias também pobres.
Nesse caso, há uma questão de gênero. As mulheres não idosas são
mais pobres que os homens não idosos, enquanto, no segmento idoso,
ocorre exatamente o contrário. Isso tem a ver com o fato de haver
mais mulheres idosas que homens idosos e muitas viúvas, que
recebem o benefício integral do marido, podendo trabalhar e
acumular salário.
A redução da pobreza no segmento dos idosos ocorreu na década de
90 e atingiu as mulheres, sobretudo as da área rural.
No caso brasileiro, temos de ter sempre em mente que estamos
falando de um segmento bastante heterogêneo e, relativamente, em
melhores condições de vida que o resto da população. Isso, porque
o restante está ponderado por um peso grande.
Imagino que vários de vocês estejam vivendo, assim como eu, a
dificuldade de inserir os filhos jovens no mercado de trabalho.
Atualmente, a grande dificuldade é o primeiro emprego. Os jovens
de 15 a 29 anos estão enfrentando a crise de inserção no mercado
de trabalho, a fragilidade das relações afetivas e conjugais, a
gravidez precoce, as drogas, a violência e a AIDS. O peso de tudo
isso está recaindo sobre a população idosa.
Os jovens estão retardando a saída de casa. A infância está sendo
encurtada, a adolescência prolongada, e a vida adulta começa e
acaba mais tarde, se os idosos ainda trabalham. Devido à crise da
população jovem, está-se vivendo, cada vez mais tarde, a velhice
como a “idade do preenchimento”, que é quando o idoso já não
precisa trabalhar, os filhos já saíram de casa e ele pode
desfrutar a vida.
As políticas sociais são capazes de minimizar a relação entre o
envelhecimento e a dependência: as ações preventivas e curativas
de saúde atenuam a incapacidade física, e a Previdência garante
renda à população idosa.
É preciso reconhecer que a política de previdência brasileira
avançou na década de 90, beneficiando principalmente a população
rural e, dentro dela, as mulheres. Anteriormente, o benefício era
estendido apenas aos chefes de domicílio. Reconhecemos a
importância disso, mas também não podemos negar que o sistema de
seguridade social está em déficit desde 1994 e que a resposta do
Estado brasileiro tem sido a redução no valor do benefício.
Todos devem conhecer o fator previdência, nova fórmula que
implica a redução do benefício de 34% para os contribuintes
masculinos e de 44% para os femininos. Pior que isso, no entanto,
a meu ver, é que a nova legislação vai limitar para os
trabalhadores do setor informal o acesso ao sistema, uma vez que é
difícil contribuir por longo tempo. A contribuição mínima exigida
é de 30 anos. Se os jovens estão com dificuldade de conseguir
emprego, e, quando o conseguem, trata-se de trabalho informal,
dificilmente podemos esperar que, um dia, se aposentem.
Evidência dessa realidade é a forma como as famílias com idosos
estão se organizando para utilizar o benefício da Previdência.
Embora apenas 9% da população brasileira seja idosa, há pelo menos
um idoso em 25% das famílias brasileiras. O benefício é
redistribuído na família, e sua contribuição no orçamento familiar
está em torno de 58% nas áreas rurais e 58% nas urbanas.
O que se está observando também, dada essa reorganização, é a
permanência dos filhos adultos na casa dos pais, ou sua volta,
muitas vezes, com netos.
As crianças com idade entre 7 e 14 anos que moram com os avós têm
maior chance de ir para a escola do que as que não moram com eles.
Isso porque trabalham menos. A taxa de participação infantil é
mais alta entre as crianças que não moram com os avós do que entre
as que moram.
Nesta transparência vemos a importância do benefício da
previdência, reduzindo a pobreza. Nas famílias em que não há
idosos, a proporção de pobres, nas áreas rural e urbana,
respectivamente, é de 49% e 33,8%; naquelas em que há idosos, essa
proporção fica em 29,7% e 18,8%. Isso quer dizer que o idoso não é
uma carga; ao contrário, é um alívio em termos financeiros.
Mas é impossível não reconhecermos os avanços alcançados pela
legislação da seguridade social brasileira. Ser um beneficiário
significa, pelo menos, ser menos pobre. Outra conseqüência,
verificada principalmente na área rural, é que o idoso passa da
condição de assistido para a de provedor, o que muda o seu papel
na família. Contudo, embora o benefício seja capaz de reduzir a
pobreza, não tem sido capaz de reduzir as desigualdades, porque o
seu valor reflete as diferenças previamente existentes no mercado
de trabalho. Assim, há diferenças entre os benefícios do
aposentado rural, do aposentado do INSS, dos militares e dos
funcionários públicos do Executivo, do Legislativo e do
Judiciário. Ou seja, a estrutura de desigualdade é mantida, com
alguns benefícios correspondendo a 41 vezes o benefício da
população rural.
Outro dado importante que eu gostaria de ressaltar é que houve
uma mudança na composição das famílias de idosos, que não são mais
uns ninhos vazios, como poderíamos esperar. Isso não é
conseqüência apenas do aumento da cobertura da seguridade social;
reflete também as dificuldades que atualmente os jovens enfrentam
no mercado de trabalho.
Para terminar, gostaria de falar um pouco do que se espera do
futuro dos idosos. Essas melhoras nas condições de vida que
experimentam hoje são confrontadas com as contínuas crises
econômicas do Brasil, que, aliás, têm afetado mais a população
jovem, com o desemprego, a violência, as drogas, a gravidez na
adolescência, as separações conjugais, etc. Bem, essa situação dos
jovens e a crise no sistema de seguridade social, cujas novas
regras vão exigir uma contribuição de no mínimo 30 anos, vão
comprometer seriamente a aposentadoria da maioria dos jovens
brasileiros, se não houver novas mudanças. Ou seja, o futuro dos
novos idosos está comprometido. Obrigada.